A EPOPIA IGNORADA
Autor: Otto Marques da Silva
Editada pelo CEDAS -1987

Copyright de Otto Marques da Silva

Direitos reservados do

CEDAS--Centro So Camilo de Desenvolvimento em Administrao da Sade
Rua Baro do Bananal, 1111 --05024--So Paulo--SP

Capa de Jlio Braga

Estela egpcia da XIX Dinastia: o porteiro de nome Roma faz oferendas  
Deusa
Astarte Sria (acervo da Glyptotek Ny Carlsberg--Copenhague, Dinamarca)

Dados Catalogrficos

SILVA, Otto Marques da
A EPOPIA IGNORADA--A Pessoa Deficiente na Histria do Mundo de
Ontem e de Hoje
So Paulo--CEDAS, 1987.
470 pginas - 2 partes - 5 anexos - 17 ilustraes
Relaes bibliogrficas

Contedo:

I Parte-- Deficincias e pessoas deficientes nos seguintes Periodos ou
pocas: Pr-Histria, Histria Antiga (Egipcios, Hebreus, Gregos e 
Romanos), Advento do Cristianismo, Imprio Bizantino,
Idade Mdia, Histria Moderna e Histria Contemporanea
(At 1981, Ano Internacional das Pessoas Deficientes).

II Parte-- Causas da marginalizao das pessoas portadorasdedeficincias,
o significado da integrao social, a questo ???c~4quoa~ da
adequao pessoal como objetivo ltimo da reabilitao, o preparo para a 
vida de trabalho, as equipes de reabilitao, a avaliao e o controle 
das atividades dos centros e programas de reabilitao.
Para Nely
Ana Maria
Otto, Filho
Jos Gustavo
pela fora que sempre me transmitem

Para Jary Maria
pela enorme lio de vida
( "in memoriam")


INDICE

A Orao da Pessoa Deficiente ....
Apresentao .........

PRIMEIRA PARTE
A POSIO DAS PESSOAS DEFICIENTES NAS SOCIEDADES DE ONTEM E DE HOJE

Captulo Primeiro

A Pessoa Deficiente no Mundo Primitivo ...........................
O homem neoltico no Brasil de hoje - As primeiras civilizaes do mundo 
.

1. O Alvorecer da Humanidade .............................
Os males incapacitantes de sempre - O ambiente fsico - Os desafios
para a vida do homem primitivo O cuidado para com doentes e a incipiente 
medicina--As fraturas na Pr-Histria O que nos ensinam os
ossos pr-histricos--Freqncia do reumatismo--A origem dos males
que afetavam os homens - O tratamento primitivo e as deficiencias O
destino das pessoas deficientes na Pr-Histria.

2 Culturas Mesolticas e Neolticas mais Recentes.................
O porqu das atitudes face a grupos minoritrios Atitudes de aceitao, 
apoio e assimilao - Causas das atitudes de abandono, segregao
ou destruio - O extermnio de pessoas deficientes - A pessoa deficiente 
como objeto de ridculo - O povo inca e as trepanaes cranianas
As deficincias fsicas h mais de 20 sculos na Califrnia

Capitulo Segundo

A Pessoa Deficiente dentro das Culturas Antigas ......................
1. Os Egpcios e seus Vizinhos..............................
A ateno mdica no Egito Antigo - A medicina egipcia e os males 
incapacitantes - Os famosos papiros e os problemas de deficincias--As
deficincias fisicas no Antigo Egito - Os males que levavam a 
deficincias fisicas--Casos concretos de leses incapacitantes - A 
incidncia de
fraturas e outros problemas - Os anes na vida e na arte egipcias Uma 
estela votiva dedicada  deusa Astarte da Sria por um porteiro As 
especialidades mdicas e o problema das deficincias no Egito -Conceitos 
da medicina egpcia na Odissia de Homero--Anisis, fara
cego da IV Dinastia: sculo XXV a.C. - A deficincia visual na mitologia 
egipcia - Um coral de homens cegos para Amenhotep IV--As penas 
mutiladoras no Egito Antigo - Mdico egipcio especializado em
males da viso na corte de reis persas - Gaumata, um famoso mago de
orelhas amputadas--Zpiro: tudo pela vitria de Dario I em Babilnia
- A Escola de Anatomia da cidade de Alexandria: sculo IV a.C.--Os
???Pnin~inC sob os olhos criticos de um imDerador romano.

No: a primeira pessoa com deficincia7--As deficincias fsicas entre
os hebreus--A cegueira de Isaac por 80 anos Moiss e suas srias 
dificuldades em falar com clareza--As leis criadas no deserto do Sinai--O
Cdigo de Hamurabi: severidade vizinha dos hebreus--Sedecias, rei de
de Jud: cego por Nabucodonosor--O preo da paz: um olho de cada
habitante--Mais normas e o papel do mdico--As causas das deficincias 
entre os hebreus--A medicina dos hebreus--Tobias fica cego e recupera a 
viso: caso de leucoma?--Os cegos na cultura hebria antiga
-- Zacarias castigado por no ter acreditado em Gabriel--As pessoas
deficientes nos Evangelhos--Os milagres de Jesus e as pessoas 
deficientes--A cegueira de So Paulo, Apstolo.

Os Gregos .........................................
As deficincias na mitologia grega--Lenda e realidade: Hefesto na vida
dos gregos -- Outros seres mitolgicos e as deficincias fsicas e 
sensoriais -- As deficiencias fsicas na realidade da vida militar grega-
-As
principais causas de deficincias na Grcia Antiga - Tirteu, poeta Ifrico
com deficincia fsica As leis que favoreciam as pessoas deficientes-A 
medicina grega e as deficincias fsicas--A medicina de Hipcrates e as
deficiencias--Hipcrates e suas idias quanto  epilepsia--Adaptaes
para prevenir deformaes em crianas--Cludio Galeno e sua importancia -
- Demcrito e Homero: homens cegos e muito famosos - Demstenes e seus 
pOUCO conhecidos problemas--Pessoas deficientes trabalhando citadas em 
obras gregas--Creso, o mais feliz dos homens--A
importncia dos orculos e adivinhos na vida grega--A histria de um
adivinho famoso que era cego--As prteses de Hegesstrato, adivinho
grego--Peste Ateniense: o terror generalizado - A ateno a soldados
feridos ou doentes: Anbase, de Xenofonte--Homens com srias luxaes nas 
pernas: sapateiros, ferreiros, seleiros--Alexandre, o Grande:
sua ateno a soldados com deficincia--Asclepia de Epidauros: seu
significado para pessoas deficientes--As famosas instalaes de Epidauros 
--O sistema de funcionamento de Epidauros--Pluto, deus da riqueza, 
curado por Asclpios -- Os testemunhos das muitas curas -"Apothetai" do 
monte Taygetos, em Esparta--Como era o ambiente
de Esparta--Outras formas de eliminar crianas defeituosas na Grcia
Antiga--A histria de Labda, me de um rei de Corinto--Os costumes
em ATENAS fACE A deficinciAs fSiCAs--Senado da Grcia Antiga.
4. Os Romanos........................................
O problema da forma humana no direito e nos costumes de Roma-O destino 
das crianas deficientes em Roma -- O deus da medicina:
Esculpio--Horcio Cocles, um heri com deficincias--pio Cludio,
Censor: sculo IV a.C --Amputao como penalidade nas legies romanas--
Caio Jlio Csar: atitudes face a seus males--Ferimentos graves e 
deficincias fsicas em batalhas--Cludio I, um imperador bastante 
controvertido--Galba, imperador romano com diversas deficincias
- Othon, um imperador nascido com malformaes - Vitlio, imperador 
romano por oito meses--Os milagres de Vespasiano - As deficiencias 
citadas por Plnio, em sua "Histria Natural"--As automutilaes
para dispensa do servio militar--Males incapacitantes e solues 
paliativas - O problema da surdez na opinio de Ccero--Deficiencias 
multiplas e morte - A medicina grega e sua infiltrao no Imprio Romano
- Mdicos romanos famosos e os males incapacitantes - Os servios
mdicos e os hospitais militares romanos - As "valetudinaria" descobertas 
em estudos arqueolgicos - Os auxiliares de mdicos nas legies
romanas O sistema hospitalar romano - O ensino da medicina no
Imprio Romano Categorias de mdicos em Roma--Implantaao de
servios de assistn(:ia mdica - A higiene e os banhos pblicos--As
pessoas deficientes nas artes romanas. Valores espirituais em pessoas
deficientes.
Captulo Terceiro

O Cristianismo, o Imprio Bizantino e a Idade Mdia face as Pessoas 
Deficientes ....

1. O Advento do Cristianismo ..................................
As perseguies aos cristos nos primeiros sculos - Stimo Severo, o
sbio e firme imperador-- "Praecepta Medica" e os males incapacitantes -- 
Galrio, imperador que morre com deficiencia sria--Mutilaes
em cristos: a Lngua de So Romo--Alteraes substanciais provocadas 
pelo Cristianismo -- Um bispo com deficincia: Castigo de Deus? Drclimo, 
telogo cego: Diretor da Escola de Alexandria -- Os primeiros
hospitais cristos e as pessoas deficientes--Fabola e Pammachius 
associados num hospital de caridade - A hospitalidade crist e o papel 
dos
bispos - Noticias de organizaes para pessoas deficientes--A questo
das deficincias fisicas em sacerdotes cristos - Papel dos mosteiros na
assistencia aos miserveis.

2. O Imprio Bizantino e as Deficiencias .......................
Constantinopla, o "Reino de Deus na Terra"--A pompa e a circunstancia na 
corte bizantina --As grandes e poderosas famlias do Imprio-A misria na 
capital bizantina e as pessoas deficientes - As doenas e
as deficincias fsicas e sensoriais--Os miserveis no "Reino de Deus"
--As organizaes assistenciais de Constantinopla--O imperador Justiniano 
e as pessoas enfermas e deficientes--O desenvolvimento da medicina e dos 
hospitais--A mutilao nas leis bizantinas--Perodos principais do 
Direito Penal Bizantino--A moderao nas penalidades impostas no tempo de 
Justiniano -- As "Novas Constituies" de Leo
III: "leis mais crists"--A defesa de um direito dos cegos: fazer 
testamento--Penalidade prevista para o vazamento dos olhos de outrem-
Crime de rapto e sua condenao nos tempos de Leo III--General 
Belisrio: lenda e realidade de sua carreira - Notcia sobre uma prtese 
no
sculo IV -- Abrigos para cegos e outros refgios para doentes e 
deficientes --Assistncia a soldados a partir do sculo Vi--Os primeiros
hospitais da Terra Santa e de Bagd--Castigos brbaros levam a 
deficincias no Imprio Bizantino--A Imperatriz Irene e sua luta para 
conquista do trono--Os primeiros castigos contra conspiradores dentro da
famlia--Punies severas continuam na corte bizantina--A selvageria
de uma imperatriz na defesa de seu trono--Mutilao documentada em
pintura do sculo IX -- Barbries que levaram a deficincias fsicas-
Constantino VIII: "a violncia dos fracos e dos poltres"--Miguel V:
imperador bizantino por apenas 132 dias--Constantino IX, Monmaco:
limitaes fsicas muito srias -- Romano IV, Digenes: presa de um
soldado com deficiencias--Enrico Dandolo: "doge" veneziano cego-Isaac II, 
Angelus: olhos vazados, volta a ser imperador--Outros eventos
que levaram a deficincias fsicas e sensoriais--Ato friamente planejado
instala a Dinastia dos Palelogus -- O dilema de Joo V, Palelogus
(1319 a 1389).

3. As Pessoas Deficientes na Idade Mdia.......................
A criao de hospitais e abrigos para pobres--Um santo cego na histria 
da Bretanha do sculo VI--Santo Egrdio, padroeiro dos deficientes
--Assistncia aos pobres pela Igreja--A mutilao como castigo no sculo 
VII--O milagre de fazer um mudo falar--Amputaes como penalidade por 
crimes cometidos--A evidncia de dupla amputao: sculo VII --Os 
hospitais criados pela Igreja na Europa--A profisso de
massagista no Japo do sculo IX--Bispo Hincmar, vtima da crueldade de 
seus algozes--Deficiencia fsica na mitologia germanica--As deficincias 
em sacerdotes cristos na Idade Mdia--Luiz III, o "Cego",
rei da Provena e da Itlia--Deficientes fsicos impedidos de participar
da Primeira Cruzada--Barbeiros-cirurgies na Idade Mdia--A evoluo dos 
hospitais medievais e as deficincias--O estigma da hansenase
durante toda a Idade Mdia--Ricardo Corao-de-Leo e sua vingana
--Hospitais proliferam no Oriente Prximo: sculo XIII--Os progressos da 
medicina at o sculo XIV--Epidemias na Idade Mdia e suas
conseqncias: "Castigo de Deus"?--A medicina qualificada e a falta
de assistncia geral - As solues populares e as crendices--O destino
das pessoas deficientes na Idade Mdia - O significado das deficincias
na Idade Mdia -- Os privilgios para cegos durante a Idade Mdia-Dois 
heris histricos com deficincias nos sculos XIII e XIV --Os
hospitais face s pessoas deficientes nos sculos XIV e XV.

Captulo Quarto

A Pessoa Deficiente do Renascimento at o Sculo XIX .................
O problema dos hospitais e abrigos ao inicio da Renascena--Os problemas 
dos deficientes auditivos no sculo XVI--A pintura renascentista e as 
pessoas com deficincias--Ambroise Par: os primeiros passos
da futura "ortopedia"--Antonio de Cabezn: Compositor cego--Goetz
von Berlichingen, o "Mo de Ferro"--O problema da mendicancia organizada 
nos sculos XVI e XVII --A grande malha organizacional dos
miserveis na Frana O problema da mendicancia organizada em outros 
pases--Deficientes mentais no sculo XVI: entidades no-humanas - A "Lei 
dos Pobres" e as pessoas deficientes na Inglaterra--O
atendimento s crianas deficientes na Inglaterra: sculo XVI - O
"Grand Bureau des Pauvres" da Frana Classificao de indigentes na
Frana no sculo XVI - Lus de Cames, o poeta pico portugus por
excelncia. Pintor mudo decora El Escorial, na Espanha - Continua
a epopeia dos hospitais nos sculos XVI e XVII - Galileo Galilei, 
matemtico, astrnomo e fisico - O continuo problema dos soldados 
mutilados - Os trabalhos com os deficientes auditivos no sculo XVII 
.lohannes Kepler, astronomo alemo - Padre Lejeune, maior pregador
do sculo XVII Novas formas de utilizar os hospitais--As deficincias 
fisicas em peas de Shakespeare - A superao de deficiencias no
sculo XVII: um exemplo--John Milton: o significado de sua cegueira
-- So Vicente de Paulo: suas obras face s tendencias do sculo XVII A 
"Velha Lei dos Pobres" da Inglaterra--O nascer da ortopedia como
especialidade -- Quatro cegos brilhantes: Saunderson, Metcalf, Euler e
Blacklock --- Alexandre Pope: um poeta com deficincias fisicas--A 
reformulao hospitalar inglesa - A "Ortopedia" de Nicholas Andry-Maria 
Tereza von Paradis: pianista e compositora cega - A assistncia
aos cegos: final do sculo XVIII - Valentin Hay, "Pai e Apstolo dos
Cegos" -- Educao dos deficientes auditivos no sculo XVIII - Os 
primeiros sinais de assistncia nas Amricas--O desencontro de atitudes 
na
Europa--Inovaes nas "Leis dos Pobres"--Bloqueios ao sacerdcio
para pessoas deficientes--Hospitais pblicos na Frana: final do sculo
XVIII -- Progressos no campo do atendimento  cegueira: sculo XIX
- Ludwig van Beethoven: a trgica surdez--Nelson, heri da Marinha
Britanica  Os progressos nos Estados Unidos da Amrica do Norte
--Os sinais de melhor compreenso dos problemas dos deficientes-Uma 
iniciativa de Napoleo Bonaparte--Madre Agostinha, fundadora
das Irms Irlandesas da Caridade--Lord Byron, poeta e satirista ingls
--Antnio Feliciano de Castilho, um dos maiores literatos portugueses
--Outros cegos do sculo XIX que ficaram famosos--A ortopedia do
sculo XIX e as deficincias fisicas--Atendimento mais especializado
aos cegos--A pessoa deficiente vista com potencial para o trabalho-O 
problema dos surdos e dos surdos-mudos e suas solues--Proteo
ao acidentado de trabalho por legislao recente--A modernizao da
cirurgia ortopdica e as pessoas deficientes--Reabilitao desabrocha
num Centro de Atendimento, em Cleveland--Helen Keller, cega, surda
e muda: um marco indelvel.

Captulo Quinto

A Pessoa Deficiente no Brasil Colonial e Imperial......................
Os primeiros hospitais do Brasil Colonial--Anchieta e seu exemplo de
assistncia aos doentes -- Males incapacitantes nos primeiros anos de
Brasil -- Cegueira noturna no Brasil dos sculos XVI e XVII--Os problemas 
mdicos nos sculos XVI e XVII no Brasil--Mdico com deficiencia fisica 
na Histria de Pernambuco - O problema das paralisias no
Brasil do sculo XVII --A medicina do sculo XVIII entre nos--Males
limitadores que afetavam muito os negros escravos - Deficincias fisicas 
e sensoriais entre nossos indios--Antnio Francisco Lisboa, o 
"Aleijadinho" -- Uma primeira tentativa em projeto de lei: ajuda a cegos 
e
aos surdos -- O problema das amputaes do sculo XVI ao XIX--A
influncia europia no Brasil -- Organizaes para pessoas deficientes
 criadas por Dom Pedro II.

Captulo Sexto
O Sculo XX e os Caminhos da Reabilitao no Mundo .., 299
O panorama europeu da assistncia a deficientes no inicio do sculo-EUA: 
um primeiro congresso mundial de deficientes auditivos--A gradativa 
implantao da reabilitao--As tentativas iniciais para a soluo do 
problema de trabalho--Implantao de servios de naturezas diversas--Os 
esforos de ps-guerra--Surge a "Easter Seal Society"--O
Cdigo de Direito Cannico e os bloqueios a homens deficientes--
Reconhecimento das verdadeiras necessidades das pessoas deficientes--A
previdencia social e os acidentes de trabalho--A reabilitao de jovens
veteranos da Marinha e do Exrcito--A retrao dos anos trinta e as
pessoas deficientes nos EUA--A influncia da Segunda Guerra Mundial
na reabilitao -- A criao de sociedades internacionais privadas--O
envolvimento das organizaes inter-governamentais -- Centros de 
demonstrao de tcnicas de reabilitao--O Instituto de Reabilitao:
vida e morte--A evoluo mais recente da reabilitao.

Captulo Stimo

1981--Ano Internacional das Pessoas Deficientes.....................
As declaraes de direitos e sua importancia --O significado de um
"Ano Internacional" -- O Ano Internacional das Pessoas Deficientes:
trabalhos iniciais -- O contedo bsico das idias consensuais para um
plano de ao mundial - As recomendaes para atividades a nivel nacional 
--O Ano Internacional das Pessoas Deficientes a nivel de Brasil
-- A Comisso do Estado de So Paulo e seu relatrio - As propostas
para ao em So Paulo -- As realizaes da Secretaria Executiva da
Comisso Estadual Dois Encontros Regionais discutem as propostas
da Comisso Estadual--Conscientizao: a meta para 1981 --O apagar
das luzes para o Ano Internacional Recomendaes finais de todas as
Comisses: um desafio para o futuro.

Bibliografia da Primeira Parte. .

SEGUNDA PARTE
A INTEGRAO DAS PESSOAS DEFICIENTES NA SOCIEDADE -- O DESAFIO DE
NOSSOS DIAS

Introduo ....

Captulo Primeiro

As Causas da Marginalidade das Pessoas Deficientes ....................
Normal ou anormal: Eis o problema--As "diferenas" assimilveis ou
inaceitveis -- A questo em termos de Brasil A visibilidade da 
deficincia -- O problema do "comum" e do "normal"--A grande variedade de 
condies marginalizantes -- Como classificar as condies 
marginalizantes (desvios intelectuais, desvios motores, desvios 
sensoriais, desvios funcionais, desvios organicos, desvios de 
personalidade, desvios sociais e problemas de idade avanada) - Outras 
condies que levam 
marginalidade--Deficincia e incapacidade: distino importante.

Captulo Segundo

O Significado da Integrao Social das Pessoas 
Deficientes................
A complexidade do desafio--A integrao social e seus "porques" (O
elevado nmero de pessoas consideradas como "deficientes", o valor
prprio do ser humano, o valor economico da mo-de-obra no utilizada)--
Os principios bsicos da reabilitao -- O despreparo nos programas 
reabilitacionais-- A complexidade do trabalho de equipe em
reabilitao--Os programas necessrios em nosso meio.
Captulo Terceiro
Adequao Pessoal--O Objetivo ltimo da Reabilitao ........
 Impedimento, deficincia e incapacidade -- Programas de
reabilitao
 global -- Condicionamento fsico em reabilitao -- O ajustamento
 psico-social no processo de reabilitao-- Ajustamento  vida de tra 
balho--Hbitos, atitudes e comportamentos--A adequao pessoal e
 seu significado -- Adequao pessoal-fator decisrio na integrao so 
cial--Anexo I (Indicativo para Identificao de Comportamentos)- Anexo II 
(Lista de Comportamentos ou Hbitos Inadequados).

Captulo Quarto
Preparo para a Vida de Trabalho
 Aconselhamento para a vida de trabalho (Caractersticas pessoais, expe 
riencia educacional e profissional, aptides e potencialidades, 
interesses,
 capacidade fsica, capacidade mental)--Avaliao e ajustamento ao tra 
balho (potencial do indivduo para o trabalho, significado para o
indiv
 duo, o processo de ajustamento  vida de trabalho, a importancia
 dos instrumentais de avaliao)--O treinamento profissional em progra 
mas de reabilitao--Colocao em emprego--Anexo I (Relatrio de
 Aconselhamento em Reabilitao-instrumental) -- Anexo II (Relatrio
 de Avaliao Inicial-instrumental)--Anexo III ( Relatrio Evolutivo do
 Caso-instrumental).

Capitulo Quinto
As Equipes de Reabilitao nos Programas de Hoje 
.................................441
 O trabalho de equipe em reabilitao--As garantias para um verdadei ro 
trabalho de equipe --A liderana de uma equipe de reabilitao- A 
ausncia da coordenao formal de uma equipe -- As dificuldades
 principais em coordenar uma equipe--Problemas tpicos encontrados
 num trabalho de equipe (falta de confiana e respeito mtuos, excesso
 de importancia  prpria atuao, desconhecimento das demais profis 
ses, falta de atitudes de cooperao sistemtica, comportamentos ina 
dequados numa equipe, falta de experincia em trabalho de equipe, es tilo 
inadequado de relatrio, metodologia de cooperao quase inexis tente, 
jogos de prestgio e de poder e seus malefcios, ausncia de uma
 boa poltica de pessoal)--A necessidade de tratamento global do clien te 
--Superposio de atividades em equipes de reabilitao -- O tra balho de 
equipe: perspectivas.

Captulo Sexto
A Avaliao e o Controle nos Programas de 
Reabilitao............................457
 Os profissionais envolvidos em reabilitao--A falta de especializao
 e suas conseqncias--Mtodos de avaliao em centros de reabilitao
- Modelos de avaliao--Sistemas de avaliao (O "pblico" em geral,
o "pblico" financiador, o "pblico" clientela, o "pblico" das famlias
da clientela, o "pblico" das entidades) - Conseqncias de uma avaliao 
(deciso poltica, deciso estratgica, deciso ttica) --Controle
num centro de reabilitao--Sistemas de controle utilizveis em centros 
de reabilitao--Caracteristicas do sistema de controle.

Bibliografia da Segunda Parte...................................
NDICE DE ILUSTRAES

Porteiro egpcio com deficincia fsica . .
Harpista cego no Antigo Egito ....
Soberano assrio cegando prisioneiros de guerra...............
Paraltico de Cafarnaum apresentado a Jesus.................
Ulisses consultando o cego adivinho Tirsias........
Mosaico de Lescar (Frana)--Homem com deficincia fsica . . .
Coluna de Trajano--Atendimento a feridos em batalha ....
Exorcismo de um catecmeno com deficiencias fsicas .....
Castigo na Idade Mdia: amputao de mo ..........
Negociaes com cruzados--Ancio com muletas........
Hanseniano e deficiente fsico impedidos de entrar em cidade . .
Meios de locomoo e transporte de pessoas com deficincias . .
O transporte de pessoas deficientes no sculo XVI ..........
A mo artificial do pequeno Lorenense ..........
Cegos, deficiente fsico e um dos famosos "Sabouleux" . .
Mendigos com deficincias no perodo ps-Renascena.
Restos da batalha de Lens - soldados com deficincias. . .
Deficiente fsico vindo da Guerra do Paraguai .....

Pg.
 .........62

 .........67

 ........84

 ........87

 .........108

 ..........149

 ........ 149

.... .... 155

 .........202

 .........209

...........212

...........217

...........230

 .........231

 .........234

 .........239

 ..........244

 ..........294



A ORAO DA PESSOA DEFICIENTE

Pedi a Deus foras para poder realizar muitas coisas
E fui feito fraco para poder aprender humildemente a obedecer;
Pedi-lhe ajuda para que eu pudesse fazer coisas grandiosas
E foi-me dada a enfermidade para que eu pudesse fazer coisas melhores;
Pedi riquezas e bens para que eu pudesse ser feliz,
Foi-me dada a pobreza para eu poder ser sbio;Pedi poderes a fim de 
receber a admirao dos homens,
Foi-me dada a fraqueza para eu poder sentir a necessidade de Deus;
Pedi-lhe tudo o que fosse necessrio para eu gozar a vida
E foi-me dada a vida, para eu poder gozar de todas as coisas.
Eu no obtive nada do que havia pedido,
Mas recebi tudo o que eu havia almejado.
A despeito de mim mesmo quase,
Minhas silenciosas preces foram atendidas.
E dentre todos os homens
Sou o mais ricamente abenoado" . . .

(Autor desconhecido - Texto divulgado pelo Institute
of Rehabilitation Medicine da New York University e
pela Abilities, Inc. de Albertson - Long Island-NY EUA)

APRESENTAO

Para reforar a credibilidade em torno do que dizem, certos catedrticos
costumam se apresentar dizendo que tm tantos anos de ctedra, de 
cadeira. Se isto ajuda na apresentao de "A EPOPIA IGNORADA", direi que 
tenho quase vinte anos de
. . . cadeira de roda! Direi tambm que este  o livro que gostaria de 
ter lido logo no inicio de minha pequena epopia. Quantas dificuldades 
teria superado com menos lgrimas
e decepes no tantas. E quantas palavras teriam poupado comigo alguns 
mdicos, psiclogos e fisioterapeutas, se tambm eles tivessem lido obras 
como esta! Mas obras como
esta, to completa, humana, formativa e informativa sobre certas 
deficincias que acompanham a Humanidade desde seu bero, no existiam . 
. . at agora ( por isto, talvez,
que existem tantos deficientes, fisicos e sensoriais, incapazes de 
conviver mais naturalmente com suas deficincias). Mas agora chega Otto 
Marques da Silva cm a Histria na
mo. E a Histria  mestra. (Aqui ela ensina que, se  duro constatar que 
perante a paraplegia, por exemplo, a medicina tradicional ainda  
aprendiz, ensina tambm--e com
muito jeito e humanismo--a evitar decepes e conviver dignamente com 
tais deficincias). Otto nos leva pela mo atravs da Histria da 
Humanidade e nos faz conhecer gente que, sem condies fisicas, fizeram 
capitulos importantes da Histria. Competncia para isso o Otto tem: 
formado pela Universidade Catlica de So Paulo e pela Universidade
de New York na rea de Servio Social e de Reabilitao, contratado pela 
Organizao
das Naes Unidas como especialista nesses assuntos, trabalhou em 
colaborao com
programas de 29 pases na implantao de projetos para a reabilitao 
profissional de
pessoas deficientes.

Atualmente Otto  Diretor executivo da SORRI-SO PAULO (Sociedade para a 
Reabilitao e Reintegrao do Incapacitado:"umaexperienciaquedeucerto").

J que me coube a honra de apresentar "A EPOPIA IGNORADA",
aproveito a oportunidade para convidar meus colegas deficientes fisicos 
e, sobretudo,
os profissionais ligados  sade, a tornarem menos ignorada esta grande 
epopia que  a
reabilitao e reintegrao da pessoa  sociedade. E meus agradecimentos 
a voc, Otto,
por este importante trabalho, e  Unio Social Camiliana por t-lo 
editado.
PRIMEIRA PARTE

A POSIO DAS PESSOAS DEFICIENTES NAS SOCIEDADES DE
ONTEM E DE HOJE

"Toda filosofia depende da Histria" (Nietzsche)

"O estudo da antigidade perde o valor, exceto quando
se torna um drama vivo, ou quando lana luz em nosso
viver contemporaneo" (Durant)
CAPTULO PRIMEIRO

A PESSOA DEFICIENTE NO MUNDO PRIMITIVO
Se tomarmos, como elemento de classificao das diversas etapas da vida
do homem sobre a Terra, o material principal e mais relevante com que 
procurava ele
fabricar todos os seus utensilios e instrumentos destinados  sua 
sobrevivncia e conforto, poderemos dividi-las em:

-- Idade da Pedra Lascada

-- Idade da Pedra Polida

-- Idade do Bronze

-- Idade do Ferro.

A Idade da Pedra Lascada corresponde a uma boa parte do tambm chamado 
Periodo Paleolitico -- uma vastido de tempo, com milhares de sculos 
muito
obscuros, iniciados provavelmente h mais de um milho de anos atrs. A 
Idade da Pedra
Polida j corresponde aos Periodos conhecidos como Mesolitico e 
Neolitico, isto , a
pocas correspondentes a 10.000 anos antes da Era Crist at 2.500 a.C.

Os tempos que costumamos chamar de histricos comearam a ser 
vislumbrados com a Idade do Bronze e definidos com a Idade do Ferro.

Essas Idades ou Periodos indicam graus de desenvolvimento e no 
necessariamente perodos cronologicos da histria do homem sobre a Terra. 
Esses graus de
desenvolvimento, nos quais alguns poucos povos at hoje existentes 
encontram-se mergulhados por milnios, foram por vezes atingidos com 
rapidez por algumas raas.

Para ilustrar essa disparidade de momentos de desenvolvimento basta
lembrar que, enquanto os egpcios j viviam na Idade do Ferro, os gregos 
estavam vivendo sua Idade do Bronze e as tribos brbaras do norte europeu 
viviam na Idade da Pedra
Polida. Em regies onde a natureza sempre foi mais prdiga e o tempo mais 
acolhedor e
ameno, a velocidade do desenvolvimento foi muito menor. Ainda hoje vemos 
em zonas
tropicais ou temperadas do globo terrestre -- inclusive no Brasil--povos 
que vivem vidas altamente primitivas e sem qualquer contato com a 
civilizao, como homens das
Eras Mesolitica e Neolitica.

--O homem neolitico no Brasil de hoje

"No dia 8 os kranhacrores esto de volta ao mesmo local. Nova correria 
no acampamento. Orlando, que havia rumado para l logo que soube do 
primeiro
contato, apanha os presentes e corre para a canoa. Avana lpido pela 
picada, apesar do
corpo volumoso e apesar de quase no enxergar com um olho, operado de 
catarata. A
canoa sai carregada de gente. Os kranhacrores esto na outra margem, a 
100 metros.
Entre a canoa e os kranhacrores, 100 metros de gua e 30.000 anos de 
cultura.  o
homem que ja ronda as estrelas, atrs do seu irmo da Idade da Pedra 
Polida" . . .
. . . "entre os presentes h um machado que o kranhacrore mais jovem 
apanha e examina com curiosidade. Solta um grito, interpretado como de 
contentamento e vai para
junto de uma rvore. Ergue os braos rigidos e vibra um golpe vigoroso, 
soltando outro
grito, O machado escorrega de suas mos, indo parar perigosamente perto 
de seu p".
"E se o kranhacrore se ferir e interpretar aquilo como uma artimanha
dos brancos?  o que a maioria pensa. Mas nada acontece. O kranhacrore 
ergue o machado novamente e encaixa um golpe profundo no tronco. A 
pancada ecoa pela mata
e o kranhacrore d o grande salto da Idade da Pedra para a Idade do 
Bronze" (in
"Realidade", de abril de 1978, reportagem e texto de Luigi Mamprin).

--As primeiras civilizaes do mundo

As primeiras civilizaes de alguma sofisticao comearam a desenvolver-
se nas proximidades dos rios e em especial junto aos grandes rios que 
banhavam terras planas e de boa qualidade, tais como o Eufrates, Tigre, 
Nilo, Ganges, Amarelo e Indo.

Foi exatamente ao longo desses grandes rios que, no ponto do Oriente
conhecido como "Crescente Frtil"--situado entre o norte da frica e o 
Oriente Mdio -- logo distinguiram-se muitos grupos humanos que, devido 
s caracteristicas de
ento e ao seu isolamento quase que continuo, alm de um incontido receio 
pelo desconhecido, formaram as primeiras civilizaes: egipcios, 
assirios, babilnios, hebreus, fenicios, mesopersas e outros.

Do Oriente, as facilidades de vida individual e de grupo conhecidas por
ns como civilizao foram levadas muito vagarosamente para o Ocidente, 
tendo chegado primeiramente  Grcia, antes de chegar a Roma, o que 
sucedeu diversos sculos depois. De Roma elas foram levadas tambm s 
regies mais ocidentais da Europa, tendo
afinal chegado ao Novo Mundo e  Oceania.

1. O Alvorecer da Humanidade

Nada de concreto existe quanto  vida de pessoas com deficincias fisicas 
ou mentais, do velho e do doente nos primeiros nebulosos e muitas vezes 
enigmticos milnios da vida do homem sobre a Terra, a no ser supostas 
situaes que esto
baseadas em indicios extremamente tnues.  evidente que fatos concretos 
ou situaes
comprovadas de vida, em toda a fase pr-histrica da Histria da 
Humanidade, so impossiveis de serem estabelecidos, mesmo com o magnifico 
concurso dos sbios que dominam muito bem toda a ciencia arqueolgica e 
reas afins.

Poderemos, sim, tentar imaginar o ambiente de ento e o que ele poderia 
significar para a sobrevivencia dos grupos humanos como um todo, 
elaborando um
pouco quanto s hipotticas situaes a serem enfrentadas por um eventual 
portador
de alguma deficincia limitadora de suas funes bsicas daquelas mesmas 
pocas.

--Os males incapacitantes de sempre

Lembremo-nos de inicio que muitos dos males incapacitantes de hoje
sempre existiram, desde os primeiros dias do homem sobre a Terra. Muitos 
deles por
muitos milnios foram fatais devido  falta de recursos no seio das 
populaes primitivas. Apesar de nos encontrarmos diante da 
impossibilidade de citar com segurana os
males que rapidamente deterioravam a vida do homem pr-histrico, ainda 
achamos
vlido, apenas para ajudar nossa imaginao e nosso raciocinio, anotar 
mentalmente que
os seguintes males sempre foram e sempre sero muito srios para a 
sobrevivncia do
homem, ou para sua integrao ao seu grupo principal como elemento 
participante:

-- Amputaes em vrios niveis e membros

- Artrites em suas vrias caracterizaes

-- Cegueira ou limitaes de viso

-- Defeitos de nascimento ou malformaes

-- Surdez ou redues graves de audio

-- Afasia ou problemas de comunicao oral

-- Desordens sangineas graves

-- Problemas cerebra is

-- Cancer nas muitas de suas caracterizaes

-- Queimaduras em vrios graus e localizaes

-- Desordens cardiacas de gravidades diversas

-- Paralisia cerebral de intensidades diversas

-- Fibrose cistica

-- Problemas de abuso de medicamentos ou de lcool

-- Epilepsia

-- Diabete

-- Problemas renais

-- Doenas mentais das mais variadas intensidades

-- Deficiencias mentais nos variados graus

-- Esclerose mltipla

-- Distrofia muscular

-- Gota em suas manifestaes mais graves

-- Desordens neurolgicas diversas

-- Fraturas e problemas ortopdicos os mais variados

-- Problemas respiratrios e/ou pulmonares

-- Paralisias (paraplegia, tetraplegia, hemiplegia)

-- Doenas venreas

-- Fissuras lbio-pa latais

-- Hemofilia
-- Sindromes incapacitantes diversas

-- Hanseniase

-- Paralisia infantil

-- Incapacidades mlti plas

-- Doenas crnicas

-- Doenas dermatolgicas transmissiveis

-- I dade avanada

Para vrios dos males indicados poderemos de alguma forma imaginar as
solues dadas durante aquelas longnquas pocas, por paralelos ou 
comparaes que fazemos com populaes de cultura primitiva ainda 
existentes. Para alguns males  muito
dificil elaborarmos qualquer quadro, como em casos de steoartrite. 
Existe evidncia de
sua ao no s no esqueleto de um homem de Neanderthal, de mais de 
40.000 anos
atrs, mas tambm de sua devastadora existncia em dinossauros do perodo 
Mesozico.

--O ambiente fisico

H muitos milhares de anos o homem vivia desprotegido num mundo
hostil, habitando em abrigos naturais de pedra ou em cavernas. O nmero 
dessas cavernas era exguo para toda a humanidade francamente em expanso 
e s vezes imobilizada
por invernos rigorosos.  praticamente certo que as melhores e mais 
protegidas cavernas
foram sendo ocupadas e defendidas por muitas geraes de um mesmo grupo.

Dentre os primeiros habitantes de cavernas que povoaram esparsamente a
Europa pr-histrica, devemos destacar o Homem de Neanderthal, que viveu 
h uns
70.000 anos. Pelos achados ocorridos em cavernas da Europa utilizadas 
naquelas pocas,
podemos chegar a algumas concluses. Uma delas  que em geral tratava-se 
de grupos humanos que adotavam cuidados bsicos muito rudimentares com 
tudo. Em boa parte dos
casos estudados, eram seres humanos pouco dados  ordem ou  limpeza de 
seus ambientes. Praticamente tudo o que utilizavam ou que deixavam de 
usar por ser considerado
como intil, e mesmo restos de animais devorados eram jogados fora em 
cantos das cavernas habitadas, o que levava  formao gradativa de 
camadas de depsitos de detritos,
incluindo neles pedaos de armas, ossos, cinzas de fogueiras destinadas 
ao aquecimento
ou ao preparo de alimentos.

Algumas das cavernas utilizadas pelo homem primitivo eram grandes, 
escuras e um tanto tenebrosas, mesmo para os dias de hoje. Mas seus 
ocupantes viviam
apenas nas reas prximas  entrada, como bem o demonstram os estudos 
arqueolgicos.
L eles se sentiam no s protegidos do vento, da chuva, do calor e do 
frio, como tambm das incertezas da noite, das grandes tempestades, dos 
animais ferozes e dos inimigos que continuamente procuravam desaloj-los.

Os homens hoje conhecidos como Cro-Magnon, surgidos ao final da Idade
do Gelo h mais ou menos 30.000 anos e muito parecidos com algumas raas 
de homens
da atualidade, comearam a povoar esparsamente diversas partes da Europa, 
pois aos
poucos tinham conseguido explorar e descobrir locais mais longnquos de 
seus abrigos originais, permanentemente ameaados por tribos rivais. 
Tinham aprendido a construir
abrigos provisrios de peles de animais abatidos e tinham tambm 
descoberto stios mais
adequados para caadas mais promissoras. Esses foram os homens que 
comearam a documentar o mundo que os cercava, os animais que caavam ou 
que os ameaavam nas
caadas sem fim, para as quais plena agilidade, fora e domnio do corpo 
eram fundamentais, num esforo de grupo. Bises, mamutes, ursos, velozes 
javalis e agis cervos foram desenhados, entalhados e mesmo pintados com 
pormenores de cores vivas em pedras, pedaos de osso, paredes e tetos das 
cavernas. Esses desenhos e peas entalhadas
so encontradios principalmente nas cavernas ao sul da Frana e ao norte 
da Espanha.

O interessante  que essas obras, em quase sua totalidade, no esto nem
foram encontradas na boca das cavernas, mas em pontos bem mais afastados 
do ambiente habitado, e s vezes  beira de grandes buracos, em pontos de 
difcil acesso at para
os nossos recursos de hoje, inclusive nos tetos das cavernas.

Para l trabalhar nas muitas horas e dias de dedicao  obra, durante os
longos invernos, o supersticioso homem primitivo certamente precisou 
primeiro vencer
o medo que sentia pela escurido sempre povoada por seres tenebrosos e o 
prprio ambiente mais profundo e misterioso das cavernas que refletiam 
sombras confusas  luz
de tochas fumarentas.

Junto aos desenhos desses bises e demais animais da poca, existem 
contornos de mos-- muitas mos--inclusive diversas com dedos 
visivelmente em falta!

-- Os desafios para a vida do homem primitivo

Dentre os principais problemas enfrentados pelo homem pr-histrico
para poder sobreviver, estavam no apenas o abrigo e o aquecimento 
durante os meses
de inverno ou durante as intempries, mas tambm as dificuldades, quase 
que dirias
durante as pocas mais quentes do ano, para obter alimento fresco. Ele 
no dispunha
de meios para manter em bom estado de conservao para consumo a carne 
dos animais caados nos dias de muito calor, enquanto que durante os 
meses de inverno a caa
tornava-se rarefeita e ele mesmo dispunha de poucas condies para 
sobreviver por
longos perodos de tempo fora de seus abrigos.

O homem das pocas Paleoltica e Mesoltica praticamente no plantava
e no dispunha de animais domesticados, tais como os bovinos e eqinos, 
que poderiam
ser sacrificados para resolver o problema da falta de caa para alimentar 
o grupo. Alm
disso, ele dependia quase que exclusivamente da caa de certos animais 
muito cobiados,
se quisesse garantir peles quentes e adequadas para cobrir seu corpo e 
proteger seus ps
durante o invernO, sem o que no conseguiria expor-se por longo tempo ao 
frio para
matar animais atentos e muito velozes.

Assim, durante muitos milnios dominando apenas armas de curto alcance, 
no h dvida que os requisitos bsicos para a atividade principal, que 
era a caa,
eram a sua inteligncia muito superior  dos animais cobiados, a 
capacidade de atuar
em grupos bem coordenados e criativos e . . . uma capacidade fsica 
total. Dessa forma,
e muito difcil imaginarmos como um homem ou uma mulher poderiam 
sobreviver naquelas remotas eras com uma deficincia fsica muito 
limitadora.

Mas o homem primitivo aprimorou suas condies de vida e j na poca
Neoltica (h aproximadamente 10.000 anos), em parte graas ao gradativo 
trmino da
chamada Idade do Gelo e  progressiva e amena mudana 
detemperaturasnasvriasregies do globo terrestre, notamos que ele 
comeou a ter melhores condies para explorar por muito mais tempo 
territrios jamais trilhados, com suas campinas, florestas e
rios. Foi exatamente o homem neoltico que conseguiu tornar a caa muito 
mais racional, montando armadilhas, redes, chegando mesmo a construir 
represamentos de riachos
para obteno mais fcil de peixes para seu consumo. E, avano muito 
significativo, inventou armas de mais longo alcance. Foi ele tambm que 
comeou a solidificar o grupo
familiar, que acabou por se tornar uma unidade social bsica. Foi 
igualmente esse primitivo homem neoltico que tornou mais elaborada a 
idia de um Deus ou das muitas
divindades, e mesmo de seu culto e das religies. Em suas exploraes 
longnquas encontrou, talvez com surpresa, novos grupos de homens e com 
eles misturou-se. Segundo
nos relatam especialistas no assunto, foi o homem neoltico que se 
organizou em grupos
mais heterogneos e que certamente comeou a desenvolver uma primitiva, 
mas marcante, conscincia social.
--O cuidado para com doentes e a incipiente medicina

Como das demais Epocas, desta poca Neoltica tambm no temos dados ou 
sinais de qualquer significado quanto ao problema causado pelas eventuais 
incapacidades fisicas ou mentais em membros dos vrios grupos humanos, a 
no ser presumirmos que, no s com um paciente e sempre muito curioso 
olhar, comparar e tambm estudar o comportamento animal (por exemplo, a 
absoluta solidariedade dos elefantes para com seus membros feridos), mas 
com o despertar dos vinculos mais fortes
de ordem familiar, e com o surgimento da conscincia social, o homem 
comeou a
atuar diferentemente. J havia a linguagem falada em plena evoluo e 
mais, a idia de
um ser superior - ou seres superiores--ainda de carter punitivo e 
severo, o que talvez
tenha levado o homem primitivo a melhor considerar as pessoas adoentadas, 
as acidentadas em atividades de caa e pesca, as vitimadas por ciladas ou 
agresses de grupos rivais.
Provavelmente dessas no registradas pocas da vida do homem sobre a 
Terra foram surgindo os primeiros passos para uma medicina no s de 
medicamentos provenientes de
plantas, frutos e alguns minerais, mas tambm as primeiras tentativas 
cirrgicas mais srias. Dedos das mos amputados, no se sabe por que 
causas, j haviam surgido por milhares de anos em desenhos das cavernas 
habitadas.

Ao final da poca Mesolitica, passando aos poucos para a Neoltica, 
amputaes de ps, de mos e tambm a incrvel cirurgia craniana 
conhecida como "trepanao", com a comprovada sobrevivncia do "operado", 
foram realizadas, conforme
indicam achados da poca.
Brocas, serras, instrumentos pontiagudos haviam surgido para utilizao
nas atividades principais relacionadas  alimentao e vesturio de todo 
o grupo. Talvez
que de sua contnua utilizao para esquartejamento de caa, retirada e 
preparo de suas
peles, diviso das carnes em pedaos menores e mesmo preparo de algumas 
armas, tenha
surgido a idia de, com cuidados bem maiores, us-los para intervenes 
cirrgicas.

O homem primitivo que se dedicava  arte de aliviar dores, estancar 
sangue e mesmo curar males, tinha seus conhecimentos de anatomia 
derivados exclusivamente da observao constante e da contnua e 
necessria atuao e experimentao.
Essas experiencias foram sendo acumuladas por alguns homens considerados 
como especiais, depois chamados de feiticeiros, magos, druidas, pajs, 
alm de seus auxiliares
e foram sendo passadas de gerao para gerao, de grupo para grupo, de 
milnio par
milnio, propagando-se e enriquecendo-se continuamente.

Na Epoca conhecida como Neoltica, ou seja, aproximadamente 8.000
anos atrs, o homem descobriu muitos dos segredos bsicos da natureza, da 
vida e da
prpria terra, tais como a domesticao de animais e a agricultura. 
Assim, a vida de cada
grupo foi-se tornando cada vez menos difcil e menos perigosa uma vez que 
esse dominio maior do ambiente que o cercava acabava por no exigir 
grandes riscos de vida para
garantir a sobrevivencia pela caa quase que diria.

O homem tornou-se dono de sua vida, de seu relativo bem-estar e de seu
futuro, embora ainda vivendo em situaes bastante precrias, como 
diversas das raas
primitivas de hoje que ainda vivem como homens neoliticos.

--As fraturas na Pr-Histria

Membros fraturados certamente que eram tratados  semelhana da forma 
como animais superiores o fazem, muito mais por instinto do que por 
conhecimento de causa ou raciocnio, descansando a parte afetada ou 
deixando de utiliz-la. Provavelmente ainda na Era Paleolitica, durante a 
qual o homem esteve mais do que nunca
sujeito a grandes quedas e a pancadas violentas, seja de inimigos 
portadores de armas
contundentes, seja de animais acuados durante uma caada, a prpria 
vitima ou seus
companheiros aliviariam o membro atingido com uma primitiva imobilizao, 
por meio
de pedaos de ramos de rvores ou pequenos arbustos atados por tiras de 
couro de animal, tufos ou cordas de capim, de cascas de rvores ou de 
outra natureza.

Segundo o Dr. Edgard M.Bick, citado por Agero, o homem pr-histrico que 
inventou a imobilizao de um membro fraturado mereceria a mesma honra e
teria os mesmos mritos que aquele que idealizou a roda ou que descobriu 
a forma de
fazer e de controlar o fogo.

Logo antes de partir para uma caada ou para uma operao guerreira, os
homens pr-histricos reuniam-se ao redor do fogo, em algum tipo de 
cerimnia religiosa, que certamente demonstrava a importancia e o 
significado do empreendimento. Nessas atividades perigosas e muitas vezes 
imprevisveis, fraturas por golpes de clavas, patadas, quedas e mesmo 
pelos azares do dia-a-dia eram freqentes. E certamente devido a
essa freqencia, nas cavernas, abrigos e casas primitivas de ento os 
acidentados j deveriam contar com homens mais idosos que tinham 
experincia e que sabiam como tratar com certo sucesso casos dessa 
natureza. Nas diversas cavernas pesquisadas pelos
arquelogos, e nos locais onde foram encontrados muitos esqueletos pr-
histricos, vrios ossos apresentam-se com fraturas solidificadas e bem 
tratadas.

Esses ossos solidificados e com evidentes sinais de fraturas anteriores 
foram estudados meticulosamente por cientistas diversos que notaram a 
ocorrncia maior
e mais significativa de fraturas do ante-brao (radius). Nesses 
esqueletos pr-histricos
encontrados e analisados at hoje, podemos citar sinais de fratura 
tratada em ossos de
omoplata (em Vendreste), de tbia (encontrados em dlmens da Africa do 
Sul e em Meudon), do pernio (tero superior), do fmur (bastante comum), 
do hmerus, da clavcula e mesmo do metatarso.

Em sua obra "La Mdecine chez les Peuples Primitifs (Prhistoriques et
Contemporains)", Stphen-Chauvet afirma que um grande estudioso dos 
achados prhistricos, o Dr. Raymond, pde estudar um fmur direito 
encontrado numa gruta do
vale Petit-Morini que havia sido fraturado em seu tero inferior, e que 
apresentava um
forte deslocamento. O fragmento inferior tinha sua ponta, na linha aspera 
e quebrada,
solidificada  extremidade baixa do pedao superior do fmur, mas com 
grande desvio.
Assim, o conjuntO  envolvido numa calosidade ssea de aproximadamente 20 
cm de
circunferncia, da resultando um considervel encurtamento da coxa.

Todas essas fraturas mesmo a do metatarso chegavam a impedir o
homem primitivo da participao em atividades de caa ou de guerra 
praticamente durante meses. Viviam com seus membros imobilizados--ou pelo 
menos no usados--sobrevivendo na dependncia dos demais. Eram, assim, 
transitria, mas seriamente deficientes.

No entanto, seja pelos dedos amputados, que podem ser notados nos 
desenhos das cavernas habitadas, seja pelo exemplo da incrvel calosidade 
ssea com grande desvio da linha do femur e evidente encurtamento da 
perna, tivemos na Pr-Histria
pessoas deficientes que sobreviveram por muitos anos. Como sobreviveu 
esse homem de
perna com fratura solidificada com srio desvio? Como conseguiu integrar-
se ao seu grupo, e com que tipo de papel? Sim, pois se no tivesse sido 
integrado, seus ossos no estariam na caverna em que foram encontrados . 
. . Como participou, pelo resto de sua
longa vida, das atividades de sua famlia ou de seu grupo? Seu vulto, 
coxeando pelos
agrestes e perigosos caminhos, num ponto perdido da Pr-Histria, 
permanecer sem
maiores explicaes em nossa imaginao.

Alm das providncias de imobilizao para os casos de fraturas, membros 
ou partes do corpo atingidos por um golpe devem ter sido instintivamente 
socorridos por massagens do prprio indivduo, da mesma forma como certas 
dores reumticas
podem ter sido aliviadas com o calor das fogueiras ou das pedras 
aquecidas ao seu redor
nas primeiras cavernas habitadas pelos grupos humanos.
--O que nos ensinam os ossos pr histricos

Os homens que se dedicam ao estudo de ossos pr-histricos tm 
desenvolvido denodados esforos para a criao de uma nova especialidade: 
a paleopatologia.
Praticamente toda a especialidade aqui referida volta-se para achados que 
indicam a
existncia de patologias incapacitantes. Seus estudos no podem 
desconsiderar desenhos,
estatuetas, relevos, alm da anlise sistemtica de ossos que apresentam 
anomalias.

A nova ciencia da paleopatologia nos ensina que a doena e a deficincia
fsica so to antigas quanto a prpria vida sobre a Terra.

Pois bem,  a paleopatologia que nos diz que ossos de animais de todas as
pocas indicam a presena de distrofias - sejam elas congnitas ou 
adquiridas--e leses
traumticas ou infecciosas. Dentre os ossos encontrados na Frana, na 
Espanha e na Arglia, existe mais de uma centena que apresenta 
anomalias;Vejamos alguns exemplos
mais marcantes:

a) Pythecanthropus Erectus--Existem poucos ossos do tipo conhecido por 
esse nome
cientfico: uma calota craniana, trs dentes e um fmur. O fmur 
apresenta uma espcie
de tumor sseo bem volumoso no tero superior, prximo  sua cabea, 
atribudo pelos
estudiosos a uma fratura ou a um aneurisma.

b) Homem de Neanderthal -- H ossos do chamado Homem de Neanderthal que 
apresentam traos de traumatismo. H, por exemplo, no mero esquerdo, uma 
cicatriz que
corresponde a uma leso sria. No esqueleto desta espcie, descoberto em 
Krapina, existe um sinal de fratura solidificada na clavicula. O 
esqueleto de La Chapelle-aux-Saints
mostra sinais de artrite deformante.

c) O esqueleto analisado por Raymond - O fmur com grande desvio citado 
mais atrs,
foi descoberto por Raymond na gruta de Baye.  interessante notar que 
ossos provenientes dessa mesma caverna apresentam, quase todos, sinais de 
osteoartrite de natureza
reumtica. Segundo alguns especialistas, essa afeco apresenta-se como 
um real obstculo  boa solidificao de uma fratura.

d) Homem Cro-Magnon--A espondilose foi encontrada num esqueleto de homem 
pr
-histrico conhecido como Cro-Magnon. Trata-se de um mal de efeitos muito 
limitadores,
pois a espinha dorsal em geral fica com uma curvatura bastante acentuada, 
a cabea inclina-se para a frente e as coxas flexionam-se.

e) Freqncia do reumatismo--O reumatismo foi muito freqente e 
devastador na Pr
- Histria. Havia casos que iam desde a chamada osteopatia peri-
articular, at a total imobilizao do homem primitivo. Um exemplo 
marcante  encontrado em ossos do Homem de Neanderthal, descobertos em La 
Chapelle-aux-Saints, na Frana. Pela anlise
dos mesmos, especialistas constataram sinais claros de articulaes coxo-
femurais com
artrite seca e com poli-artrite.

Na Era Neolitica a presena mdia do reumatismo  estimada em 20%
dos esqueletos ou ossos encontrados. A incidencia do mal talvez esteja 
relacionada  m
36

qualidade da alimentao (que pode tambm ter causado muitos casos de 
cegueira), devido a infeces e tambm devido  exposio  umidade e ao 
frio. Convm que lembremos ter o homem primitivo vivido muito exposto s 
alteraes do clima, muitas vezes
em cavernas cheias de umidade. Assim, os casos de reumatismo no 
aconteciam apenas
em faixas etrias mais elevadas; ocorriam tambm muito antes dos 30 anos 
de idade
(Ver Goldstein, Guthrie, Gonzales, Stephen-Chauvet e Dastugue).

--A origem dos males que afetavam os homens

A rude e muito difcil vida do homem em seus primeiros milenios de 
existncia sobre a Terra no admitia fraquezas. A doena e os acidentes 
aconteciam, muitas
vezes avassaladores e de muito rpido desfecho; mas por vezes o homem 
vencia, e uma
primitiva medicina--se assim poder ser chamada--ajudava com um socorro 
paliativo,
cada vez mais eficaz, por meio de homens observadores, muito voltados 
para os recursos da natureza e para os misteriosos segredos do 
"desconhecido".

Afirmam Grarcia, Rocca e Grana Jr. em "Las Trepanaciones Craneanas en
el Per en la Epoca Pr-Hispnica":

"Se considera una doctrina plenamente confirmada que el hombre primitivo, 
a travs de todos los tiempos y en todas las regiones del globo, observ 
las mismas
creencias, iguales supersticiones y atraves por semejantes etapas de 
cultura".

"Y asi, concurren a una interpretacin comn las leyendas y tradiciones
ms remotas sobre el origen de las enfermidades. Ignoradas las causas 
reales, el hombre
invocaba lo ignoto y misterioso, lo invisible e palpable, o sea, el 
concepto de los espiritos y la influencia de la divindad. Desde este 
punto de vista el folk-lore mdico es el
mismo en todas las civilizaciones primitivas".

"Elocuente demonstracion de estos hechos ofrecen ciertas prcticas
quirrgicas registradas en la histria de los pueblos ms antiguos, y una 
de verdadera
significacin y importancia es, sin duda, el caso de las trepanaciones 
craneales, realizadas desde muchos milenios anteriores a nuestra era. Ya 
en el periodo neolitico se realizaba con extraordinaria frecuencia esta 
grave y dificil intervencin, juzgada" como la
operaciOn ms antigua de la cual existen huelas comprobadas". Como 
demonstracin
palmaria de las ideas enunciadas antes, podemos aducir que dicha 
intervencin en el
pasado lejano se llev a cabo en las regiones ms distantes de la tierra: 
Africa y Asia, entre los "Chaouias" de la Algeria, las tribus Bere-Bere, 
que la practican an hoy. Se han
descubierto crnios horadados en Herzogovina, Montenegro Y Albania; 
igualmente en
las islas del Pacifico, la Malasia, Polinesia, Tahiti. En Nueva Bretaria, 
en el Archipilago de las Bismark; en diversos paises del Mediterrneo, 
Itlia, Francia. En Inglaterra y
Austria; en las Islas Canarias y, bien lo sabemos, en diversos paises de 
la Amrica del
Sur, Per, Bolivia y Colombia".

 indiscutivel que o homem pr-histrico procurava a origem das 
enfermidades em crendices de natureza mstica ou fantasiosa, mais de 
ordem demonaca ou
resultante de atitudes punitivas das divindades ou seres superiores. 
Apesar de podermos
duvidar da profundidade ou da diversidade de conhecimentos dos 
aplicadores da primitiva medicina, a eficcia de muitos tratamentos  
fato inquestionvel.

Data, por exemplo, de tempos imemoriais a utilizao de uma lama especial 
para muitos casos de afeces cutaneas, bem como o uso de teias de aranha 
em
cortes e feridas, com resultados positivos, Embora ainda no fosse do 
conhecimento
do homem primitivo, hoje sabemos que os produtos naturais indicados acima 
contm
uma espcie de elemento protetor quase to eficaz quanto a penicilina. 
Certamente que
so surpreendentes para todos ns conhecimentos primitivos quanto  
eliminao da
dor, ao estancamento de sangue,  assepsia ou s tcnicas operatrias, 
porque no h
dvida de que de alguma forma eles existiram.

--O tratamento primitivo e as deficincias

Comprovadamente tanto a existncia quanto o tratamento de males diversos 
no seio das populaes primitivas e pr-histricas sempre estiveram 
ligados  magia.

A prpria trepanao--ou seja, a abertura de um orificio em alguma parte 
do cranio--indica uma crena primitiva quase que demonolgica ou maligna 
de origem desconhecida de certos males fisicos ou mentais. No entanto, o 
tratamento dos feiticeiros ou mgicos daquelas pocas incluia, alm de 
cerimoniais com evidente simbologia, providncias de natureza objetiva, 
muitas vezes hoje utilizadas em tratamentos de
urgencia ou tratamento mdico regular, como o calor, o frio, a sangria, 
os banhos, a
suco, dentre muitos outros meios que apenas podemos imaginar.

Conforme referimos anteriormente, a massagem, certamente descoberta
por mero acaso num momento perdido de dor na histria do homem, levava--
como
sempre levou--a uma sensao de alvio; assim tambm a proximidade com o 
calor do
fogo, ou o amortecimento em contato com o gelo ou neve. O uso eventual de 
uma erva-- semelhana do que fazem certos animais em momentos de dor--
pode ter levado
a alvios pouco esperados.

Cada povo ou cada tribo, por experincias acumuladas e por observaes
prprias, foi desenvolvendo seus prprios meios de tratamento de males. 
Por uma questo de sobrevivncia da raa apenas, cuidados um pouco 
diferenciados podem ter sido
dados s mes e aos recm-nascidos--desde que perfeitos e, conforme as 
circunstancias,
desde que do sexo masculino.  quase certo que uma criana nascida com 
aleijes ou
aparentando fraqueza extrema ter sido eliminada de alguma forma, tanto 
por no apresentar condies de sobrevivncia, quanto por crendices que a 
vinculavam a maus espritos, a castigos de divindades ou mesmo por 
motivos utilitrios.

Os primeiros auxlios prestados pelos homens primitivos foram 
relacionados a leses do tipo traumtico, como as feridas, os 
dilaceramentos causados por pedras, espinhos, flechas, lanas, garras ou 
presas de animais caados, todas elas provocadoras de perda de sangue ou 
de fraturas. As circunstancias da ocorrncia desses fatos ou
acidentes certamente levaram os companheiros ou a prpria vtima a buscar 
na natureza
que os cercava os remdios necessrios. A compresso normalmente feita 
pelas mos e
as protees por ataduras primitivas estavam includas nessas 
providncias iniciais.

Ressaltemos que os homens pr-histricos, assim como os nativos de cer
tas tribos existentes hoje em dia, dispunham de armas de curto alcance, 
tanto para caar como para se defender, sendo a maioria delas de efeito 
contundente (bastes, marretas, porretes, tacapes ou algo semelhantes. 
Essas armas e seu uso contra outros homens
tambm levavam  existncia de contuses ou de ferimentos srios que nem 
sempre causavam a morte. Assim, seja durante um ataque ou uma operao de 
defesa contra inimigos racionais, ou mesmo durante uma caada, o homem 
atingido por uma flechada, por
uma pancada mais forte ou por garras afiadas, era socorrido--como no 
poderia deixar
de ser --pelos companheiros, que o abrigavam ou cuidavam dos ferimentos 
por meios
rudimentares e naturais, e o levavam de volta ao ncleo de habitao, 
onde recursos
maiores deveriam existir. Em alguns casos o indivduo gravemente ferido 
no falecia,
mas podia ficar vitimado por uma seqela qualquer e se tornava limitado 
para a atividade principal da qual originalmente participara: a caa ou a 
guerra.

--O destino das pessoas deficientes na Pr-Histria

O que sucedia a esse homem? Ele fora valente, respeitado e til ao grupo,
mas a partir de ento no tinha mais utilidade. Seria ele mantido pelo 
grupo na esperana de voltar  atividade? Seria ele utilizado em funes 
menos exigentes de perfeito dominio da fora e do fisico? Seria ele 
levado s planicies ou s armadilhas para, num ltimo gesto de 
colaborao com o grupo, servir de isca para animais ferozes? Aceitaria 
ele
funes menOs briosas, ao lado de mulheres e crianas?

Nada disso sabemos. S conjecturas podem ser feitas e talvez com boas
oportunidades de estarem certas.

Lembremo-nos que, de acordo com o progresso lento da humanidade e o
gradativo dominio dos ambientes e da natureza, certas funes comearam a 
existir: os
fabricantes de cestos ou de armadilhas, os preparadores de peles para 
vrios fins, os fabricantes de esteiras e de vasos para armazenamento de 
gua, dentre muitas outras coisas. Por que um homem brioso, valente, 
lutador, corajoso, no poderia ter sido usado
para esses fins, seja provisoriamente, seja permanentemente?

Dos periodos mais adiantados da Pr-Histria para os dias de hoje, na
Era Neolitica, vasos e urnas foram sendo decorados das mais variadas 
maneiras e com os
mais incriveis motivos. Foram encontrados em alguns desses vasos ou urnas 
homens com
evidentes sinais de deformidades de natureza permanente, sendo algumas 
delas conseqentes de mal-formaes congnitas: corcundas, coxos, anes e 
amputados. Isso nos
indica que desde pocas as mais remotas as deficincias e mesmo as 
deformidades de
nascimento ou adquiridas por traumatismos e doenas j eram um verdadeiro 
flagelo da
humanidade. Indicam-nos tambm esses objetos da primitiva arte neoltica 
que esses
homens sobreviviam at a idade adulta e poderiam ter algum valor, seja 
por motivos de
supersties, seja por real utilidade, para merecer sua representao num 
utenslio permanente e de vital utilidade para os grupos sociais de 
ento.

2. Culturas Mesoliticas e Neolticas mais Recentes

Muitos daqueles que se interessam por pessoas deficientes ou por grupos
minoritrios em culturas pr-histricas e em culturas primitivas dos dias 
de hoje, seja
por falta de maiores informaes, seja devido a uma projeo das 
tendncias subjetivas
de cada um, consideram inevitvel generalizar a aplicao de 
procedimentos adotados
por muitos sculos e defendidos at em uma lei bsica de Roma ou em 
costumes adotados em Esparta, que determinavam a eliminao de crianas 
nascidas com deficincias
fisicas. No entanto, esses procedimentos no foram e nunca poderiam ter 
sido generalizados ou generalizveis.

Muitos dos hbitos e costumes adotados em culturas muito mais antigas
que a nossa so at hoje aceitos por povos bastante primitivos que vivem 
uma vida praticamente ao nivel dos antigos homens das pocas conhecidas 
como neolticas. Alguns deles referem-se aos seus componentes mais 
fracos, mais idosos ou defeituosos.

Exemplos concretos, coletados por antroplogos pacientes, podem de fato 
ser citados s dezenas.

--O porqu das atitudes face a grupos minoritrios

Na abalizada opinio de antroplogos e mesmo de historiadores da 
medicina, pode-se observar basicamente dois tipos de atitudes para com 
pessoas doentes, idosas ou portadoras de deficincias: uma atitude de 
aceitao, tolerancia, apoio e assimilao e uma outra, de eliminao, 
menosprezo ou destruio.

Na primeira, as pessoas que esto  margem do grupo principal devido a
doenas, acidentes, velhice ou defeitos fisicos so em geral aceitas das 
mais variadas maneiras, incluindo-se a tolerancia pura e simples, 
chegando at ao tratamento carinhoso,
ao recebimento de honrarias e  obteno de um papel relevante na 
comunidade.

Na segunda, todavia, essas mesmas pessoas so destruidas tambm de
formas variadas, incluindo-se desde o abandono  prpria sorte em 
ambientes agrestes
e perigosos, at a morte violenta, a morte por inanio ou o prprio 
banimento.

Esses mesmos antroplogos e historiadores observam que as encontradias 
atitudes positivas e de aceitao no correspondiam necessariamente a 
raas mais
cultas, experimentadas ou evoludas.

Na verdade, o que sucedia com os grupos que precisavam coletar alimentos, 
pescar e caar era que, apesar de haver um bom tratamento para com 
doentes e deficientes e mesmo para com os mais idosos de seus membros, de 
um modo especial na
garantia da alimentao, o grupo maior tinha necessidade de livrar-se do 
peso que significavam as dificuldades na movimentao geral quando do 
escasseamento da caa, da
pesca e dos outros tipos de alimentos. Problemas muito srios surgiam com 
a mudana
para regies mais frteis e mais promissoras.

Essa atitude  bem diferente daquela da destruio habitual e sistemtica 
adotada por grupos primitivos mais complexos dedicados  agricultura e 
tambm ao
pastoreio e uma incipiente pecuria. A causa principal da destruio das 
pessoas era
evidentemente ,econmica, face  quase inutilidade das mesmas. No 
entanto, observa-se tambm que a partilha de alimentos nesses mesmos 
grupos parece ter declinado
em importancia com os gradativos progressos verificados na agricultura e 
no pastoreio.
Foi exatamente nesses grupos que aos poucos comeou a surgir a caridade 
organizada,
em seus primeiros sintomas.

--Atitudes de aceitao, apoio e assimilao

Vejamos, por exemplo, povos primitivos que adotam atitudes de apoio,
assimilao, aceitao ou tolerancia para com pessoas portadoras de 
deficiencias, problemas mentais ou velhice:

-- Aona: Os Aona residem ainda hoje  beira do lago salgado de Rudolf, no
 Qunia, numa ilha conhecida como Elmolo. De nmades que eram,
 transformaram-se em pescadores. Segundo eles acreditam, os cegos
 mantm relao direta com o sobrenatural e os espritos do sobrena tural 
moram no fundo do lago salgado e previnem diretamente os ce gos quanto 
aos locais onde h peixe. Assim, os cegos sempre partici pam das 
pescarias primitivas, levando em considerao a lana atira da por eles 
que so sempre bem tratados e respeitados.

-- Azande -- Trata-se de um povo muito primitivo que habita as florestas 
situadas
 entre o sul do Sudo e o Congo, caracterizando-se pelo seu nomadis mo 
espordico. Todos os componentes dessa raa acreditam muito
 em feitiaria. No entanto, no chegam a relacionar defeitos fisicos e
 anomalias com intervenes sobrenaturais. Crianas anormais nunca
 so abandonadas ou mortas. No lhes falta carinho dos pais ou de
 parentes mais prximos. Segundo antroplogos estudiosos de seus
 costumes, dedos adicionais nas mos ou nos ps so bastante comuns
 e eles se orgulham de os possuir.

-- Ashanti -- Habitam a parte sul de Gana, a oeste da Africa, totalizando 
mais de
 um milho de membros. Quando constituiam um reino prprio era
 costumeiro enviar  corte crianas com defeitos fsicos para serem
 treinadas como arautos do rei. Esses mensageiros com deficincia
 fisica eram destacados para misses delicadas, como, por exemplo, a
 iminncia de guerras com tribos vizinhas. Em geral a mensagem do
 rei Ashanti era incisiva e terminava com um recado do arauto: "se
 esses termos no forem aceitos, poderei ser morto agora mesmo".

No entanto, parece que isso no acontecia, pois limitavam-se os inimigos 
a cortar um dos dedos do arauto, o que equivalia a uma declarao de 
guerra. Alm dessa perigosa misso, os arautos eram tambm utilizados 
como inspetores sanitrios ou coletores de impostos.
Eram igualmente usados como bufes e tinham o privilgio de dizer a seus 
mestres o que bem entendiam. Foram tambm usados
como espies.

-- Dahomey
Entre os habitantes mais antigos do Dahomey atual, localizado na
Africa Ocidental, sempre foi considerado como fato costumeiro--apesar de 
singular na grande maioria dos povos primitivos -- que
as autoridades conhecidas como "condestveis do Estado" fossem
selecionadas principalmente entre pessoas portadoras de deficincias
fsicas ou sensoriais. Em vrias aldeias do pas crianas nascidas com
anomalias fisicas srias eram tidas como protegidas por agentes 
sobrenaturais especiais. Segundo crena popular, essas crianas existem
para trazer sorte  aldeia. No entanto, em tempos passados, o destino
de muitas delas dependia de alguns sinais supostamente sobrenaturais
que podiam decretar seu abandono  beira de um rio.

Pessoas deformadas ou portadoras de deficiencias no so mortas
nem abandonadas nas aldeias dos Macri, nativos da Nova Zelandia.
Elas sobrevivem, embora com dificuldades, pois no encontram muito apoio 
e chegam mesmo a receber tratamento ou apelidos de natureza desagradvel.

-- Ps Negros
Tribo praticamente extinta da Amrica do Norte, entre os Ps Negros 
cuidava-se bem de familiares com deficincia. Essas pessoas
eram responsabilidade do prprio grupo familiar, mesmo que isso
chegasse a acarretar sacrifcios

Ponap
Nas ilhas Carolinas Orientais, entre seus primitivos habitantes 
pertencentes  tribo dos Ponap, crianas com defeitos fisicos ou 
evidentes
sinais de retardo mental sempre foram bem tratadas como se fossem
normais.

Semang

Entre os nativos da raa Semang, habitantes de parte da Malsia, s
pessoas que se movem com o auxilio de um basto ou de uma muleta, devido 
a um defeito fisico ou  cegueira,  que so procuradas
para conselhos ou para decidir disputas. Trata-se de uma tribo Negrito, 
muito primitiva, que ainda vive em cavernas ou em abrigos de
folhas.

Truk
Para os nativos da ilha Truk--uma das Carolinas , as pessoas portadoras 
de deficincias das mais diversas naturezas e tambm as pessoas
muito idosas que no podem prover seu prprio sustento ou que

dependem necessariamente dos outros--so consideradas como suprfluas. No 
entanto, esses aborgenes no tomam qualquer providncia para sua 
segregao ou eliminao.

-- Xagga
(ou Chaggal)
Nas fraldas do monte Kilimanjaro, ao norte da Tanzania (leste da
Africa), vivem os nativos do grupo Xagga. No seio dessa tribo primitiva 
ningum se atreve a prejudicar ou a matar crianas ou adultos
com deficincias, pois segundo acreditam, os maus espiritos habitam
nessas pessoas e nelas se aquietam e se deliciam, o que torna a 
normalidade possivel a todos os demais.

-- Tupinambas -- Entre os nossos antigos indios da grande raa Tupinamb 
do sculo
XVI, o adulto doente ou deficiente por ferimentos graves de guerra,
de caa ou devido a acidentes da vida na floresta era deixado  vontade 
em sua cabana, praticamente sem contato algum com o restante
da tribo. Ficava sem comer se assim o desejasse, pois podia pedir 
alimentos, que lhe seria fornecido pelo tempo que achasse necessrio,
mesmo que pelo resto de sua vida. O que em geral acontecia, porm,
por posicionamento do guerreiro ferido, era que acabava morrendo
 mngua.

--Causas das atitudes de abandono, segregao ou destruio

Alguns dos povos primitivos a respeito dos quais obtivemos informaes
no se preocupam ou no se preocupavam (conforme o caso) com as pessoas 
deficientes
em termos de vida ou de morte, mas tomavam atitudes discriminatrias 
contra elas, como nos casos ainda hoje verificados dos habitantes da ilha 
de

-- Bali

-- Os nativos da ilha de Bali, na Indonsia, esto tradicionalmente im
pedidos de manter contatos amorosos com pessoas muito diferentes
do normal, ou seja, albinas, retardadas, hansenianas, e em geral com
pessoas portadoraS de defeitos fsicos srios ou problemas mentais.

Por vezes, no entanto,  a presso pela sobrevivncia que determina 
certas tomadas de posio quanto a pessoas idosas, doentes ou 
deficientes.  o que acontece com os indios

-- Chiricoa

Eles habitam as matas colombianas e mudam-se com facilidade ou de
acordo com as exigncias para sobrevivncia do grupo. Esses ndios,
tanto quanto certas tribos do Caribe antigo tambm o faziam, abandonam 
pessoas muito idosas ou incapacitadas por doenas ou por
mutilaes por ocasio de suas mudanas. Cada membro da comunidade 
carrega tudo o que pode levar e transportar pela selva, e que 
considerado como estritamente necessrio. Essas pessoas deficientes
ou muito velhas e doentes terminam seus dias abandonadas nos antigos 
sitios de morada da tribo, por no poderem se movimentar ou
por no serem consideradas como fundamentais para a sobrevivncia do 
grupo.

Em alguns casos pesquisados, o abandono e a morte por opo do prprio 
indivduo idoso, doente ou portador de deficincia sria, para benefcio 
da tribo
ou mesmo da raa, tambm acontecem.  o caso observado entre os

-- Esquims

-- Entre os esquims mais antigos que mantiveram contatos com 
missionrios franceses nos sculos XVII e XVIII nos territrios 
canadenses de hoje, as pessoas idosas ou deficientes eram deixadas, por 
sua
propria orientao e muitas vezes por sua prpria escolha e vontade,
num local mais propcio e prximo dos pontos onde todos sabiam
ser a rea de convergencia continua e de aparecimento de ursos brancos, 
para serem por eles devoradas. Segundo acreditavam, os ursos
brancos eram considerados como animais sagrados e de grande utilidade 
para a tribo e que deviam manter-se sempre bem alimentados.
Assim, sua pele mantinha-se tambm em timo estado para, quando
mortos, bem agasalharem a populao.

Existem relatos de abandono mais evidente e aberto, ou um tanto velado,
como no caso dos Tupinambs, acima indicado. O abandono intencional 
ocorre com os

- Esses indios so seminmades e de lingua Guarani, e habitam nas selvas 
da Bolvia, prximo ao Brasil. Para eles a doena e a incapacidade
fisica, bem como a velhice, podem levar ao abandono e mesmo 
morte com certa freqncia, devido a constante movimentao da
tribo. O mesmo sucede com os pertences ou com a cabana de algum
que morre, que so destruidos pelo fogo.

--O exterminio de pessoas deficientes

A maioria dos povos primitivos, no entanto, indicava o extermnio como
soluo para o problema de crianas ou adultos com deficincias fsicas 
ou mentais. Vejamos alguns casos mais marcantes

-- Ajores -- Os ndios Ajores vivem ainda hoje como nmades, em regio 
panta nosa, entre os rios Otuquis e Paraguai, nos isolados confins da 
Boli via e do Paraguai. So ndios orgulhosos do Gran Chaco. Devido ao
 nomadismo, todos os recm-nascidos com deficincias, ou mesmo
 aqueles no desejados, so enterrados juntamente com a placenta, ao
 nascer. Os velhos Ajores, ou aqueles que devido s circunstancias fi 
caram deficientes, so enterrados vivos, por solicitao prpria ou
 mesmo contra sua vontade. Consideram alguns esse tipo de morte
 altamente desejvel, pois a terra os proteger contra tudo e contra
 todos.

-- Creek -- Velhos doentes e vtimas de males crnicos eram mortos por 
miseri crdia. Acreditavam os Creek que esses velhos ou doentes poderiam
acabar por cair nas mos do inimigo e sofrer muito mais. Os demais
idosos sempre foram respeitados e mesmo reverenciados por todos os
componentes da tribo.

Entre os indios Dene, do Noroeste do Canad, bem como junto aos
esquims da regio e algumas tribos da Sibria antiga, era costume
eliminar pessoas incapacitadas seja por idade, seja devido  deformidade 
apresentada Eram abandonadas nas planicies geladas de seus
imensos territrios.

O infanticidio acontece com freqncia na tribo dos Dieri que ocupa 
algumas regies do Centro da Austrlia. Dele so vtimas no apenas 
crianas que nascem com defeitos fisicos, mas tambm, por motivos de 
ordem social, os filhos de mes solteiras. No entanto, nessa
e em vrias outras tribos australianas, o respeito pelos idosos  
constantemente citado pelos antroplogos que se dedicam ao seu estudo.
Em quase todas as tribos da Austrlia os velhos so respeitados como
lderes e como conselheiros.

Trata-se de uma tribo da Nigria, na qual as crianas que nascem com
deformaes no sobrevivem. Elas so abandonadas nas matas ou nos
lugares ermos onde logo encontram a morte. Acreditam os nativos
Jukun que as crianas com defeitos fsicos so tomadas, ainda no
ventre da me, por espritos malignos.

Os nativos da raa Masai so os sempre elegantes, magros e muito altos 
componenteS de uma definida origem nilo-hamitica nmade. Eles
tiram a vida das crianas recm-nascidas que se apresentam muito
fracas ou que j apresentam deformaes ao nascer.

Os mdios Navajos, aparentados dos Apaches e formadores da maior
raa indgena norte-americana, no passado distante no permitiam
que uma criana com defeito fsico sobrevivesse. Ela era asfixiada ou
afogada, abandonada no meio do mato ou ocasionalmente queimada
viva. Mesmo hoje em dia os Navajos no se sentem muito  vontade
diante de pessoas com deficincias, por considerar em seu ntimo
que elas esto fora da harmonia das foras da natureza e que o contato 
com elas acabar trazendo desarmonia na vida de cada um.

Conhecido grupo tnico de indios norte-americanos, existem famlias 
Ojibwa residentes ainda hoje nas ilhas Parry (Canad) que acreditavam(e 
que talvez ainda acreditem) que pessoas com defeitos fisicos eram 
feiticeiras e que sofriam com seus problemas fisicos porque
os seus poderes de cura acabavam voltando-se contra elas mesmas.
Essas pessoas com deficincias podiam ser acusadas de feitiaria e se
fossem condenadas eram mortas a pauladas.
-- Slvia -- Nas matas fechadas da selva amaznica vivem os ndios 
Slvia, em
 extino. Eles costumam dar a morte aos fisicamente deficientes por
 serem considerados como elementos claramente marcados por espri tos 
malignos.

-- Saulteaux -- Pertencentes  grande raa dos Ojibwa, os Saulteaux esto 
espalha dos tanto pelos Estados Unidos quanto pelo Canad, na regio dos
 Grandes Lagos e tambm do lago Winnipeg. Pensavam esses ndios
 que as pessoas com deficincias fsicas eram possudas por espritos
 malignos, o que levava a tribo a mat-las. Eram tambm consideradas
 como verdadeiras ameaas aos deuses que, com sua morte, man tinham-se 
pacificados e contentes.

-- Uitoto
-- Segundo costume observado pelos integrantes dessa tribo do alto
Amazonas, a sudeste da Colombia e nas proximidades do Peru, o
recm-nascido era sempre submerso num riacho prximo  sua aldeia,
por alguns segundos, a pretexto de sua limpeza e tambm para verificar 
sua resistencia fisica. Segundo acreditavam, caso a criana no
fosse suficientemente saudvel e bem constituda, melhor seria morrer 
naquela hora do que passar uma vida toda de atribulaes para si
e para sua famlia, devido  fraqueza ou  deficincia fsica. No caso
especfico de ser portadora de alguma deformidade durante seu
crescimento, o feiticeiro da tribo declarava abertamente que ela havia 
sido vtima de algum mau espirito, podendo causar malefcios para toda a 
aldeia. A esse pretexto ela acabava sendo eliminada.

-- Wageo
-- Entre esses primitivos habitantes da Nova Guin, as crianas com 
deformidades fisicas eram enterradas logo aps o seu nascimento. No
entanto, se a deficiencia ocorresse durante a vida, as vtimas eram
tratadas com cuidado e mesmo com carinho.

-- Xagga
- Muito embora os Xagga jamais procurassem se livrar de uma criana
ou de um adulto com defeitos fsicos ou problemas mentais, conforme vimos 
anteriormente, tinham atitude diferente face ao nascimento de uma criana 
defeituosa. A parteira, ou o prprio pai, tinham o
direito de tomar uma deciso quanto  vida ou a morte de um beb
nascido com deformidades, no prprio ato do nascimento, se as 
circunstancias assim o recomendassem.

Nota-se nessas vrias culturas aqui citadas que muitas vezes a no-
sobrevivncia ocorria mais devido  presso causada pelas dificuldades na 
obteno de alimentos ou mesmo de auto-suficincia e agilidade para 
cuidar de si mesmo em hora de perigo, quando no devido a questes de 
utilidade do componente do grupo. H vrios casos de eliminao de velhos 
ou de deficientes devido  ignorancia das causas dos males
considerados como misteriosos, ou por medo das divindades vingativas que 
poderiam
estar envolvidas ou mesmo interessadas.
No entanto muito raramente a rejeio ou a morte ocorriam devido a
atitudes de ostracismo ou de discriminao intencional que, segundo nos 
parece, so
produtos de civilizaes mais sofisticadas.

--A pessoa deficiente como objeto de ridculo

Um exemplo da pessoa deficiente como objeto de ridculo nos  citado
por Wolfensberger:

Entre os Aztecas da poca de Montezuma (1466  1520) havia uma espcie de 
jardim zoolgico na capital do Imprio, Tenochtitln (hoje Mxico, D.F.), 
que
chegou a impressionar os homens do conquistador Corts pela sua 
organizao e variedade de animais. O que mais chocou os homens 
espanhis, porm, foi o fato de Montezuma ter em instalaes separadas 
homens e mulheres defeituosos, deformados, corcundas, anes, albinos, 
onde eram apupados, provocados e ridicularizados.

Infelizmente em quase todas as culturas que indicamos restavam s pessoas 
marcadas pela incapacidade ou pela idade apenas duas alternativas: 
resignao 
situao ou a morte.

--O povo Inca e as trepanaes cranianas

Embora no possa absolutamente ser considerada como primitiva, nem
de carter mesolitico ou neolitico, a cultura Inca ser aqui inserida 
como uma nota especial, devido ao inusitado e surpreendente conhecimento 
que conseguiu acumular e
que vale a pena aqui lembrar.

O povo Inca habitou regies do atual Peru desde pocas que certamente
datam de 1.000 anos antes de Cristo, com os povos originais que formaram 
a cultura
Paracas. Estudos feitos por diversos especialistas da cultura Inca 
concluem que, mesmo
antes da descoberta da Amrica, esse povo j desenvolvia um incrvel 
padro de medicina e de cirurgia. Um dos indicativos mais srios a esse 
respeito est no enorme acervo
de cranios encontrados nos tmulos de vrias cidades Incas daquelas 
pocas, com sinais
evidentes de terem sido objeto de trepanao ainda em vida, e muitos 
deles com sinais
de sobrevida, pelo crescimento centrpeto do osso perfurado.

Supe-se que muitos dos povos que praticavam a trepanao -- e seus
indicios surgem em todos os quadrantes da Terra--eram levados a ela por 
dois tipos
bsicos de motivos: devido a um problema de perigo de vida causado por um 
traumatismo craniano, ou uma solidamente arraigada crena de origem 
misteriosa que indicava como certa a localizao de maus espritos na 
cabea do individuo.

A crena de que males ou enfermidades eram causados por deuses vingativos 
ou enfurecidos, ou por maus espiritos, sempre existiu desde pocas pr-
histricas,
principalmente devido ao fato de os antigos habitantes da Terra 
desconhecerem as causas dos males. No entanto, quando se analisa os 
procedimentos e os mtodos curativos
de alguns povos como  o caso dos Incas verificamos que essa posio no 
pode ser
generalizada. No h muita lgica nas suposies de que nesse conceito 
cheio de mistrio da origem dos males como castigo, maldio, magia 
negra, possam ser inseridos os
procedimentos de tratamento usados nas intervenes cirrgicas, nas 
amputaes, nas
trepanaes, nas correes de defeitos congnitos, por exemplo.

Na cultura Inca nota-se que incises muito bem feitas denotam um 
conhecimento quase perfeito do mapeamento do sistema nervoso, pois 
cirurgias efetuadas do
lado esquerdo do cranio destinavam-se a resolver problemas de paralisias 
do lado oposto
do organismo, segundo nos provam especialistas no assunto.

Nota-se pelo raciocinio lgico que, apesar de no dominarem o 
conhecimento das causas de certos males, os curandeiros ou os feiticeiros 
dominavam para seu
prprio uso os procedimentos e as tcnicas incipientes de tratamento 
fsico. Usavam,
sim, o fetiche, o amuleto, o palavreado misterioso, a fumaa cheirosa, o 
que no passava, na maioria dos casos, de um certo conforto psicolgico 
para o doente.

As trepanaes entre os Incas das pocas anteriores ao descobrimento 
esto ligadas, em grande parte, a males incapacitantes. Dentre eles 
cumpre destacar os
traumatismos cranianos por armas contundentes, os tumores internos e as 
infeces.
Muito embora alguns dos estudiosos que analisam as cirurgias cranianas 
antigas e genericamente reconhecidas como trepanaes, achem tratar-se de 
simples meios para
facilitar a saida de espritos malignos e prejudiciais que tinham entrado 
na cabea da
vtima, h cientistas que, ao se debruar sobre cranios trepanados com 
muita cautela
e muito espirito cientfico, admitem como causas dessas cirurgias to 
srias quanto
perigosas, a dor, o vomito, a vertigem, as dificuldades de deambulao, a 
afasia, a cegueira, as convulses e outros males incapacitantes. Sem 
esses sintomas  muito dificil imaginarmos a ocorrncia de uma cirurgia 
dessas propores e que demandava -- como ainda hoje demanda--tantos 
cuidados na recuperao do doente.

--As deficincias fisicas h mais de 20 sculos na Califrnia

No Museu de Antropologia da Universidade da Califrnia existem ossos 
descobertos na regio de Bodega Head, a 70 quilmetros aproximadamente ao
norte de Golden Gate, So Francisco. So esqueletos de 44 indivduos que 
fazem
parte de um acervo de achados arqueolgicos de aproximadamente 2.200 
anos. Eles
nos trazem dados de um passado surpreendente e muito distante, quanto  
forte incidencia de certos males que, agravados pela falta de tratamento, 
levavam a situaes
de incapacidade naquela regio de natureza litoranea. Essas informaes 
preciosas
foram levantadas graas aos especialistas em paleopatologia que , como 
verificamos
anteriormente, o estudo das doenas conforme ocorreram na vida das 
populaes passadas.

Num interessante artigo a respeito, James G.Roney Jr. d-nos informaes 
como estas:

-- Dos 44 esqueletos encontrados e analisados, 20 (ou seja, 45% do total) 
apresentam
sinais de condies patolgicas parcial ou totalmente incapacitantes para 
uma vida
plena. Quais eram esses males? Artrite, periostete, osteomielite, 
fraturas e anomalia
congnita. Todas elas so encontradas nos esqueletos dos individuos 
adultos de mais
de 20 anos de idade presumiveis.

-- A artrite, segundo Roney, e suas leses nos esqueletos em pauta 
atingem no s a
rea lombar, mas tambm eventualmente o trax, a regio sacro-ilaca, os 
ombros, os
joelhos, os dedos das mos e dos ps e mesmo a rea cervical.

Vejamos algumas observaes a respeito de um dos esqueletos estudados:
"Nmero 7969: Adulto do sexo masculino, 35-39 anos de idade ao morrer, 
tinha osteoartrite na espinha cervical, torxica e lombar e nas juntas 
sacro-ilaca e nos joelhos" . . .
"Alm disso ele tinha periostelite em ambas as tbias nas superfcies 
medial e lateral" .."Apresentava duas anomalias congnitas: uma costela 
bfida e espinha bfida no sacro. Tinha tambm fraturas solidificadas do 
quarto e quinto metatarsos direitos".

Apesar de tantos problemas-- e com eles tantos e to fortes sofrimentos--
foi um individuo que alcanou uma faixa etria elevada para o grupo em 
questo.

O mesmo estudo indica que um dos esqueletos apresenta sinais evidentes
do mal de Pott, com trs costelas em forma de cunha e com a 
caracterstica formao
encurvada da espinha dorsal.

Segundo Roney, as fraturas ocorriam basicamente devido a atividades de
caa e de pesca, talvez devido a quedas nas rochas escorregadias muito 
caractersticas
daquela regio de beira-mar da Califrnia.

No nos resta dvida de que diversos adultos do grupo analisado viveram
anos a fio com dores atrozes e limitaes de severidade variada. Mas vale 
a pena ressaltar
que muitos dos esqueletos sem qualquer sinal de males incapacitantes eram 
de indivduos abaixo de 19 anos (so 11 ao todo) e abaixo de 1 ano (6 ao 
todo). Talvez esse dado
nos indique que os males aqui mencionados fossem conseqentes a 
atividades de caa e
pesca, bsica para a sobrevivncia do grupo.
CAPTULO SEGUNDO
A PESSOA DEFICIENTE DENTRO DAS CULTURAS ANTIGAS
Muito embora seja difcil encontrarmos traos de civilizao ou de 
sociedades melhor organizadas em pocas anteriores ao ano 4000 a.C., o 
homem conseguira
j nas vrias fases de eras muito remotas e sem memria da chamada Pr-
Histria, trabalhar em criaes e descobertas que foram de extremo valor 
para o estabelecimento de
facilidades na vida dos grupos humanos. Dentre essas quase que 
"invenes"  necessrio
que"destaquemos a utilizao e o controle do fogo, as armas de mdio e 
longo alcances,
incluindo nelas at as lanadeiras de pedras, a utilizao prtica da 
roda, as embarcaes,
as armadilhas para prender animais selvagens, as roupas para melhor 
proteo de seu corpo, cestos para transportar e armazenar bens, as 
ceramicas utilitrias, e tambm as residncias mais seguras e mais 
confortveis. O homem dominou igualmente os primeiros
passos na utilizao de alguns poucos metais bsicos.

No entanto, essas adaptaes, descobertas e verdadeiras invenes muito
criativas ocorriam de um modo geral em pequenos grupos de familias e nem 
todas elas
eram conhecidas e bem dominadas em todos os grupos espalhados pelas 
muitas regies
ocupadas pelo homem.

Por volta do quarto milnio antes da nossa Era comearam a surgir grupos 
bem maiores de homens nas regies da Mesopotamia, no Egito e tambm no 
vale
do famoso rio Indo. Esses grupos eram de alguma forma organizados e 
capazes de rpidos progressos, tanto em sua organizao bsica quanto no 
aprimoramento das habilidades manuais.

Muito embora a preocupao bsica com a sobrevivncia levasse todos os
grupos ao desenvolvimento de trabalhos relacionados  alimentao, ao 
abrigo e  defesa
dos seus componentes, est fora de dvida que neles tambm as artes, os 
ofcios e o que
poderia ser chamado hoje de primeiros ensaios da cincia surgiram aos 
poucos e se firmaram; muito lentamente tornou-se notria a diferena 
entre os artfices e aqueles indivduos mais qualificados por funes 
consideradas como vitais para o grupo: os que cuidavam das construes, 
os que entendiam das doenas ou dos ferimentos, os observadores
e entendedores dos corpos celestes e todo o seu significado misterioso, 
os que se dedicavam aos elementos da natureza,  criao das crianas,  
troca de bens, aos mistrios do
mundo,  ordem,  defesa e tambm aos seres superiores.

Fator de mais rpido e seguro progresso do homem primitivo foi o 
estabelecimento gradativo de alguns cdigos de comunicao e de 
armazenamento de informaes. A inveno da escrita, por exemplo, foi de 
notvel utilidade e deve ter sido contemporanea com a instalao dos 
primeiros grupos mais civilizados no Egito. E foi por
meio da escrita, cada vez melhor elaborada, que o homem conseguiu 
documentar sua
evoluo e transmitiu melhor aos demais os segredos que ia desvendando no 
mundo que
o cercava. Tabunhas assirias e papiros egpcios de aproximadamente 3.000 
anos antes
da Era Crist nos do algumas informaes sobre incipientes profisses e 
sobre normas e
regulamentos que o povo devia obedecer.

Mas nem tudo estava necessariamente ligado  natureza ou a suas 
manifestaes na vida diuturna do homem. Sua existncia era muito sofrida 
e repleta de problemas que no tinham solues fceis. E ainda por cima 
surgia um elemento que o deixava sempre medroso: o desconhecido. 
Fenmenos da natureza, males incontrolveis e
outros eventos foram levando o homem na direo daquilo que hoje 
conhecemos genericamente como "magia". Esta foi aos poucos sendo 
transformada em "religio" e desta foram surgindo pensamentos mais 
elaborados, ou seja, o raciocnio filosfico. Este
tipo de encadeamento de pensamentos acabou levando  cincia, ou seja, ao 
mtodo
cientifico.

Segundo autores diversos, a magia nada mais  do que uma errnea 
associao de idias e suas leis no se baseiam em observaes muito 
precisas. Baseiam-se,
sim, em observaes eventuais e tambm no desejo existente nas pessoas de 
concretizar
atos ou fatos em geral, que esto fora de seu alcance.

A idia de divindade e de seu significado como origem de tudo foi 
deixando a magia de lado, embora esta no tenha desaparecido at os dias 
de hoje. E os
deuses--ou seja, essa mesma divindade transformada em seres de boa ou de 
m ndole
- eram animadores, verdadeiros donos e gestores do cu, das nuvens, dos 
troves e raios,
da terra, dos ventos, da luz, da chuva, da gua, do sol, da lua, do fogo, 
sendo imaginados
de acordo com esses mesmos elementos.

Dentre os grupos de homens mais evoludos e dominadores de maior volume 
de conhecimentos das Eras Pr-Histricas, os que formaram as incipientes 
civilizaes do Egito e da Mesopotmia so muito mais antigos do que 
quaisquer outros de que
tenhamos notcia, talvez 5.000 anos que antecederam a Era Crist. Os 
primeiros indcios
da cultura grega surgiram muito depois, talvez pelo ano 2000 a.C. . A 
cultura romana
por sua vez apenas floreceu a partir do sculo VIII a.C. .

Por que a humanidade evoluiu mais e com rapidez maior no Egito e na
Mesopotamia? Por uma srie de razes bastante concretas, sendo a mais 
significativa a
fertilidade das terras banhadas por rios generosos.

A fertilidade do solo na regio da Mesopotamia, por exemplo, era sempre
assegurada pela cheia de seus rios, provocada principalmente pelo degelo 
das neves que
cobrem as montanhas de grandes altitudes do interior do Oriente Mdio. 
Havia tambm
o prprio esforo dos povos que ali habitavam, construindo diques, melhor 
utilizando o
fluxo das guas vindas pelos canais naturais de irrigao. Peixes eram de 
uma fartura sem
par, aves das mais variadas espcies habitavam a regio e animais ali 
viviam em grandes
manadas. Alm disso, a terra era muito frtil, levando o homem a cultivar 
com facilidade
o trigo, a cevada, o arroz e outros cereais e frutas.

Lutas comearam a ocorrer pelo domnio de terras frteis e dessas lutas
surgiram dominios cada vez maiores e suas conseqncias: escravos, muitas 
vezes marcados como tal. Os poderosos senhores defendiam-se com homens 
armados que aos poucos
foram se definindo em unidades organizadas e essas em exrcitos. A 
religio floreceu sob
a proteo desses donos de imensas glebas, muitas vezes para proteger 
seus interesses. Da
mesma forma sucedeu com o mundo dos comerciantes.

E as classes sociais foram aos poucos tambm sendo definidas: potentados 
e seus protegidos diretos de um lado, e do outro os lavradores, os que 
cuidavam de
animais, os artfices, os escravos ou subjugados, todos sujeitos a 
entregar ao senhor (rei,
monarca, fara, emir, imperador, chefe absoluto, no importa o nome) 
parte de sua produo, ou seja, os tributos.

Nessas condies de certa segurana, o comrcio -- ou seja, a troca de
bens --comeou a florecer, principalmente ao longo dos caminhos ou  
beira dos rios
navegveis. Surgiram ento os aglomerados de casas ou de abrigos.

No caso da Mesopotamia sabemos que ela se transformou quase que 
imediatamente num ponto de forte atrao para essas trocas vitais de bens 
e de informaes.
Cereais eram trocados por prata ou cobre; tecidos eram trocados por 
marfim; madeira
por utensilios usados em casa. Os meios de troca no eram suficientes 
para a variedade
of erecida, o que levou  criao de outros meios de pagamento. Uma das 
conseqncias
desses contatos de homens vindos de muitas paragens estranhas foi a troca 
de informaes, levando  acumulao de conhecimentos e ao domnio de 
invenes e de idias novas, o que beneficiou evidentemente os moradores 
fixados nos aglomerados ou cidades.

No  dificil deduzir que, ao estudarmos as culturas mais significativas 
da
antigidade e que mais se relacionaram com a formao de nossa prpria 
cultura, no
poderemos deixar de ressaltar as provenientes dos milnios de experincia 
do Egito e da
Mesopotamia --enfatizando principalmente o povo hebreu--em muitas de suas 
fases de
desenvolvimento, anteriores ou posteriores a Cristo. Alm delas, jamais 
poderemos nos
esquecer do muito que herdamos dos gregos e dos romanos.

No ligeiro passar por esses to distantes tempos vividos na histria dos
povos que tiveram significado na definio de nossa prpria cultura e 
civilizao, procuraremos voltar nossa ateno de um modo todo particular 
para os problemas decorrentes
de deficincias fisicas ou mentais, alm de muitos males limitadores ou 
causadores de
marginalidade, e o que eles podem ter significado para as pessoas e para 
as sociedades de
ento. Algumas referencias so esporadicamente encontradas quanto ao 
problema que
esses males representavam e quanto ao tratamento a eles dispensado. 
Documentos das
mais variadas naturezas referem-se a eles sob angulos variados e por 
vezes incomuns.

Assim, nossas citaes e informaes devero limitar-se aos mesmos sem
muitos comentrios, procurando deixar ao leitor a liberdade de anlise 
dos usos, das leis,
das obras de arte, do envolvimento da medicina e de outras cincias, de 
fatos histricos,
de personalidades famosas que conseguimos coletar por esse rpido passar 
pela histria
dos egipcios, dos hebreus, dos gregos e dos romanos.
54

1. Os Egpcios e seus vizinhos

A civilizao egipcia, conforme comentamos,  das mais antigas da 
humanidade. Quando falamos de Egito Antigo  bom que frizemos estarmos 
nos referindo a
quase 5.000 anos de evoluo anteriores, contemporneos e posteriores a 
Cristo; e nele,
durante muitos sculos, as classes sociais foram representadas pelos 
nobres, sacerdotes,
guerreiros, escribas, mercadores, artesos, lavradores e escravos. Estes 
ltimos eram, em
geral, povos mantidos em cativeiro ou prisioneiros de guerra.

O desenvolvimento da civilizao egipcia acha-se fortemente vinculado a
fatores geogrficos e climticos favorveis e relacionados  regio onde 
ela se instalou.
Trata-se de uma extensa rea--o vale do rio Nilo--localizada entre o 
Mediterraneo, o
Mar Vermelho e o deserto de Saara que foi ocupada muito vagarosamente por 
tribos que
viviam da caa, na Era Neolitica. Seus descendentes l se fixaram, 
agrupados em famlias
que dominaram aos poucos as peculiaridades da regio e a natureza por 
vezes hostil. Diminutos principados, separados uns dos outros, foram as 
incipientes comunidades espalhando-se devido ao dominio da agricultura, 
dos instrumentos que facilitavam o trabalho
com a terra, das armas para a caa, para o ataque pessoal ou para defesa 
do grupo. Como
na Mesopotamia, pequenas propriedades comearam tambm a se agregar em 
propriedades mais extensas; diminutos reinos independentes, chamados 
"nomos", sob o dominio
absoluto de seu lder, comearam a existir. Com o passar dos sculos, 
dois grandes reinos
surgiram: o do Norte e o do Sul. Por volta do ano 3000 a.C. o reino do 
Sul conquistou
o do Norte, sendo estabelecida uma liderana nica de um rei absoluto, um 
fara, considerado a prpria encarnao do deus Hrus.

Essa civilizao apresentava uma organizao social e econmica muito
prpria e com uma sociedade toda hierarquizada, sendo que o fara--deus 
entre os vrios deuses ficava bem acima da pobre humanidade.

Das classes sociais a dos sacerdotes era a mais poderosa, como  fcil de
se deduzir, pois era ela que defendia a pretensa divindade do fara e a 
sua intocabilidade. Os grandes templos, como os de Amon, chegaram a ter 
milhares de sacerdotes e terras teis que chegaram a representar quase um 
dcimo de toda a terra frtil do Egito.

Essa situao toda era mantida pelos guerreiros que, evidentemente, 
tinham uma das melhores posies na sociedade egipcia, com os privilgios 
decorrentes.
Os escribas, por sua vez, eram mdios e pequenos servidores. Tinham 
posio invejada
pelas camadas mais baixas da sociedade, ms mantinham-se firmes em sua 
posio devido  sua imprescindibilidade na sociedade egipcia.

As atividades ligadas  produo de bens eram desenvolvidas por artfices 
e
por camponeses, ajudados pelos escravos. A estes cabiam os trabalhos mais 
pesados para
evitar o desgaste rpido dos bois. Coube aos escravos trazidos pelos 
guerreiros em suas
inmeras campanhas de conquista, a construo de diques, de templos, de 
palcios, de
piramides, de monumentos. Alm disso, eram tambm usados para bombeamento 
de
gua para os canais de irrigao durante a poca das secas muito severas.
Os mercadores, por sua vez, negociavam a grande produo armazenada
nos anos de fartura, provocando trocas por mercadorias no produzidas no 
Egito com
naes vizinhas e amigas.

Muitas atividades artezanais sempre foram desenvolvidas no Egito, em
oficinas prprias ou no lar, incluindo nelas a fabricao de diversos 
tipos de tecidos, especialmente do linho, sandlias de papiro, ceramicas, 
jias e muitos outros produtos.
A produo artesanal de maior significado, no entanto, sempre foi a de 
rolos de papiros.

--A ateno mdica no Egito Antigo

Apesar de no existirem referencias muito expressas sobre o assunto, por
muitas dinastias da Histria Egpcia a ateno a pessoas que apresentavam 
indicios de
males graves ou de deficincias fisicas e mentais, fossem elas 
conseqentes a malformaes congnitas, acidentes ou infortnios das 
guerras, circunscreveu-se aos membros da
nobreza, aos sacerdotes, aos guerreiros e seus familiares. Todos eles 
podiam ser objeto
das atenes dos sacerdotes especializados nos chamados "Livros Sagrados" 
sobre doenas e suas curas.

Quanto ao atendimento mdico s camadas menos favorecidas da populao, 
sabe-se, por alguns documentos, que em dias prefixados os doentes eram 
transportados ao templo, onde sacerdotes mais jovens ou em formao davam 
seu atendimento
gratuito. Era atravs dessa clinica ambulatorial incipiente que os jovens 
sacerdotes colocavam em prtica os conhecimentos contidos nos livros e 
aprendiam a prtica da arte da
medicina - exclusividade sua. E era nessas clinicas para os pobres que 
tambm treinavam a arte da cirurgia. Os numerosos e estranhos 
instrumentos descobertos nos templos
pelos egiptologistas deviam pertencer a esses locais de atendimento  
pobreza.

Para o novo sacerdote o ensino da arte mdica podia durar muito tempo,
dependendo do interesse e da prpria inteligncia do aluno. E quando seus 
mestres julgavam que estava pronto para a iniciao independente, o novo 
mdico-sacerdote jurava
solenemente no ensinar a ningum os segredos dos livros sagrados. Os 
mdicos-sacerdotes que conseguiam chegar ao final desses estudos e da 
prtica requerida neles e passar
pelas provas finais eliminatrias contra os quatro elementos (gua, 
terra, fogo e ar),
transformavam-se numa importante personalidade: faziam parte do alto 
clero, podiam
usar a peruca de Osiris e o manto branco dos sbios. Seus servios eram 
muito caros.

Assim, no  de admirar que muito poucos conseguiam ter um mdico
para cuidar de seus males. Membros das classes de rendimento mdio 
precisavam contentar-se com alguns charlates ligados  seita da deusa 
Sekhmet e que faziam parte de um
clero inferior. Esses sacerdotes, em geral, haviam tentado inteirar-se da 
cincia dos livros
sagrados, sem o conseguir, mostrando-se dessa forma indignos e 
incompetentes. Nesses
sacerdotes inferiores, entretanto, predominava uma notria experincia.

Como nos casos da China e da India, os templos egipcios sempre foram
cercados por verdadeiros jardins botnicos, sendo um dos piedosos 
exerccios dos candidatos a mdicos-sacerdotes, durante sua formao, 
cuidar das platibandas dos templos,
todas elas plantadas com flores ou arbustos de poderes curativos, 
utilizados tanto pelos
detentores da mais alta sabedoria quanto pelos experimentados mdicos-
sacerdotes da
deusa Sekhmet.

De um modo geral as camadas mais pobres da populao do Egito, tais
como os lavradores, os artesos e os escravos, dispunham de pouquissimos 
recursos e ficavam  merc de improvisadores, de exorcistas ignorantes 
que vendiam amuletos e feitios aos trabalhadores e suas famlias. 
Dependiam tambm de algumas pessoas que pela
vida afora haviam acumulado certos conhecimentos quanto aos efeitos de 
poes, ungentos, sangrias e medicamentos naturais.

A rica e muito diversificada experincia dos mdicos-sacerdotes egipcios,
que era sempre acrescida de novidades provenientes de reinos e estados da 
Mesopotmia,
nunca chegava s camadas mais pobres da populao.

--A medicina egipcia e os males incapacitantes

A medicina s surgiu no Egito no final do Velho Imprio e, em grande
parte, acabou sendo um produto importado da Mesopotamia. Mas o povo 
egpcio foi um
dos primeiros a se preocupar em fazer, na Histria do Mundo, um registro 
de sua medicina, inclusive da medicina cirrgica. Em papiros recentemente 
descobertos e decifrados,
revela-se que os egipcios chegaram a tentar operaes cranianas, 
operaes no rosto e at
na coluna vertebral, apesar da medicina daquelas eras ter sido quase que 
totalmente emprica.

Na verdade, o sistema de medicina pr-cientfica que mais vestgios 
deixou foi o egpcio. Uma srie de princpios mgicos e falsos o 
informava, alm de haver
nele inserida uma srie de normas de higiene impOstas a todos os 
habitantes. A medicina
egpcia pairava entre o mstico e o prtico. Seus mdicos-sacerdotes 
usavam poes, linimentos, cataplasmas, mel, sal, oleo de cedro, cascas 
de rvores, oleo de camomila, chifre
de veado, excrementos, entre outros produtos, aliados a oraes, 
oferendas, sacrifcios,
alm de uma indispensvel f nos deuses invocados. Herdoto (484 a 425 
a.C.), o chamado "Pai da Histria", comenta com frases de muito respeito 
sobre os mdicos-sacerdotes de Tebas e de Mnfis, tal a sua competncia.

A medicina egpcia muito colaborou para garantir ambientes mais limpos
e mais sadios nas aglomeraes urbanas, pois dela emanavam orientaes 
para quase tudo o que poderia afetar a sade pblica e privada, tais como 
os enterros, a limpeza das
casas, os banhos, a disposio e eliminao dos dejetos humanos e outras 
mais.

Segundo os mdicos do Antigo Egito as doenas graves e as deficiencias
fisicas ou os problemas mentais graves eram provocados por maus 
espritos, por demnios ou por pecados de vidas anteriores que deviam ser 
pagos. Dessa maneira no podiam
ser debelados a no ser pela interveno dos deuses, ou pelo poder divino 
que era passado aos mdicos-sacerdotes que s vezes tinham meios para 
chegar a esse desiderato. Em
sua teraputica usavam as preces, os exorcismos, os encantamentos, 
somados a poes,
pomadas, elementos ou tambm a eventuais cirurgias.

Existem alguns papiros que so excelentes referncias quanto  arte 
mdica egipcia e quanto  forma como ela cuidava de alguns problemas 
incapacitantes.
E dentre eles cumpre que destaquemos o Papiro de Ebers, o de Edvvin Smith 
e o de
Brugsch.

--Os famosos papiros e os problemas de deficincias

O papiro de Ebers, que hoje  patrimnio da Universidade de Leipzig,
tem o comprimento de pouco mais de 20 metros--talvez o correspondente a 
110 pginas--e foi descoberto no Egito em 1873, na necrpole de Tebas, 
pelo egiptlogo Ebers,
que imediatamente o traduziu.  provavelmente o mais considervel de 
todos os documentos escritos sobre a medicina egpcia. Contm numerosos 
pequenos tratados que
remontam a quinze sculos antes de Cristo, com frmulas para tratar 
doenas as mais
variadas, incluindo algumas que podem levar ao estabelecimento de uma 
deficiencia fsica ou sensorial, como males dos olhos, problemas de 
ouvido, dos membros, dos vasos,
da cabea. Alm disso, inclui tpicos importantes sobre ferimentos, 
queimaduras, fraturas e outros. H receitas contra a conjutivite, 
hemorragias do globo ocular e esquimoses
perioculares. H indicaes de operao de catarata. Nenhuma outra 
cirurgia, entretanto,  nele indicada.

Nesse famoso papiro de Ebers existe um tratado chamado de "Livro de
Uchedu" no qual h trechos que falam com clareza a respeito da surdez.

O papiro de Brugsch, propriedade do Museu do Estado (Berlim), foi 
descoberto nas proximidades de Zaqqarah. Data do sculo XVI a.C. e nele 
existem 204
prescries de remdios. Ali, dentre as muitas receitas, o leitor 
encontrar algumas contra dores nos olhos e tambm contra a surdez. Uma 
delas  pomada para uso local, cuja
frmula  a seguinte:

Planta "ank" . . .
Blsamo ......
Planta "ma " . . .
"Plast" .......
Gordura animal

Dos trs papiros relacionados  arte mdica no Egito o mais importante
 o de Edwin Smith, que fala sobre cirurgia no Antigo Egito, em especial 
da cirurgia dos
ossos, em casos de srios problemas ortopdicos. Os casos e exemplos so 
citados sistematicamente nesta ordem: queixa, exame, diagnstico e 
veredito.

Esse papiro, incompleto como foi achado, pertence  Sociedade Histrica
de New York e tem apenas quatro metros e 68 centmetros de comprimento. 
Foi adquirido em Luxor, no ano de 1862, pelo prprio Edwin Smith. Segundo 
seus analistas, foi
copiado h 3.600 anos atrs, embora contenha matria j conhecida no 
Egito h mais de
4.000 anos. Seu autor parece ter sido um hbil cirurgio, alm de um 
perfeito observador. Supe-se que o tratado original lidava com a 
cirurgia de todo o corpo, mas o fragmento
encontrado analisa apenas cirurgias da cabea, do pescoo e do peito. O 
autor menciona
fraturas tratadas com talas, fala sobre reduo de deslocamentosda bacia 
e sobre sutura
de ferimentos. Acham alguns autores que o papiro de Edwin Smith foi 
escrito pelo mdico Imhotep, que sculos aps sua morte foi transformado 
no padroeiro egpcio da arte
de curar, e mesmo no deus da medicina.

--As deficincias fsicas no Antigo Egito

Se de um lado os ossos pre-histricos nos do certeza da existncia de
males incapacitantes nos muitos milnios de vida do homem primitivo, 
conforme vimos
antes, de outro, os remanescentes das mmias, os papiros e a arte dos 
egpcios apresentam-nos indicios muito seguros no s da antigidade de 
alguns males, como tambm da
maneira como alguns ferimentos eram cuidados e das vrias formas adotadas 
para o tratamento das doenas.

A paleopatologia tem tido um campo muito frtil nas terras do Egito,
onde mais do que em qualquer outra parte do mundo, as tcnicas de 
embalsamamento
conseguiram sucesso na conservao dos corpos. Tem sido exatamente nesses 
corpos embalsamados que os cientistas tm podido reconhecer ferimentos 
graves, processos degenerativos, fraturas e vrias outras leses que 
fornecem abundante material sobre a medicina egpcia.

Segundo muitos autores, provavelmente o povo egipcio foi o mais saudvel 
da antigidade, devido  sua dieta vegetariana e tambm  amplido de 
seus muitos
dias ensolarados. No entanto, o exame patolgico de algumas mmias tem 
comprovado
que vrias doenas graves chegaram a atingir duramente o povo egpcio e 
uma delas era
uma infeco dos olhos que muitas vezes levava  cegueira. O Egito chegou 
a ser conhecido por muito tempo como a "Terra dos Cegos", tal foi a 
extenso e a gravidade desse
problema .

--Os males que levavam a deficincias fisicas

Dentre as leses descobertas atravs dos exames feitos em mmias ou em
esqueletos do Egito Antigo, cumpre que destaquemos aquelas que provocam 
em suas
vitimas leses mais limitadoras, levando o homem a tornar-se temporria 
ou permanentemente limitado em suas atividades:


--artrite crnica
--espondilite deformante
--Mal de Pott
--p varo equino
--hidrocefalia
- gota
--osteosarcoma
--fratura
--amputao
Convm ressaltar que em boa porcentagem do vasto material estudado
pelos paleopatologistas, as leses em esqueletos revelam de um modo todo 
especial a
presena da artrite crnica, com forte incidncia na coluna lombar.

Sir Armand Ruffer, uma reconhecida autoridade no assunto, analisou
mmias nos museus de Alexandria e do Cairo e notou diversas leses srias 
em algumas
delas. Ao escrever a respeito de suas concluses afirmou: "As leses que 
descrevemos
no poderiam ter sido produzidas em povo no-civilizado, pois os doentes 
morreriam de
inanio antes que as mesmas chegassem ao ponto que chegaram e sua 
existncia  a melhor prova do alto grau de civilizao atingida pelos 
antigos egpcios" (Apud Riad).
- Casos concretos de leses incapacitantes

Vejamos alguns exemplos de leses provocadoras de deficincias fsicas
que chegaram at nossos dias devido  existencia das mesmas em mmias, 
esqueletos ou
obras de arte de naturezas vrias:

- No ano de 1910 vrios cientistas ???estuu.,vas descreviam a mmia de um 
sacerdote
do deus Amon, da XXI Dinastia (aproximadamente sculo X e XI a.C.). O 
corpo
apresenta indicios claros de ter sido vtima do Mal de Pott, com um forte 
deslocamento da coluna vertebral. Registre-se que vrios outros casos do 
mesmo mal foram
igualmente identificados, dentre os quais salientamos alguns registrados 
na arte egpcia,
como segue:

Mmia de um nobre (XII Dinastia - aproximadamente sculo XIX a.C.), 
localizada
num behssimo tmulb de Beni-Hassan, com leses que indicam o atingimento 
das regies cervical inferior e dorsal superior; em outro tmulo (XVIII 
Dinastia--aproximadamente sculo XIV a.C.),existenteem Tel-el-Amarna, 
podemos observar uma pintura mural na qual h um nobre com leses nas 
regies dorsal superior e lombar; num
tmulo existente em Tebas (XIX Dinastia--aproximadamente sculo XIII 
a.C.) podemos admirar uma pintura que representa um jardineiro com 
evidentes sinais do Mal
de Pott levando agua a um elevador do lqido.

Em Beni-Hassan podemos tambm admirar a esttua de um ano com as pernas 
defeituosas, com forte arqueamento.

-- Casos de ps tortos ou cados existem diversos. Dois deles so de 
anes mumificados
que se encontram em Beni-Hassan. Existem tambm figuras de anes com os 
dois ps
tortos ???Ivaros eqinos) em outro tmulo de Tel-el-Amarna. H no Museu 
do Cairo a famosa mmia do fara Siptah IXIX Dinastia, ou seja, sculo 
XIII a.C.), com o p esquerdo visivelmente deformado.

-- Uma esttua da XI Dinastia (por volta do sculo XXI a.C.) deixa muito 
claro o problema de elefantiase nas pernas do fara Mentuhotep.
- A incidncia de fraturas e outros problemas

Quanto  incidncia de fraturas, existe um estudo de aproximadamente
6.000 esqueletos de todas as idades e de todos os periodos da Histria do 
Egito Antigo.
Segundo os resultados apurados, um em cada 32 indicam a existncia de 
fratura solidificada corretamente.

A mais comum delas  a fratura do ante-brao (31% dos casos estudados),
certamente devido a atividades desportivas ou conseqentes a acidentes 
das mais variadas ordens. Fraturas da clavicula e mesmo do fmur chegam a 
mais de 10% dos casos
(Apud Salib, Dastugue e Wells).

Muito embora a cirurgia egpcia no tenha podido sevoltarparacasosde
malformaes congnitas, h autores que afirmam que a fissura lbio-
palatal chegou a
ser atendida. Um indcio desse atendimento  encontradio numa das muitas 
mmias
examinadas, que tem uma prtese rudimentar ligada aos molares por fios de 
ouro.

-- Os anes na vida e na arte egpcias

Na cultura egpcia antiga os anes jamais foram olhados como seres 
marginalizados ou desgraados, inferiores aos outros homens. Os de 
classes mais elevadas podiam aspirar a qualquer cargo que fosse; os 
provenientes de classes mais pobres eram por
vezes adquiridos por grandes somas por faras ou ricos senhores.

Os anes da raa Dang, por exemplo, eram os mais procurados por serem
excelentes danarinos. H textos hieroglficos que a eles fazem meno: . 
. ."ele danar
como um ano diante de Osiris" (Apud Riad).

Afrescos existentes nas paredes e outros recantos dos tmulos por vezes
magnificos e algumas estatuetas sugerem-nos que havia um elevado nmero 
de anes no
Egito. Eles so em geral representados com fidelidade: corpos musculosos, 
um pouco
gordos, membros curtos, cabeas grandes, pernas por vezes arqueadas e 
muitas vezes corcundas.

Em algumas obras de arte os anes aparecem aos ps de seus mestres ou
cuidam de animais favoritos. Aparecem levando um co para passear, 
caando pssaros,
ou segurando um macaco preso; outras vezes so representados fazendo 
trabalhos de
ourivesaria ou de joalheria.

Um dos deuses do imenso panteo egipcio  representado como um ano
disforme de pernas arqueadas e aparncia feroz. Trata-se de Bs, deus dos 
combates, dos
jogos e das danas. Servia de amuleto contra todos os males devido  sua 
feira. Segundo
alguns autores, Bs personificava os sentimentos que os homens 
deficientes suscitavam,
mas basicamente como gnios bons.

Existe no Museu do Cairo um sarcfago da poca Saita (1150 a 336 a.C.)
com a famosa mmia de Talchos, representado na tampa como um ano que 
realmente
era em vida. A inscrio cita sua piedade, pois danava magnificamente em 
festas religiosas.
--Uma estela votiva dedicada  deusa Astarte da Siria por um porteiro

Uma placa de calcreo com ilustraes e palavras em smbolos 
hieroglficos e hoje em dia muito famosa entre os ortopedistas e 
profissionais de reabilitao. Ela
retrata um momento muito significativo na vida de um homem portador de 
deficincia
fsica que viveu no Egito aproximadamente 1.300 anos antes da Era Crist 
e que tinha
uma profisso de alta responsabilidade no mundo egpcio de ento: era 
porteiro, e seu
nome era Roma.

Devido  multiplicidade de verses quanto ao significado da cena ali 
retratada, nada melhor do que o prprio museu onde a pea se encontra 
para estabelecer
com clareza o seu sentido. Segundo a Ny Carlsberg Glyptotek, de 
Copenhague (Dinamarca), que  a proprietria da citada obra de arte, 
estes so os dados principais a seu
respeito:

-- Trata-se de uma estela votiva classificada como AAEIN 134, da XIX 
Dinastia e originria de Mnfis. Tendo sua parte superior cncava, ela 
mede 0,27 cm de altura por
0,18 cm de largura e sua colorao natural est parcialmente conservada.

-- Ao alto da estela est inscrita sua dedicatria com hieroglifos 
coloridos de azul:
" Deusa Astarte". E no campo principal, logo abaixo, vemos o "porteiro 
Roma",
sua esposa "Ama" e seu filho "Ptahemheb". O grupo leva oferendas  
famosa e muito conceituada deusa originria da Siria. Roma aproxima-se de 
uma pequena mesa coberta de alimentos e de flores que ele molha com 
guabenta,apresentando umpo
num vaso de p alto. Com uma postura muito digna, expressa seu pedido  
deusa nestes termos: "Receba estes bens para a tua alma".

- A esposa leva um recipiente com alguma fruta (ao que parece so 
bananas) e conduz
um antlope seguro pelos chifres. O porteiro Roma, de cabea zelosamente 
raspada,
como era costumeiro, veste uma tnica pregueada, curta e parcialmente 
transparente.
Sua perna esquerda apresenta anomalia de musculatura e o p est 
atrofiado ("ps
eqinus"), talvez devido a paralisia infantil, segundo alguns mdicos 
contemporaneos.
No pode andar com firmeza sem seu basto de apoio que durante a pequena 
cerimnia permanece preso a seu corpo por meio de seu brao esquerdo. 
Abaixo da cena,
num campo separado, temos a prece bsica e motivo da propria estela, em 
caracteres
negros semi-destruidos: "Que o rei esteja de acordo e conceda, para que 
Astarte Siria,
a soberana do cu, a senhora das duas terras, a primeira entre os deuses, 
tambm
esteja favorvel e conceda.....boa...alegria e felicidade e um bonito 
enterro
no deserto ocidental de Mnfis  alma do porteiro Roma" (Apud Koefoed-
Petersen).

- As especialidades mdicas e o problema das deficincias no Egito

Segundo Herdoto, a medicina egpcia era muito sbia. J naquelas remotas 
eras havia especialidades, pois havia mdicos para males da cabea, para 
problemas
com dentes, para dores no ventre e regies vizinhas e para males 
internos. Havia tambm
mdicos para problemas de ossos. Praticamente todos eles aprendiam e 
exercitavam a
arte da cirurgia.
O porteiro egpcio Roma e sua famlia fazem oferendas a deusa Astarte 
Sria (Estela da XIX Dinastia, originria de Mnfis--Ny Carlsberg 
Glyptotek,
Copenhague--Dinamarca)
63

Apesar de suas falhas e de seu empirismo todo, a medicina egpcia era 
famosaeamaisconhecida por sculos em todo o mundo civilizado de ento. 
Homero fez
referncias a seus mdicos e tanto Ciro quanto Dario tinham mdicos 
egpcios. Ciro, por
exemplo, mandou buscar o melhor especialista em problemas da viso com o 
Fara de
nome Ahmasis (560 a.C.), como veremos mais adiante. No entanto, pouco nos 
 relatado quanto a problemas relacionados a males deformantes, 
amputaes e paralisias.

Todo estudioso da Histria Egpcia j ouviu falar em "Livros Hermticos". 
So obras muito importantes relacionadas  arte mdica e atribudas ao 
deus Toth,
ou seja, a Hermes Trismegisto, usualmente representado por um homem com a 
cabea
de Ibis, e considerado o patrono da medicina. Dentre os famosos "Livros 
Hermticos"
h um conhecido como "Livro oos Cyranidos", que contm 24 captulos e 
apresenta um
manancial muito importante de conhecimentos. Procura voltar s tradies 
de Zoroastro, citando para cada um dos captulos uma planta, uma pedra, 
um pssaro e um peixe
que renem suas virtudes para combater os males neles discutidos. Quanto 
a problemas
que levam a deficincias so citadas as seguintes pedras com propriedades 
terapeuticas: o
berilo alivia ataques de epilepsia e tambm a nefrite; o ambar e a 
esmeralda so poderosos e muito eficientes nos males da viso.

Apesar de diminuir em importancia com o surgimento da medicina grega
no cenrio mundial, durante sculos a medicina greco-romana socorreu-se 
da medicina
egpcia; mdicos como Galeno e Dioscrides, por exemplo, mencionavam 
medicamentos
e mtodos de tratamento egipcios e faziam prescrio de remdios usados 
no Egito, graas a conhecimentos adquiridos nos templos de Ptah ou de 
Imhotep, em Mnfis.

- Conceito da medicina egipcia na Odissia, de Homero

Os egpcios no gozaram apenas de merecida fama de sbios e eruditos,
conforme bem o demonstraram viagens de alguns dos maiores sbios da 
antigidade,
dentre os quais esto Herdoto, Thales de Mileto, Pitgoras, Demcrito, 
Plato e Eudxio. Por vrios sculos desfrutaram tambm da fama de 
constituirem um povo que possuia os melhores mdicos do mundo. Homero faz 
meno expressa a isso na Odissia, escrita cinco sculos antes do 
nascimento de Cristo. Diz o seguinte em seu Canto IV:

"Neste momento, Helena, filha de Zeus, concebeu novo plano. No vinho
da cratera donde bebiam, lanou de sbito uma droga, um calmante da dor e 
do ressentimento, que fazia esquecer todos os males. Bastaria que algum 
a tragasse para que em
todo o dia as lgrimas lhe no corressem pelas faces, nem mesmo que 
morressem sua
me e seu pai em sua presena, nem diante dos olhos seu irmo e filhos 
fossem mortos pelo bronze, tais as drogas engenhosas e salutares que a 
filha de Zeus recebera em ddiva
de Polihamna, mulher de Ton, nascida no Egito, pas onde a terra, frtil 
em trigo, produz tambm smplices em abundancia, com os quais se preparam 
misturas, umas benficas, outras nocivas. Todos ali so mdicos, os mais 
hbeis do mundo, porque todos descendem do sangue de Pon" ("Odissia", 
de Homero).

Segundo a mitologia egpcia Pon era considerado como o prprio mdico 
dos deuses.

--Ansis, fara cego da IV Dinastia: sculo XXV a.C.

Herdoto fala-nos de um fara cego, sem cit-lo como lendrio. Trata se
de Ansis, que viveu muitas atribulaes como rei dos egpcios em poca 
localizada aproximadamente 2.500 anos antes da Era Crist. Em breves 
palavras o Pai da Histria informa que durante seu reinado o Egito foi 
invadido pelos etopes--vizinhos do sul--no
restando ao fara outra alternativa a no ser a fuga.

O ento jovem rei fugiu atravs dos pntanos e ali viveu refugiado 
durante a longa ocupao inimiga por nada menos do que 50 anos. Herdoto 
acrescenta que
"assim que Sabados"--o rei dos invasores--"deixou o Egito, Ansis (o 
cego) saiu da regio pantanosa onde se refugiara e retomou as rdeas do 
governo. Tinha permanecido 50
anos numa ilha por ele prprio formada com cinza e terra, pois quando os 
egpcios lhe
iam levar vveres, cada um de acordo com as suas posses, ele lhes pedia 
um pouco de cinza, que ia acumulando em mistura com a terra" ("Histria", 
de Herdoto).

- A deficincia visual na mitologia egpcia

O mesmo historiador refere-se a mais dois faras que ficaram cegos, mas
seus nomes so um tanto lendrios. O primeiro deles  Sesstris, que 
dividiu o Egito em
36 "nomos" e conquistou pelas armas todo o mundo conhecido. De volta ao 
Egito com
uma multido de cativos, foi bastante exaltado, fez construir muitos 
monumentos e
mandou executar muitas obras de utilidade pblica. Ficou cego em sua 
velhice e acabou
suicidando-se.

Seu sucessor foi Phron, que ficou cego logo aps assumir o poder.
A narrativa de Herdoto leva nos a analisar fatos bastante fantasiosos: 
"Conta-se que
tendo o Nilo transbordado dezoito cvados nessa ocasio"--correspondem a 
mais de
onze metros acima de seu leito original--"submergindo todos os campos 
vizinhos, comeou a soprar um vento impetuoso, agitando as vagas com 
violncia. Phron, numa
louca temeridade, tomou de um dardo e lanou-o no meio do turbilho das 
guas. Pouco
depois seus olhos eram acometidos de um mal sbito e ele ficava cego. 
Permaneceu dez
anos nesse estado" ("Histria", de Herdoto).

No dcimo primeiro ano, j muito arrependido, obteve do deus Nilo a
promessa de recuperar a viso, desde que lavasse os olhos com a urina de 
uma mulher
que nunca tivesse tido contato com outro homem seno com o seu prprio 
marido.

A experiencia com a urina de sua propria esposa no deu resultados.
O infeliz fara continuou a fazer tentativas, at que um dia recuperou a 
viso. Agradeceu ao deus Nilo com oferendas e tomou uma providncia 
adicional: reuniu todas as mulheres infiis aos seus maridos--inclusive a 
sua--numa cidade abandonada e mandou
incendi-la, matando a todas elas. Logo em seguida casou-se com a mulher 
que lhe devolvera a viso.
--Um coral de homens cegos para Amenhotep IV

Na XVIII Dinastia de faras egpcios, ou seja, no sculo XIV a.C.,
Amenhotep IV destacou se pelas suas fortes e persistentes tentativas de 
introduzir no
Egito o culto a um deus nico. Durante os18 anos de seu reinado combateu 
duramente
toda a pliade de deuses e deusas, incluindo o mais forte de todos eles: 
Amon.

O novo deus era representado pelo sol e seu nome era Aton. Em sua 
homenagem Amenhotep IV alterou seu prprio nome para Akhenaton (ou 
Ikhnaton), nome que significa "aquele que torna Aton feliz" ou algo 
semelhante. Fez mais, mudando
a sede imperial de Tebas para uma nova cidade planejada para homenagear 
Aton:
Akhetaton (hojeTel-el-Amarna). Foi casado com Nefertiti, tendo o casal 
gerado seis filhas, ou seja, nenhum herdeiro do sexo masculino, o que, 
segundo Neubert, talvez explique o rosto triste da rainha em contraste 
com sua beleza pura, retratado numa famosa
estatueta de 34 cm de altura, que todos conhecem.

Foi considerado um idealista, um pacifista, um revolucionrio. O clero
voltado ao deus Amon considerava-o evidentemente um hertico.

Akhenaton era um homem doentio e sofria muito com ataques epilticos,
ento considerados como evidentes sinais de contatos com o seu deus. 
Vrios historiadores dedicaram-se a esse estranho fara monoteista. 
Contam alguns deles que em sua nova
capital ele cultuava esse seu deus nico no s em pblico, mas tambm 
particularmente
e em especial quando sentia a iminencia da "aproximao de Aton", nos 
ataques de epilepsia. E, para no haver testemunhas oculares de suas 
crises quando em palcio, s
admitia cantores cegos no coral masculino do templo do palcio.

Esse coral de homens cegos cantava em tons severos a exaltao a Aton,
em um hino que passou para a posteridade e do qual destacamos o seguinte 
belo trecho:

"Quo vastos so os vossos trabalhos!
Eles esto escondidos em nossa frente,
O deus nico, cujos poderes nenhum outro possui!

Criastes a terra de acordo com o vosso corao" (Apud Encyclopaedia
Britannica ) .

Akhenaton, o primeiro rei monotesta e o que mais se destacou no Egito
em termos de idias religiosas, viveu duzentos anos depois de Moiss ter 
deixado o Egito
com seu povo tambm monotesta. . . Haveria alguma ligao entre uma 
idia e outra?
O tema da vida de Akhenaton foi bem explorado por Mika Waltari, escritor 
finlands, no
romance "Sinuhe, o Egpcio", depois transformado em magnfico filme, com 
o ttulo de
"O Egpcio".

--As penas mutiladoras no Egito Antigo

Durante os muitos sculos de sua interessante histria os egpcios 
conheceram as seguintes penalidades por crimes:
- a morte
-- os trabalhos forados

-- a mutilao (das duas mos, das partes genitais, do nariz, da lngua 
ou
das orelhas)
-- a servido
-- o flagelo

-- o jejum forado
-- a infmia

-- o confisco de bens
-- a multa

Eram penas freqentemente aplicadas e no h indcios confiaveis de que
os faras se voltassem de um modo especial para sua amenizao.

Em geral a mutilao atingia os membros ou a parte do corpo com os
quais o condenado havia cometido seu crime.

Diodoro de Sicilia, historiador grego radicado em Roma, contemporaneo
tanto de Augusto quanto de Caio Jlio Csar, afirma que cada um "pela 
punio da parte do corpo com a qual o crime havia sido cometido, portava 
at a morte uma indelvel
marca que, pela divulgao desse castigo, devia impedir outros de agir 
contra a lei"
(Apud Thonissen).

Era costumeiro no Egito Antigo mandar-se cortar o nariz da mulher
adltera, enquanto que seu cmplice recebia mil golpes de vara. Cortava-
se tambm
a lngua do espio delator, especialmente quando revelava segredos de 
Estado.

O conquistador etiope Actisanos, por exemplo, era um rei considerado
"bondoso", segundo Diodoro de Siclia. Essa bondade transparecia 
principalmente durante anos de fartura e prosperidade. No entanto, 
mostrava-se muito severo para com os
assaltantes, os criminosos em geral e os bandidos que punham a populao 
sob contnuo
terror. O famoso historiador grego afirma que "ele no condenava os 
culpados  morte,
mas no os deixava sem punio. Reunindo todos os condenados do reino, 
tomou conhecimento preciso de seus crimes; fez ento cortar o nariz dos 
culpados, mandando-os para
os confins do deserto e fixando-os numa cidade que, para lembrar essa 
mutilao, tomou
o nome de Rhinocolura (de "rhinos" = nariz e "koluros" = cortado)" (Apud 
rhonissen).

A cidade de Rhinocolura ficava prximo ao ponto em que hoje se localiza 
El-Arish, no Sinai, nas costas do Mediterraneo.

--Mdico egipcio especializado em males da viso na corte de reis persas
 
Conforme referimos anteriormente o rei Ciro, o Grande (reinou de 558 a
529 a.C), garantiu a presena contnua de mdicos egpcios em sua corte. 
E devido a graves problemas com doenas dos olhos que levavam muitos de 
seus sditos  cegueira sem muita diferena do Egito--Ciro solicitou 
tambm ao fara Ahmasis que lhe enviasse o seu melhor especialista. O 
farao atendeu imediatamente e o mdico especializado
em problemas da viso atuou na Prsia durante vrios anos, combatendo a 
alta incidncia de casos que corriam riscos srios de ficar cegos.

 morte do grande fundador do Imprio Persa, esse mdico egpcio, que
jamais conseguira perdoar seu fara por t-lo mandado  Prsia, onde 
ficara longe de sua
esposa e filhos e de seu prprio ambiente, comeou a trabalhar o jovem 
rei Cambises
(reinou de 529 a 522), filho e sucessor de Ciro, para poder vingar-se de 
Ahmasis e eventualmente voltar ao Egito. Chamou sua ateno para a beleza 
da mulher egpcia e convenceu-o a pedir a filha do fara para casar-se 
com ela. O fara, sabedor das intenes de
Cambises e achando inaceitvel mandar sua filha para viver, como 
concubina do novo
monarca, enviou em seu lugar a filha de Apries, fara por ele destronado.

A linda jovem Nittis chegou a Cambises com vestidos carssimos e cheia
de jias. Mas logo Cambises ficou sabendo do engano, pois, conforme 
relata o historiador Herdoto, "algum tempo depois, como Cambises a 
saudasse pelo nome do pai, ela
replicou: Ahmasis, senhor, vos enganou. Enviou-me ele a vs com estas 
ricas indumentrias em lugar de sua filha. Meu pai chamava-se Apries, por 
ele destronado e morto pelos
egpcios que se sublevaram sob seu comando" ("Histria", de Herdoto).

Cambises ficou enfurecido e pouco depois invadiu o Egito (em 525 a.C.)
como desforra pela deslealdade de que se sentira vtima. Deixou 
governando a Prsia seu
irmo mais novo, Smrdis. Ao vencer Ahmasis e tomar posse de todo o 
Egito, no qual
permaneceria at sua morte, encerrou a XXVI Dinastia e introduziu os 
faras da XXVII
Dinastia.

--Gaumata, um famoso mago de orelhas amputadas

O mesmo Cambises, logo ao incio de seu reinado de sete anos, mandara
um dia amputar as orelhas de um mago de sua corte devido a faltas muito 
graves. O castigo era inusitado para os magos, pois eles eram membros 
importantes da casta sacerdotal persa.

Apesar da forte marca pelo resto de seus dias, o mago castigado, cujo
nome era Gaumata, disfarou muito bem sua deficincia infamante, pois a 
circunstancia
de ser bastante parecido com Smrdis, irmo de Cambises, acabou levando-o 
a usurpar o
trono persa.

Como sucedeu o logro? Herdoto conta-nos que durante a ausncia da
Prsia em campanha no Egito, Cambises aos poucos comeou a desconfiar 
seriamente de
Smrdis, seu irmo, que havia deixado como ocupante provisrio do mais 
alto mandato
para governar a regio em sua ausncia prolongada. Sob um forte esquema 
sigiloso mandou seus oficiais de confiana matar seu irmo, o que foi 
feito sem qualquer comoo
junto s tropas persas ou junto  nobreza, pois na verdade ningum ficou 
sabendo do
hediondo crime.

No entanto, o esperto Gaumata soube do evento e apareceu em cerimnia da 
corte como o prprio Smrdis, sem qualquer surpresa, tal sua parecena 
com o
rei assassinado.
Houve tentativas frustradas para desmascarar a fraude levada a efeito por
um homem que poderia estar marginalizado devido s suas orelhas cortadas. 
Sete lderes
das melhores e mais fortes famlias persas decidiram cautelosamente 
esclarecer o assunto e
na tentativa final participou uma jovem de nome Fdima, uma das 
concubinas do falso rei
da Prsia. Ela pertencia a uma das sete famlias interessadas e, 
instigada pelo pai, verificou no meio da noite, enquanto o falso rei 
dormia, que se tratava de Gaumata (ela viu
que suas orelhas eram realmente amputadas) que continuamente disfarava o 
problema
com os cabelos longos usados ento.

E foi exatamente nesse ponto importante da Histria Persa que surgiu a
vivaz figura de Dario, jovem e audacioso nobre persa que at ento fizera 
parte da guarda pessoal de Cambises, que assumiu rapidamente a liderana 
do grupo dos sete lderes
que sempre havia desejado livrar o Imprio daquele impostor.

Smrdis (na verdade, Gaumata, o mago de orelhas amputadas) foi morto
pelo prprio Dario, tendo conseguido permanecer por sete meses no trono 
como soberano persa.

O evento foi imortalizado num famoso e estranho monumento nas montanhas 
de Behistun, a oeste do Iran, gravado em pedra a mais de 100 metros de 
altura,
com dizeres em tres linguas diferentes e em caracteres cuneiformes. Nesse 
alto-relevo,
concluido em 516 a.C., aparece Dario pisando o prostrado Gaumata, tendo  
sua frente
mais oito reis por ele vencidos. Dentre eles cumpre que chamemos a 
ateno para o ultimo da fila, de chapu ponteagudo  cabea, ou seja, o 
rei Phaortes II que foi duramente
castigado por sua resistncia s foras de Dario: teve seu nariz, suas 
orelhas e sua lingua
amputados e seus olhos vazados.

Em conseqncia do desmascaramento do falso monarca Smrdis, ocorreu uma 
verdadeira chacina geral dos magos na cidade de Perspolis. Foi ento 
instituida
a grande festividade persa que foi comemorada por muitos sculos, 
conhecida pelo nome
de "magofonia" (de "magos" = mago e "phonia" = matana).

Subiu ao trono o jovem Dario I (reinou de 521 a 485 a.C.) graas a um
truque denotador de sua criatividade e vivacidade, e que devido a um 
acidente logo ao
incio de seu reinado quase foi vtima de uma bastante sria limitao 
fisica, da qual se
livrou graas a um mdico grego, conforme veremos mais adiante ao nos 
referirmos  ex
panso da medicina grega e seus famosos mdicos.

--Zpiro; tudo pela vitria de Dario I em Babilnia

Dentre os sete magnatas persas que colaboraram para a eliminao de
Gaumata, o mago de orelhas cortadas de que falamos acima, Zpiro foi o 
que mais se
sobressaiu, tendo marcado sua existncia por uma extremada amizade por 
Dario I.

Embora fosse strapa (governador) de uma das provincias persas, colaborou 
forte e decisivamente na feroz batalha pela tomada da sempre cobiada 
Babilnia,
capital do Imprio Assirio, cujo imperador era Nabucodonosor III. Na 
verdade, Zpiro

70

viabilizou diretamente a queda de Babilonia por meio de um truque nico 
na Histria
do mundo: Fez com que seus servos o chicoteassem at o sangramento e logo 
em seguida
amputassem seu nariz e suas orelhas. Nesse lamentvel estado apresentou-
se s foras assirias e culpou Dario I por aquele "castigo". Eles 
acreditaram e o aceitaram em seu
meio. Mais do que isso, face ao dio que Zpiro demonstrava contra Dario, 
e considerando sua experincia militar, agregaram-no logo ao prprio 
sistema de defesa das muralhas, encarregando-o da guarda de dois portes 
que davam acesso  maravilhosa cidade.

Nessa privilegiada condio de comandante, ele prprio abriu o acesso s
foras de Dario que conquistaram Babilnia em 519 a.C.. E em 
reconhecimento pelo seu
feito herico e de lealdade fora do comum, Dario I deu-lhe o governo de 
Babilnia, concesso essa garantida a seus descendentes.

Lus de Cames faz meno ao feito herico de Zpiro com os seguintes
versos:

. . . "Que mais o Persa fez naquela empresa
Onde rostos e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa
Que, mil vezes dizendo, suspirava
Que mais o seu Zpiro so prezara
Que vinte Babilnias que tomara" ("Os Lusiadas", de Cames).

- A Escola de Anatomia da cidade de Alexandria: sculo IV a.C.

Ainda durante a vida de Aristteles, o grande sbio ateniense, Alexandre,
o Grande, praticamente conquistou o mundo ocidental conhecido em sua 
poca e fundou cidades cujos habitantes falavam grego e adotavam costumes 
gregos. No ano de 332
a.C. fundou no delta do rio Nilo a cidade de Alexandria, que foi por 
muitos anos o
maior centro de cultura do mundo.

Alexandria era uma cidade moderna, com suas ruas em forma de xadrez
de linhas paralelas, canais subterraneos para dejetos humanos e para gua 
servida em cada uma delas; duas avenidas principais com mais de 60 metros 
de largura e o Grande Farol--uma das sete maravilhas do mundo--eram 
algumas das caracteristicas marcantes
da famosa cidade.

O sucessor de Alexandre, Ptolomeu Soter, reinou no Egito de 323 at
285 a.C. e foi um grande protetor e promotor da sabedoria e da cultura. 
Sob seu reinado
foi criada a mundialmente famosa Escola de Alexandria. E dentre suas 
diversas unidades
destacou-se desde logo a Escola de Anatomia, inserida na Academia de 
Cincias.

A medicina egipcia--que procurava dar cobertura a males que afetavam
duramente o povo e as classes privilegiadas, inclusive a problemas de 
ossos e dos olhos,
que levavam a muitas deficincias fsicas e sensoriais--fez rpidos 
progressos cientificos
aps a instalao da Escola de Anatomia. E nela, dois nomes destacaram-se 
face  importancia de seus estudos para melhor compreenso dos males 
incapacitantes; Herophilus
de Chaludnia e Erasistratus de Kos.
 Herophilus foi um anatomista que viveu no sculo IV a.C. e um dos 
fundadores da
Escola de Anatomia. Um dos primeiros mdicos a desenvolverem exames post-
mortem, pde estudar em muitos pormenores o globo ocular e os males que 
levavam 
cegueira, como a catarata. Dentre seus diversos estudos ressalta-se 
aquele que demonstra o valor curativo da ginstica e dos exerccios 
fsicos. Ele  considerado como
o "Pai da Anatomia".

Erasistratus de Kos, igualmente do sculo IV a.C. foi tambm um renomado 
anatomista e fisiologista, co-fundador da Escola de Anatomia, ao lado de 
Herophilus. Seus
estudos levaram-no a sugerir que o excesso de sangue no corpo (chamava de 
"pletora") era a causa de muitos males, inclusive de um mal considerado 
como sagrado, que
era a epilepsia. Sua teraputica preferida era tambm o exercicio fsico. 
E considerado como o "Pai da Fisiologia".

 Os egpcios sob os olhos criticos de um imperador romano

Adriano (Publius Aelius Hadrianus -- 76 a 138 d.C.) foi imperador de
117 at o ano de sua morte. Durante sua gesto o Imprio Romano viveu 
anos de grande
desenvolvimento.

O imperador viajou durante vrios anos por quase todos os quadrantes do
vasto Imprio e no ano 130/131 esteve no Egito no s como imperador mas 
tambm
como estudioso dos usos e costumes do Egito. E, em uma carta escrita a 
seu cunhado
Serviano, Adriano afirma: "Tenho estudado bem os egpcios de que me 
falaste". . .
. ."A sua cidade  de tudo abundante, e pessoa alguma est ali ociosa, 
nem mesmo os
cegos. Um sopra o vidro; outro faz papel, aqueles tecem; todos se ocupam 
em algum
nister" ("Histria Universal", de Cantu).
2. Os Hebreus

Analisar os usos e costumes de um povo multimilenar sem conhecer um
pouco de sua histria  tarefa invivel. No caso dos hebreus, por 
exemplo, esse conhecimento torna-se muito importante para ns, face s 
estreitas ligaes que com eles temos
mantido atravs dos sculos.

Dentre elas, a mais significativa  o monotesmo. O povo hebreu adotou-o
em meio a uma tendencia generalizada ao politesmo, muito tpico das 
culturas mais antigas. Existem autores que chegam a fazer uma relao 
entre sua adoo pelos hebreus e
as tentativas do j citado fara egpcio Ikhnaton, que pregava a 
existncia de um deus
nico a seus adeptos de Akhetaton, aspirantes ao sacerdcio. No entanto, 
o monotesmo
hebreu vem de pocas bem anteriores  prpria migrao das vrias tribos 
ao Egito, ou
seja, desde o patriarca Abrao. O culto ao Deus Unico e Verdadeiro dos 
hebreus foi estruturado por Moiss e a prpria elaborao do declogo 
leva  sua sustentao. Foi esse
mesmo Deus nico (Jav) que se transformou no mais forte elo de ligao 
das doze tribos do povo hebreu atravs dos sculos.
72

Como surgiu esse sofrido povo hebreu? Originalmente alguns grupos de
famlias nomadesdeorigem hebraica, provenientes da Mesopotamia, habitaram 
a Palestina por muitos sculos. De l foram tangidas pela escassez de 
alimentos e de bons pastos
para seus rebanhos. Gradativamente dirigiram-se para as frteis terras do 
delta do rio Nilo, sobejamente conhecidas pelos mercadores e 
caravaneiros. E l entraram quase ao
mesmo tempo que os povos hicsos, tambm afastados de suas terras pela 
falta de alimentos. Ali viveram por 430 anos, mudando seus hbitos e 
passando do nomadismo para atividades de um povo mais fixado  terra, mas 
sob escravido.

Aps a expulso dos hicsos pelos exrcitos do fara, pelo ano de 1570
a.C., os hebreus perderam seu ponto principal de sustentao e comearam 
a ser considerados como indesejveis. E foi provavelmente no reinado de 
Tutms 1, morto em 1512
a.C., que os hebreus, sob o forte comando de um lder que conhecia muito 
bem as altas
esferas governamentais egpcias e seu sistema de funcionamento, Moiss, 
iniciaram seu
xodo na direo da Terra Prometida, to sonhada durante todos os anos de 
permanncia no Egito. Aquele povo buscava um retorno  sua terra 
original, terra de seus ancestrais.

Na verdade, tratava-se de um povo que havia abandonado 
circunstancialmente o nomadismo dos pastores h poucas geraes, 
dedicando-se  vida agrcola, e que
se via de certa forma forado a voltar a um quase que indesejvel 
nomadismo, na busca
da sua terra, onde poderia se instalar em definitivo. A maioria 
certamente nem imaginava que ficaria perambulando pelo deserto durante 
mais de 40 anos. . .

Aps toda a migrao pelo deserto os hebreus tiveram que enfrentar a 
resistncia natural daqueles que tinham passado a ocupar seus antigos 
territrios. As doze
tribos uniram-se para fazer frente s dificuldades e combateram os 
moabitas, os amoritas, os filisteus, entre outros.

Aps a morte do rei Salomo, dez tribos instalaram-se ao norte da 
Palestina, com sua capital na Samaria, passando a identificar-se como 
Reino de Israel. Duas
tribos ficaram mais ao sul, com sua capital em Jerusalm, constituindo o 
reino de Jud.

Com o passar de muitos sculos os hebreus foram combatidos e dominados 
pelos assrios, babilnios, persas e pelos macedonios de Alexandre, o 
Grande. Cairam finalmente sob a possesso romana em 63 a.C.

Todas essas lutas, opes, fugas, migraes foradas, dominaes, 
desterros e conseqentes sofrimentos fizeram os hebreus viverem por 
milnios em ambientes
rudes e situaes por vezes muito cruis. Essas imensas dificuldades 
vividas por um povo
to sofrido e sonhador num futuro libertador, o Messias, transparecem em 
seus cdigos
de leis e costumes antigos. Nota-se neles tambm a absoro de prticas 
adotadas por
outros povos com os quais foi forado a se relacionar. E dentre esses 
usos e costumes,
normas e leis que formaram o importante acervo cultural e religioso do 
povo hebreu, vejamos alguns que se relacionam com pessoas portadoras de 
deficincias e identifiquemos
alguns de seus lderes que viveram sob o impacto de limitaes variadas, 
especialmente
da viso e da palavra.

--No: a primeira pessoa com deficincia?

No, o dcimo descendente de Ado segundo as palavras do Gnesis, homem 
honesto (e sua arca to universalmente comemorada),  uma das primeiras 
figuras
muito humanas a ns repassadas pela Bblia, em contraposio a outras 
figuras a ele anteriores, com as de um Ado meio ingnuo, de um Abel 
sonhador, de um Caim vilo e
fratricida e de um Matusalm muito elevado em anos.

O nascimento de No nos  descrito pela Bblia (Gnesis) em palavras
muito breves. Existe, no entanto, um documento escrito em linguagem 
"apocalptica"
(repleta de sinais) conhecido como "Livro de Eno o Profeta", que parece 
ter sido escrito um ou dois sculos antes do nascimento de Jesus.  um 
documento proscrito pela
Igreja Catlica. Pois bem, nesse livro o nascimento de No  relatado em 
termos mais ou
menos msticos e nos d conta de alguns problemas bem humanos e 
concretos.

"Depois de algum tempo meu filho Matusalm escolheu uma esposa para
seu filho Lamec. Ela engravidou e deu  luz uma criana cuja pele era 
branca como a neve e vermelha como uma rosa; cujo cabelo era comprido e 
alvo como a l e cujos olhos
eram lindos. Quando os abriu iluminou toda a casa, como o sol; a casa 
toda ficou cheia
de luz".

Lamec, pai do rebento, ficou intrigado com a aparncia do recm-nascido
e no fundo da alma deve ter duvidado da fidelidade de sua esposa. Foi 
procurar seu pai,
Matusalm, a quem descreveu o menino, informando dentre outras coisas: . 
. ."parece o
fruto dos anjos do cu;  de natureza diferente da nossa, sendo no todo 
diferente de
ns"..."ele parece no ser meu, mas dos anjos".

Com as caractersticas bsicas de um albino, o beb devia realmente ser
muito diferente dos primos, tios, avs e demais parentes, todos morenos e 
de olhos escuros. E essa diferena deve ter sido considerada problemtica 
o suficiente para levar o av
Matusalm, j com 369 anos de idade, a empreender uma viagem longa e 
cansativa para
procurar seu pai, o patriarca Eno bisav do recm-nascido, retirado do 
mundo "nas
extremidades da terra".

Eno o velho patriarca, analisou a questo com a sabedoria de seus muitos
anos de vida, com o seu misticismo nato e informado por seus alegados 
contatos diretos
com Deus. Matusalm voltou sabendo que o beb era, de fato, filho de 
Lamec, que ele deveria ser chamado de No (Consolo da Terra) e com isso 
ser preparado para os eventos
que culminariam com o dilvio, 600 anos aps.

Ao discutir a eventual origem do albinismo de No, Sorsby, a quem devemos 
os textos acima do "Livro de Eno o Profeta", comenta que Lamec e sua 
esposa
eram primos em primeiro grau, sendo "o tipo comum de consanginidade em 
albinismo".

O autor citado conclui com certa dose de ironia britnica: "A 
possibilidade de No ter herdado o albinismo de um anjo cardo no 
necessita ser considerada com
seriedade. Essa hiptese levanta considerveis dificuldades genticas. 
Uma delas teria que
postular que BT'NWS" - a esposa de Lamec - I"e o anjo seriam portadores 
no-relacionados do gens numa poca em que no deveria estar amplamente 
espalhado, ou tambm, alternativamente e ainda menos plausivelmente, que 
o albinismo  mais dominante
nos anjos do que nos homens" ("Noah--an Albino", de Sorsby).

--As deficincias fsicas entre os hebreus

Para os antigos hebreus tanto a doena crnica quanto a deficincia 
fsica
ou mental, e mesmo qualquer deformao por menor que fosse, indicava um 
certo grau
de impureza ou de pecado. Tanto isso  verdade que chegou a ser 
determinado por
Moiss no seu livro "Levitico" (conjunto de normas e orientaes para os 
sacerdotes):
"O homem de qualquer das famlias de tua linhagem que tiver deformidade 
corporal, no
oferecer pes ao seu Deus, nem se aproximar de seu Ministrio; se for 
cego, se coxo,
se tiver nariz pequeno ou grande, ou torcido; se tiver um p quebrado ou 
a mo; se for
corcunda " . . .

No tratado de Bekhorot so citados oito tipos de defeitos, inclusive a
falta de orelhas, seu tamanho ou formato defeituoso, como impedimento 
para os servios do templo. A discriminao contra pessoas portadoras de 
qualquer deficincia era,
portanto, aberta e manifesta nas prprias leis. E certos livros da Biblia 
do-nos algumas
indicaes de costumes ou de ambientes, alm de apresentar relatos s 
vezes elaborados
na prpria poca, sobre os preconceitos contra pessoas e mesmo contra 
animais defeituosos.

Ser interessante saber que no verbete "defeito" da Enciclopdia Judaica
lemos o seguinte texto: "Defeito (Heb. mum)--Termo biblico referente a um 
defeito
fsico ou ritual, que exclua uma pessoa do servio do templo e tornava 
um animal imprprio para ser sacrificado. Segundo a Bblia, existem doze 
defeitos fsicos aparentes,
qualquer um dos quais desqualifica um sacerdote para o desempenho de suas 
funes
(Lev. 21:16-23), mas a "Halachah" aumenta essa lista para cento e 
quarenta e dois. Os
defeitos fsicos que desqualificam um animal para o sacrifcio tambm so 
enumerados
(Lev. 22:20-25) e aumentados para setenta e trs na Lei Rabnica. Um 
defeito temporrio desqualifica um sacerdote para sua funo e um animal, 
para o sacrifcio, apenas pelo
tempo que durar. Segundo a Lei Rabinica, por exemplo, um defeito fsico 
do marido ou
da mulher pode, em certas circunstancias, at invalidar um contrato de 
casamento".

O Levitico  contundente quanto aos homens portadores de deficincias
fisicas, afirmando taxativamente: "Todo homem da estirpe do sacerdote 
Aro que tiver
qualquer deformidade (corporal), no se aproximar a of erecer hstias ao 
Senhor, nem
pes ao seu Deus; comer todavia dos pes que se oferecem no santurio, 
contanto, porm, que no entre do vu para dentro, nem chegue ao altar, 
porque tem defeito e no
deve contaminar o meu santurio" (Lev. 21:21-23).

--A cegueira de Isaac por 80 anos
Segundo nos  colocado pelo Gnesis, o primeiro livro da Bblia, o grande
patriarca hebreu Isaac ficou cego por muitos anos. Talvez seja ele o 
homem que mais
tempo viveu numa situao de deficincia.

A bonita e por vezes empolgante histria de Isaac indica-nos que se casou
com uma linda jovem da Mesopotamia, Rebeca, que lhe gerou dois filhos do 
sexo masculino somente 20 anos aps o casamento: Esa e Jac. Eram 
gmeos, tendo Esa nascido
em primeiro lugar.

Esa era considerado como primognito, mas era um homem rude, cheio
de plos no corpo e nas mos, que se tornou caador, dedicado s 
atividades do campo e
da guerra, enquanto que Jac era um homem simples e, como diz o Gnesis, 
"habitante
de tendas". O pai preferia seu primognito pelo que era e pelo que trazia 
das caadas;
Rebeca dedicava sua ateno e carinho a Jac, protegendo-o sempre e mal 
imaginando
que ele se transformaria no maior patriarca hebreu e que um dia receberia 
de Deus o
nome de Israel ("O que luta com Deus").

Embora primognito, Esa no titubeou em vender seus direitos a Jac
sem muitos questionamentos.

Mais ou menos  poca em que estava com 100 anos de idade Isaac ficou
cego.  desta forma que o Gnesis o relata: "Ora, Isaac envelheceu e a 
vista escureceu-se-lhe e no podia ver" (Gen. 27:1).

O mesmo livro conta-nos em pormenores marcantes o verdadeiro golpe
tramado por Rebeca para obter as bnos formais de Isaac ao seu filho 
Jac. Para tanto
foi fundamentalmente importante o fato do velho Isaac estar cego, muito 
embora se
mantivesse desconfiado e estivesse muito atento quele importante momento 
da vida de
seu cl. Mesmo desconfiado, Isaac acabou dando sua bno solene a Jac 
que se disfarara com peles de carneiro pelo corpo e nas mos e vestira 
as roupas de Esa.

Mais tarde Isaac explicaria a Esa o engano e daria o veredito final: "Eu
o constitu teu senhor e sujeitei  sua servido todos os seus irmos; 
estabeleci-o na posse do trigo e do vinho. Depois disto que te posso eu 
fazer, meu filho?" Nem o fato de
ser cego e de ter-se enganado devido  deficincia visual levou Isaac a 
mudar sua posio
anteriormente assumida.

Isaac viveu at os 180 anos de idade e dessa vida toda passou 80 anos na
dependncia de Rebeca e de seus criados. No fra a vivacidade de Rebeca 
e de Jac, o
abenoado e herdeiro na grande famlia teria sido Esa, o homem rude, o 
caador, o
guerreiro. A histria do povo hebreu teria sido diferente e no teria 
evoludo da forma
como evoluiu sob a inspirada liderana de Jac.

--Moiss e suas srias dificuldades em falar com clareza

De acordo com afirmaes inseridas no livro de sua autoria, o "xodo",
Moiss foi vtima de um srio e perturbador distrbio da comunicao. 
Esse problema,
j antigo em sua vida, deve ter-se agravado num momento de forte tenso 
em que ele,
morador no deserto por muitos anos, decidiu levar seu rebanho ao monte 
Horeb para
pastar. No meio da noite calma viu uma grande touceira de sara pegando 
fogo, mas sem
queimar. Aproximando-se com cautela, ouviu uma voz que, segundo suas 
informaes,
era do prprio Deus, chamando-o para a grande misso de sua vida: tirar 
os hebreus do
Egito e conduzi-los  Terra Prometida.

A reao de Moiss, naquele momento, foi no minimo cuidadosa. Eis o
que est registrado no Exodo: "Perdoa, Senhor, eu no falo bem desde 
ontem e antes
de ontem" - quer dizer, h muitos anos - "e desde que falaste ao teu 
servo sinto-me
com mais dificuldade e mais atrasado em minha lngua".

Mas Deus contra-argumentou, segundo Moiss, com o seguinte e forte
questionamento: "Quem faz a boca do homem? ou quem faz o mudo e o surdo, 
o videnteeocego? Sou eu?"...

Deus procurou encoraj-lo tambm por outros meios para enfrentar os
desafios que se punham  sua frente, ou seja, os lderes hebreus e a 
corte do fara, chegando a demonstrar que Ele estaria efetivamente ao seu 
lado.

Mesmo assim Moiss continuou cnscio de suas limitaes quanto  
desenvoltura em falar, o que levou Deus a indicar uma soluo: o irmo de 
Moiss, Aaro,
seria seu companheiro de todas as horas, tanto para convencer os lderes 
hebreus quanto
para falar ao fara nas horas aprazadas.

Alis a figura de Aaro foi vital para o sucesso de todo o ambicioso 
projeto, uma vez que os planos, os comentrios, as novas aes e 
providncias, e mesmo os
novos argumentos eram diretamente transmitidos por Deus a Moiss e este 
os repassava
a Aaro. Por sua vez este no dispensava nunca a carismtica presena de 
Moiss e tudo
transmitia ao fara e sua corte, aos lderes hebreus e ao povo, tendo 
desempenhado essa
misso por muitos anos.

Aps diversas tentativas frustradas de tirar o povo de uma escravido 
cada vez mais opressora, Moiss queixou-se com seu Deus: "Eis que sou 
incircunciso dos
lbios, como me ouvir o farao?" Deus continuou com a mesma orientao 
operacional
at ento adotada, indicando Aaro mais uma vez como seu porta-voz: "Tu 
lhe dirs tudo o que te mando e ele falar ao fara". . .

Apesar dessa deficincia funcional de ordem bastante grave face ao papel
indicado e assumido por Moiss, ele conseguiu sair-se bem da misso, com 
a ajuda permanente de seu irmo Aaro e foi, sem dvida, uma das mais 
fortes figuras de toda a Histria dos Hebreus. Foi um grande legislador, 
profeta, mediador dos hebreus e grande lder
daquele povo que conseguiu tirar da mais negra escravido. Conseguiu ele, 
com a superao de sua deficincia e com um indispensvel carisma 
pessoal, alm de um profundo conhecimento do deserto, realizar a grande 
proeza de levar mais de meio milho de hebreus com seus pertences e 
criaes das terras do Egito at as fronteiras da Terra Prometida a Jac, 
onde nunca entrou.
--As leis criadas no deserto do Sinai

De acordo com o "xodo", durante a pica migrao de todo o povo.hebreu 
do Egito para a Terra Prometida, quando estacionado por anos a fio no 
sop do
monte Sinai, Moiss elaborou no apenas o Declogo, mas muitas outras 
determinaes,
regulamentos e leis adicionais que se destinavam a pr um fim s mazelas 
de um povo
volvel e a tentar ordenar sua vida. Assim  que havia leis e normas a 
respeito de escravos, de conflitos e suas solues, de homicdios e seus 
castigos, de roubos, de sedues,
de magia e tambm a respeito de diversos assuntos de medicina.

Moiss elaborou com muito cuidado os preceitos relacionados  higiene e
 sade de seu povo, no cenrio grandioso do deserto, lembrando muitas 
daquelas normas que ele conhecia muito bem do Egito, onde havia sido 
educado bem proximo  nobreza e aos sacerdotes. Nao , portanto, de 
espantar que apenas sobre a hansenase haja
captulos inteiros do "Levtico". E exatamente como no Egito e outros 
pases da Mesopotmia ele colocava a responsabilidade da medicina sob os 
cuidados dos sacerdotes, que
eram os Levitas.

Na legislao dos hebreus daquelas eras violentas e muito problemticas
nas quais era fundamental manter o povo unido, mas tambm disciplinado, 
apenas argumentos relacionados  vontade expressa de Deus (. . ."temers 
o Senhor teu Deus, porque eu sou o Senhor") no surtiram os efeitos 
esperados. A lei de talio, reinante em alguns pases de ento, foi 
tambm introduzida pelo lder maior, Moiss, que certamente
j conhecia o Cdigo de Hamurabi. Algumas dessas severas normas lavradas 
em pedra
muitos anos antes de Moiss existir passaram para o cdigo dos hebreus 
quase que com
as mesmas palavras.

--O Cdigo de Hamurabi: severidade vizinha dos hebreus

No Museu do Louvre, em Paris, existe o original do Cdigo de Hamurabi.
Trata-se de uma pequena coluna de 2,25 m de altura, de cor negra, em 
forma de cone, e
toda escrita em caracteres cuneiformes. Essa obra est dividida em 46 
pequenas colunas
em toda a sua volta, com 3.600 linhas escritas. Bem ao alto, num baixo-
relevo bastante
claro, o grande monarca da Babilnia apresenta-se em atitude de adorao 
diante de
Shamash, o deus do sol e das leis. O texto, segundo seus estudiosos, no 
apresenta nenhuma diviso a no ser esta: sua primeira parte relaciona-se 
a propriedades e sua segunda parte a pessoas.  a coleo mais antiga de 
leis que se conhece--bem mais antiga que
o Declogo de Moiss e que as normas por ele traadas no "Levtico", com 
o qual existem pontos de similaridade eventual. H semelhanas tambm no 
"Deuteronmio". Vejamos alguns pontos que indicam, como punio, 
amputaes.

"Eu, Hamurabi, chefe designado pelos deuses, Rei dos Reis, que conquistei 
as cidades do Eufrates, introduzi a verdade e a eqidade por todo o pas 
e dei prosperidade ao povo. De hoje em diante"........"Se algum apagar a 
marca de ferro em brasa
de um escravo, ter seus dedos cortados"........."Se um mdico operar um 
patrcio com
faca de bronze e causou-lhe a morte, ou abriu-lhe a rbita do olho e 
causou-lhe a destruio, ter sua mo cortada"... ..."Se um escravo 
disser ao seu dono: "Tu no s meu
Senhor", seu senhor provar que o  e cortar sua orelha"....: ."Se um 
homem bater
em seu pai, ter as mos cortadas"... ..."Um olho por um olho, um dente 
por um
dente. Trata-se de justia sem piedade. Se um homem tira um olho de um 
patrcio, tambm seu olho ser tirado; se ele quebrou o osso de um 
patrcio, seu brao ser quebrado.
As classes inferiores da sociedade tambm merecem compensaes. Se ele 
tirou o olho
ou quebrou o osso de um plebeu, ele dever pagar uma min de prata; se 
foi de um escravo, pagar metade de seu preo". . .

No "Levtico" h textos e palavras to semelhantes que parecem pura 
cpia. Eis um deles: "Se algum ferir o olho de seu escravo ou de sua 
escrava e os deixar
cegos de um olho, deixa-los- ir livres pelo olho que lhes tirou".."O que 
ferir qualquer de seus compatriotas, assim como fez, assim se lhe far a 
ele; quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; qual for 
o mal que tiver feito, tal ser o que h
de sofrer". A mesma linha de pensamentos encontramos no "Exodo": "Olho 
por olho,
dente por dente, mo por mo, p por p". . .

Para ns torna-se bvio que tanto entre os babilnios como entre os 
antigos hebreus sempre houve muitas pessoas marcadas por crimes 
cometidos. No entanto,
nem sempre a deficincia ou deformao fsica ou sensorial correspondiam 
a uma demonstrao de castigo por feitos delituosos ou  "troca" por 
males cometidos a outrem.
Reis, generais, lderes, soldados eram por vezes castigados por 
combaterem os grandes
poderosos e levavam consigo pelo resto de seus dias as marcas impostas 
pelos vencedores, como aconteceu com Sedecias.

--Sedecias, rei de Jud: cego por Nabucodonosor

Sedecias foi o ltimo rei de Jud. Alm de mencionado na Biblia (Segundo 
Livro dos Reis e Jeremias), Sedecias  tambem citado em diversos 
documentos e crnicas da Babilnia que relatam os principais 
acontecimentos polticos, religiosos e guerreiros dos sculos VI e VII 
a.C. sob o ponto de vista babilnico. Segundo todos esses documentos e 
relatos, Nabucodonosor, famoso rei da Babilnia, colocou Sedecias no 
trono
do reino de Jud, como substituto ao destronado Joaquim, refm mantido na 
capital do
reino babilonico.

Apesar de ter sido indicado e empossado por Nabucodonosor, Sedecias
logo comeou a conspirar contra o poderoso rei, fazendo contatos pessoais 
com diversos
monarcas dos minsculos pases e tambm com o fara egpcio. Sedecias 
tinha apenas
21 anos de idade ao iniciar seu reinado e sua inteno era empreender uma 
guerra geral
contra o monarca conquistador.

No entanto, no nono ano do reinado de Sedecias, Nabucodonosor, bem
informado das pequenas conspiraes e traies, tomou providencias 
enrgicas. Mandou

todo o seu exrcito cercar Jerusalm e l se plantou durante dois anos. 
Em 586 a.C. o
exercito sitiante conseguiu abrir uma brecha na muralha externa da cidade 
e o povo, j
sem po por muito tempo, sofreu todo o impacto da fria dos soldados 
invasores que
buscavam tesouros, que incendiavam, que matavam e que espalhavam o pnico 
para todos
os lados. Sedecias, ciente do perigo, fugiu pelos jardinsdosfundosdo 
palcio, mas foi preso.
e levado  presena do temido rei da Babilnia, em Riblah, ao lado de 
Jerusalm. Seus
filhos ainda novos foram mortos em sua presena. E segundo todos os 
documentos,
Sedecias teve seus olhos vazados ali mesmo. E quando o enorme exrcito 
movimentou-se
de volta a Babilnia, levando as ltimas levas de prisioneiros de Jud, 
Sedecias, carregado de ferros, cego e amargurado, empreendeu a mesma 
caminhada. Terminou seus dias
numa priso da Babilnia.

O Livro de Jeremias assim relata o infortnio de Sedecias: "E degolou o
rei da Babilnia os filhos de Sedecias ante seus olhos; e matou tambm a 
todos os prncipes de Jud em Riblah. E tirou os olhos a Sedecias, e o 
carregou de ferros e o rei da Babilnia o conduziu a Babilnia e o ps na 
casa do crcere at ao dia de sua morte"
("Jeremias", 52:10/11).

--O preo da paz: um olho de cada habitante

Os Amonitas, povo habitante a leste do rio Jordo, foram contnuos 
inimigos dos hebreus (na verdade daqueles que compunham as tribos de 
Israel e no as de
Jud) em pocas bem anteriores aos anos de problemas com o cativeiro da 
Babilonia, ou
seja, em pocas que beiram a um milnio antes da Era Crist. O Primeiro 
Livro dos Reis
conta-nos que Najash Amonita, ao sitiar a vila de Yabesh-Guilead, recebeu 
uma preocupada proposta da populao sitiada, para no ser dizimada. Os 
ancios da vila foram os
portadores da seguinte mensagem: "Toma-nos como aliados e ns te 
serviremos". . .

Najash Amonita, inimigo cruel ao extremo, respondeu: "A aliana que eu
farei convosco ser tirar-vos a todos o olho direito e tornar-vos o 
oprbio de todo o
Israel".

Os ancios da vila sitiada conseguiram, no entanto, o apoio de um famoso
heri da Bblia, que foi Saul. Ele conseguiu juntar, na base de violentas 
ameaas queles
que no aderissem, um exrcito de trezentos mil homens das tribos 
prximas de Israel e
mais trinta mil das tribos de Jud. Com esse impressionante contingente 
bateu decisivamente o exrcito inimigo que apavorava o pacato povo de 
Yabesh-Guilead. J anteriormente ungido por Samuel como primeiro rei de 
Israel, foi nessa oportunidade que Saul
foi confirmado como tal.

--Mais normas e o papel do mdico

Ao analisar as muitas normas que orientaram a vida do povo hebreu pelos
seus muitos sculos de existencia, notaremos que gradativamente elas 
foram entrando
em pormenores bastante indicativos das muitas ocorrncias que levavam a 
necessidade
de sua criao. No Tratado de Kidushin (stimo e ltimo tratado da Ordem 
delMishnah
Nashin, do Talmud) encontramos o seguinte trecho que nos  transmitido 
por Heiman:
"Se algum pegar um homem e lhe soprar a lorelha, d resultando a surdez, 
o agressor
ser punido de acordo com a lei. Da mesma forma, quem golpear seu pai na 
orelha e
assim provocar a surdez, ser condenado  morte, pois em conseqncia do 
ferimento,
uma gota de sangue penetrou no interior da orelha" (Apud Heiman).

Poucos so os documentos da antiga cultura dos hebreus que nos falam
sobre o progresso da medicina. Dentre eles, cumpre que faamos meno a 
alguns livros
da Bblia, ao Talmud e aos escritos de Flvio Josefo, em especial na sua 
"Histria dos
???~lohr~ ~

Alm de material escrito, alguns lderes e homens especiais que sempre
tiveram influncia sobre o povo hebreu tambm influenciaram quanto ao 
desenvolvimento de sua medicina. Esses foram os casos de alguns reis e de 
diversos profetas. Ao
que parece pelos relatos contidos na Bblia, os profetas de Israel no 
eram meros homens que previam acontecimentos (em certas pocas conhecidos 
como "videntes", conforme nos  contado no "Primeiro Livro dos Reis" ao 
relatar a histria de Saul), mas
personalidades que se preparavam muito bem para sua misso, estudando 
muito e tornando-se verdadeiros sbios, e que, exatamente por esse motivo 
e pela sua bondade, desfrutavam da total confiana do povo hebreu. E com 
a f que despertavam, chegavam
mesmo a ???re~li7~r mil~r~r~c

Muitos dos conselhos e dos preceitos deixados por homens dessa natureza
levaram o povo a moderar seu modo de agir, a alterar seus costumes e a 
respeitar tudo
aquilo que julgava vir de Deus, como, por exemplo, a importancia da 
medicina e do papel do mdico para o povo hebreu. Segundo o "Livro da 
Sabedoria" de Sirac, muito
mais conhecido como "Eclesistico", era bem alto o conceito dos mdicos 
na cultura hebria. L encontramos afirmaes como esta: "Honra o mdico, 
porque ele  necessrio;
porque o Altssimo foi quem o criou. Porque toda a medicina vem de Deus e 
receber
donativo dos reis. A cincia do mdico exaltar sua cabea e ser louvado 
na presena
dos grandes"

Esse mesmo conceito, encontradio em diversas culturas, prevalecia entre
os hebreus pelo ano 200 a.C., uma vez que essa  a idade presumvel do 
livro "EclHsisti
--As causas da deficincias entre os hebreus

Alm das deficincias ou das deformaes consideradas como conseqncias 
diretas de pecados ou de crimes, tais como a cegueira, a surdez, a 
paralisia, por
exemplo, entre os hebreus havia tambm aquelas provenientes de acidentes, 
de agresses, de participao em lutas armadas contra inimigos do povo, e 
tambm de punies
previstas em lei. Havia tambm as deficiencias que eram marcas da prpria 
escravido:
orelha ou nariz cortado, dedos ou a mo decepados, olhos vazados. Vejamos 
alnuns

exemplos:

O livro da Bblia conhecido como "Deuteronmio" corresponde a uma
espcie de repetio ou reformulao de leis e normas para o povo. Na 
verdade significa
"segunda lei". Moiss foi seu autor, nele renetindo e elaborando melhor 
???denAic rlP muitos anos do Declogo e do Levtico, os preceitos 
contidos tanto no "Exodo" quanto no
prprio livro de normas para os sacerdotes, ou seja, o "Levtico", tambm 
de sua autoria. O "Deuteronmio"  uma espcie de testamento do velho 
Moiss s bordas da Terra
Prometida. Pois bem, nesse livro encontramos um castigo severo (amputao 
da mo)
para um procedimento considerado altamente pecaminoso por parte da 
mulher: "Se se
levantar alguma pendncia entre dois homens e um comear renhir com o 
outro, e a mulher de um querendo livrar seu marido da mo do mais forte, 
estender a mo e lhe pegar
pelas partes vergonhosas, cortar-lhe-s a mo, e no te movers de 
compaixo alguma
porela" (Deut. 25:11/12).

Os castigos ou penas por faltas contra as leis de Deus e mesmo de Israel
eram por vezes muito cruis e de carater extremo. Eles correspondiam a 
alguma necessidade da prpria poca em que foram estabelecidos. Segundo o 
prprio Moiss que elaborou muitos deles, "a fim de que todo Israel, 
ouvindo isto, tema e no torne mais a fazer
coisa semelhante a esta" (Deut. 13:11). . . ou ento, "o povo da cidade a 
apedrejar e
ela morrer, para que tires o mal do meio de vs e todo Israel, ouvindo 
isto, tema"
(Deut. 21 :21). . .

Maldies sem fim so indicadas para os que no seguiam os preceitos e
uma delas era esta: "O Senhor te fira de loucura e de cegueira e de 
frenesi, de sorte que
andes s apalpadelas nas trevas e no acertes nos teus caminhos" (Deut. 
28:28/29).

O Livro dos Juizes, da Biblia,  uma obra que procurava levar o povo 
hebreu a melhor conhecer seus grandes heris, tais como Otoniel, Aod, 
Bara Dbora,
Gedeo, Jeft e Sanso. Eles procuraram libertar o povo da opresso 
constante dos inimigos e tentaram fazer com que esse mesmo povo 
observasse as leis estabelecidas.  o
Livro dos Juzes que nos relata fatos que demonstram claramente que, na 
luta pela segurana do povo hebreu, s vezes era indispensvel "passar a 
fio de espada" todos os
homens aprisionados. No entanto, existe o relato de um caso de evidente 
"desencorajamento" permanente aos ataques aos hebreus, num severo castigo 
aplicado a um lder cananeu por uma das tribos de Jud que atacara Bezec 
e l matara 10.000 homens. Nesse
relato menciona-se, no entanto, a fuga do lder Adonibezec. Mas, "indo 
eles ao seu alcance, apanharam-no e cortaram-lhe as extremidades das mos 
e dos ps. E Adonibezec disse: Setenta reis a quem tinham sido cortadas 
as extremidades das mos e dos ps, apanhavam debaixo de minha mesa os 
sobejos da comida; como eu fiz, assim Deus me fez"
(Juzes, 16:21).

Conforme vimos anteriormente, o vazamento dos olhos era um castigo 
severo, um tanto em moda naquelas regies. Existe um baixo-relevo da 
cultura assria,
muito conhecido, que nos mostra um soberano vazando os olhos de tres 
prisioneiros, um
deles ajoelhado e os outros dois, de p, puxados pelo prprio rei para 
perto de si por
meio de um fio preso aos lbios dos infelizes por argolas. Esse castigo 
desencorajava as
fugas, sem causar maiores limitaes ou dificuldades para trabalhos 
pesados. Foi o que
sucedeu com um dos fascinantes heris da Bblia: Sanso.
Conforme  ali relatado, "os Filisteus, tendo-o tomado, tiraram-lhe logo
os olhos e levaram-no a Gaza, atado com cadeias e, encerrando-o no 
crcere, o fizeram
virar a m" (Juzes, 16:21).

No seria exagerado depreender que da mesma forma eram tratados os
mais perigosos ou mais fortes inimigos e prisioneiros de guerra em muitos 
dos pequenos
ou dos grandes reinos dalantigidade. Depois de marcados pela mutilao 
estigmatizadora e cerceadora de movimentos, eram colocados a trabalhar em 
servios pesados, dos
quais no conseguiam jamais se afastar.

--A medicina dos hebreus

Conforme nossos comentrios anteriores, pouco nos  relatado pelos
diversos livros da Bblia a respeito da medicina. Sabemos, sim, que a 
cirurgia ocorria
basicamente para a circunstancia da circunciso, com uma lamina de srlex. 
Outras informaes so quase inexistentes.

Quanto ao tratamento de problemas ortopdicos, sempre houve cuidados
caseiros com bons resultados. H uma citao de Ezequiel que mostra ter 
havido na cultura hebria antiga plenos conhecimentos dos tratamentos 
indispensveis para pernas
ou braos quebrados. Diz ele em seu quarto orculo contra o Egito: 
"Quebrei o brao
do Fara, rei do Egito, e eis que no foi tratado para se lhe restituir a 
sade, nem atado com panos, nem embrulhado com toalhas, para que, tendo 
recobrado as foras,
pudesse manejar a espada" ( Ezequiel, 30 :21 ) .

--Tobias fica cego e recupera a viso: caso de leucoma?

Um dos juzes da tribo de Nephtali, Tobias viveu no sculo VII a.C. e
sua histria nos  narrada por um dos livros da Bblia. Trata-se de uma 
verdadeira
jia de delicadeza e de arte que chegou at os nossos dias graas aos 
trabalhos de So
Jernimo .

Tobias era um dos muitos hebreus desterrados em Nnive. Ele procurava
dedicar todos os seus dias  misericrdia, a fim de minorar os 
sofrimentos dos seus compatriotas.

Em certa ocasio, cansado de cavar para enterrar secretamente os mortos, 
"deitou-se junto duma parede e adormeceu e, enquanto dormia, caiu-lhe dum
ninho de andorinhas um pouco de esterco quente sobre os olhos e ficou 
cego" (Tobias,
2:1 0/1 1 ),

Temendo estar prxima sua morte, mandou seu filho que tambm se chamava 
Tobias resgatar o pagamento de uma divida na cidade de Rags, no reino 
dos Medos. Em sua viagem, ao lado de Azarias, que na verdade era o anjo 
Rafael disfarado, Tobias aprendeu dele que o fel de peixe poderia ser 
usado com sucesso como ingrediente
para remdios. Segundo a narrativa, "e o fel  bom para untar os olhos 
que tem algumas
nevoas, e sararo" (Tobias, 6:9).

Em sua volta, tendo guardado o fel de um enorme peixe que o havia atacado 
quando da travessia de um rio, Tobias tomou-o e fez a tentativa que lhe 
havia sido
indicada: untou os olhos do pai. Segundo a Biblia, esperou meia hora. E 
"comeou a
sair de seus olhos uma belida" - que  uma espcie de membrana opaca 
sobre a pupila - "como a pelicula de um ovo. E Tobias, pegando nela, 
tirou-a de seus olhos, e imediatamente recobrou a vista" (Tobias, 11:13 a 
15).

O velho Tobias viveu at a idade de 102 anos sem maiores problemas com
a vista.

--Os cegos na cultura hebria antiga

O "Levitico", nas suas normas e leis relativas  santidade,  caridade e 

justia, recomendava a todo o povo hebreu no apenas respeitar os pais, 
guardar o sbado, evitar a idolatria, a vingana, o dio, o furto, mas 
tambm que fossem respeitados
os surdos e os cegos. Vejamos o que nos diz Moiss em suas orientaes: 
"No amaldioars o surdo, nem pors tropeos diante do cego, mas temers 
o Senhor teu Deus,
porque eu sou o Senhor" (Lev. 19:14).

Por sua vez, o "Deuteronmio" recomendava aos hebreus que garantissem a 
proteo e o bom tratamento aos cegos, colocando essas atitudes positivas 
diretamente ao lado e em p de igualdade com o amor aos pais, a certeza 
da justia, a condenao da idolatria, a garantia da propriedade e 
algumas outras prticas relacionadas a
sexo e tambm a traies. Diz o chamado Livro da Segunda Lei de Moiss, 
que  o
'Deuteronmio": "Maldito o que faz o cego errar num caminho: e todo o 
povo dir:
Assim seja" (Deut. 27:18).

Todavia ser interessante saber que, apesar dessa forte nfase nas vrias
normas de conduta do povo hebreu, o cego viveu praticamente por muitos 
sculos em
absoluta degradao social, que s comeou a ser combatida sob o reinado 
do prncipe
Judah-ha-Nasin (135a 217 d.C.).

Cumpre notar que a literatura sobre o Talmud ???( Y') fala de quando em
quando sobre a sabedoria de alguns mestres e mesmo de alguns juzes 
cegos. Dentre
as limitaes de atuao a eles impostas, no lhes era permitido ler o 
Tor (Gnesis, xodo, Levitico, Nmeros e Deuteronmio) nem oficiar 
servios religiosos pblicos. No
tinham tambm nenhuma obrigao de ir at Jerusalm para suas oraes, 
nem de cumprir obrigaes religiosas que demandassem o uso da viso. O 
Talmud referia-se a esses
sbios mestres e juizes cegos por meio de um apelido afetuoso, ou seja, 
de ???"sagu~ Nehor"
(ricos em luz, ou videntes).

--Zacarias castigado por no ter acreditado em Gabriel

Um parente de Jesus foi vitima de uma deficincia passageira. Segundo o
Evangelista Lucas, na verdade foi por castigo, corroborando a idia de 
que as doenas e

( * ) O ensinamento de toda A cultura hebria tem alcanado todas as 
geraes por dois canais: a lei
escrita (a Bblia) e a oral (a Tradio). Esta foi aos poucos compilada 
pelos sbios e desse esforo surgiu o Talmud, com seus dois livros 
principais: O Mishnah (aprendizAdo) e o GuemarA (esclarecimento) .
as deficincias estavam fortemente relacionadas a castigos ou penitencias 
para pagamento de faltas ou pecados.

Zacarias era sacerdote e casado com Isabel, prima de Maria, me de Jesus.
Eram os dois considerados como justos e harmoniosos em seu modo de viver 
e no
tinham filhos, pois Isabel era estril. Lucas conta-nos: "Sucedeu que, 
exercendo Zacarias
diante de Deus o cargo de sacerdote na ordem de sua turma, tocou-lhe por 
sorte, segundo o costume que havia entre os sacerdotes, entrar no templo 
do Senhor e oferecer o
incenso; e toda a multido do povo estava fazendo orao na parte de 
fora,  hora do incenso. E apareceu-lhe o anjo do Senhor, posto em p ao 
lado direito do altar do incenso".

Zacarias ficou assustado e no sabia o que fazer. O anjo tranqilizou o
velho sacerdote e anunciou que sua esposa engravidaria. Ele reagiu como 
qualquer outro
homem reagiria: duvidou. E perguntou o bvio: "Como conhecerei que isto 
acontecer?
Porque eu sou velho e minha mulher est avanada em anos". O anjo 
identificou-se como Gabriel, "que assisto diante de Deus; fui enviado 
para te falar e te dar esta boa nova.
E eis que ficars mudo e no poders falar at o dia em que estas coisas 
sucedam, visto
que no acreditaste nas minhas palavras, que se ho-de cumprir a seu 
tempo".

Nove meses depois, nascido Joo Batista--primo de Jesus--Zacarias indicou 
numa tabuinha o nome que o menino deveria ter e imediatamente voltou a 
falar.

--As pessoas deficientes nos Evangelhos

Se continuarmos a folhear esse documento sagrado que  a Bblia, 
encontraremos tambm as narrativas relacionadas ao Novo Testamento que 
retratam uma Judia muito viva, muito real. Detectamos costumes, atitudes 
e encontramos diversas consideraes sobre pessoas deficientes ou com 
doenas muito srias. Percebemos tambm
repetidamente a crena arraigada no povo de que a maioria dos males de 
ento era tida
como conseqncia da interferncia de maus espritos ou como um castigo 
para pagamento de pecados antigos.

Passando os olhos por alguns episdios anotamos frases que eram 
destinadas a leitores daquelas pocas e que certamente aceitavam os 
posicionamentos expostos. Uma dessas frases que nos chama a ateno  
esta: "E eis que veio uma mulher que
estava possessa de um esprito que a tinha doente h 18 anos; e andava 
encurvada e no
podia absolutamente olhar para cima". Essas palavras so de Lucas, o 
Evangelista mdico, mas que naturalmente media as palavras face ao 
pblico, ao povo que precisava ler
suas pginas ou interpretar os fatos que pretendia repassar. No entanto, 
na mesma passagem, ele coloca na boca de Jesus palavras que demonstram um 
enfoque diferente:
"Mulher, ests livre de tua enfermidade" . . . Nem demnio, nem castigo . 
. . apenas
enfermidade.

No Evangelho escrito por Mateus encontramos estas frases: "E tendo-se
estes retirado, apresentaram-lhe um homem mudo, possesso do demnio, E, 
expulso
o demnio, falou o mudo" . . .
Joo 5:14

Joo 9:2

Esse mesmo Evangelista escreveu: "Quando o esprito imundo saiu de um
homem, anda por lugares secos, buscando repouso, e no encontra. Ento 
diz: Voltarei
para minha casa de onde sa" ... ... "Ento vai e toma consigo outros 
sete espritos
piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o ltimo estado daquele 
homem torna-se
pior do que o primeiro".

Na Judia Antiga, inclusive no tempo de Jesus Cristo, o destino dos 
deficientes era esmolar para conseguir sobreviver. Os cegos, os 
amputados, os paralticos
pelas mais variadas causas, ficavam expostos nos caminhos, ruas e praas. 
E pelo que se
l, deviam ser apenas tolerados. Depreendemos isso das parbolas de 
Jesus, ou mesmo
das atitudes do prprio Jesus para com eles, demonstrando que estava 
errada a forma
como eram tratados, mesmo sem expressar esse modo de pensar.

Segundo o Evangelista Lucas, o ambiente de exposio da pessoa para
esmolar era um fato concreto e percebemos isso em sua afirmativa: "Vai j 
pelas praas
e pelas ruas da cidade e traze c os pobres e os aleijados, e cegos e 
coxos". Mateus corrobora a impresso ao dizer: "E eis que dois cegos que 
estavam sentados junto  estrada" . . .

Como no poderia deixar de ser, a movimentao externa ou a simples
mudana de lugar de um caso mais srio de paralisia ou de enfermidade 
grave sempre
era dramaticamente mais difcil. Podemos imaginar a aflio de parentes e 
amigos desses doentes ou deficientes que, ao saber da existencia ou da 
presena de um rabino miraculoso nos arredores, procuravam alcan-lo por 
todos os meios. O Evangelista Marcos,
por exemplo, conta-nos: "E foram ter com ele conduzindo um paralitico que 
era transportado por quatro. E como no pudessem apresentar-lhe por causa 
da multido, descobriram o teto pela parte de baixo da qual Jesus estava 
e, tendo feito uma abertura,
arriaram o leito em que jazia o paralitico" . . .

Elgood, estudioso dos usos e costumes dos povos do Oriente Mdio,
afirma que a medicina contida nos Evangelhos e mesmo nos Atos dos 
Apstolos aceitava
basicamente tres tipos de causas para as doenas e para as muitas 
limitaes e deficincias que afligiam os homens: o castigo pelos 
pecados, a interferncia dos maus espiritos e finalmente as foras ms da 
natureza, contra os quais o poder divino era o nico
remdio--ou pelo menos era assim considerado.

Eis alguns pontos citados nos Evangelhos que ilustram essa assertiva:

-- "Depois, achou-o Jesus no templo e disse-lhe: Eis-te curado! No
torna a pecar para que no te suceda algo pior".

-- "Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse
cego? Jesus respondeu: Nem ele nem seus pais pecaram mas foi
para se manifestarem nele as obras de Deus".

Lucas 9:38-39-- "Mestre, rogo-te para que olhe para meu filho, porque  o 
nico
que eu tenho e um espirito imundo se apodera dele e subitamente
d gritos e o lana por terra e o agita com violncia, fazendo-o 
espumar".
--Os milagres de Jesus e as pessoas deficientes

Dentre os muitos documentos antigos que nos falam sobre deficiencias
ou sobre pessoas deficientes, os mais explcitos so os Evangelhos. Eles 
mostram, por
exemplo, que o povo hebreu--e com ele quase todos os povos ao seu redor--
estava
acostumado no apenas  existncia das doenas e das deficincias que 
levavam o homem a uma vida de quase certa indigncia ou total 
dependencia, mas tambm  busca
de solues naturais e sobrenaturais, quando possvel, para sua 
eliminao.

Em Jerusalm dos tempos de Jesus Cristo, por exemplo, havia bem ao
lado do templo uma piscina ou tanque destinado  purificao de animais 
que eram
sacrificados e que era por esse mesmo motivo conhecida como "piscina 
probtica"
(do grego "probatikn", ou seja, carneiro ou relativo a ovinos em geral), 
ou como
Betsaida na lngua hebraica.

As suas bordas, a despeito dos objetivos principais, mantinha-se 
verdadeira multido de enfermos, coxos, cegos e paralticos porque, 
segundo todos acreditavam, vrias vezes ao dia um anjo de Deus ali descia 
para "movimentar as guas".
Era, como se pode bem imaginar, um momento muito esperado, muito tenso, 
pois
apenas o primeiro que ali se banhasse teria seus males curados.

Foi exatamente nesse ambiente que Jesus realizou um dos seus famosos 
milagres, beneficiando um homem paraltico h 38 anos e que nunca havia 
conseguido ser o primeiro a chegar s guas de Betsaida por no ter 
pessoa alguma que
o ajudasse.

Esse foi um dos muitos milagres a ns transmitidos pelos evangelistas.
Segundo seus relatos, Jesus fez mais de 40 milagres notrios. Deles 
todos, pelo menos
21 so relacionados a pessoas portadoras de deficincias fsicas ou 
sensoriais, a saber:

- Cego de nascimento .............

-- Cego em Betsaida ..............

-- Cego Bartimeu de Jeric..........

-- Dois cegos de Jeric.............

-- Dois cegos de Cafarnaum .........

-- Cegos na Galilia...............

-- Cego e mudo (endemoniado7) ......

-- Mudo de Cafarnaum............

- Mudos na Galilia ..............

-- Surdo-mudo na Decpole .........

-- Surdo-mudo de Cesaria ..........

- Coxos na Galilia...............

Joo 9:1-7
Marcos 8:22-26
Marcos 10:46 e Lucas 8:35-43
Mateus 20:29-34
Mateus 9:27-31
Mateus 15:29-31
Mateus 12:22
Mateus 9:32-34
Mateus 15:29-31
Marcos 7:31-37
Marcos 9:16-26 e Lucas 9:37-43
Mateus 15:29-31
- Leprosos de Cafarnaum .........
-- 10 leprosos. . . . . . . . . . . . . . . . . .
-- Hidrpico ..................
-- Mulher com espinha curvada ......
-- Homem de "mo seca"..........
-- Paraltico servo do centurio ......
- Paralticoem Betsaida ..........
- Paraltico de Cafarnaum .........
- Outros deficientes na Galilia......

Mateus 8:1-4, Marcos 1 :40-45e Lucas 5:12-14
Lucas 1 7 :1 3-1 9
. Lucas 14:1-6
. Lucas 13:11-13
. Mateus 12:9-13, Marcos 3:1-6 e Lucas 6:6-11
. Mateus 8:5-13
Joo 5 :5-9
. Mateus 9:1-8, Marcos 2:1-12 e Lucas 5:17-26
. Mateus 15:29-31

--A cegueira de So Paulo, Apstolo

A converso de So Paulo tem sido considerada por todos os cristos como 
um fato decisivo na histria do Cristianismo. Ela teve seu incio com um 
evento
universalmente conhecido que o deixou cego por trs dias, deles emergindo 
como um
novo homem.

Saulo havia sido por diversos anos um fervoroso fariseu, alm de um 
convicto perseguidor dos adeptos da nova seita do Nazareno que se 
afirmara Filho de Deus,
considerada ento uma verdadeira heresia na Sinagoga Judaica. Na verdade, 
to envolvido estava Saulo que, quando o primeiro mrtir da incipiente 
religio--Santo Estvo --foi apedrejado, esteve no s presente como 
tambm indiretamente ajudou na
execuo da pena, segurando os mantos dos apedrejadores para melhor 
executarem
sua tarefa.

Diversos mdicos e estudiosos escreveram a respeito do fato que modificou 
drasticamente a vida de Saulo de Tarso. Alguns acham que ele foi vitima 
de um
ataque epiltico, podendo a intensa luz por ele relatada ter sido a aura 
que antecede
esses eventos mdicos. H outros que especulam em torno de problemas 
relacionados a
uma artrite ou mesmo malria.

O que parece certo  que, interveno miraculosa  parte, Saulo foi 
severamente atingido, fisica e psicologicamente. Para uma anlise 
objetiva do que sucedeu,
 preciso conhecer um pouco as circunstancias por ele vividas. Em 
primeiro lugar  bsico considerar que a distancia percorrida por Saulo, 
entre Jerusalm e Damasco,  de
pouco mais ou menos 200 quilmetros, quase toda ela coberta por um 
deserto de areia
branca e de natureza inspita. Essa viagem, numa caravana de camelos, 
demandava de
seis a sete dias de marcha, muito embora estejamos acostumados a 
visualizar um Saulo
de Tarso caindo de fogoso cavalo, o que no corresponde  realidade 
daqueles tempos.
A caravana cruzou o deserto pelas colinas da Samaria, sob sol ardente e 
muito brilhante,
num calor fortssimo. Ao final dessa cansativa viagem,  natural que 
Saulo estivesse
preocupado com sua misso, a ele confiada pelo sumo sacerdote atravs de 
cartas s
sinagogas de Damasco. Cansado e tenso, ele aguardava os primeiros sinais 
da paisagem
de seu destino quando, segundo seus relatos, viu uma luz muito forte e 
caiu ao cho,
ouvindo uma voz que se identificava como de Jesus Nazareno.

Cego ao levantar-se, Saulo teve que ser "levado pela mo"  cidade 
busca de ajuda, pois estava doente e no podia nem beber nem comer por 
trs dias.

Virtualmente fechado em ambiente escuro por todo esse tempo, devido
s dores nos olhos, com certeza muito abalado com sua cegueira que 
provavelmente
associava a um castigo divino, como era costumeiro no seio do povo 
hebreu, Saulo foi
inicialmente atendido por solcitos adeptos da "seita do Nazareno". Pode 
ter parecido a ele um verdadeiro milagre quando Ananias entrou, conversou 
com ele, tocou-o
e ele recuperou sua viso.

O que deve ter acontecido com os olhos de Saulo de Tarso? Autores
categorizados acham que sua cegueira temporria foi causada pelos efeitos 
nocivos
de muita irradiao solar sobre os olhos, causando alguma queimadura da 
crnea por
raios ultravioletas. Esse tipo de cegueira acontece devido aos reflexos 
do sol na areia
branca do deserto ou aos reflexos na neve.

"O efeito no olho  cumulativo e Paulo deve ter recebido mais do que
suficiente radiao, especialmente quando olhou para o cu. Este  um 
efeito bitico
e a recuperao do estgio agudo requer vrios dias de convalescena. A 
vitima fica
temporariamente cega, no pode abrir seus olhos e sofre com muitas dores 
e ansiedade. Fica inutilizada e  compelida a manter-se no leito. 
Todavia, como o epitlio se regenera com rapidez, a sensivel crnea nua 
volta a ser coberta e ento o paciente vive
uma brusca e dramtica recuperao como viveu Paulo" ("The Blindness of 
Saint
Paul", de Manchester e Manchester).

So Paulo viveu todo o resto de sua vida com algumas seqelas do mal
e isso  perceptivel ao analista cuidadoso por alguns sinais, um dos 
quais seria sua prpria informao quanto  sua letra provavelmente maior 
ou diferente do que a costumeira: "Vejam com que letras eu lhes escrevi 
com minhas mos" (in Epistola aos Glatas) e "Minha saudao da mo de 
Paulo: que  minha marca em toda carta. Assim
escrevo" (in Eprstola aos Tessalonicenses (2a ), ao final). A traduo 
corresponde s
palavras na Vulgata, em latim.

So Paulo tinha algumas dificuldades para ler, escrever e mesmo 
reconhecer pessoas a certa distancia, o que talvez indique grave reduo 
de sua acuidade visual.
Vejamos, por exemplo, o fato narrado nos Atos dos Apstolos (23:1 a 6): 
Levado diante do Sindrio para esclarecer graves acusaes feitas contra 
ele, Paulo olhou o aglomerado de sacerdotes e no distinguiu a presena 
muito importante do sumo sacerdote
Ananias. E foi considerado irreverente pela mais alta autoridade da 
Sinagoga Judaica,
tanto assim que recebeu uma bofetada na boca tao logo comeou a falar, 
por ordem
de Ananias. Paulo reagiu e qualificou-o de "parede cada". Na confuso 
estabelecida,
ele foi questionado se estava maldizendo o sumo sacerdote. Neste ponto 
ele afirmou:
"No sabia, irmos, que era o sumo sacerdote" . . .

Parece tambm evidente que So Paulo foi vtima de um mal crnico
e desagradvel que, em suas cartas, chama de "espinho da carne". 
Relembremos uma
pequena frase sua inserida na carta aos cristos de Glata, com os quais 
convivera bastante: "Sabeis que ao principio vos preguei o Evangelho com 
enfermidade na carne:
e sendo eu a vossa provao na minha carne, vs no me desprezastes nem 
rejeitastes"
(Gal. 4:13/14). A traduo aqui tambm leva em conta a Vulgata latina.

Para os cristos o fato concreto  que, logo aps o evento que levou
Saulo de Tarso a trs dias de cegueira, ele mudou drasticamente e foi um 
dos maiores
esteios da Cristandade. Conviveu o resto de seus dias com alguma 
deficiencia parcial
da viso e certamente com algum outro mal (epilepsia, malria, artrite, 
no se sabe)
indefinido e marcante que no diminuiu em nada o seu entusiasmo na 
transmisso da
doutrina de Cristo, mas que acabou influenciando seus pensamentos e suas 
pregaes.

3. Os Gregos

Em grande parte devido  inexistencia de bases cientificas para melhor
compreender a vida e a natureza, o homem grego antigo sentia-se envolvido 
por muita
fantasia e por uma infinidade de pequenas crenas e, conseqentemente por 
centenas
de deidades. A variedade de deuses e deusas que habitavam o portentoso e, 
naS palavras
de Homero, "nevoso Olimpo", ou que o haviam abandonado em busca de mais 
tranqilidade e da proximidade dos ambientes a eles dedicados,  bem 
indicativo desse estado de espirito. Na fantstica mitologia de tantos 
deuses de vrios escales e de tantos
seres fantasiosos, o homem grego, alm de dedicar altares a um Deus 
Desconhecido--conforme comenta o Apstolo Paulo --acabou no se 
esquecendo de um ser portentoso
prejudicado por uma deficiencia fisica sria, bastante competente em seus 
misteres, mas
que sempre foi de certa maneira ridicularizado, alm de envolvido pela 
estrondosa risada
da maioria de seus fisicamente magnficos colegas do Olimpo. Tratava-se 
de Hefesto
(Hephaestos, em grego), o deus do fogo, das artes manuais, da metalurgia 
e das indstrias, que era filho de Zeus e de Hera.

--As deficincias na mitologia grega

Homero, o mais famoso dos grandes poetas gregos, que foi cego, segundo
relatos baseados na tradio e em diversos escritores antigos, e que 
certamente viveu em
pocas anteriores ao sculo VII a.C.,  autor dos poemas picos Ilada e 
Odissia. Na
Ilada ele nos revela algumas particularidades interessantes a respeito 
de Hefesto, de sua
deficincia fsica nas pernas e de suas altssimas habilidades em 
metalurgia e artes manuais.

No Canto XVIII desse famoso poema ele narra uma das mais conhecidas
intervenes desse deus portador de deficincia: o quase invunervel 
Aquiles, durante o
cerco de Tria encontrava-se muito abatido com a morte de seu amigo 
Ptroclo e ao
mesmo tempo enfurecido com o lder troiano Heitor no s por t-lo morto 
como tambm por te-lo despojado de armadura, elmo, escudo e espada, alm 
de todos os demais
acessrios invejveis pela sua beleza e perfeio e que eram propriedade 
de Aquiles. Ele
pede o auxlio de sua me, a deusa Ttis, dizendo:

" . . . no me incita a viver meu corao, nem a ficar entre os homens, a 
menos que Heitor, ferido primeiro por minha lana, perca a vida e pague 
por Ptroclo, filho de Menetes, sua presa".

"Debulhada em lgrimas Ttis respondeu:-- Rpido ser teu destino, meu 
filho, com
tais palavras, pois, logo aps Heitor, o momento fatal soar para ti".

"Acabrunhado retrucou Aquiles, de algeros ps:--Morra eu neste instante, 
visto que
no fui capaz de proteger da morte meu companheiro" . . .

No entanto, de fato Aquiles no tinha mais armas, pois o corpo de 
Ptroclo havia sido despojado de todos os magnificos apetrechos de guerra 
que tornara
o filho de Ttis um incrivel heri.  Ttis que observa:

"Mas tuas belas armas esto nas mos dos Troianos, tuas armas de 
coruscante bronze; o
prprio Heitor de flgido capacete tem-nas sobre os ombros e com elas se 
paramenta" . . .

Ttis, muito chocada com a tragdia de seu filho-heri, considerou a
determinao de Aquiles e foi  procura do nico "imortal" capaz de fazer 
armas prprias e dignas para ele: Hefesto. Quando chegou ao Olimpo, notou 
nas oficinas um
deus trabalhador, suado, um verdadeiro operrio da metalurgia com 
deficincia fisica.

"Encontrou-o suando; apressando-se  volta dos foles, empenhado no 
fabrico de nada
menos de vinte trpodes, para encostar  parede, em torno de uma sala bem 
construida" . . .

Homero apresenta neste poema Hefesto casado com a belissima Cris
("Cris de brilhante toucado, a formosa Cris, esposa do insigne coxo"), 
a deusa da primavera. Aps acomodar a veneranda deusa Ttis em um trono 
cravejado de prata, Cris
chama o marido:

-- "Hefesto, vem como ests; Ttis precisa de ti".

"respondeu o ilustre coxo:--Sim,  uma deusa temida e veneranda que est 
em minha
casa; que me acudiu quando o sofrimento me acometeu, depois da longa 
queda provocada por minha me de olhos caninos, que queria esconder-me 
porque eu era coxo. Eu
teria, ento, sofrido muito, se Eurnome e Ttis no me tivessem recebido 
em seu seio;
Eurnome, filha do Oceano, que volta sobre si mesmo. Ao p dela, durante 
nove anos,
forjei muitas jias bem feitas em profunda gruta, alm de presilhas, 
espirais de formosas curvas, clices de flores e colares".

Hefesto, agradecido por ter sido amparado e amado, e por ter com elas
aprendido um verdadeiro ofcio, mostra-se mais do que disposto a pagar 
pelo imenso
favor recebido durante anos a fio.

" . . . da bigorna ergueu-se manquejando o ser monstruoso, enorme; 
debaixo dele agitavam-se-lhe as pernas finas" ... ... "Vestiu uma tnica, 
empunhou um grande cetro e
encaminhou-se para a porta, coxeando".
A pedido da desesperada me de Aquiles, Hefesto fabricou ento um escudo 
que Homero chega a descrever com muitos pormenores. E continuando com a
descrio das fabulosas peas de armamento, afirma:

"E depois de ter forjado o escudo grande e robusto, fabricou para Aquiles 
uma couraa,
mais brilhante do que o esplendor do fogo; fabricou-lhe espesso capacete 
adaptado as
tmporas, belo, feito com arte, encimando-o um penacho de ouro; e 
fabricou-lhe "cnmides", com o estanho que se modela bem ("Ilada", de 
Homero, trechos do Canto
XVIII). ( *)

Na Odissia, Homero apresenta Hefesto casado com Afrodite, a deusa do
amor (a Vnus dos romanos), furiosamente ciumento, magoado e ardiloso, 
mostrando

todo o seu ressentimento devido  deficincia nas pernas de uma forma bem 
franca e
muito aberta.

O que havia sucedido para tanto? De fato o assunto era srio, pois Ares,
deus da guerra (Marte para os romanos), havia-se enamorado de Afrodite e 
comeara a
encontrar-se com ela em sua prpria casa, logo aps Hefesto sair para 
trabalhar em suas
oficinas. Sabedor do adultrio de sua mulher, Hefesto planejou com muito 
cuidado a
armadilha para o estabelecimento de um flagrante incontestavel: fabricou 
uma rede quase invisivel, mas de "laos inquebrveis, inextricveis, para 
que neles ficassem retidos os
dois amantes". E, de fato, a rede foi colocada cuidadosamente sobre o 
leito e prendeu
os dois na hora exata; deixou-os debatendo-se no ar, sem qualquer 
possibilidade de escapar, pois o engenhoso Hefesto preparara tudo para a 
invisivel rede ser puxada para o alto,
sem qualquer apelao.

Hefesto, que havia acionado a armadilha por suas prprias mos, sentia-se
vilmente traido devido  sua deficincia fisica e explodiu para todo o 
Olimpo ouvir:
-- "Zeus, pai, e todos os deuses restantes, bem-aventurados e 
sempiternos, vinde aqui
presenciar uma cena ridicula e monstruosa; por eu ser coxo, Afrodite, 
filha de Zeus, de
continuo me cobre de desonra; ela ama Ares, o destruidor, porque  belo e 
tem as pernas direitas, ao passo que eu sou defeituoso de nascena. Mas a 
culpa no  minha, apenas de meus genitores, que melhor teriam procedido 
se no me houvessem gerado" . . .
. . . "a minha rede os reter cativos at que o pai dela me restitua 
todos os presentes que
lhe dei por sua descarada filha. Pode ser bela, mas no tem vergonha".

Homero entra em alguns pormenores quanto ao vexame imposto a Ares e
Afrodite, presos na rede invisvel que os puxara para o alto, sendo 
observados por outros
deuses--todos eles do sexo masculino, uma vez que as deusas, por pudor, 
haviam preferido ficar fora. Todos eles riram muito dos dois amantes e no 
meio dos comentrios bastante humanos para os portentosos imortais, 
surgiu uma observao de alta valorizao
das habilidades de Hefesto, o artfice deficiente:

(*) "Cnmides" eram perneiras usadas pelos gregos. Protegiam a parte 
dianteira da perna at o joelho. Eram forradas interiormente de couro e 
amarradas a perna por correias. A parte externa
era de bronze ou de estanho, segundo Homero.
-- "De que aproveitam as ms aes? Um coxo alcana o que  gil, como 
agora aconteCeu: este cambeta Hefesto, lento como , apanhou com seus 
artifcios a Ares, o mais veloz dos deuses, habitantes do Olimpo" 
(trechos do Canto VIII da "Odissia", de Homero).

Naturalmente que estamos apenas analisando cenas de pura fico, mas
que foram escritas diversos sculos antes da Era Crist. Acresce a isso 
dizer tambm que
Homero, segundo a tradio, foi um escritor cego. No deixam de ser 
palavras de certa
forma indicativas da crena na utilidade de um homem competente, mesmo 
que portador de uma sria deficincia e na justa exploso desse mesmo 
homem face  traio e 
desonra de que foi vtima. Demonstram elas tambm uma posio j 
arraigada no seio
do povo grego de que crianas com defeitos de nascimento no deveriam 
sobreviver,
sendo obrigao dos pais no as deixar viver, tomando para tanto medidas 
prticas, conforme verificaremos mais adiante.

--Lenda e realidade; Hefesto na vida dos gregos

Quanto a seus traos principais, Hefesto parece sempre justo, srio, 
fortemente competente em sua arte e muito conscio de seu papel. E, como 
vimos,  conhecedor de seus direitos e sabe lutar por eles. Conquistara o 
respeito dos deuses pelo seu trabalho e suas obras, e nada mais. 
Desfrutava de um amor tranqilo de uma linda deusa
da primavera, Cris, segundo o poema Ilada, e de um atribulado afeto por 
Afrodite, na
Odissia, tendo-se considerado no direito de lhe dar uma lio completa, 
como outros
homens jamais poderiam arquitetar.

Analistas dos poemas de Homero tm sugerido que, devido  apresentao de 
Hefesto como o deus da metalurgia e das artes manuais, a profisso de 
ferreiro e
atividades afins talvez fossem especialmente preferidas por homens com 
deficincias
fsicas nas pernas. Vale ressaltar que na cidade industrial de Atenas, 
Hefesto sempre foi
considerado um deus importante, mantendo-se a classe dos artesos sob sua 
proteo.

Seu casamento com Afrodite foi conseqncia de um ardil muito bem
preparado. Durante os nove anos que passara sob a proteo de Ttis e 
Eurnome, Hefesto guardou consigo um profundo ressentimento contra sua 
me devido ao fato de o
ter feito cair do alto do Olimpo. Arquitetou uma terrivel vingana contra 
ela: fabricou-lhe um lindo trono de ouro, todo trabalhado, e mandou que 
lhe fosse entregue durante uma festa. Hera ficou contentissima por ouvir 
a respeito do filho que j considerava morto h anos, e muito orgulhosa 
sentou-se no trono. Ao tentar levantar-se, porm,
sentiu-se presa, agarrada por mos invisveis. Hefesto, que no estava 
presente, recusou-se a sair de sua gruta e deixou os demais deuses tentar 
livrar Hera inutilmente. Afinal, face  insistncia de todos, Hefesto 
concordou, impondo uma nica condio: casar-se com a mais bela de todas 
as deusas, ou seja, com Afrodite.

Hefesto dava-se importancia e sabia o que lhe convinha. Segundo as 
lendas, cuidava de sua aparncia com esmero e procurava reduzir as 
dificuldades provocadas por sua deficincia nas pernas de um modo 
bastante sofisticado. Primeiramente,
quando recebia visitas de importancia, o fabuloso ferreiro e arteso 
parava para lavar
o rosto, os bracos, o pescoo e o peito. Logo aps, vestia uma tnica 
limpa e, apoiado
num trabalhado basto que ele mesmo fabricara, ia sentar-se em seu trono. 
Refinado
como era, inventara duas esttuas feitas de ouro e que muito se 
assemelhavam a duas
lindas jovens, que se movimentavam e falavam, e que ficavam ao seu lado 
para tornar
mais cmodos todos os seus movimentos! . . .

Segundo as lendas Hefesto teve vrios filhos e um deles, Perifetes, tinha
o mesmo problema fsico do pai--o que talvez indique certa crena popular 
de que
alguns defeitos fsicos podiam ser hereditrios. Diferentemente do pai, 
Perifetes foi
um bandido, assaltante de estradas. Teseu, o destruidor de monstros, 
arrancou-lhe o
terrvel basto com que matava suas vitimas, terminandocom o pavor que 
rondava
Epidauros e os devotos de Asclpios, o deus da cura.

Hefesto est representado no smbolo da Associao de Avaliao 
Profissional e de Ajustamento ao Trabalho dos Estados Unidos da Amrica 
do Norte.

--Outros seres mitolgicos e as deficincias fisicas e sensoriais

Existem diversas deidades e seres um tanto quanto irreais que esto 
inseridos na mitologia grega e que apresentam algumas anomalias ou 
deficincias que por
vezes so sua caracterstica principal. Vejamos os mais notrios:

a) Deuses da Fortuna, do Amor e da Justia

Segundo afirmam os especialistas em mitologia grega, as figuras dos 
deuses do Amor
e da Fortuna so eventualmente apresentadas como pessoas cegas. Um dos 
mais
marcantes exemplos dessas apresentaes ocorre com a pea "Pluto, o Deus 
da
Riqueza", de autoria de Aristfanes. Nela o temido senhor das profundezas 
do inferno  um mendigo cego e sobre ele falaremos mais adiante ao 
analisarmos Epidauros e sua importancia na vida grega.

Todos ns conhecemos tambm a apresentao simblica da Justia como uma 
jovem cega, figura que chegou aos nossos dias e  muito utilizada em 
nossos meios
jurdicos.

b) dipo e sua tragdia

Uma figura trgica das muitas e coloridas histrias e lendas gregas  
aquela de dipo. Matou o prprio pai para poder casar-se com a me, sem 
estar consciente do
relacionamento que havia entre eles. Ao descobrir toda a verdade, com a 
ajuda do
adivinho cego, Tirsias, o rei dipo arrancou os prprios olhos e viveu o 
resto de seus
dias em total isolamento, numa atitude de auto-punio e desespero.

c) Filomela e Procn: a andorinha e o rouxinol

Segundo lendas que cercam essas duas figuras da mitologia grega, Pandion 
era rei
de Atenas e tinha duas filhas muito belas que eram Filomela e Procn. 
Esta casou-se com Tereu, rei da Trcia, e teve um filho, cujo nome era 
Itys. Com o passar
dos anos, entretanto, Tereu comeou a prestar mais ateno  sua linda 
cunhada e
ficou apaixonado por ela. Tendo-a em determinada circunstancia forado a 
ter com
ela relaes amorosas e notando sua revolta, cortou-lhe a lngua para 
impossibilitar
a formulao de alguma acusao de sua parte. Todavia Filomela encontrou 
um
meio convincente de apontar o culpado. Bordou uma toalha com figuras, 
contando todo o drama. As duas irms passaram a perseguir ferozmente a 
Tereu que, com
o auxlio de outros seres mitolgicos, conseguiu transform-las em 
pssaros para
sempre: Procn tomou a forma de um rouxinol e Filomela de uma andorinha.

d) Licurgo, rei mitolgico da Trcia
Foi castigado com a cegueira por ter proibido em seu reino o culto a 
Dionsio, deus
do vinho e correspondente ao Baco dos romanos. Essa proibio ocorreu 
depois do
corajoso rei ter tomado atitudes bastante agressivas contra o mencionado 
culto. Mandara, por exemplo, arrancar de seu reino todas as vinhas e 
maltratara pessoalmente o
famoso e muito popular deus do vinho.

e) Fineu, outro rei da Trcia

Igualmente mitolgico, abusava dos seus poderes de adivinhao, revelando 
aos homens as confidencias e as intenes dos deuses moradores no Olimpo. 
Foi castigado pelos poderosos imortais a fazer uma opo: viver uma longa 
vida sem viso ou
morrer. Preferiu a primeira opo. Casado com a filha do rei Breas, 
Clepatra, teve
com ela dois filhos, Depois de algum tempo de casado repudiou a esposa, 
como era
facultado aos homens fazer, e casou-se com Idia, filha de Drdano, o 
famoso construtor das muralhas de Tria. Esta no gostou dos filhos 
adolescentes de Clepatra
e logo encontrou meios para acus-los de terem tentado violent-la. 
Fineu, muito
furioso e intempestivo, mandou vazar os olhos dos dois, sem fazer 
qualquer averiguao. No entanto, o castigo prometido pelos deuses chegou 
quase que imediatamente, pois os irmos da repudiada Clepatra que faziam 
parte da expedio dos
Argonautas, vazaram seus olhos.

- As deficincias fsicas na realidade da vida militar grega

Na Grcia Antiga, em pocas anteriores ao surgimento do Cristianismo,
encontramos muitos indicios de medicina bastante evoluida e da 
organizao de diversos
servios de sade, tanto para o povo quanto para os soldados que 
procuravam garantir a
sobrevivencia e a pujana de sua ptria. Servios mdicos na rea militar 
no atendiam
apenas a soldados gregos e seus aliados mas tambm a prisioneiros com 
problemas de
mutilaes ou com doenas graves. As amputaes traumticas das mos, 
braos e pernas ocorriam com freqncia nos campos de batalha devido aos 
combates corpo-a-corpo
e ao uso de armas cortantes. Para as pernas havia algumas protees por 
meio das j citadas "cnmides", que certamente impediam muitos ferimentos 
mais srios em guerreiros importantes. Laminas ameaadoras que eram 
colocadas nos eixos dos carros de combate eram um dos perigos de 
amputaes ou ferimentos srios. Ocorriam tambm ferimentos com pancadas 
violentas e armas penetrantes. Mdicos destacados para servirem
nos exrcitos de ento acumulavam rapidamente larga experincia, apesar 
de disporem
de parcos recursos para aliviar dores, estancar o sangue ou outras 
providncias que poderiam salvar vidas em perigo. Hemorragias eram 
estancadas por vezes com ferro em
brasa ou com o cobre superaquecido. s vezes ferimentos graves eram 
tratados na retaguarda com leo fervendo e alguns escapavam com vida a 
tais tipos de tratamentos.

--As principais causas de deficincias na Grcia Antiga

Na antigidade clssica praticamente todos os povos chegaram a 
desenvolver atividades de assistencia publica devido  insuficiencia 
daquelas prestadas pela
populao, de maneira direta. Segundo alguns autores, Aristteles j 
indicava que"
mais fcil ensinar a um aleijado a desempenhar uma tarefa til do que 
sustent-lo como indigente". No s para Aristteles, mas para muitos 
pensadores e polticos gregos,
competia ao Estado proteger os pobres, os miserveis e, quase sempre no 
meio deles,
os portadores de deficincias devido a qualquer causa.

Na abalizada opinio do Professor Pournaropoulos, na Grcia Antiga
havia trs tipos de pessoas com deficiencias:

-- os mutilados ou deficientes devido a ferimentos ou a acidentes 
prprios da guerra
e de atividades afins;

-- os prisioneiros de guerra com deficincias fsicas, ou os detentos 
criminosos civis,
cuja mutilao ou deficiencia era causada por uma pena ou castigo;

-- os deficientes civis por doenas congnitas ou adquiridas, ou tambm 
por acidentes os mais variados.

Dentre os acidentes da vida civil (na vida industrial e tambem na forte
construo civil gregas) os acidentes de trabalho ocorriam com bastante 
freqencia
devido  falta de medidas de segurana ou de protees especiais. Um caso 
que passou
para a Histria Grega ocorreu com o famoso arquiteto Mnsicles, que no 
ano 435 a.C.,
ao inspecionar as obras de construo da monumental propilia da Acrpole 
de Atenas, caiu de um dos andaimes. Segundo nos relatam os historiadores 
e analistas da
Histria Grega, Mnsicles no ficou paralisado pelo resto de seus dias 
por mera sorte.
Entretanto o misticismo grego conta-nos uma histria interpretativa 
diferente, afirmando que quem o salvou foi a deusa Athena (Minerva para 
os romanos), pois ela apareceu num sonho a Pricles, que quela 
oportunidade comandava os destinos da cidade-estado de Atenas. A ele a 
deusa sugeriu um misterioso tratamento que deveria ser
aplicado no famoso arquiteto acidentado. Com a sua recuperao 
miraculosa, to
vital para a glria da poderosa Atenas, Pricles mandou erigir uma linda 
esttua de
bronze da deusa salvadora no prprio lugar da queda, e em seu pedestal 
mandou gravar
estas palavras reconhecidas que s foram descobertas muitos sculos aps, 
devido s
escavaes:

THEY ATHENAI ???I~IGIEIAI (A Athena Salvadora)
--Tirteu, poeta Lrico com deficincia fsica

Nascido na Atica em meados do sculo VII a.C., Tirteu  identificado
pelos historiadores comoumdospoetas liricos elegacos iambicos mais 
expressivos da
Grcia Antiga. Trabalhou no inicio de sua vida como professor de uma 
escola ateniense, embora sofresse bastante com as limitaes fsicas 
marcantes que o obrigavam a
claudicar significativamente.

No entanto, o poeta Tirteu viveu numa poca em que a poesia era muito
valorizada, o que o tornou muito aceito nos meios atenienses mais cultos.

Conta-nos sua quase lendria histria que durante a Segunda Guerra
Messnica os espartanos foram obrigados a fazer aos atenienses um pedido 
incomum:
precisavam de um general para comandar suas foras, no porque 
inexistissem homens
capazes na aguerrida Esparta, mas devido a uma clara indicao do sagrado 
orculo de
Delfos.

Os atenienses ironicamente mandaram aos espartanos o poeta Tirteu,
manco como era, sem nenhum conhecimento de vida militar e um mero poeta. 
Mas os
espartanos respeitaram a indicao, pois viram naquele homem, cuja figura 
fsica seria
inaceitvel nas elites de Esparta, um verdadeiro sinal de Apolo, o deus 
dos orculos e
tambm do canto.

Na prtica Tirteu provou ser muito competente em sua misso inusitada.
Explorou a interpretao indicada e as diversas conotaes da mesma. 
Adotou uma
linha de valorizao da coragem dos soldados espartanos em todos os seus 
cantos de
guerra, conduzindo-os dessa forma  vitria final contra seus inimigos. 
Eis um de seus
cantos que chegaram at ns: "Que honra para o jovem valente ser morto 
pelo seu pas
com a espada em sua destra" (Apud Pournaropoulos).

--As leis que favoreciam as pessoas deficientes

Na Histria Grega existem citaes relativas  assistncia destinada a 
pessoas deficientes que so muito mais claras e especficas do que 
aquelas encontradias
em culturas anteriores, contemporaneas ou posteriores.

Havia, por exemplo, em Atenas e em Esparta--rivais famosas--determinaes 
oficiais que davam aos soldados feridos e seus familiares vantagens de 
diversas
naturezas. Existiam provises especiais relacionadas  alimentao, como 
as que eram
conseqentes a uma lei de Slon (640 a 558 a.C.) que determinava: 
"Soldados feridos
gravemente e os mutilados em combate sero alimentados pelo Estado".

Plutarco (45/50 a 125 d.C.), historiador e moralista grego, afirma que 
esse tipo de lei favorecia pessoas consideradas incapacitadas para 
obteno ou a garantia
de seu prprio sustento, mas que tais provises no tinham sua origem 
tanto na sensibilidade de Slon a respeito do problema geral dos soldados 
mutilados durante as muitas
batalhas nas quais Atenas estava continuamente envolvida. Na verdade, a 
compreenso
mais aguda do problema que o grande estadista demonstrara originara-se do 
conhecimen99

to que tivera das dificuldades vividas por algum que Plutarco chega a 
identificar em sua
obra apenas pelo nome, no lhe dando, porm, maiores qualificativos. O 
historiador grego afirma que essa famosa determinao legal "foi 
promulgada devido ao fato de Trsipo
ter ficado invlido, e essa mesma lei foi usada mais tarde para uma outra 
semelhante, de
Pisistrato" ("Slon", de Plutarco).

Houve, por muitos sculos, nas cidades de Atenas e de Esparta, 
determinaes que davam aos soldados e seus familiares vantagens que todo 
o povo considerava
como justas. No entanto, mesmo naquelas pocas surgiam elementos viciosos 
que procuravam tirar proveito das situaes e tentavam indevidamente se 
enquadrar nessas vantagens, como podemos deduzir de um interessante 
discurso de Lysias (459 a 380 a.C.),
orador extremamente eloqente, citado pelos historiadores como inimigo 
ferrenho dos
chamados Trinta Tiranos. Nesse discurso, Lysias faz comentrios a 
respeito de diversos problemas das pessoas que tinham mutilaes ou que 
apresentavam alyum tipo
de deficincia. E faz referencias irnicas aos pseudo-deficientes perante 
o Senado Ateniense. Esse discurso chegou at nossos dias e  intitulado, 
na lingua grega, "Uper tou
Adunatou" (Em favor do deficiente).

A questo deve ter deixado as autoridades e mesmo o povo ateniense
bastante preocupados no s com o franco desmascaramento dos falsos 
deficientes, mas
tambm com a necessidade de garantir a sobrevivncia dos heris 
atenienses do presente
e do passado e daqueles outros que certamente iriam se prejudicar 
fisicamente em defesa de Atenas.

Em seu trabalho relativo  constituio de Atenas, intitulado no grego
"Athenion Politia", Aristteles (384 a 322 a.C.), um dos maiores sbios 
de todos os
tempos, afirmou taxativamente aos membros do Conselho Ateniense: "O 
Conselho passar agora a examinar o problema dos deficientes. Existe, de 
fato, uma lei que estabelece que todo ateniense cujos bens no 
ultrapassem trs "mins" e cujo corpo esteja mutilado ao ponto de no lhe 
permitir qualquer trabalho, seja examinado pelo Conselho e
que seja concedido a cada um deles, s expensas do Estado, dois bulos 
por dia para sua
alimentao. E existe um tesoureiro dos deficientes, designado para tal" 
("Constitution
d'Athne", de Aristteles).

Percebe-se, portanto, que no se tratava de mero paternalismo nem de
esmola oficializada pelo Estado. O individuo tinha seu caso estudado 
antes de receber
os bulos estabelecidos e ao inicio da aplicao desses planos no 
ocorreram muitas
fraudes. A cidade-estado de Atenas tivera meio sculo aps o discurso de 
Lysias para
achar uma frmula mais objetiva de atendimento aos deficientes. Defendia-
se, na verdade, um direito adquirido pela prestao de servios  Ptria.

Nota-se pelo estudo da Histria Grega que esse beneficio foi aos poucos
sendo estendido a outras pessoas portadoras de deficiencias ou de 
incapacidade para
o trabalho, independentemente da causa do problema, abrangendo 
eventualmente os
pobres em geral. Na poca em que Aristteles chamou a ateno do Estado 
para o problema, j havia mais de 20.000 pessoas alimentadas s expensas 
do governo ateniense,
100

devido a muitos tipos de deficincias e doenas, correspondendo a 20% da 
populao
total de Atenas.

--A medicina grega e as deficincias fsicas

A Grcia Clssica foi a pioneira dos movimentos de assistncia mdica
 sua populao civil. Nomes famosos como os de Asclpios (Esculpio para 
os romanos), mdico renomado que muitos anos aps sua morte foi 
transformado no prprio
deus da medicina, Demcedes de Crotona, Erdicos, Hipcrates e Cludio 
Galeno, enriqueceram o cabedal de estudos sobre medicina e tambm sobre 
questes ligadas direta ou indiretamente a deficincias fsicas e 
sensoriais, durante muitos sculos.

Dentro dos objetivos deste trabalho, procuraremos restringir a pesquisa
s atividades ou personalidades de alguma forma relacionadas a 
deficincias fsicas ou
mentais srias e tambm ao eventual tratamento dispensado aos portadores 
de algum
tipo de deficincia na Grcia Antiga.

 do conhecimento geral que a medicina grega no conheceu fronteiras,
pois seus mais famosos e competentes homens eram avidamente procurados 
por reis e
pela nobreza de vrios paises vizinhos, tais como do Egito, Roma, Prsia 
e outros mais.

Um pequeno exemplo poder muito bem ilustrar essa procura e ao mesmo 
tempo a velada disputa existente entre mdicos egpcios, tambm muito 
famosos
por sculos, e os mdicos gregos. Um acidente na rea da ortopedia, que 
quase levou um
rei famoso a uma sria deficincia fsica, fez com que a medicina grega 
penetrasse no
Imprio Persa, no qual mdicos egpcios pontificavam, devido ao fato de 
por muito
tempo terem sido considerados como os mais competentes e mantenedores de 
renome
soberbo.

Herdoto que nos relata que Dario I (521 a 486 a.C.), orgulhoso soberano 
persa, ao descer num salto arrojado de seu cavalo durante uma caada, 
torceu violentamente o p. Os mdicos de sua corte--todos eles egpcios 
por preferencia e exigncia do prprio monarca --eram adeptos de tcnicas 
um tanto violentas para casos de
deslocamento, fraturas, luxaes e males afins e acabaram piorando o 
problema de
Dario. Por sete dias e sete noites ele ficou sem dormir devido s fortes 
dores no p, todo
inchado e dolorido ao extremo.

No oitavo dia ele no suportava mais as dores e o desconforto de no 
poder nem dormir e, quando todos aos seu redor j sentiam que a irritao 
do soberano
persa poderia fazer rolar algumas cabeas, inclusive de assustados 
mdicos egpcios, Demcedes, mdico grego nascido em Crotona, que vivera 
em Atenas e na ilha de Samos
onde havia aprendido e praticado medicina, foi levado  sua presena, s 
pressas e tambm  fora. Mal vestido, sujo e cheirando mal devido s 
circunstancias de sua verdadeira caada para ser levado ao rei, e alem 
disso, arrastando ruidosa e acintosamente seus
grilhes de prisioneiro, no causou boa impresso.

Dario, irritado sobremaneira pelo seu prprio problema e pela decepo
face  sua esperana naquele mdico grego sobre o qual seus auxiliares 
vinham falando
h dias e que poderia tir-lo daquela desconfortvel situao de 
incapacidade fsica,
perguntou aos gritos se ele pelo menos entendia um pouco de medicina. 
Demcedes,
de seu lado muito preocupado em poder voltar  Grcia, respondeu que no. 
O que
ele no esperava  que Dario, que antes ouvira falar de sua vasta 
competncia em medicina, mandasse seus servos buscar aoites e 
instrumentos de tortura. Diante da negra
perspectiva, confessou que entendia um pouco de medicina e que vivera um 
pouco
com um outro mdico grego, mas que seus conhecimentos eram muito 
limitados e jamais poderiam chegar aos ps daqueles dos mdicos-
sacerdotes egpcios ali mesmo presentes.

Mesmo assim o desesperado Dario fez questo de ficar sob seus cuidados.
Demcedes, j limpo e sem grilhes, comeou por usar mtodos mais suaves 
para recuperar o dolorido p do monarca persa. Usou ungentos e remdios 
que conhecia graas
 sua experincia na Grcia, tendo tomado antes a sbia deciso de fazer 
o irritado Dario dormir, para depois, por um tratamento mais prolongado e 
menos traumatizante,
recuper-lo -- impedindo uma eventual amputao--e faze-lo voltar a 
andar. O mdico grego transformou-se no mdico favorito de Dario, l 
estabelecendo-se com o mais
absoluto Sucesso e abrindo caminho para muitos outros mdicos gregos no 
Imprio
Persa Demcedes tornou-se muito rico e famoso desde ento, tendo sido um 
dos fatores decisivos na finalizao dos planos de Dario I para a invaso 
da Grcia  qual sempre
pretendeu voltar e nela se radicar.

--A medicina de Hipcrates e as deficincias

Erdicos, mdico grego de vastssima experincia, foi um dos principais
mestres de Hipocrates (460 a 377 a.C.). Segundo a opinio de alguns 
estudiosos da histria da medicina, foi Erdicos o primeiro mdico mais 
famoso que comeou a utilizar
tcnicas de tratamento que ele mesmo chamava de "ginstica mdica", uma 
incipiente
fisioterapia .

Hipcrates, por seu lado, apresenta em muitos de seus trabalhos vrias
descries e anlises sobre males incapacitantes ou limitadores. Dentre 
eles destacamos
a espondilite, a escoliose, o deslocamento congnito da bacia. Alm disso 
o grande mestre da medicina indicava como fazer o tratamento por meio de 
massagens, de calor e de
sua "ginstica terapeutica"--tambm uma antecessora da fisioterapia.

Segundo estudiosos dos trabalhos de Hipcrates, foi ele que deu incio 
rdua tarefa de separar a superstio e o misticismo da realidade dos 
fatos em medicina,
especialmente no tratamento de alguns males misteriosos para aqueles 
afastados sculos.
Sua famosa mxima "divinum opus est sedare dolorem" (aliviar a dor  uma 
obra divina) durante muitos sculos levou muitos homens dedicados  
cincia de curar a continuamente procurar mtodos mais humanos e menos 
dolorosos durante procedimentos cirrgicos, de um modo especial nas 
amputaes causadas por leses de origem traumtica.

Hipcrates dedicava-se  medicina como um todo, no sendo nada estranho-, 
portanto, que conhecesse bem uma infinidade de problemas mdicos e seus 
remdios. Dentre eles destaquemos cerca de 30 doenas relacionadas  
viso. Lidou, portanto, com males que levavam tambm a deficincias 
fsicas ou sensoriais.

--Hipcrates e suas idias quanto  epilepsia

Com relao a um dos principais e mais misteriosos problemas causadores
de muito sria marginalizao, ou seja, a epilepsia, Hipcrates insistia 
que o famoso "mal
divino", to comum nos orculos, nos sacerdotes e mesmo nos imperadores 
da antigidade nas mais variadas culturas e povos, no passava de um mal 
que no era nem sagrado
nem divino, pois tinha causas naturais. Eram a ignorancia, o medo, a 
superstio e a
crendice que levavam o homem a crer em sua sobrenaturalidade, muitas 
vezes at sugerida ou confirmada por homens dedicados  medicina, 
principalmente por no saberem
como trat-la.

Sobre esse assunto Hipcrates diz textualmente:

"Na minha opinio pessoal, aqueles que primitivamente deram a essa doena 
um carter
sagrado eram feitos mgicos, exorcisadores, curandeiros e charlates dos 
nossos tempos,
homens que se gabam de possuir grande devoo e no menor sabedoria. No 
sabendo
e no possuindo medicamento algum que os possa auxiliar, escondiam-se e 
abrigavam-se
por detrs da superstio, chamando a essa doena de sagrada, a fim de 
que sua profunda ignorancia no chegasse a manifestar-se" ..."Mas essa 
doena, na minha opinio, no  mais divina do que qualquer outra; possui 
a mesma natureza das demais,
com a mesma causa que d origem a cada uma das doenas" .."Sua origem, 
como a de outras, reside na hereditariedade" ..."O fato  que a causa 
dessa afeco,
como em geral a de todas as doenas mais graves, reside no crebro" (Apud 
Tavlor).

--Adaptaes para prevenir deformaes em crianas

J era do tempo de Hipcrates, que certamente deu relevante contribuio 
ao assunto graas  sua vasta experincia, a adoo de medidas 
preventivas de defeitos fsicos em crianas de pouca idade. Os gregos e 
muitos outros povos que viviam no
sculo IV a.C. usavam certos tipos no identificados de recursos 
artificiais que so citados por Aristteles meio sculo aps a morte de 
Hipcrates. A afirmao taxativa do
grande filsofo grego  esta:

"Todos os movimentos aos quais as crianas podem se sujeitar em idade 
tenra so muito teis, Mas, a fim de preservar seus frgeis membros de 
defeitos, tem usado aparelhos
mecanicos que fortificam seus membros" ("Politics", de Aristteles).

A traduo do grego para o ingls utiliza as palavras "mechanical 
appliances", enquanto que a verso francesa adota a palavra "machines" 
para o mesmo vocbulo grego.

 de se ressaltar, entretanto, a importancia j dada a medidas 
preventivas
generalizadas, segundo afirmao de Aristteles. Foi exatamente sua 
relevancia que o levou a fazer dela meno expressa em uma de suas obras 
mais importantes.
--Cludio Galeno e sua importancia

Nascido mais de cinco sculos aps a morte de Hipcrates, um outro mdico 
grego que teve grande influncia no desenvolvimento da medicina como um 
todo e
que tambm trabalhou com situaes de deficincias fsicas foi Cludio 
Galeno (131 a
201 d.C.), na cidade de Prgamo, na Grcia.

Trabalhou muitoemfisiologia experimental, passando a maior parte de
sua vida em Roma e outras paragens do Imprio Romano--o que no era de 
estranhar
nos sculos do apogeu romano. Foi primeiramente mdico de arena dos 
famosos circos
romanos; apos, foi destacado para ser mdico de vrias legies romanas 
por muitos anos,
durante os quais acumulou enorme experincia. Posteriormente, devido  
sua competncia, foi promovido para mdico imperial e tambm para 
professor de medicina. Seus trabalhos e sua relatada experincia 
sobreviveram a ele e foram quase dominantes em medicina durante muitos 
sculos da Idade Mdia, chegando a ser usados em diversas escolas
de medicina at o sculo XVII.

Escreveu sobre vrias paralisias, tendoestudadoafisiologia patolgica de
maneira mais cientifica do que a anteriormente conhecida. Sempre muito 
envolvido no
atendimento a casos de ortopedia, como  fcil de imaginar pela sua vida 
juntos aos circos romanos e a legies diversas; foi o primeiro a utilizar 
certos termos mdicos identificadores de males e que so at hoje 
empregados, tais como: "kyphosis", "lordosis",
"skoliosis", dentre vrios outros.

--Demcrito e Homero: homens cegos e muito famosos

Dos homens gregos portadores de deficincias ou de limitaes, que se
notabilizaram e passaram mesmo para a Histria, o leitor certamente 
apreciar a lembrana de Demcrito e de Homero.

Demcrito (470 a 360 a.C.) foi um fsico e filsofo grego. Em seu modo
de ver, devemos procurar tudo de bom que o mundo pode ter, dentro de um 
otimismo
moderado e sem esquecer dos problemas inerentes a ele, Embora suas obras 
mais famosas no tenham chegado at ns, escreveu-as com ttulos 
interessantes, como, por exemplo, "sobre a tranqilidade da alma", "sobre 
a natureza do homem", "sobre as causas
da harmonia celestial" e outros.

Dele, quase quatro sculos aps sua morte, escreveu Ccero:

"Demcrito, aps perder a viso, no podia mais distinguir o branco do 
preto; mas distinguia o bem do mal, o justo do injusto, o honesto do 
desonesto, o til do intil, o
grande do pequeno. Pode-se ser feliz sem distinguir a verdade das cores, 
mas no se
poder s-lo sem dominar idias verdadeiras. Esse homem acreditava at 
que a viso era
um obstculo s operaes da alma" ("Tusculanae Disputationes", de 
Ccero).

Diz a lenda que, para melhor meditar, Demcrito havia inutilizado seus
prprios olhos, pois expusera  luz do sol por muito tempo uma placa de 
cobre brilhante, fazendo incidir seus raios sobre seus olhos (Apud 
Cabans).
Quanto a Homero, j notamos a grandiosidade de suas obras Ilada e
Odissia - ao falar de Hefesto, o deus da metalurgia. A respeito desse 
grande poeta
grego, afirmou Ccero quando analisava os males que aparentemente podem 
tornar uma
vida miservel, mas que podem ser superados graas  fora de cada um:

"Homero era cego, segundo a tradio. Seus poemas so verdadeiros 
quadros: que lugares, que praias, que paragens da Grcia, que tipos de 
combates, que estratgias de batalhas, que manobras navais, que 
movimentos de homens e de animais so to fielmente
retratados pelo autor, que parece nos colocar sob os olhos, o que ele 
mesmo no havia
nunca visto! O que , ento, que faltou a esse grande gnio no mais do 
que a outros
homens verdadeiramente sbios, para aproveitar todos os prazeres de que a 
alma  capaz?" ("Tusculanae Disputationes", de Ccero).

--Demstenes e seus pouco conhecidos problemas

Homem famoso e importante do sculo IV a.C. foi o orador e politico
ateniense, Demstenes. Embora tenha nascido de famlia bastante abastada, 
o garoto
perdeu seus pais muito cedo e sua fortuna foi malbaratada pelos seus 
tutores. O jovem
Demstenes tinha srias dificuldades para falar correntemente. Gaguejava 
muito, segundo os historiadores. Ao que parece ele colocava pedrinhas na 
boca e gritava ao arrebentar das ondas, a fim de vencer a dificuldade. De 
fato, obteve uma grande vitria sobre os
problemas de comunicao que o afligiam, pois chegou a tornar-se um dos 
mais enfticos oradores atenienses, chamando sempre a ateno de seus 
concidados para o perigo
contnuo dos espartanos.

Existem, no entanto, algumas dvidas quanto  extenso dos males que
de fato afetaram Demstenes durante toda a sua vida e a mais sria delas 
nos  sugerida
por duas obras de arte existentes no Museu Britanico, de Londres. Trata-
se de duas cabeas do grande orador que nos do a ntida impresso de que 
ele tinha lbio leporino do
lado esquerdo.

Saul M. Bien, do Instituto Gugenheim de Pesquisa Dentria da Universidade 
de New York, publicou na revista mdica The Lancet uma interessante carta 
ao editor, anexando uma cpia de foto da pea em questo e afirmava 
quela ocasio, entre
outras coisas: "Lembrando que Demstenes costumava descer  beira-mar, l 
enchendo
sua boca com pedrinhas para discursar acima do barulho das ondas, 
ocorreu-me que com
toda a certeza o objetivo era conseguir uma pedra lisa e plana que 
serviria como um
obturador para uma possvel fissura palatal associada com presumivel 
defeito no desenvolvimento labial".

Se a hiptese de Bien estiver correta, ressaltemos que o esforo para a 
superao dos problemas que afetavam Demstenes duramente foi bem maior 
do que o imaginado por muitos sculos j passados aps sua morte.

--Pessoas deficientes trabalhando citadas em obras gregas

Homero faz diversas citaes de pessoas portadoras de deficincias 
desempenhando funes com grande sucesso. Uma dessas citaes fala de 
Hefesto, conforme tivemos oportunidade de ver anteriormente: um ser 
superior com deficincia nas pernas e indicado como exmio artfice e 
magnfico ferreiro. Lenda provavelmente indicativa dos costumes e usos da 
sociedade de ento, cinco sculos antes da poca de Hipcrates.

Outra figura citada pelo mesmo autor relaciona-se a um contador de 
histrias e de rapsdias, alm de cantor de voz agradvel: Demdoco, "ao 
qual, mais do que
a ningum, a divindade outorgou o dom de deleitar com seus cantos, seja 
qual for o assunto que seu corao lhe inspire" . . . Homero afirma 
tambm que Demdoco era "entre todos querido da Musa, a qual lhe dera, a 
um tempo, o bem e o mal, pois, o privara
da viso e lhe concedera o melodioso canto" I"Odissia", de Homero).

H uma terceira figura citada por Homero na Odissia: Tirsias. Era um
adivinho cego, muito famoso, proveniente da vila de Tebas. Inserido em 
diversas outras
obras, a histria de Tirsias confirma a crena de que a cegueira no era 
s um mal, mas
um castigo tambm. Ele ficara cego por ter revelado  humanidade os 
segredos do Olimpo. Segundo as lendas, foi Tirsias que colaborou com o 
rei dipo na descoberta das origens e circunstancias de seu nascimento, o 
que levou o infeliz monarca a arrancar os prprios olhos, conforme vimos 
em pginas anteriores. As lendas acrescentam que mesmo
aps a morte, do prprio Hades (manso dos mortos) para onde foi, 
Tirsias continuou
a fazer adivinhaes. Retratando ou no a viabilidade da funo de 
adivinho ou orculo
ter sido bastante desempenhada por pessoas deficientes, um pouco mais 
adiante citaremos casos reais que comprovam essa possibilidade.

As aplicaes da vida prtica nas obras literrias so muito comuns e 
certamente influenciaram tambm os escritores gregos. Os exemplos citados 
acima, que so
apenas uma ilustrao retirada das obras de Homero, deixam-nos a 
impresso de que
pessoas deficientes tinham seu lugar na sociedade produtiva grega, desde 
que exercendo
funes  sua altura. O prprio Homero  um incrvel exemplo de 
competncia.

--Creso, o mais feliz dos homens

Creso  uma figura conhecida na Histria dos povos que gravitavam ao 
redor da Grcia, da Prsia, do Egito e de outros pases mais fortes e 
pujantes do sculo
VI a.C. Foi rei da Ldia entre 563 e 548 a.C. e, tido como riqussimo, 
considerava-se
para todos os efeitos o homem mais feliz de todo o mundo.

Foi em certa ocasio visitado por Slon (640 a 558 a.C.), um dos sete
sbios de Atenas, j com mais de 75 anos de idade que, embora 
impressionado com a
sua riqueza, considerou outros homens j mortos como mais felizes do que 
Creso. Segundo o velho legislador ateniense, ningum poderia afirmar com 
segurana que este ou
aquele homem era o mais feliz durante sua vida. A infelicidade sempre 
poderia surgir
repentinamente.

E Creso teve de fato, logo a seguir, dois problemas serssimos que 
provaram a teoria de Slon, empanando de vez a sua felicidade: teve dois 
filhos, "um dos quais
vitimado por uma desgraa de nascena: era surdo-mudo" ("Histria", de 
Herodoto).
106

O outro filho, apesar dos extremos cuidados do pai por muitos anos,
morreu acidentalmente durante uma caada em companhia de amigos e nobres 
da corte de seu pai. Creso teve tambm a infelicidade de ver seu reino 
invadido e dominado
por Ciro, rei dos persas, sendo por ele condenado  morte. Deveria ser 
decapitado na
presena do filho surdo-mudo e de sua corte.

No momento em que o carrasco, de espada levantada, ia desferir o golpe
mortal, o filho de Creso, num emocionante gesto de amor filial, superando 
a deficincia que omantivera mudo at ento, gritou: "Soldado, no mate 
Creso!" Ciro ficou
to impressionado com a reao do garoto e com a coragem demonstrada por 
Creso
que mandou solt-lo e recebeu-o como um de seus conselheiros. Apreciou 
tanto seu
modo de ser que o recomendou a Cambises, seu sucessor, do qual j 
falamos.

--A importancia dos orculos e adivinhos na vida grega

Todos os historiadores gregos transmitem-nos uma ntida impresso da
crena que todo o povo e mesmo todas as autoridades depositavam nos 
orculos e nas
mensagens transmitidos por sacerdotes, pitonisas e adivinhos, quase todos 
eles verdadeiros recados cifrados dos deuses consultados que admitiam 
algumas interpretaes.
Raramente decises de importancia eram tomadas sem que esses canais de 
comunicao com os deuses fossem consultados. O costume era to arraigado 
e to levado a srio que cada comandante mantinha ao seu lado um adivinho 
incorporado e pago pelo
governo, consultando-o antes de movimentar suas tropas para um combate.

Alguns desses adivinhos eram portadores de deficincias as mais variadas,
conforme comentamos anteriormente, sendo vitimas da epilepsia (o famoso 
"mal sagrado") ou de cegueira, na maior parte dos casos. Muitos deles 
tornaram-se famosos no
exercicio de sua funo, quer analisando o voo dos pssaros, quer 
examinando as entranhas de animais sacrificados, ou mesmo dando 
interpretaes instantaneas a alguns
sinais da natureza, como os ventos, raios, troves, tremores de terra, 
eclipses do sol ou
da lua, por exemplo.

Herdoto fala-nos a respeito de diversos adivinhos, durante a fortssima
campanha do rei Xerxes, soberano dos persas, contra a Grcia, nos anos 
480 a 479 a.C.,
sendo Megstias um deles. Seguia esse adivinho o herico grupo dos 300 
espartanos de
Leonidas que, no estreito das Termpilas, chegou a bloquear por vrios 
dias o imenso
exrcito do poderoso Xerxes, com mais de trs milhes de soldados. Conta-
nos Herdoto:

"O adivinho Megistias, tendo consultado as entranhas das vitimas, 
comunicou aos gregos que guardavam o desfiladeiro das Termpilas, que 
eles deviam perecer no dia seguinte, ao romper da aurora" ("Histria", de 
Herdoto).

A credibilidade do adivinho era tal que Lenidas ordenou ssuastropas
de apoio (4.000 homens de cidades aliadas  causa) para se retirar 
naquela noite mesmo,
permanecendo no local apenas ele, seus trezentos espartanos e o prprio 
Megistias que
no quis abandonar seu rei. E l deixaram uma mensagem famosa e tocante 
que hoje
est inscrita no belo monumento ali existente:
1 07

"Caminhante, v dizer aos espartanos que aqui morremos em obedincia s 
suas ordens",.,

--A histria de um adivinho famoso que era cego

Outro adivinho mencionado por Herdoto na mesma obra, de nome Deifono, 
originrio de Apolonia, na ???lIria (hoje Albnia), era filho de Eveno, 
adivinho muito mais famoso e que era cego.

A histria de Eveno, nas palavras do prprio Herdoto,  esta:

"Durante todo aquele dia os combatentes gregos mantiveram-se em repouso, 
e na manh
do dia seguinte realizaram sacrifcios aos deuses, sendo-lhes favorveis 
os augrios deduzidos do exame das entranhas das vtimas. Tinham eles por 
adivinho Deifono, de Apolnia, cidade situada no golfo lnio, filho de 
Eveno, a quem aconteceu estranho fato, que
passo a relatar. Existem na cidade de Apolnia rebanhos consagrados ao 
sol. Durante o
dia esses rebanhos pastam s margens de um rio que desce do monte Lcmon, 
atravessa
aquela cidade e desemboca no mar perto do porto de rico; mas  noite so 
guardados
por um habitante da cidade, escolhido todos os anos entre os cidados da 
mais alta categoria, quer pelo nascimento, quer pelas suas posses; pois 
os Apolonitas, em vista da
advertencia de um orculo cercavam esses rebanhos do maior cuidado. 
Passavam eles a
noite numa gruta afastada da cidade. Eveno, tendo sido escolhido para 
essa misso, dormiu quando devia velar. Os lobos, entrando na gruta, 
devoraram cerca de sessenta animais. Despertando e vendo o que 
acontecera, Eveno resolveu ocultar o fato, com a inteno de adquirir 
outros animais para substituir os que haviam sido devorados pelas
feras. Contudo, os Apolonitas vieram a ter conhecimento da verdade e, 
indignados,
submeteram Eveno a julgamento, condenando-o a perder a vista, por ter 
dormido quando devia estar vigilante. Mas depois que lhe vazaram os 
olhos, os rebanhos deixaram de
procriar e a terra cessou de produzir frutos. Essa calamidade lhes havia 
sido predita pelo orculo de Dodona e de Delfos. Os profetas, consultados 
sobre a causa de tamanha
desgraa, responderam constituir aquilo uma punio pela injustia que 
haviam cometido, cegando Eveno, guarda dos rebanhos sagrados. Disseram 
que eles prprios tinham
enviado os lobos e que continuariam a ving-lo at que os Apolonitas 
reparassem a sua
injustia para com ele. Quando isso se desse, eles prprios concederiam a 
Eveno um
dom que o faria parecer a muitos um homem verdadeiramente feliz".

Herdoto continua a narrativa, informando:

"Ante essa resposta, que lhes foi dada sob sigilo, os Apolonitas 
incumbiram alguns de
seus concidados de irem  procura de Eveno, a fim de sond-lo quanto  
sua maneira
de sentir com relao  pena que lhe fora imposta. Os emissrios foram 
encontrar Eveno
sentado numa cadeira. Tomando assento ao seu lado, puseram-se a falar-lhe 
sobre coisas banais, fazendo, aos poucos, recair a conversa sobre a 
desgraa que o atingira, terminando por perguntar-lhe como receberia uma 
reparao dos Apolonitas, se eles se mostrassem dispostos a assim 
proceder, e qual a que ele considerava mais justa no caso.
Eveno, que ignorava a resposta do orculo, respondeu que, se os 
Apolonitas, em repa109

rao ao mal que lhe causaram, lhe concedessem terras, escolheria as de 
dois de seus
concidados, cujos nomes citou, consideradas as melhores de todo o pas. 
Gostaria tambm que lhe dessem a mais bela casa da cidade. Com tais 
compensaes ficaria satisfeito, cessando as suas queixas contra os seus 
concidados".

"Eveno--disseram os emissrios--os Apolonitas lhe concedem, obedecendo s 
ordens
do orculo, a reparao que exiges pela perda da viso". Posto, ento, ao 
corrente dos
fatos que se seguiram  sua punio, Eveno mostrou-se bastante 
contrariado por haver
sido enganado; mas os seus desejos foram satisfeitos, pois os Apolonitas 
adquiriram as
propriedades que ele havia escolhido e fizeram-lhe presente delas. Logo 
depois, os deuses lhe concederam o dom da adivinhao, com o que ele 
adquiriu grande celebridade"
("Histria", de Herdoto).

--As prteses de Hegesstrato, adivinho grego

Hegesstrato de Elia  considerado como o adivinho "mais clebre das
Teladas", na opinio de Herdoto, aparecendo como agregado s tropas de 
Xerxes, por
volta de 479 a.C., ao final da grande luta contra os gregos.

Vrios anos antes disso, todavia, os espartanos haviam capturado 
Hegesistrato que era apenas um rebelde que combatia continuamente a 
Lacedemnia. Posto a ferros, devia ser executado aps inimaginveis 
torturas,

Herdoto nos conta que "encontrando-se em to triste situao e tendo
antes de ser executado de sofrer ainda os mais cruis tormentos, praticou 
um ato de
incrvel temeridade. Achava-se com os ps presos em entraves de madeira 
guarnecidos
de ferro. Servindo-se de um instrumento cortante, que algum, sem dvida, 
lhe havia
trazido, seccionou a parte do p acima dos dedos, depois de ter examinado 
se poderia
libertar dos entraves o resto do p. Depois de ter praticado a mutilao 
e retirado o p,
como a priso estava guardada, fez um buraco na parede e fugiu, 
caminhando durante
a noite e escondendo-se durante o dia nos bosques. Na terceira noite de 
caminhada
chegou a Tega, apesar das buscas dos lacedemnios, que se mostraram 
bastante espantados com a audcia do fugitivo ao verem nos entraves a 
parte dos ps mutilados".

"Assim Hegesstrato, tendo conseguido escapar  perseguio dos 
lacedemnios, refugiou-se em Tega, que no se mantinha, naquela ocasio, 
em muito boas
relaes com Esparta. Curando-se dos ferimentos praticados em si prprio, 
passou a
usar ps de madeira e tornou-se inimigo declarado dos lacedemnios" 
("Histria", de
Herdoto) .

Diversos anos aps, ocorrida a invaso de Xerxes, Hegesstrato trabalhou
como adivinho de seus exrcitos sendo muito apreciado e admirado por 
Mardonio, general comandante dos persas na Grcia. Vaticinara maus 
resultados para a batalha de
Platia, mantendo com isso o exrcito persa parado por 10 dias. Mardnio, 
entretanto,
no lhe deu ouvidos, entrou na batalha e foi morto, deixando aos gregos a 
sensao de
que finalmente Leonidas havia sido vingado. Os persas retiraram-se para a 
Tesslia de
onde prosseguiram, em retirada, at a Prsia.
--Peste Ateniense: o terror generalizado

Dentre as epidemias graves, ou "pestes" como foram muitas delas 
conhecidas, podemos destacar tres na antigidade: a "Peste Ateniense", a 
"Peste Antonina"
e uma outra, sem nome, que ocorreu no sculo III d.C.

A "Peste Ateniense" teve uma testemunha ocular muito precisa no 
historiador Tucdides (471 a 395 a.C. ), tido como o mais brilhante dos 
historiadores gregos, que a relatou em sua obra "A Guerra do Peloponeso". 
Ela ocorreu no ano 428 a.C.
e matou mais de 20 mil dos 100 mil habitantes de Atenas. Deixou um 
elevado nmero
de vitimas com deficincias fisicas.

Tucdides nos conta com muita clareza: "Se se escapava dos problemas
mais graves, o mal atingia as extremidades que, nesse caso, mantinham as 
marcas da sua
passagem; atacava os rgos sexuais, os dedos das mos e dos ps. Muitos 
livraram-se dela com a perda desses membros, outros pela perda dos olhos: 
outros, enfim, ficaram totalmente privados da memria" ("Histoire de la 
Guerre du Ploponse", de Tucdides).

--A ateno a soldados feridos ou doentes. Anbase, de Xenofonte

Raros so os autores gregos que analisam ou mesmo fazem qualquer meno 
ao problema dos feridos ou doentes nos exrcitos da Grcia Antiga, muito 
embora
as batalhas fossem sempre sanginolentas e os tipos de armas ento 
utilizadas levassem
a incontaveis riscos no s de perfuraes graves ou fatais, como tambm 
de cortes profundos e de amputaes.

Encontramos em "Anbase", a famosa obra de Xenofonte (430 a 355
a.C.),um relato pormenorizado sobre a retirada de 10.000 mercenrios 
gregos contratados por Ciro, que disputava com seu irmo Artaxerxes II a 
coroa do Imprio Persa. Essa
famosa "marcha para o norte", que comeou em Cunaxa, onde Ciro foi morto 
em acirrada batalha, durou cinco meses entre 401 e 400 a.C. e nela tomou 
parte o prprio
Xenofonte, como um de seus comandantes.

 nessa obra que podemos encontrar algumas referncias  questo dos
feridos e dos doentes, e que podero ser ilustrativas quanto ao 
tratamento e  ateno
dispensados aos soldados fisicamente prejudicados em batalha.

No enorme esforo coletivo para viabilizar o retorno de todo aquele 
infeliz exrcito, podemos imaginar a dramtica situao vivida pela 
totalidade de seus homens e acompanhantes, sempre perseguidos por 
destacamentos das foras de Artaxerxes
II ou pelas tribos habitantes das montanhas do Turquisto e da Armnia 
por onde passaram. O drama ficou muito mais forte quando tiveram que 
enfrentar os perigos das montanhas prximas ao nascedouro do Eufrates, 
cobertas de neve, uma vez que as circunstncias da marcha contnua no 
permitiam deixar ningum para trs.

Em sua narrativa cristalina Xenofonte fala de relance no srio problema
dos soldados doentes ou feridos. Faz meno queles que haviam ficado 
cegos ou que
tinham tido membros amputados devido ao congelamento. Descrevendo a 
pressa em subir as montanhas e em escapar dos desfiladeiros perigosos, 
cita os suprimentos e bens
abandonados e imediatamente capturados e repartidos com um grande alarido 
pelos brbaros que os perseguiam muito de perto.

"Deixamos tambm para trs os soldados que a neve havia cegado ou que
o frio havia congelado os dedos dos ps. Podia-se proteger os olhos do 
brilho da neve colocando diante deles um objeto negro enquanto se 
marchava. Podia-se tambm impedir
os ps de congelar movimentando-os, no os deixando em repouso e tirando 
o calado
antes de dormir" ("Anbase", de Xenofonte).

Esses homens eram sempre colocados e protegidos na retaguarda e 
ocasionalmente participavam das escaramu as com as tribos de 
montanheses, pelo menos com
seus gritos furiosos e com o barulho infernal que podiam fazer batendo 
espadas e lanas
contra seus prprios escudos.

Nota-se em certos pontos do livro IV a preocupao e o carinho para com
esses homens feridos ou doentes. Tanto isso  verdadeiro, que, aps cinco 
meses de marcha para o Mar Negro, tendo chegado s costas e se instalado 
com certa tranqilidade
por um ms, decidiu-se buscar a ajuda dos navios gregos.

Enquanto ela no chegava para transportar os 8.600 homens e seus 
acompanhantes que haviam sobrevivido  travessia, os primeiros a embarcar 
para a ptria nos
navios ali mesmo disponveis foram os doentes e alguns outros componentes 
das foras
gregas. Segundo palavras de Xenofonte, "embarcamos os doentes"--e dentre 
eles estavam os que podiam ser considerados como deficientes--"os 
soldados com mais de 40
anos, as crianas, as mulheres e a carga suprflua"

--Homens com srias luxaes nas pernas: sapateiros, ferreiros, seleiros

Informaes interessantes sobre a utilizao de homens com deficincias
fsicas nas profisses de selaria, sapataria e ferraria nos so 
transmitidas por Hipcrates
ao comentar sobre a sociedade das Amazonas.

Eram mulheres guerreiras que, segundo algumas lendas, habitavam a regio 
da Capadcia. A etimologia da palavra no  muito segura, mas h os que 
afirmam
tratar-se de antiga composio grega para o correspondente a "sem seio". 
As histrias relatam que as mes superaqueciam metais e outros objetos 
para deix-los durante longo
tempo bem prximos ao seio direito das meninas, dificultando com isso o 
seu crescimento e dando a cada uma delas, quando adultas, melhores 
condies para manuseio do arco
e da flecha.

Na verdade, nessa estranha e semi-fantasiosa cultura comentada por vrios 
autores, tais como Homero, Herdoto e mesmo Hipcrates, cabia s mulheres 
lutar
e aos homens, desenvolver trabalhos manuais sedentrios em situaes 
especiais, uma vez
que toda criana do sexo masculino praticamente era levada ao prprio 
pai, em outras
naes e terras distantes, para ser criada.

Hipcrates, em sua obra sobre as articulaes tece comentrios bem 
especificos e muito claros quanto a deformaes provocadas pelas Amazonas 
em seus filhos
do sexo masculino que excepcionalmente ficavam com as respectivas 
comunidades. Diz
o grande sbio:

"Contam que as Amazonas provocam, desde a infancia, em seus filhos do 
sexo masculino, uma sria luxao, seja nos joelhos seja nos quadris, com 
objetivo de, sem dvida, transform-los em coxos, e de impedir que os 
homens conspirem contra as mulheres; servem-se elas depois desses 
deficientes como trabalhadores, para as tarefas de
sapateiro, ferreiro e outros ofcios sedentrios. Ignoro se a referncia 
 verdica, mas
o que  certo  que as coisas aconteceriam mesmo assim, se as crianas 
fossem mutiladas durante a infancia" (Apud Moreno).

- Alexandre, o Grande: sua ateno a soldados com deficincia

Um dos maiores gnios militares que a Humanidade j conheceu, Alexandre 
III, o Grande (356 a 323 a.C.), rei da Macednia de 336 a 323, criou o 
chamado Imprio Grego que ia desde os limites da India, a Leste, at a 
Citia, ao Norte. Ao Sul atingia o Egito e o Golfo Prsico.

Foi educado por Aristteles, especialmente contratado por Felipe da 
Macednia, seu pai. Alm de monarca e comandante militar, Alexandre foi 
filsofo, homem que respeitava os usos e costumes dos povos subjugados e 
repleto de dignidade.
Morreu com apenas 33 anos de idade e ao final de sua curta vida, havia 
no apenas conquistado terras e reinos, mas tambm feito muitos amigos e 
aliados. Eventualmente encontramos informaes de que Alexandre sofria de 
epilepsia, mas nem todos os autores
o confirmam.

Alexandre sempre foi muito participante da vida e das agruras sentidas
por seus comandados, tendo em certa ocasio ficado quase cego devido ao 
seu envolvimento.  Plutarco que nos conta com pormenores coloridos o 
acontecimento.

Foi durante violento ataque a uma fortaleza de tribos conhecidas como
"malianas", atualmente em territrio da ndia. O destemido rei dos 
macednios estava
tentando galgar um dos lados da muralha que defendia as instalaes, por 
meio de uma
escada, juntamente com os demais companheiros, no auge da batalha, quando 
ela cedeu
fragorosamente. Alexandre, agarrado que j estava ao alto da muralha, ali 
permaneceu e
no teve outra alternativa a no ser saltar no meio dos inimigos que 
contra ele atiravam
setas e pedras. Com o barulho do guerreiro e de suas armas batendo 
fortemente no cho,
todos fugiram para os lados, mas logo voltaram-se para verificar se ele 
ainda vivia. E o
ataque sobre ele foi feroz. Alexandre e apenas dois companheiros 
encostaram-se contra
a muralha, prximos que estavam de uma grande rvore, e daquele ponto 
mesmo enfrentaram a multido de inimigos e seus golpes violentos. 
Chegaram a ferir seriamente
Alexandre com um golpe que furou sua armadura na altura do peito.

"O golpe foi to forte que ele, perdendo as foras, caiu de joelhos: 
aquele que havia desferido o golpe correu depressa com a cimitarra 
desembainhada na mo,
mas Peceutas e Limneu lanaram-se  sua frente e foram ambos feridos; 
Limneu morreu na hora e Peceutas enfrentou-o, enquanto o prprio 
Alexandre matava o brbaro
com suas prprias mos, depois de ter recebido vrias feridas pelo corpo 
todo. Finalmente desferiram-lhe um golpe de cacete na nuca, deixando-o 
atordoado" ("Alexandre, o
Grande", de Plutarco).

Forrest, porm, discorda dessa traduo, uma vez que, segundo ele, 
"Alexandre recebeu um violento golpe na nuca com uma pedra, que apagou 
sua visao por um
bom tempo" (Apud Forrest)

Alexandre foi salvo pela imediata afluncia de soldados macednios, mas
permaneceu muitos dias entre a vida e a morte.

Pois bem, esse inimitvel heri da histria greco-macednica que foi 
Alexandre, o Grande, sempre foi muito apreciador dos esforos e dos 
sacrifcios feitos por
seus soldados. Tanto isso  verdade que, um ano antes de morrer procurou 
mandar de
volta  Macednia, com todo um aparato de segurana, "os doentes e os 
invlidos, que
haviam perdido algum membro na guerra" . . . Alexandre passou alguns 
dissabores com
seus principais comandantes devido a esse plano, mas acabou por faz-los 
retornar todos
 ptria, "aps lhes haver dado magnficos presentes; escreveu ao seu 
lugar-tenente Antpater, que em todas as assemblias de jogos e de 
divertimentos pblicos, eles fossem
preferidos e se sentassem nos melhores lugares, coroados de flores e quis 
ainda que as
crianas rfs dos que haviam falecido, ao seu servio, recebessem o 
soldo de seus pais"
("Alexandre, o Grande", de Plutarco).

--Asclepia de Epidauros: seu significado para pessoas deficientes

Conforme analisamos anteriormente, a influncia dos deuses foi marcante 
em praticamente toda a vida da Grcia Antiga, e mesmo depois de instalado 
o Cristianismo. Mais do que ningum conhecedores disso, os sacerdotes e 
sacerdotizas procuravam, por todos os recursos  sua disposio, tornar o 
seu deus especfico o mais eficaz
e o mais poderoso possvel.

Asclpios, que os romanos, devido a uma corruptela de pronncia, muito 
mais tarde passariam a chamar de Esculpio, reconhecido como o deus da 
cura e da
medicina, foi um caso todo especial e que merece toda a nossa ateno, 
dentro do tema
que estamos procurando analisar, contando com templos em cidades, ilhas e 
mesmo naes as mais diversas que recebiam a influncia grega.

Seu templo mais famoso foi aquele localizado em Epidauros, vila situada a 
nordeste do Peloponeso, ao sul da Grcia de nossos dias. Havia, no 
entanto, muitos outros templos e alguns deles considerados como muito 
importantes, tais como o de
Prgamo, de Tricca e de Cs. Em sua grande maioria os templos de 
Asclpios localizavam-se em pontos de alta salubridade devido ao ar muito 
puro, s guas termais e algumas outras condies que hoje caracterizam 
em geral as "estaes hidrominerais".

Quanto ao templo e s diversas instalaes adjacentes de Epidauros, 
podemos admirar apenas suas runas, a mais de doze quilmetros do porto 
de Palaia
114

Epidhauros. E o visitante no pode deixar de ficar admirado com a extinta 
pujana daquilo que por sculos diversos foi reconhecido como a 
"Asclepia de Epidauros". Foram escavadas, parcialmente restauradas e 
tombadas as runas de seu teatro--famoso
e muito bem conservado, sendo considerado como um dos melhores de toda a 
Grcia
de hoje--do estdio esportivo, do ginsio que contava at com piscina, de 
uma espcie
de hotelaria, de um muito sofisticado e complexo templo circular 
conhecido como
"tholos", do prprio templo de Asclpios, de uma construo adjacente ao 
templo e
conhecida como "abaton" e tambm de um hospital.

Lemos no estudo biogrfico romanceado sobre a vida de Marco Tlio
Ccero, intitulado "A Pilar of Iron", da escritora norte-americana Taylor 
Caldwell,
uma descrio minuciosa de Epidauros do sculo I a.C. e muitas de suas 
instalaes.
VrioS pontos dessa descrio dos ambientes so muito importantes para 
melhor entendermos o real significado do conjunto de construes chamado 
de Santurio de Asclpios, ou "hiron", no prprio grego, para pessoas 
vtimas de doenas crnicas, de males misteriosos e tidos como incurveis 
e de deficincias das mais variadas naturezas.
A escritora valeu-se de uma vasta documentao, visitas aos locais e 
conhecimentos acumulados por estudiosos especializados nas runas e no 
antigo funcionamento de Epidauros. Baseou-se tambm em muitas discusses 
com sociedades histricas e arqueolgicas
gregas. Diz ela em seu famoso livro que o "santurio de Asclpios, 
conhecido em todo
o mundo civilizado, no era apenas um templo religioso e miraculoso, mas 
toda uma
comunidade". Segundo a autora, em consonancia com documentos histricos 
sobre o
assunto, o santurio recebia continuamente pessoas portadoras de males os 
mais variados e muitos de natureza grave, e era o ltimo recurso para 
aqueles que haviam sido
abandonados ou desenganados pelos mdicos como casos incurveis ou sem 
qualquer
possibilidade de soluo.

Ali surgiam continuamente pessoas com artrite, cegos, surdos, mudos, 
deficientes mentais, vitimas de paralisias, reumticos, casos de doenas 
degenerativas, vtimas de picadas de aranha ou de cobra, casos de 
gestao difcil, vtimas de acidentes
com seqelas graves e muitos outros.

Por essa razo, e levando-se em conta o cerimonial adotado pelos 
sacerdotes para permitir a aproximao ao famoso deus da cura e da 
medicina, no  de admirar
que eles fossem sempre mdicos muito experimentados que guardavam em 
segredo fechado um verdadeiro e surpreendente monoplio de conhecimentos 
passados muitas vezes de pai para filho. Tratavam os casos no apenas com 
ateno e carinho de um sacerdote ou autoridade religiosa, mas com 
avanados conhecimentos de medicina.

Epidauros, devido ao seu movimento contnuo e permanente afluncia de
casos mdicos que durou mais de quatro sculos, chegou a representar um 
campo de
observao e de prtica da medicina antiga dos mais srios de toda a 
Grcia Clssica, mas
quase que totalmente inserido num ambiente fechado e muito mstico no 
qual a f nos
poderes de Asclpios desempenhou um papel de fundamental importncia.
--As famosas instalaes de Epidauros

Analisemos um pouco suas instalaes. O recinto sagrado propriamente
dito ("hiron") contava com algumas reas especiais, conforme poder 
ainda hoje ser
observado nas prprias runas ali expostas. Dentre esses ambientes 
fsicos especiais 
necessrio destacar o chamado "abaton" e o prprio templo do deus 
Asclpios. O primeiro  um amplo prtico, todo construdo em colunadas 
praticamente ao lado do templo, sendo internamente dividido em dois 
nveis. No nvel inferior ficavam os casos de
pessoas impossibilitadas de andar ou que provocavam srios impecilhos 
para seu transporte e no superior havia acomodaes para os casos menos 
graves. H alguns estudiosos de Epidauros que afirmam ser a separao em 
niveis correspondentes  distribuio
por sexo.

Para todos os fiis que desejavam uma aproximao a Asclpios havia
condies previamente estabelecidas pelos sacerdotes tanto para entrada 
no templo
como para utilizao do "abaton". Os mdicos-sacerdotes ficavam 
conhecendo todos
os casos com antecipao e, a pretexto de regras do culto, iniciavam um 
tratamento
prvio atravs de ritos purificadores incluindo neles os banhos 
medicinais, jejuns, dietas especiais, sacrifcios ao deus, donativos ao 
complexo sagrado e outros tipos de
interveno que procuravam ligar intimamente aos ritos de aproximao ao 
"abaton",
caso o devoto tivesse condies de cura, possibilidades eventuais de 
volta ou necessidade
de orientaes para cura mais demorada. Aps esses trabalhos iniciais e 
caso o devoto
cumprisse todos os requisitos iniciais, ele era aceito para passar uma 
noite no "abaton",
dormindo sobre uma pele de animal sacrificado ao deus ou sobre um catre, 
em ambiente
intencionalmente misterioso.

O templo de Asclpios, em Epidauros, era de um estilo drico puro, todo
cercado de colunas, medindo 25,50 metros de comprimento e 13 metros de 
largura.
Suas paredes eram construdas de pedra rebocada de branco. Seu teto era 
todo forrado
com tboas de cipreste. No fronto do templo havia uma vistosa esttua de 
Nik, a deusa da vitria. A entrada principal do templo era bem ampla, 
com cinco colunas dricas e
contava com uma rampa de acesso. Rampas de acesso eram tambm usadas nas 
instalaes do edifcio conhecido como "tholos", do "abaton" e da 
"propilia" do famoso
templo, conforme podem ainda ser notadas nas runas existentes em 
Epidauros. O piso
da nave do templo era acabado em mrmore branco e preto. O altar interno 
do templo
(havia o altar externo, para sacrifcios de animais), a meio caminho da 
nave, era de mrmore branco, levemente iluminado por lamparinas. E ao 
fundo, em ambiente suavemente rebaixado e cercado por leves degraus, 
ficava um trono no qual estava a bela imagem
de Asclpios, em marfim e ouro, rosto sereno, com uma das mos segurando 
um basto
e a outra pousada sobre a cabea de uma serpente sagrada. A seus ps, um 
co sagrado.

--O sistema de funcionamento de Epidauros

Desde a entrada do templo at o trono de Asclpios, sacerdotes e 
auxiliares espalhavam-se por todo o ambiente, ajudando os enfermos ou as 
pessoas devotas,
116

orando ou entoando canticos sacros. Cuidavam para que tudo corresse bem 
para os fiis,
evitando zelosamente para que ali dentro no sucedessem nem mortes nem 
nascimentos.
Eventualmente alguns ces cruzavam o local, pois alm de serem 
considerados animais
sagrados, eram ali mantidos para a vigilancia e salvaguarda do templo. 
Serpentes sagradas
e no-venenosas eram olhadas com extremo respeito em seus raros e 
ocasionais passeios
pelos cantos do templo ou pelo arvoredo que o cercava--eram elas 
consideradas como
o prprio smbolo do deus Asclpios.

O devoto portador de um mal ou de uma deficincia, e em geral desenganado 
por mdicos--ou deles desiludido--aps um perodo de preparao j citado 
e
que poderia durar alguns dias, dormia uma noite no local conhecido como 
"abaton",
sendo preparado por alguns mtodos hipnticos ou pelo consumo de 
alimentos ou poes sonferas receitadas pelos mdicos-sacerdotes. Essa 
espcie de "retiro espiritual"
para o qual havia uma srie de orientaes, era conhecida como "noite de 
incubao",
e considerada como elemento essencial para o culto do deus e a eventual 
efetivao da
cura. Era durante essa noite que aconteciam vises ou sonhos, e pela 
manh os sacerdotes anotavam e interpretavam todos eles, como se fossem 
mensagens diretas do prprio
Asclpios, sem, todavia, descuidar das medicaes ou das providncias que 
vinham adotando desde a chegada do devoto ao santurio.

--Pluto, deus da riqueza, curado por Asclpios

Aristfanes (450 a 388 a.C.), em sua pea "Pluto, o Deus da Riqueza",
fala-nos pormenorizadamente do ritual utilizado em templos de Asclpios. 
Trata-se de
uma trama bem desenvolvida na pea na qual vemos Cremilos, pobre e 
honesto, procurando um orculo para encontrar a riqueza. Logo aps, ao 
perseguir e dominar um mendigo cego, percebe tratar-se de Pluto, o 
prprio deus da riqueza.

Vejamos um trecho em verso, no qual Aristfanes indica a j consagrada
fama de Asclpios:

"Cremilos
B lepsidemos
Cremilos
B lepsidemos
Cremilos
Blepsidemos
Cremilos
Blepsidemos
Cremilos

B lepsidemos
Cremilos
Blepsidemos
Cremilos

- Restaurar a viso. . .
- . . . Restaurar a viso de quem?
- Restaurar a viso de "Riqueza", do modo que pudermos!
- O que? ! Ele  realmente cego? . . .
Ele , realmente!
- Ah! Porisso  que ele jamais veio a mim. . .
- Mas agora ele vir, se for o desejo dos cus.
- No seria melhor chamarmos um mdico?
-- Existe neste instante algum mdico em toda a cidade?
No h pagamentos e, portanto, no h especialistas!
- Pensemos um pouco. . .
- No h nenhum!
- No h mais nenhum. . .
-- Ento, ser melhor fazermos aquilo que eu j pretendia:
Faz-lo dormir no templo de Asclpios a noite toda.
Blepsidemos -- Estou certo de que  melhor mesmo. Portanto, deixe de 
vadiar:
Rpido, faa alguma coisa. . ." (Apud Edelsteinl

Carion, outro personagem da comdia, encarregado de levar Pluto at
ento disfarado em mendigo cego ao templo de Asclpios, volta muito 
feliz de sua viagem e conta  esposa como havia ocorrido a cura. Usa uma 
linguagem pitoresca e por vezes muito irreverente. Vejamos, numa traduo 
em prosa, os pontos que mais nos interessam em sua narrativa e lembremo-
nos de que ela foi escrita quatro sculos antes do
nascimento de Jesus Cristo. Ela nos fala de perto a respeito dos 
problemas das pessoas
com deficincia  busca de cura para seus males, para os quais os mdicos 
de ento no
encontravam solues.

"Carion (dirigindo-se  esposa)--Oua, eu vou lhe contar todo esse 
negcio incrivel,
dos ps at a cabea"... ... "Logo atingimos o templo do deus, levando o 
homem
muito infeliz ento, mas to feliz e to rico agora. Imediatamente 
levamo-lo at o
mar e l o banhamos"... ..."Depois, levamo-lo ao recinto sagrado. L, 
sobre o
altar, bolos de mel e guloseimas eram oferecidos, alimento para a chama 
de Hefesto". . .

"Esposa--No havia outros para serem curados?"

"Carion--Neocleides era um deles; o pobre cego que durante seus furtos 
havia furado
seu prprio olho. E muitos outros, doentes com todas as formas de 
doenas.
Logo o servidor do templo apagou as luzes e mandou-nos dormir, sem nos
movermos ou falarmos a qualquer barulho que ouvssemos. Assim sendo, 
deitamo-nos num repouso tranqilo".

Carion, muito observador, muito irreverente e muito curioso do que ali
poderia suceder, v na penumbra do "abaton" a figura de um sacerdote 
coletando e levando as oferendas que estavam sobre o altar, colocando-as 
todas num saco. E aps algumas peripcias no ambiente de recolhimento 
pretendido pelos sacerdotes, conta o
aparecimento de Asclpios, acompanhado das deusas Panacia e laso. O deus 
vai de paciente a paciente, muito calmo, estudando cada um deles.

Perto do cego Neocleides um servente coloca ao lado do deus um pequeno 
pilo e uma caixa de medicamentos; o deus faz a mistura com vrios 
ingredientes e
coloca-a nos olhos de Neocleides, sem cur-lo, mais para castig-lo por 
seus furtos do
que para livr-lo da cegueira parcial.

A seguir, d ateno ao cego Pluto:

"Carion --Depois, sentou-se ao lado de Pluto e primeiro apalpou a cabea 
do paciente e depois, tomando um leno de linho, limpo e branco, limpou 
seus lbios e os
secou. Ento, Panacia, com um manto vermelho, cobriu seu rosto e sua 
cabea; o
deus assobiou e duas grandes serpentes sairam do santo altar. E 
escondidas sob o
manto vermelho, elas lamberam seus olhos, segundo me parece. E, querida, 
antes
mesmo que voc pudesse tomar dez clices de vinho, Pluto levantou-se e 
enxergou"
(Apud Edelstein).
--Os testemunhos das muitas curas
de natureza grave:

Segundo arquelogos e historiadores especializados no assunto, ocorreram, 
s em Epidauros e sem considerar outros templos, curas verdadeiras devido 
a medicaes corretas e bem dosadas, devido a intervenes cirrgicas das 
mais variadas naturezas, devido a banhos especiais, devido a massagens e 
certos tratamentos ligados quilo
que hoje podemos chamar de fisioterapia, e tambm devido  sugesto. No 
entanto, destaque-se que em todos os casos que recorreram a Asclpios 
existiu por parte dos beneficirios uma f muito forte em seu poder de 
cura. Sua fama ultrapassava em muito o Mar
Egeu e o Adritico.

Uma pequena parte dessas curas mais misteriosas foi para sempre 
registrada em pedras votivas, em ex-votos especiais, em placas de 
agradecimento, em pergaminhos, em colunas votivas, hoje localizados em 
diversos museus e no prprio acervo histrico de Epidauros.

Existem, por exemplo, algumas colunas votivas que citam muitos casos,
incluindo mais de cem curas consideradas hoje como inexplicveis e tidas 
como miraculosas.

Eis um testemunho eloqente relativo  cura de um mal indefinivel, mas

"O lugar est deserto e no h ningum ao meu redor para ouvir minhas 
palavras.
Acreditem-me, homens, estive morto durante todos os anos que eu j havia 
vivido.
O belo, o sagrado, o mau eram todos semelhantes para mim; tal era, 
segundo me parece, a escurido que me envolvia em minha compreenso e que 
de mim escondia
todas essas coisas. Mas agora que aqui vim, recomecei a viver pelo resto 
da minha vida, como se eu tivesse dormido no templo de Asclpios e 
tivesse sido salvo. Este sol
to grande, to belo, agora por mim descoberto pela primeira vez, homens! 
Agora,
hoje, eu vejo vocs, o ar, a acrpole, o teatro, sob ocuclaro!"...(Apud 
Edelstein)

Outro caso citado por vrios autores est retratado numa invocao
nuito fervorosa que mostra a imensa f e o forte conceito de Asclpios no 
seio do povo.
Diz ela:

" Asclpios,  desejado, o invocado deus! Como poderei ir ao teu templo 
se tu mesmo no me conduzires a ele,  invocado deus que superas o 
esplendor da terra primaveril! E esta  a orao de Diofanto. Salva-me,  
misericordioso deus; somente tu, na
terra e no cu.  piedoso deus, o deus de todos os milagres, graas a ti 
Diofanto no
andar mais como um caranguejo, mas ter bons ps como tu o quiseste" 
(Apud
Montanel I i ) .

Na maioria dos casos considerados como inexplicveis e milagrosos, no
tem sido vivel  cincia mdica fazer julgamentos objetivos das curas 
por no ser mais
possvel contar com qualquer base cientifica para anlise quanto aos 
males alegados que
afetavam as pessoas beneficiadas e muito agradecidas ao deus da cura e da 
medicina. Vejamos, a ttulo de ilustrao, alguns casos de pessoas que 
haviam levado ao templo de
119

Asclpios em Epidauros problemas de deficincias srias, tais como a 
cegueira, dificuldades de locomoo e outros, e as circunstancias de sua 
cura.

a)Nicanor--deficincia nas pernas

Segundo uma das colunas votivas acima indicadas e que mais parecem 
compilaes
de davos a respeito de curas miraculosas, Nicanor era um homem que sofria 
sria limitao nas pernas.  indicado como manco. Estava recolhido e 
sentado no interior
do templo de Asclpios, orando em preparao para a sua "noite de 
incubao" no
"abaton". Ao seu lado, a bengala que era forado a usar. De sbito um 
misterioso e
travesso menino passou correndo ao seu lado e tirou-lhe a bengala, 
dirigindo-se na direo da sada. Nicanor, surpreso e aborrecido, 
levantou-se para perseguir o garoto.
S quando chegou ao lado externo do templo,  procura do menino,  que 
notou que
estava curado de sua limitao fisica.

b) Alktas, de Haliis--homem cego

Este homem cego, durante a noite que passou no "abaton" teve um sonho: 
viu o prprio deus Asclpios chegar at ele e abrir-lhe os olhos com seus 
dedos. As primeiras
coisas que enxergou, enquanto o deus manipulava seus olhos, foram as 
sombras das
rvores do lado de fora do santurio, no meio da noite. Ao chegar o dia 
saiu curado.

c) Lyson, de Harmione--menino cego

Como milhares de outros casos, este menino cego estava no templo de 
Asclpios para
pedir sua cura e nada mais. Ali sentado, esperava pacientemente. Em certo 
momento
sentiu, um tanto surpreso, que um dos ces sagrados do santurio havia 
chegado perto dele e comeara a lamber seus olhos. Um pouco depois 
levantou-se muito feliz,
pois comeara a enxergar as coisas. Ficou tambm curado.

d) Eschino--homem cego por ferimento recente

Com este homem aconteceu algo desagradvel, muito embora o incidente seja 
bastante interessante. Curioso por saber o que poderia estar acontecendo 
no "abaton", no
meio da noite, com tantos doentes ali dormindo e as histrias de que 
Asclpios aparecia em pessoa, subiu numa das grandes rvores que davam 
sombra ao recinto, sem que
os vigias ou os sacerdotes percebessem. Procurou um galho que lhe desse 
acesso ao
muro perto das colunadas do "abaton", para poder ver melhor. O galho, 
entretanto,
no suportou seu peso e ele caiu fragorosamente sobre umas estacas 
existentes no jardim, ferindo gravemente os olhos. Em lamentvel estado, 
foi socorrido. Suplicou perdo pela sua curiosidade. Depois dos primeiros 
cuidados foi recolhido ao "abaton"
para uma noite de preces, tendo de l sado curado..

e) Menina muda
No identificada, existe a histria de uma menina muda que, ao entrar no 
recinto sagrado, corria de c para l, curiosa e muito irriquieta. De 
repente, pega de surpresa e
120

aterrorizada com uma serpente sagrada que descia de uma rvore, gritou 
pelo pai, pedindo socorro. A partir desse momento voltou a falar.

f) Menino mudo no identificado

Tambm sem identificao, este menino mudo chegou ao templo de Epidauros 
acompanhado pelo pai, com o objetivo evidente de recuperar a voz. Aps 
ter feito os sacrifcios e passado pelos ritos iniciais, como era 
costumeiro para todos os casos, estava sentado no templo, aguardando, em 
orao, ao lado do pai. O servente do templo,
que acendia as lamparinas para sua iluminao interna, olhando para o pai 
do menino
sugeriu que ele deveria prometer trazer, dentro de um ano, a oferta de 
agradecimento
pela cura do filho, caso o garoto obtivesse aquilo que viera buscar 
naquele templo de
Asclpios. Mas foi o prprio menino mudo que de repente respondeu: "Eu 
prometo".
O pai, espantado, pediu que ele repetisse. O garoto respondeu sem 
hesitao--e depois disso ficou curado.

O leitor talvez tenha curiosidade de saber a natureza de mais algumas 
dessas fantsticas curas, consideradas como milagrosas, ocorridas em 
Epidauros, da mesma
forma como aconteceram em muitos outros dos templos de Asclpios. Apenas 
nas colunas
votivas citadas acima pudemos constatar:

12 curas de oftalmias srias, incluindo a cegueira total
9 curas de defeitos nas pernas, incluindo paralisias
3 curas de afasia
2 curas de casos de surdez
cura de tuberculose
cura de convulses (talvez epilepsia)
2 curas de casos de gota
2 curas de enxaquecas
cura de picada de tarantula
cura de infeco por piolhos.

Alm disso, h citaes de diversos casos de gravidez problemtica, que
era uma verdadeira especialidade de Epidauros, de partos difceis e 
tambm de diversos
casos curados por intervenes cirrgicas que chegam a totalizar mais de 
uma dzia.

Naturalmente que os casos mais graves ou que no poderiam encontrar
soluo nem pela f nem pela interveno dos mdicos-sacerdotes, 
abrigavam-se pelas
imediaes em alojamentos ou, muito mais prximo do aparecimento do 
Cristianismo
como nova fora, num "hospital"construdo por Antonino Pio (86 a 161 d.C. 
e l,
depois de muito sofrimento ou de um definhar continuo, muitos deles 
acabavam morrendo. O problema da grande afluncia de mulheres em 
adiantado estado de gravidez
e tambm de doentes desenganados por mdicos e  beira da morte levaram 
tambm
 construo de uma espcie de hotel ou abrigo. Essas instalaes ficaram 
conhecidas
como ???"Katag69ion", tendo mais ou menos 160 quartos.
Existem ainda hoje alguns trechos da estrada entre as runas de Epidauros 
e o porto da Palaia Epidhavros que fazem parte do chamado "caminho 
sagrado",
todo ele ladeado por tmulos daqueles distantes sculos.

De acordo com alguns autores, Epidauros e alguns outros templos de
Asclpius tiveram durante sculos a influncia talvez correspondente 
quela que hoje
em dia tem Lourdes, na Frana e vrios outros lugares considerados como 
milagrosos.
Os tratamentos nesses templos de Asclpios funcionaram da mesma forma 
como ainda
hoje funcionam os tratamentos ministrados em templos na ilha grega de 
Tenos, que so
prescritos atravs das interpretaes de sonhos ou de vises ocorridas 
durante a noite
num recinto considerado sagrado do templo.

A forte influncia de Asclpios, seja em Epidauros, seja em muitos
outros templos espalhados pelo mundo greco-romano, s foi cedendo muito 
vagarosamente aos ataques do Cristianismo que procurava sistematicamente 
anular o significado da mirade de deuses e deusas do mundo pago.

--"Apothetai" do monte Taygetos, em Esparta

Todos aqueles que trabalham em reabilitao j ouviram de alguma forma 
falar a respeito de um certo costume espartano de lanar crianas 
defeituosas em
um precipicio, em pocas anteriores ao advento do Cristianismo. 
Pessoalmente sempre
tivemos curiosidade a esse respeito e chegamos mesmo a fazer contatos 
diretos e visitas, procurando das autoridades de reabilitao da Grcia 
algum esclarecimento a respeito do assunto.

Talvez que ajude no entendimento dessa questo--que, segundo os 
espartanos de hoje em absoluto relaciona-se exclusivamente a Esparta 
antiga--a meno
a ele feita claramente por Plutarco, em sua obra "Licurgo". Segundo nos 
conta o escritor o que sucedia era isto:

O pai de qualquer recm-nascido das familias conhecidas como "homoioi" 
(ou seja,
"os iguais") e que eram a nata de Esparta, no tinha o direito de cri-
lo, pois o Estado subordinava a todos. Pelas leis vigentes, ele era 
obrigado a levar o beb, ainda
bem novo, a uma espcie de comisso oficial formada por ancios de 
reconhecida
autoridade, que se reunia para examinar e tomar conhecimento oficial do 
novo cidado. Segundo Plutarco, eles se reuniam num local conhecido como 
"leschi" (correspondendo certamente a "edifcio", "rgo oficial", 
"repartio") para esse fim.

Se nesses locais os autorizados ancios anotavam ou no os dados pessoais 
de identificao, de paternidade, de maternidade, de local e de data do 
nascimento, de sexo
e outros, o historiador no nos indica. Pelo seu relato sabemos que, se 
fosse um beb
normal e forte ("se o achavam belo, bem formado de membros e robusto") 
ele era
devolvido ao pai que passava a ter a incumbncia de cri-lo. Depois de 
certa ida
de--entre os 6 e 7 anos--o Estado tomava a si a responsabilidade e 
continuava sua
educao, que era dirigida para a arte de guerrear, como podemos 
comprovar pelos
estudos da Histria Grega Antiga.
No entanto, "se lhes parecia feia, disforme e franzina", como refere 
Plutarco, esses
mesmos ancios, em nome do Estado e da ,linhagem de familias que 
representavam,
ficavam com a criana. Tomavam-na logo a seguir e a levavam a um local 
chamado
"pothetai", que significa "depsitos". Tratava-se de um abismo situado 
na cadeia
de montanhas Taygetos, perto de Esparta, para l a criana ser lanada e 
encontrar
sua morte, "pois, tinham a opinio de que no era bom nem para a criana 
nem para a repblica que ela vivesse, visto como desde o nascimento no 
se mostrava bem
constituda para ser forte, s e rija durante toda a vida" ("Licurgo", de 
Plutarco).

- Como era o ambiente de Esparta

No nos  fcil nem tranqilo entender esse costume--ou outros adotados 
em Atenas, Roma e outras cidades--a respeito do qual o leitor podera- 
encontrar
menes tambm em alguns escritores e filsofos antigos, tais como Plato 
e Aristteles, citados um pouco mais adiante neste mesmo captulo.

Talvez ajude nossa compreenso o conhecimento dos usos e costumes,
das circunstancias e do ambiente que imperavam em Esparta ao redor do 
sculo V ou
IV a.C.. O prprio Plutarco, ao comentar a vida de Licurgo, poder nos 
dar uma idia
aproximada dessas caractersticas, especialmente quando considera as 
tentativas que fazia para tornar os espartanos um povo inexpugnvel. 
Separemos alguns trechos dessa
famosa obra:

"XXV --Quanto  educao das crianas, que ele estimava ser a mais bela e 
a maior
coisa que poderia estabelecer, ou introduzir um reformador de leis, 
comeando de longe, considerou primeiro os casamentos eagerao das 
crianas. Pois, quanto ao que
diz Aristteles, que ele ensaiou reformar as mulheres e disso desistiu 
incontinenti, ao
ver que no podia consegui-lo, por causa da enorme licena que elas 
haviam usurpado
na ausncia dos maridos, porque estes eram constrangidos a partir 
constantemente para as guerras, durante as quais os homens se viam 
obrigados a deix-las senhoras de
suas casas, honrando-as e acariciando-as alm da medida, chamando-lhes 
damas e senhoras-- isso me parece falso: a verdade  que tratou de 
regulamentar-lhes e ordenar-lhes
a maneira de viver, assim como a dos homens, de acordo com a razo. 
Primeiramente,
pois, ele quis que as moas enrijecessem o corpo, exercitando-se em 
correr, lutar, jogar
a barra e lanar o dardo, a fim de que o fruto que concebessem, vindo a 
tomar forte
raiz num corpo disposto e robusto, germinasse melhor; e tambm para que, 
reforadas por tais exerccios, suportassem com mais vigor e facilidade 
as dores do parto.
E para tirar-lhes toda a delicadeza e ternura feminina, acostumava as 
mocinhas, assim
como os rapazes, a freqentar as procisses, danarem nuas em algumas 
festas e sacrifcios solenes e cantarem na presena e  chegada dos 
rapazes, aos quais, muitas vezes,
ao passarem, dirigiam algum brocardo apropriado, tocando ao vivo aqueles 
que em alguma coisa tivessem esquecido seu dever; e no raro tambm 
recitavam em suas canes
os louvores dos que destes eram dignos" . . .

"XXVI -- Mas, quanto ao fato de se mostrarem inteiramente nuas em 
pblico, no
havia nisso vilania alguma, pois, a exibio era acompanhada de toda a 
honestidade,
nem lubricidade nem dissoluo; antes pelo contrrio, trazia consigo o 
costume da
simplicidade e, entre elas, a vontade de possuir o corpo mais robusto e 
melhor disposto" . . .

XXX -- Pois, em primeiro lugar, Licurgo no queria que as crianas 
pertencessem a
particulares, mas fossem comuns  repblica, desejando, assim, tambm que 
aqueles
que tivessem de ser cidados fossem gerados no por todos os homens, mas 
somente por
gente de bem" .."No obstante guardavam as mulheres encerradas debaixo de
chaves com medo de que elas concebessem de outros que no eles, mesmo 
quando desmiolados, doentios e velhuscos, como se no fosse primeira e 
principalmente por culpa dos pais e mes, e dos que as educam, que as 
crianas nascem viciosas e defeituosas,
quando filhas de pessoas taradas". . .

No item XXXII Plutarco fala das crianas defeituosas e da soluo que a
sociedade espartana havia encontrado para elas no "Apothetai" da cadeia 
de montanhas
raygetos, conforme comentamos um pouco acima. O livro continua, porm, a 
nos dar
indicativos muito ricos do ambiente que imperava em Esparta, onde uma 
pessoa defisiente de fato no conseguiria sobreviver.

XXXIII--. . . e assim, no era permitido aos pais educar os filhos  sua 
moda, como
bem lhes parecesse. Pois, logo que estes chegassem  idade de sete anos, 
ele os tomava e
as distribuia por grupos para serem educados e se habituarem a brincar, 
aprender e estudar uns com os outros; depois, escolhia em cada grupo 
aquele com aparncia de ser o
mais avisado e o mais corajoso no combate, ao qual dava a 
superintendncia do grupo
todo. Os outros sempre tinham a vista voltada para ele e obedeciam s 
suas ordens, suportando pacientemente as punies que ele lhes ordenava; 
de maneira que quase todo o
estudo era aprender a obedecer" ("Licurgo", de Plutarco).

--Outras formas de eliminar crianas defeituosas na Grcia Antiga

No antigo Peloponeso, sob a liderana guerreira de Esparta, havia tambm 
outras formas de dispor de crianas malformadas ou doentias. No ocorria 
necessariamente a morte, mas a "exposio" (...). Recorriam os seus 
habitantes a lugares considerados como sagrados, tais como as florestas, 
os vestbulos dos templos, as beiras dos
rios, as cavernas, onde as crianas eram deixadas bem embrulhadas numa 
grande panela
de barro ou num cesto, com roupas que continham seus smbolos maternos 
("Xymbola
metrs"). Elas podiam sobreviver ou no. Os smbolos bordados nas roupas 
e nas cobertas poderiam inclusive levar  identificao da famlia 
original. Caso uma criana assim
exposta morresse, a manta e vestidos acabavam servindo para adorno em seu 
funeral.

A "Exposio" 
dava-se em local onde a criana podia ser encontrada. No entanto, o 
chamado "abandono" correspondia a deixar  prpria sorte para morrer.

Princpio genericamente aceito na Grcia, no era todavia aceito na 
sociedade de Tebas, igualmente "civilizada".
124

No entanto, alguns filsofos dos mais renomados chegaram a alimentar a
idia do extermnio das crianas defeituosas, sendo um deles um dos 
maiores e mais conceituados pensadores gregos: Plato (428 a 348 A.C.). 
Ao filosofar sobre uma utpica repblica completamente nova para a 
Grcia, Plato afirma:. . . "e no que concerne aos
que receberam corpo mal organizado, deixa-os morrer".

Afirma ainda o insigne filsofo: "Quanto s crianas doentes e s que 
sofrerem qualquer deformidade, sero levadas, como convm, a paradeiro 
desconhecido e
secreto". ("Repblica", de Plato).

Assim, na famosa repblica idealizada por Plato, s os bem formados de
corpo e de espirito  que teriam qualquer papel. A criana ou adulto 
deficientes estariam, nessa hipottica realidade, fadados a morrer. Em 
seu conceito, e em suas prprias
palavras, "estabelecers em nossa repblica uma medicina e uma 
jurisprudncia, como
acabamos de dizer, que se limitem ao cuidado dos que receberam da 
natureza corpo so
e alma formosa". E  certamente deste pensamento e desta frase de Plato 
que se originou o ainda hoje usado moto caracterstico de programas 
esportivos ou de bom condicionamento fisico:

"Mens sana in corpore sano"--Mente s num corpo sadio.

De sua parte Aristteles escreveu o seguinte: "Quanto a saber quais as
crianas que se deve abandonar ou educar, deve haver uma lei que proiba 
alimentar toda criana disforme" ("Politics", de Aristteles).

Existem relatos de afogamentos de recm-nascidos defeituosos, ou de
abandono dos mesmos s margens do rio Eurotas, que corta o sudeste do 
Peloponeso,
na Laconia, indo desaguar no Mediterraneo, aps banhar a cidade-estado de 
Esparta dos
sculos anteriores a Cristo.

Algumas das circunstancias que teriam levado governantes a adotar medidas 
to dificeis de aceitar hoje foram mais ou menos as seguintes: os 
cidados espartanos
no eram nem a totalidade nem mesmo a maioria dos habitantes de Esparta, 
mas uma
elite da populao local que habitava aquela regio. Eles eram conhecidos 
como os
"homoioi" (os "iguais"), conforme referimos anteriormente. Dedicavam-se 
s guerras e
suas obrigaes giravam em torno de estar preparados para enfrentar no 
s as eventuais
convulses internas provocadas pelas demais faces da sociedade 
espartana, como tambm os inimigos externos da grande e poderosa Esparta. 
Assim, a cidade-estado no contava, como tambm no queria contar, com 
cidados fracos, doentios e imperfeitos.

No entanto, a sobrevivncia eventual de uma criana defeituosa podia
perfeitamente ocorrer, como ocorria, uma vez que as leis de exterminio 
diziam apenas
respeito aos filhos dos "homoioi", que eram os descendentes diretos dos 
drios.

Nas outras classes sociais no ocorria esse tipo de restrio. Tais eram 
os
casos dos "periecos", dedicados aos trabalhos da lavoura ou cuidado com o 
gado, ou dos
"ilotas", escravos que eram obrigados a manter-se vinculados  terra, sem 
qualquer tipo
de privilgio.
125

--A histria de Labda, me de um rei de Corinto

Os costumes que imperavam em Esparta no foram necessariamente 
universalizados por todas as cidades-estado da Grcia dos seis ltimos 
sculos antes da Era
Crist, pois cada uma delas, bem como cada uma das pequenas ou grandes 
naes ao seu
redor, desenvolvia seu prprio sistema de leis e de governo, e seus 
prprios usos e costumes.

No tocante s atitudes face a crianas nascidas com deficincias fisicas 
e
ao trato a elas dispensado, encontraremos na histria de Corinto, uma das 
mais fortes e
melhor conceituadas cidades-estado da Grcia dos sculos VII e VI a.C., 
indcios interessantes inseridos no livro "Terpsicore", parte integrante 
da obra intitulada "Histria",
de Herdoto.

L encontraremos referncias  filha de um dos importantes membros da
oligarquia dos Bquidas, dominante em Corinto h muitos anos, e que 
formava uma
enorme famlia devido ao fato de todos os seus membros casarem entre si.

Acontece, porm, que em poca no bem determinada, Anfion, um dos
seus membros, teve uma filha que nasceu com malformao congnita, ao que 
parece,
pois tinha uma das pernas mais curta que a outra, o que a levava a 
claudicar sensivelmente. Seu nome era Labda.

O costume de casamentos consangineos, entretanto, no funcionou no
caso dessa jovem, pois nenhum Bquida queria casar-se com ela devido a 
sua deficincia
fsica. Assim, casaram-na com um jovem do burgo de Petra, aparentemente 
de poucas
qualificaes, embora de sangue nobre, cujo nome era Ecion, filho de 
Echacrates.

Depois de algumas dvidas quanto  fertilidade de Labda, o que levou o
jovem marido a consultar uma pitonisa, ela engravidou e deu  luz um 
menino. Segundo
o orculo ele governaria Corinto e esmagaria os dspotas Bquidas.

Sabedores do orculo, os Bquidas aguardaram o nascimento e dez deles
receberam a misso de ir a Petra e matar o garoto. A gentil Labda, ao 
receber a visita dos
dez homens de Corinto--de certa forma seus parentes--singelamente achou 
que se tratava de visita de cordialidade, aps tantos anos de desprezo e 
marginalidade. Passou o filho aos braos do primeiro visitante, ignorando 
completamente o propsito criminoso
do grupo: esmag-lo contra o cho.

Mas naquele mesmo instante a criana de poucos meses sorriu para o 
estranho, "deixando-o to comovido que no teve coragem de mat-la, 
passando-a para as
mos do outro companheiro. Este, tambm tocado de piedade, transferiu-a 
para as mos
de um terceiro e assim passou ela de mo em mo, sem que nenhum se 
animasse a sacrific-la. Devolvendo o recm-nascido ao carinho de sua 
me, deixaram a casa" ("Histria", de Herdoto).

Diz-nos mais o historiador que Labda teve que tomar providncias que
denotaram extrema vivacidade e sangue frio para salvar o menino, uma vez 
que os dez
revistaram a casa toda aps terem voltado para consumar o crime para o 
qual tinham
sido destacados. Apesar de tudo, conseguiu sozinha ludibri-los.

O filho dessa jovem me portadora de deficincia recebeu o nome de
Cpselo; ele, chegando  idade adulta, angariou bens e reuniu homens, 
atacou Corinto e
dela se apoderou. Tornou-se logo aps seu rei e, aps ter vingado sua me 
e muitos dos
injustiados pelos Bquidas, reinou por 30 anos. Terminou bem seus dias.

--Os costumes em Atenas face a deficincias fsicas

No que diz respeito a Atenas--a grande rival de Esparta--quando nascia
uma criana, o pai celebrava uma festa conhecida como "amphidromia" (de 
"amphi"
que significa "ao redor" e "dromos", para "volta"). Os costumes exigiam 
que ele tomasse a criana em seus braos, dias aps o nascimento, e a 
levasse solenemente  sala para
mostr-la aos parentes e amigos e para inici-la no culto dos deuses. A 
festa terminava
com banquete familiar. Caso no fosse realizada a festa, era sinal de que 
a criana no
sobreviveria. Cabia, ento, ao pai o exterminio do prprio filho.

Durante sua vida, entretanto, os cidados atenienses tinham ampla 
proteo das leis para manterem-se livres de agresses provocadoras de 
leses que os pudessem incapacitar para a vida normal. Segundo Plutarco, 
Slon estabeleceu normas bem
claras para proteger tambm cidados atenienses enfraquecidos por doenas 
ou vitimados por deficincias. Em Atenas essas normas, alm de garantir a 
alimentao, davam ampla liberdade para que qualquer agressor fosse 
processado por atos de injria ou de ataques fsicos, caso algum desses 
cidados deficientes fosse assaltado, espancado ou sofresse qualquer tipo 
de violncia. "Qualquer homem que fosse poderia processar o malfeitor" 
("Slon", de Plutarco).

Acresce considerar tambm que as leis atenienses ordenavam que os
filhos tinham obrigao de amparar e sustentar seus pais, seja devido  
velhice, seja devido a deficincias fsicas (Apud Durant).

--O legado da Grcia Antiga

Para quem vive em pleno sculo XX na cidade de Esparta, ou visita o 
produtivo e potico vale do rio Eurotas, torna-se muito difcil imaginar 
que as palavras de
Plutarco ou os fatos relatados por historiadores sejam verdadeiros. No 
entanto, a eliminao de crianas disformes foi uma constante na Histria 
dos povos guerreiros de toda
a antigidade.

Foi o Cristianismo que levou a Grcia, em suas mltiplas sub-divises em
cidades-estados,a muito vagarosamente alterar esse e outros costumes, que 
j vinham
sendo modificados pelos sculos afora por diversos governantes e por 
diversos dos filsofos que enriqueceram sua cultura e sua tradio. A 
implantao do Imprio Romano
do Leste, posteriormente transformado no Imprio Bizantino, encontrou a 
Grcia organizando instituies mais e mais voltadas para problemas 
especficos: lares para deficientes ("paramonaria"); lares para pessoas 
cegas ("tuflokomia"); instituies para pessoas
1 27

com doenas incurveis ( arginoria "); e tambm organ izaes para 
pessoas muito pobres
e para mendigos ("ptochia").

Apesar das histrias sobre Taygetos e sobre o rio Eurotas, a Grcia 
deixou para o mundo um saldo muito positivo de leis e costumes que 
valorizam a bravura
e a dedicao  ptria, ao preo da prpria integridade fsica ou da 
vida. Deixou tambm
muitos conhecimentos relacionados  medicina, alm de vrios exemplos de 
organizaes que, muito embora de carter segregativo e assistencialista, 
chegaram a tornar-se
um claro demonstrativo do reconhecimento do indivduo como um ser repleto 
de valores.

4. Os Romanos

O legado de Roma ao mundo tem sido de extremo valor atravs dos sculos 
em praticamente todos os campos. Dentre eles cumpre que destaquemos a 
arquitetura, a sade pblica, as artes, as leis, a literatura e a 
medicina.

Dos assuntos que mais nos interessam neste estudo e rpido passar pela
Histria, o das leis  dos mais relevantes. Ningum jamais poder negar 
que uma significativa porcentagem de todo o acervo de leis que chegou at 
ns e foi por ns de certa
forma absorvido, derivou do cuidadoso e muito esmerado trato que os 
romanos sempre
deram ao assunto. Nem tudo, porm, foi bom ou aceitvel para ns na 
legislao romana; nem tudo foi adaptado ou seria adaptvel  nossa 
realidade ou ao nosso sistema de
leis. O mundo de ento era bem diverso daquele em que hoje vivemos.

No que diz respeito a pessoas com deficincias, no  fcil encontrarmos
referencias precisas, mas se nos dispusermos a exerccios cuidadosos de 
estudo da Histria Romana, encontraremos no apenas leis, mas tambm 
fatos, costumes, obras de arte
que nos surpreendero. Veremos, por exemplo, que tanto a histria da 
evoluo da medicina romana, to intimamente ligada  medicina grega, 
quanto a dos gradativos progressos em termos de sade pblica (por 
exemplo, abundancia de gua potvel, latrinas
pblicas, rede de esgotos) garantiram a preveno de muitos males 
incapacitantes. E ficaremos espantados ao reconhecer dentre os Csares, 
dois com srias deficincias fsicas;
reconheceremos tambm um famoso censor romano que foi cego; e leremos 
pginas que
nos falam da competencia de pessoas deficientes . . .

--O problema da forma humana no direito e nos costumes de Roma

No Direito Romano havia leis que se referiam ao reconhecimento dos 
direitos de um recm-nascido e em que circunstancias esses direitos 
deveriam ser garantidos ou poderiam ser negados. Dentre as condies para 
negao de direito, a chamada
"vitalidade" e a forma humana eram as principais.

Como exemplo poderemos mencionar que, tanto os bebs nascidos 
prematuramente (antes do 7. ms de gestao) quanto os que apresentavam 
sinais da chamada "monstruosidade", no tinham condies bsicas de 
capacidade de direito.

Alm de no encontrarmos uniformidade nos pontos de vista de autores
quanto aos requisitos bsicos para o reconhecimento dos direitos de um 
ser humano recm-nascido, dentro do Direito Romano, os sinais indicativos 
da "monstruosidade"
eram um fator decisrio para sua negao. Alguns abalizados estudiosos 
deixam a ntida
idia de que ela no se limitava  eventual similaridade com algum 
animal--principalmente no rosto ou devido a malformaes de membros--mas 
tambm a mutilaes ou
falta de membros. Moreira Alves afirma que a soluo dada pelas leis 
romanas, que quelas pocas no contavam com a medicina ao seu lado ou 
com mais slidos princpios de
defesa da incipiente vida humana, advinha especificamente de uma lei 
rgia atribuda a
Rmulo nos primrdios da vida formal de Roma. De acordo com ela, estava 
proibida a
morte intencional de qualquer criana abaixo de trs anos de idade, 
exceto no caso de
a criana ter nascido mutilada, ou se fosse considerada como monstruosa. 
Para casos
dessa natureza a lei previa a morte ao nascer.

Segundo o autor citado, havia para o "pater famlias", dentre as 
faculdades a ele outorgadas pelo poder paterno (ptria potestas), uma 
alternativa: poderia expor
a criana s margens do rio Tibre ou em lugares sagrados, desde que antes 
de o fazer tivesse mostrado o recm-nascido a cinco vizinhos, para que 
fosse de certa forma certificada a existncia da anomalia ou da 
mutilao.

A obra "De Legibus", de Ccero (Marcus Tullius Cicero--106 a 43 a.C.),
comenta que nas Leis das Doze Tbuas havia uma determinao para o 
extermnio de
crianas nascidas com deformidades fsicas ou sinais de monstruosidade. 
Em sua linguagem original, a famosa lei dizia o seguinte:

"Tabula IV--De Jure Patrio et Jure Connubii

Lex III--Pater filium monstrosum et contra formam generis humani, recens 
sibi natum,
cito necato".

Em nossa lngua:

"Tboa IV--Sobre o Direito do Pai e Direito do Casamento

Lei III--O pai imediatamente matar o filho monstruoso e contrrio  
forma do gnero
humano, que lhe tenha nascido h pouco".

Sneca (Lucius Annaeus Seneca--4 a.C. a 65 d.C.I indica que os recm-
nascidos com deformidades fsicas eram mortos por afogamento. O grande 
pensador e
filsofo romano no analisa, em seus comentrios, a validade da lei em si 
mesma. Analisa
apenas a necessidade de, em nossas vidas, fazermos tudo, mesmo as coisas 
desagradveis
e chocantes, sem ira, sem dio. Segundo Sneca, devemos fazer tudo o que 
precisamos
fazer com naturalidade, eliminando da obrigao o aspecto dio. Ele cita 
alguns exemplos que, segundo deduzimos, eram bastante bvios para os 
romanos daquela poca,
quando o Cristianismo comeava a desabrochar e seus principais apstolos 
atingiam
Roma pela primeira vez. Vejamos o que afirma Sneca:

". . . Riscai, ento, do nmero dos vivos a todo culpado que ultrapasse o 
limite dos
demais, terminai com seus crimes do nico modo vivel, mas fazei-o sem 
dio"
. . ."No se sente ira contra um membro gangrenado que se manda amputar; 
no o
cortamos por ressentimento, pois, trata-se de um rigor salutar. Matam-se 
ces quando
esto com raiva; exterminam-se touros bravios; cortam-se as cabeas das 
ovelhas enfermas para que as demais no sejam contaminadas; matamos os 
fetos e os recm-nascidos monstruosos; se nascerem defeituosos e 
monstruosos, afogamo-los; no devido
ao dio, mas  razo, para distinguirmos as coisas inteis das saudveis" 
("De Ira",
de Sneca).

O trecho latino pertinente  o seguinte:

". . . portentosos fetus extinguimus, liberos quoque; si debiles 
monstrosique editi
sunt, mergimus; nec ira sed ratio est, a sanis inutilia secernere" ("De 
Ira", de Sneca).

O termo "portentosus" significa extraordinrio, muito diferente, 
monstruoso; a palavra "debilis", segundo o autor Plinio, pode significar 
tolhido de algum
membro ou de alguma parte; Sneca usa o termo "inutilia", no neutro 
plural, referindo-se a "fetus" e aos demais itens mencionados no mesmo 
texto (ces, touros, ovelhas,
membro gangrenado). No entanto, talvez o uso do neutro neste caso 
relembre-nos que
mesmo ao nascer, sem ainda ter o cordo umbilical cortado (ato dos mais 
importantes
no estabelecimento do direito da pessoa nas leis romanas) o recm-nascido 
era apenas
um ente sem direitos--e podia ser eliminado.

Presume-se que eram considerados como "monstros" todos os recm-nascidos 
que tivessem caracteristicas bem diferentes dos normais, com membros a 
mais u a
menos, e tambm aqueles que apresentassem alguma deformidade muito sria.

Houve em pocas bem precisas da Histria Romana muitos nascimentos
de crianas ou abortos de fetos com deformaes congnitas, devido a 
causas no identi
ficadas. Segundo Plutarco "no ano 280 de Roma, um temor supersticioso 
tinha invadido
toda a cidade, porque as mulheres grvidas davam  luz crianas quase 
todas elas defeituosas e imperfeitas em alguma parte do corpo, e no 
havia nenhuma que viesse a termo"
("Publius Valerius Publicola", de Plutarco). Face  legislao vigente 
desde os tempos
dos primeiros reis de Roma, no se deve nutrir qualquer dvida quanto ao 
destino desses recm-nascidos: a lei de extermnio da vida incipiente, 
seja por afogamento, seja por
outros meios, mesmo antes de completado o nascimento com o corte do 
cordo umbilical, foi aplicada. Publcola, que era cnsul de Roma, mandou 
consultar os livros Sibilinos, como era costumeiro fazer ao acontecer 
fatos misteriosos e causadores de grandes
desgraas. Fez a populao romana oferecer sacrificios especiais a 
Pluto, o deus das
profundezas do Inferno, para tentar eliminar o problema que afligia a 
todos. De providencias prticas e prprias para resolver a situao, 
entretanto, no se tem noticia e nem
Plutarco entra em maiores consideraes.

--O destino das crianas deficientes em Roma

Mesmo com a anuncia da lei, o infanticidio legal no foi praticado com
regularidade. Crianas malformadas, doentias ou consideradas como 
anormais e monstruosas eram, no mximo, abandonadas em cestinhas 
enfeitadas com flores s margens
do Tibre. E os escravos ou as pessoas empobrecidas que viviam de esmolas 
ficavam na
espreita e atentos para eventualmente se apossarem dessas crianas, 
criando-as para mais
tarde servirem como meio de explorao do compadecido e por vezes muito 
culpado corao romano, obtendo esmolas volumosas.

A esmola chegou a ser um negcio muito rendoso em Roma Antiga. Na
verdade foi to rendoso que houve pocas em que foram realizados raptos 
de crianas
patricias muito novas, para serem mutiladas ou deformadas a fim de se 
tornarem pedintes nos templos, nas praas e nas ruas de Roma e das outras 
importantes cidades do vasto Imprio Romano. Certamente foi por motivos 
dessa natureza que durante a decadncia do Imprio, os patrcios que 
ocasionalmente tinham filhos defeituosos, sabedores
dessas histrias, passaram a usar das prerrogativas dadas pelo instituto 
do "patria potes:
tas" para eliminar a vida desses recm-nascidos, no correndo eles mais o 
risco de se tornarem mendigos e de terem seus corpos deformados.

Na Roma dos tempos dos Csares, ou seja, em sculos mais sofisticados e
menos brbaros, deficientes mentais, em geral tratados como "bobos", eram 
mantidos
nas vilas ou nas propriedades das abastadas famlias patricias, como 
protegidos do "pater familias". Cegos, surdos, deficientes mentais, 
deficientes fisicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformaes 
eram tambm de quando em quando ligados a casas comerciais, a tavernas, a 
bordis, bem como a atividades dos circos romanos, para servios
simples e s vezes humilhantes, costume esse que foi adotado por muitos 
sculos na Histria da Humanidade.

 o historiador Durant que nos informa ainda sobre este assunto
". . . existia em Roma um mercado especial para compra e venda de homens 
sem pernas
ou braos, de tres olhos, gigantes, anes, hermafroiditas" ("Histria da 
Civilizao", de
Durant) .

Foi extremamente notria em Roma tambm a utilizao de meninas e
moas cegas como prostitutas, alm de rapazes cegos como remadores, 
quando no eram
usados simplesmente para esmolar.

- O deus da medicina: Esculpio

A exemplo do que ocorrera na Grcia desde o sculo V a.C. com o deus
da cura e da medicina, Asclpios, os romanos tambm dedicaram templos a 
um deus semelhante (e importado da Grcia. . .), numa espcie de 
Epidauros romana; o mais famoso desses templos era localizado numa 
pequena ilha do rio Tibre, a "Insula Tiberina"
O interesse dos romanos pelo deus da cura e da medicina, em seu prprio 
modo de ver
muito mais especfico para o tratamento de males instalados do que a 
deusa Salus (significa "sade"), surgiu em conseqencia de violenta 
epidemia ocorrida no ano 293 a.C.
Os romanos consultaram os Livros Sibilinos e resolveram mandar uma 
delegao oficial
a Epidauros, sob a chefia de Caio Ogulnio, que de l voltou com um 
smbolo vivo do
deus, isto , uma serpente sagrada, alm das instrues para a 
organizao do templo, para a construo de instalaes para doentes e 
para o culto. Acontece, porm, que quando
a delegao estava chegando  cidade de Roma, remando rio acima, a 
serpente escapou e
foi nadando at a "Insula Tiberina". Tomando o acontecimento como um 
verdadeiro sinal do deus, l os romanos erigiram um templo a Esculpio, 
novo nome de Asclpios graas a uma diferena de pronncia. Depois de 
muitos anos, em considerao pelos bons
resultados obtidos com esse novo deus, os romanos resolveram "cas-lo" 
com a deusa
Valetudo, uma deidade correspondente  Higiia dos gregos (deusa da 
Sade).

Nas instalaes sagradas da ilha Tiberina hvia acomodaes para os que
procuravam a ajuda do deus da medicina e tambm para os sacerdotes. De 
acordo com
gravuras da poca havia instalaes magnficas das quais nada restou. O 
acabamento externo dava  ilha a forma de um portentoso barco. A ilha 
Tiberina hoje comunica-se com
ambas as margens do rio Tibre, ressaltando-se que sua ligao com a 
margem esquerda 
feita por meio de uma antiga ponte construida no ano 62 a.C., a ponte 
Fabricio, que 
a mais antiga de toda Roma. De todas as originais protees laterais hoje 
podemos ver
alguns blocos de pedra travertina no lado leste da famosa ilha.

O Cristianismo, que combateu duramente as crenas ligadas ao paganismo, 
fez desaparecer o templo de Esculpio e todas as demais instalaes 
ligadas ao seu
culto. Mais tarde foi ali construida a igreja de So Bartolomeu, 
consagrada no ano 1000
com a presena do imperador Otto III. Segundo tudo indica, no s parte 
do revestimento da igreja, mas tambm sua escadaria foram executados com 
pedras retiradas das runas dos templos e do acabamento lateral da ilha. 
Ali foi tambm construido um hospital, o Ospedale di San Giovanni di Dio, 
dirigido pelos Fatebene Fratelli

--Horcio Cocles, um heri com deficincias

Horcio foi um famoso guerreiro romano da "gens Horatia" que viveu
nos primrdios da vida de Roma. Recebeu o cognome de Cocles que significa 
"cego de
um olho".

Conta a histria desse valente homem de armas que, com apenas dois
companheiros, conseguiu defender a ponte Sublcio por ocasio da 
pretendida invaso
dos exrcitos etruscos comandados por Porsena, ficando esses inimigos 
impedidos de penetrar em Roma. A refrega no meio da ponte foi muito 
violenta e Horcio ficou gravemente ferido numa das coxas, tendo logo 
aps sido atingido num olho.

Na grande confuso da luta os dois companheiros de Horcio tiveram
tempo suficiente para cortar a golpes de espada os tirantes da ponte, 
lanando-a s guas
do rio Tibre.

Sangrando muito devido aos ferimentos recebidos, Horcio lanou-se ao
Tibre com suas armas e a muito custo foi nadando at a margem onde foi 
socorrido pelos companheiros de armas.

Elevaram-lhe depois de sua morte uma esttua na antiquissima praa Vul
132

cana da velha Roma, que ficava localizada ao p do Capitlio, 
representando-o como
coxo e cego de um olho. Consideravam-no os romanos como de certa maneira 
associado
a Vulcano, o correspondente a Hefesto na cultura romana.

--Apio Cludio, Censor: sculo IV a.C.

Conhecido na Histria de Roma como Appius Claudius "Caecus" (ou seja,
Apio Cludio "Cego") este grande homem pblico foi um dos mais clebres 
censores de
Roma. Foi ele responsvel direto por obras famosas das quais existem 
ruinas notrias.
E uma delas  o aqueduto conhecido como Aqua Appia, originalmente com 15 
quilmetros de comprimento e que conduzia a gua potvel por meio de 
canais subterraneos at
Roma .

Outra obra  a famosissima Via Appia, estrada que a poca de sua 
construo tinha quase 200 quilmetros, indo de Roma at Campania 
(Cpua). Mais tarde,
devido  sua importancia para a manuteno do comrcio e da segurana 
interna, ela foi
ampliada at o "salto" da bota italiana (Brindisi).

Apio Cludio havia sido cnsul duas vezes antes de ser censor.  
importante lembrar que os censores, sempre em nmero de dois, eram 
eleitos por cinco anos e detinham a magistratura mais elevada. 
Encarregavam-se eles do recenseamento e do inventrio dos bens; faziam a 
relao dos senadores, estabeleciam os parmetros do oramento
pblico e eram os responsveis pelas obras pblicas.

Contam os historiadores que pio Cludio, j avanado em idade, dissuadiu 
o Senado Romano por meio de um inflamado discurso, de dar considerao e 
guarida a um eloqente apelo feito por Pirro, atravs de seu enviado 
especial, Cineas, para fazer a paz.

Sempre esteve fortemente interessado em questes de gramtica da lingua 
latina;  considerado como o responsvel pela distino entre o "R" e o 
"S", em termos de fontica, na escrita latina, e tambm pela eliminao 
de uma letra que considerava dispensvel: o "Z".

Dele Ccero escreveu: "pio Cludio, j velho e cego" (et caecus et
senex), "responsabilizava-se por quatro filhos robustos e cinco filhas, 
alm de uma grande manso e toda a sua clientela. Mantinha um espirito 
to tenso quanto um arco e no
se deixava subjugar pela velhice para se transformar num homem sem 
energia. Mantinha
tambm autoridade e poder sobre os seus: os escravos temiam-no, seus 
filhos o veneravam e todos o queriam bem; em seu lar reinavam os costumes 
dos ancestrais e a disciplina" ("Cato Major, seu De Senectute Dialogus", 
de Ccero).

--Amputao como penalidade nas legies romanas

Segundo Mtton, a mutilao do nariz e das orelhas foi muito utilizada
como castigo ou como vingana contra inimigos capturados pelas legies 
romanas, nos
tempos de guerra. Caio Jlio Csar (Caus Julius Caesar--102 a 44 a.C.) 
confessa em
sua obra "De Bello Gallico" que aplicava essa pena em seus prprios 
soldados nos casos
133

de faltas muito graves contra a disciplina militar ou de deseres. 
Diversos sculos aps
o imperador Justiniano I (Flavius Anicius lustinianus - 483 a 565) chegou 
a ordenar a
amputao do nariz de soldados incriminados em faltas graves contra a 
disciplina. A
mesma penalidade foi aplicada em soldados envolvidos com mulheres dos 
pases cruzados ou dominados por legies romanas (Apud Mitton).

As punies no se limitavam, todavia, a essas amputaes 
estigmatizadoras. Na abalisada opinio de Bubois, grande estudioso do 
direito criminal dos povos antigos, "abandonar o estandarte era um 
sacrilgio; esse crime era punido, conforme a gravidade do caso, com a 
mutilao do punho, com a decapitao, com a exposio a animais
ferozes, com a crucificao e at com o afogamento. A desobedincia s 
ordens dos
superiores era punida com a mesma pena"... ... "O roubo era tambm punido 
com a mutilao do punho direito" ("Histoire du Droit Criminel des 
Peuples Anciens",de Dubois).

--Caio Jlio Csar: atitudes face a seus males

Certamente um dos romanos mais importantes que a Histria registrou,
Caio Julio Csar no era o tipo atltico, alto e sem problemas que muitos 
imaginam ao
analisar seus feitos. Alm de magro e de estatura bastante medocre, 
sempre esteve sujeito a fortes dores de cabea e, segundo muitos 
historiadores, sofria do famoso "mal divino", ou seja, de epilepsia.

Plutarco faz algumas afirmaes a respeito de suas atitudes face ao mal,
dizendo que "s vezes, atacado de epilepsia, que contraira pela primeira 
vez, como se
diz, em Crdova, cidade da Espanha" .."ele no se serviu da fraqueza de 
seu corpo, como de um pretexto para delicadeza e comodismo em sua vida, 
mas ao contrrio,
tornou as agruras da guerra como um remdio para fortificar sua pessoa, 
combatendo
contra a doena, caminhando sempre, vivendo sobriamente, dormindo 
ordinariamente
ao relento, pois, a maior parte das noites, dormia num carro ou dentro de 
uma liteira,
empregando sempre o descanso em fazer alguma coisa" ("Caio Jlio Csar", 
de Plutarco).

Autores atuais, entretanto, ao considerar que Csar teve suas primeiras
convulses aos 52 anos de vida e a segunda apenas trs anos aps, 
ponderam diferentemente da quase totalidade dos historiadores que 
consideram o grande imperador romano como o mais famoso epiltico da 
Histria. Socorrem-se para isso da prpria informao de Suetnio de que 
nos ltimos tempos de sua vida Csar teve dores de cabea e vrios 
desmaios. Levam em conta o fato dele no ter tido nenhum parente prximo 
com
indicaes de males convulsivos. Concluem que Caio Jlio Csar foi vitima 
de um tumor
cerebral benigno e no de epilepsia.

--Ferimentos graves e deficiencias fisicas em batalhas

As atividades guerreiras sempre tiveram como conseqncia natural muitas 
mortes e muitos casos de ferimentos de todas as naturezas e gravidades. 
Essas desgraas marcaram muitos homens pelo resto de seus dias, como no 
podia deixar de ser.
Os feitos hericos, no ardor das batalhas, so por vezes relatados em 
cores muito vivas
por uns poucos autores latinos e gregos, mas apenas alguns deles fazem 
meno aos problemas supervenientes, como o fez Plutarco.

Chega o historiador a aludir a problemas dessa natureza quando estuda
a vida de Caio Jlio Csar, j citado. Deixa no leitor de hoje, 20 
sculos aps, a sensao
de que a vida com deformidades ou com amputaes conseqentes  guerra 
era algo a
ser muito temido pelos jovens romanos. Plutarco narra cenas 
pormenorizadas de batalhas e numa delas mostra-nos com clareza esse temor 
dos soldados mais jovens e
inexperientes.

. . . "as seis coortes que Csar tinha colocado atrs de sua ala direita 
avanaram contra a cavalaria e, em lugar de lanar longe seus dardos, 
segundo seu costume,
e ferir a golpes de espada as pernas e as coxas dos inimigos, golpeavam 
os olhos e procuravam ferir-lhes os rostos; era a ordem que haviam 
recebido de Csar que duvidava que
esses cavalarianos, to novios nos combates e pouco acostumados s 
feridas, ainda na
flor da idade, se deixassem desfigurar, sacrificando sua juventude e 
beleza e evitariam
com todo o cuidado essa espcie de ferida, no sustentando esse gnero de 
combate,
tendo a temer tanto o perigo atual, como a deformidade no futuro" ("Caio 
Jlio Csar",
de Plutarco).

Muitos feriam-se gravemente e sobreviviam comdeficinciassrias. Nas
legies romanas havia homens que lutavam por absoluta dedicao ao seu 
lder ou general. Plutarco tambm nos relata como Csar conseguia levar 
seus homens a atos de bravura insuperveiS, pois sabia inspirar afeio e 
muito ardor. Segundo ele, "nada resistia 
impetuosidade de seus ataques, quando se encontravam nos mais graves 
perigos". E
conta-nos a histria de Acilio que, num ataque a um navio inimigo, teve 
sua mo direita decepada. Segurando a espada com a esquerda, continuou a 
luta, matando os inimigos.

--Cludio I, um imperador bastante controvertido

Com a morte de Caligula em 41 d.C., Cludio (Tiberius Claudius Caesar
Augustus Germanicus--10 a.C. a 54 d.C.), reconhecido na Histria Romana 
apenas como Cludio I, foi elevado ao trono por imposio da forte Guarda 
Pretoriana, talvez
por ter sido considerado muito mais manobrvel do que qualquer outro 
"pretendente"
ou "herdeiro" ligado a grupos que vinham de h muito se locupletando 
devido aos enormes desmandos existentes na corte imperial.

Cludio era aparentemente tolo, inofensivo e inconseqente. No entanto,
assim que assumiu o poder, surpreendeu a todos com as muitas 
demonstraes que deu
de inteligncia, sagacidade administrativa e cultura. Todavia, 
fisicamente ele no correspondia  imagem que o povo romano poderia fazer 
de seu imperador, uma vez que era,
de fato, um tipo muito estranho: apesar de alto e bem forte, tinha 
cabelos quase brancos
aos 51 anos de idade; feioes agradveis, tinha problemas fisicos de 
bastante seriedade
para aqueles tempos. Uma paralisia ("paralisia infantil", segundo o 
historiador Durant) e
algumas doenas, dentre as quais todos os historiadores destacam a 
epilepsia, haviam-no
quase que deformado. Apresentava-se com andar claudicante sobre pernas 
compridas e
finas; mantinha a cabea oscilante sobre o pescoo longo e fino; alm 
disso, gaguejava
e sofria muito com as dores provocadas pela gota. Seus pais haviam-no 
considerado,
quando pequeno, uma espcie de retardado mental e sua me chegara a ele 
se referir como um "monstro inacabado", segundo informao de Durant.

Esse tipo inacreditvel como imperador chegou a declarar ao senado romano 
que se fizera passar por tolo e inconseqente durante todo o governo 
calamitoso
de Caligula apenas para salvar a prpria pele.

Cludio desenvolveu um governo controvertido durante o qual reformulou 
leis, construiu grandes obras pblicas, instalou novos servios, garantiu 
maior proteo aos escravos, emancipou a Glia, conquistou a Bretanha e 
efetivou sua romanizao.

Terminou seus dias num emaranhado de disputas e de intrigas palacianas,
envenenado por Agripina, sua prpria esposa, por ter favorecido como seu 
herdeiro a
Nero em detrimento de seu filho Germanico.

Seneca foi seu contemporaneo e preceptor de Nero, o futuro imperador.
Em sua obra "Apokolokyntosis" ironiza com o imperador aps sua morte, 
apresentando
um perfil bastante indicativo dos problemas fsicos de Cludio e, por via 
de deduo, do
que se pensava tambm das pessoas deficientes em Roma. E, ao fazer uma 
alegoria sobre
seu destino aps a morte, afirma: "Anunciam a Jpiter a chegada de 
algum, estatura
normal, cabelos quase brancos: No deve ter boas intenes, pois abana 
continuamente
a cabea; e coxeia do p direito" ("Apokolokyntosis", de Sneca).

--Galba, imperador romano com diversas deficiencias

Plutarco, Suetnio e Tcito so os historiadores que mais pormenorizadas
informaes nos do quanto  vida dos grandes homens de Roma. Falam, de 
um modo
todo especial, a respeito de seus imperadores.

Segundo eles, nos anos 821 e 822 de Roma (68 e 69 d.C.), que se seguiram 
 morte trgica de Nero, a Histria Romana mostra-nos um quadro assaz 
confuso,
no qual aparecem tres homens que sobem ao poder e dele so afastados com 
bastante rapidez, graas  fora dos militares que no desejavam ver os 
senadores proclamando a repblica. So eles: Galba, Othon e Vitlio.

Galba (Servius Sulpicius Galba--3 a.C. a 69 d.C.) era originrio de 
familia nobre, tendo tido em sua familia um srio problema de deformidade 
fisica indicado por Lissner. Segundo o historiador, "o pai de Galba, 
doentio e disforme, ativo, trabalhador e inteligente mesmo, era advogado. 
Quando a rica e bela Livia Ocelina quis casar com ele para compartilhar a 
antiga nobreza dele, Galba, o pai, sem intenes maldosas, mostrou-lhe 
sem pejo suas deformidades. Ocelina, entretanto, no se atemorizou"
("Les Csars", de Lissner).

 sobre Galba que vamos encontrar nos renomados historiadores romanos 
indicados, traos bastante marcantes. Todos so unanimes em afirmar que 
Galba foi
muito severo na aplicao da justia. Achava ser sua obrigao. Na 
verdade foi to severo na administrao das despesas pblicas que acabou 
desgostando no apenas o povo
mas tambm os diversos escales do sistema militar romano.

Esse velho general foi imperador romano por apenas sete meses, com
mais de setenta anos, portanto. Foi portador de srias limitaes fisicas 
tanto nas mos
quanto nos ps. Sofria muito com as dores artriticas.

"A estatura de Galba era mediana, sua cabea, completamente calva, seus
olhos, de um azul escuro, seu nariz aquilino, suas mos e seus ps, 
inteiramente deformados pela gota, a tal ponto que no podia nem agentar 
um calado, nem desenrolar ou
mesmo segurar uma missiva. Ele tinha tambm, no flanco direito, uma 
excrescncia de
carne to volumosa que apenas conseguia cont-la com uma faixa" ("Vie des 
Douze").

Plutarco apresenta-o como "doce e humano por natureza: a velhice
aumentOu ainda a opinio que se tinha dele. de que era timido" ("Galba". 
de Plutarco).

--Othon, um imperador nascido com malformaes

Othon (Marcus Silvius Othon--32 a 69 d.C.) era filho de Lcio Othon e
de lbia Terncia, sendo a familia de origem aristocrtica. Muito embora 
diversos autores no faam nenhuma meno, revela-nos o historiador 
Lissner algo surpreendente sobre Othon, imperador por tres meses, depois 
de ter mandado assassinar o imperador Galba: "No dia 28 de abril do ano 
32 d.C. a esposa de Lucius Othon, lbia Terncia, de
origem aristocrtica, colocou no mundo uma criana do sexo masculino 
cujas pernas
tortas constituiam uma malformao incurvel" ("Les Csars", de Lissner).

O defeito fsico no impediu Marco Silvio de procurar os ambientes e as
amizades--inclusive a de Nero--que lhe dariam mais tarde condies para a 
busca de
cargos importantes e muito rendosos. Exemplo dos mais marcantes foi o seu 
casamento
com Popia por solicitao de Nero que dela se enamorara e dela queria se 
aproximar
sem chamar muito a ateno de toda a corte imperial. Foi em conseqncia 
dessa situao e de seus desmedidos desejos que Nero mandou Othon em 
missao especial para bem
longe de Roma, como governador dos lusitanos que ocupavam territrio que 
mais tarde
seria transformado em Portugal.

Segundo os historiadores Othon no conseguiu demonstrar o quanto podia, 
apesar da verdadeira adorao que suas legies tinham por ele, devido  
cobia e
 inconseqncia de outro homem que, por coincidncia, tambm apresentava 
limitao
fsica muito evidente: Vitlio. Othon suicidou-se ao perceber que fora a 
causa primeira
de uma guerra civil.

--Vitlio, imperador romano por oito meses
Vitlio (Aulus Vitelius-- 15 a 69 A.C.). nasceu em Lucria e morreu em
Roma; ele foi o sucessor de Othon, por escolha das legies romanas 
sediadas no Reno.
Durante sua vida dissoluta foi protegido por quatro imperadores tambm 
dissolutos: Tibrio, Calgula, Nero e Cludio.

Ainda bastante jovem foi empregado, como hbil condutor de carros que
era, para ensinar o jovem Calgula a mesma arte, incluindo bigas 
aquadrigas. Foi no
exerccio dessa funo que teve um acidente e sofreu violenta queda, 
recebendo, em
conseqncia, um srio ferimento na perna. Acabou ficando com uma leso 
permanente
que o faria mancar bastante pelo resto da vida.

Esse defeito fsico no prejudicou tanto seu conceito quanto o de ser o
maior e mais famoso gluto que Roma j teve. Muito obeso e vermelho, a 
excentricidade de Vitlio aumentava conforme era obrigado a andar. Foi um 
dos imperadores
mais lamentveis de Roma e morreu tragicamente, quase que linchado pela 
plebe furiosa
devido a seus desmandos, ajudada pelos soldados de Vespasiano, que 
acabava de tomar o
poder.

--Os milagres de Vespasiano

Tanto Suetonio quanto Tcito informam que Vespasiano (Titus Flavius
Vespasianus--7 a 79 d.C.) participou de um evento estranho e que nos  
transmitido
como um "milagre". O fato envolve duas pessoas com deficincias fsicas 
diferentes.
Vejamos, nas prprias palavras de Tcito, o que sucedeu na cidade de 
Alexandria:

"Durante os meses em que Vespasiano esteve em Alexandria, poca na qual 
os ventos de
vero vinham regularmente garantir a boa navegao, ocorreram muitos 
milagres ("mul
ta miracula evenere", no original latino) que manifestaram o favor 
celeste e a simpatia
dos deuses para com Vespasiano". Um habitante de Alexandria, pertencente 
 classe modesta, conhecidamente vitima de uma degenerao da vista, 
lanou-se aos seus ps e
pediu-lhe gemendo que o curasse da cegueira. Obedecia, segundo informava, 
s ordens
de Serpis, deus ao qual aquele povo, entregue a supersties, honrava 
mais do que a
qualquer outro; e ele suplicava ao principe que se dignasse umedecer-lhe 
o rosto e ao
redor de seus olhos com a secreo de sua boca. Um outro tinha sua mo 
defeituosa, e,
por sugesto do mesmo deus, pedia a Csar para pis-la com a planta de 
seu p. Vespasiano zombou deles naquele momento e os afastou, mas, devido 
 sua insistncia, comeou a hesitar, de um lado por acreditar estar 
sendo vaidoso e presunoso e do outro por
confiana, pois, as veementes preces daqueles dois doentes e os elogios 
de seus cortesos
inclinavam-no  esperana. Ordenou, finalmente, aos mdicos para 
verificar se a cegueira e a paralisia poderiam ser vencidas por meios 
humanos. Os mdicos, aps alguma discusso, responderam que dos dois 
doentes, um no tinha a fora visual, j eliminada, e
que ela voltaria se o obstculo fosse removido; o outro tinha as 
articulaes desviadas e,
se fosse exercida sobre elas uma presso saudvel, poderiam retomar a 
posio normal;
que os deuses tinham talvez desejado essa cura e que haviam escolhido o 
principe para
essa divina misso; enfim, que se o remedio desse certo, a glria seria 
dele" . . .

Vespasiano deixou-se levar e mostrou-se feliz, pois ficou absolutamente
persuadido de que tudo seria possvel  sua boa fortuna. Cercado pela 
multido que j
se aglomerara, acedeu ao pedido dos dois doentes.

E Tcito finaliza: "Imediatamente a mo retomou suas funes e o cego
de novo viu o brilho do dia. Esses dois milagres, testemunhas oculares 
lembram-nos ainda hoje" . . .("Histoires", de Tcito)

Suetnio, em sua obra sobre os doze Csares, conta o mesmo fato, ao 
dissertar sobre a vida de Vespasiano. Alm de pequenas circunstancias 
ligeiramente diferentes, ele altera a deficincia de um dos suplicantes 
diante de Csar: um era cego, mas o
outro tinha um problema de paralisia na perna e no em sua mo.

--As deficincias citadas por Plnio, em sua "Histria Natural"

Plinio (Caius Plinius Secundus--23 a 79 d.C.), em sua monumental obra
"Histria Natural", escreve a respeito de alguns males bastante notrios 
que podem levar
as pessoas a situaes limitadoras e mesmo a deficincias fsicas srias. 
Dentre eles cumpre notar citaes sobre a elefantiase, gota, paralisia, 
epilepsia e outros.

Em sua extensa obra de trinta e sete volumes aborda assuntos de grande 
valia, mas de quando em quando transmite informaes fantasiosas e sem 
qualquer base na
realidade.

Quanto  elefantase, por exemplo, Plinio afirma que quando reis e prn
cipes eram as vtimas do mal, os mdicos recomendavam banhos em sangue 
humano. O
problema passava a ser no apenas deles, mas principalmente dos homens 
escravizados
que precisavam submeter-se a sangrias ou  prpria morte.

A gota, por ele citada com o nome de "podagra",  bastante analisada.
No seu livro XVI (item LXIV) afirma que "a alfavaca-de-cobra diminui e 
cura varizes
sem dor, se colocada sobre a parte doente. A gota  muito rara, no 
apenas na poca de
nossos pais e avs, mas ainda em nossos dias. Esse mal  estrangeiro, 
pois se ele tivesse
sido freqente na Itlia teria um nome latino. No se deve acreditar que 
 incurvel, pois
tem desaparecido em muitas pessoas e em muitas tem havido sua cura. 
Prescreve-se contra a gota razes de panacia com uva-passa, suco ou 
sementes de meimendro com farinha, escrdio com vinagre, mastruo-bravo 
aplicado conforme explicado anteriormente,
verbena moda com gordura, raiz de po-de-porco, cujo cozimento tambm  
bom para
frieiras. Para eliminar o calor da gota prescreve-se raiz de espadana, 
semente de ???~aragota,
cicuta com picuma ou gordura e sempre-noiva, ao primeiro acesso do mal" 
("Histoire
Naturel le", de Plnio).

Para as paralisias Plinio recomendava igualmente o uso de plantas 
medicinais, afirmando acreditar-se que a betnica e o mastruo-bravo 
curavam a paralisia ou os
membros entorpecidos. Segundo ele, a argmona tinha a mesma virtude, alm 
de ser
uma espcie de elemento estimulador da circulao, chegando at a evitar 
a amputao
de membros.

Por absoluta falta de conhecimento mais profundo Plnio acreditava nas
chamadas "panacias": remdios preparados com o concurso de vrias 
plantas medicinais. Afirmava categoricamente que elas curavam at a 
epilepsia. Sua frase  incisiva:
"Comitiales sanant panacis".

 Plnio que cita algo interessante e curioso para a poca (primeiro 
sculo
de nossa Era) sobre membros artificiais. Afirma-nos que Estrgio, bisav 
de Catalina,
usara mo'feita de metal para disfarar amputao ocorrida em campo de 
batalha.

Tambm conhecido como Plnio, o Velho, faleceu no ano 79 d.C. durante a 
erupo famosa do Vesvio que sepultou Pompia e Herculanum sob espessas 
camadas de cinzas e lava. Plnio, almirante da frota de Miseno, tendo 
aproximado seus navios
para salvar habitantes em fuga, aproveitou a oportunidade paraestudar os 
fenmenos
mais de perto e morreu asfixiado.

--As automutilaes para dispensa do servio militar

Na douta opinio de Ammiano Marcellino, citado por Lucchini, os jovens
romanos que viviam nos anos de decadncia do Imprio Romano odiavam o 
servio militar obrigatrio e de durao por vezes indefinida. Alguns 
moos chegavam at a amputar
o prprio polegar da mo direita, pois com essa deficincia estariam 
dispensados de ingressar nas legies romanas, por no poderem usar a 
espada, alm de no estarem de
acordo com a qualificao fsica minima de um recruta.

Na obra "De Re Militarii", escrita em 390 d.C., Vegetius (citado por 
Cotrell em "The Great Invasion") afirma que existia a seguinte 
recomendao no recrutamento de soldados em todo o Imprio: . . ."quem 
estiver alistando recrutas deve primeiro olhar para o rosto, os olhos, a 
forma toda do homem para ver se ele poder ser um
bom lutador. Assim, um jovem eventualmente adequado para a guerra dever 
ter olhos
brilhantes, postura ereta, peito amplo, ombros musculosos, braos fortes, 
dedos longos,
ventre modesto, ps e barrigas da perna com tendes fortes" (Apud Penn).

Um dos exemplos registrados quanto  reao dos governantes contra as
automutilaes que dispensavam o jovem do servio militar, durante os 
anos do Imprio,
 o caso de um certo Caio Vatieno que durante a chamada "Guerra Social" 
amputou sua
prpria mo esquerda, pois era com ela que os soldados seguravam seu 
escudo. Como
castigo o Senado mandou vender todos os seus bens e rebaixou o jovem 
cidado  categoria de servo.

O imperador Trajano (Marcus Ulpius Trajanus Crinitus--52 a 117 d.C.)
mandava punir com a deportao o pai que, ao saber da convocao de seu 
filho para a
vida militar, amputasse seus dedos ou o deformasse de alguma forma grave 
(Apud
Lucchini) .

Amputaes para evitar o engajamento no servio das legies romanas
tornaram-se freqentes do sculo II ao sculo IV, tendo Constantino I 
(Caius Flavius
Valerius Aurelius Constantinus --270 a 337 d C.) assinado um decreto 
determinando
que qualquer pessoa que tivesse provocado sua automutilao para fugir ao 
servio militar deveria ser encaminhada, dentro da realidade das foras 
armadas romanas, para qualquer outro servio para o qual fosse capaz.
O imperador Valentiniano (Flavius Valentinianus--321 a 375 d.C. ) tambm 
assinou um decreto em 367 d.C. corroborando as ordens de Constantino. Com 
o
passar dos anos, porm, aprovou determinaes muito mais severas, face 
aos abusos freqentes. Uma delas era a mais contundente: aquele que 
amputasse os prprios dedos para no servir nas legies imperiais seria 
"queimado vivo" e seu "senhor" (pai ou responsvel) que no o impedira de 
tal ato, sofreria uma grave condenao.

Vejamos o texto original latino dessa forte determinao:

"Si quis ad fugienda sacramenta militiae fuerit inventus truncatione 
digitorum
damnum corporis expedisse, et ipse flammis utricibus concremetur et 
dominus eius,
qui non prohibet, gravi condemnatione feriatur" (Apud Costa).

--Males incapacitantes e solues paliativas

Romanos abastados sempre encontravam solues, mesmo que apenas de
carter paliativo, para certos males que, por serem mal controlados, 
levavam muitos a situaes de continuo desconforto, enquanto que alguns 
chegavam a ficar parcial ou totalmente incapacitados para uma vida ativa 
e independente. Um dos casos mais notrios
que so citados por Ccero foi o de Lcio-Jlio Csar, cnsul romano e 
contemporaneo
de Caio Jlio Csar.

Lcio-Jlio Csar sofria de reumatismo muito srio que o mantinha 
praticamente paralisado, conforme relata Cicero em uma carta dirigida a 
seu
genro, Pblico
Cornlio Dolabella. "Lcio Csar, de fato, foi at Npoles (Pompia), 
porque estava
muito oprimido por dores em todo o corpo" . . . Pompia contava com 
lecursos naturais significativos, quela poca, pois Cicero afirma que 
"muitos cidados abastados procuram esses lugares por motivos de sade" 
(Apud Menire).

Ccero menciona tambm alguns grandes oradores romanos, conhecidos
seus, que tinham problemas muito srios e que procuravam tais recursos 
para aliviar seus
males. Ele cita Caio Sexto Calvrsio, que sofria de gota e mal podia 
andar; cita Cneo Otvio, que sofria de dores nas articulaes e vivia 
envolto em faixas, coberto de medicamentos.

De fato, os romanos conheciam muito bem as virtudes de certos recursos
naturais, como as guas termais e sulfurosas, por exemplo. Sabiam que 
elas podiam ser
muito teis e benficas para o tratamento dos males das articulaes. 
Usavam-nas como
um recurso bsico para qualquer problema de dores musculares ou 
articulares e chegavam a beber grandes quantidades. Plinio afirma que 
algumas pessoas, desejosas de apressar a cura das dores que levavam s 
dificuldades de movimentao, bebiam as guas sulfurosas em excesso, ao 
ponto de comprometer a prpria vida.

guas termais e sulfurosas que brotavam do prprio cho tornaram-se a
causa do surgimento de muitos centros populacionais. Foi o que sucedeu 
com Epidauros, na Grcia, e tantos outros lugares considerados como 
miraculosos. Foi o que aconteceu com Pouzzoles, por exemplo, na Provincia 
de Npoles, que surgira com o nome
de "Dicaearcha", pelo ano 522 a.C., sendo depois reconhecida como Puteoli 
(Poos)
141

pelos romanos, devido aos seus poos de guas termais e medicinais. Para 
l romanos
abastados acorriam em verdadeiras multides--e l Ccero mantinha tambm 
uma vila.

--O problema da surdez na opinio de Cicero

"In surditate vero quidnam est mali?" pergunta Ccero em seus Debates
Tusculanos. Afinal qual  o mal que h na surdez? Segundo seu depoimento 
e suas consideraes quanto s misrias humanas, Crasso, conhecido como 
"Agelastos", era meio
surdo, mas ouvia o suficiente para saber tudo o que dele se falava de 
mal.

"Os surdos no ouvem a msica,  verdade, mas no sentem seus ouvidos 
dilacerados pelo rudo da serra quando  afiada, ou pelo grunhido do 
porco quando
est sendo degolado". Finaliza dizendo: "Assim como consolamos os cegos a 
todo o instante com os prazeres da audio, devemos tambm consolar os 
surdos com os prazeres
da viso" ("Tusculanae Disputationes", de Cicero).

--Deficincias mltiplas e morte

Ccero continua com suas consideraes e suas anlises sobre os mais 
srios problemas que podem atingir um ser humano, fazendo um comentrio 
que s 
compreensivel para aquela poca:

"Reunamos agora todos esses males num s indivduo. Que ele seja surdo
e cego e que prove atrozes dores--ele ser logo consumido por esses 
sofrimentos, e se,
por falta de sorte, eles chegarem a se prolongar, por que suport-los? A 
morte  um refgio seguro onde esse indivduo estar ao abrigo dessas 
horrendas misrias" ("Tusculanae Disputationes", de Ccero).

--A medicina grega e sua infiltrao no Imprio Romano

Todos aqueles que estudam a Histria de Roma sabem que ela foi uma
continua emprestadora, tanto nas cincias quanto na arte. E a Grcia foi 
uma das maiores colaboradoras do I mprio Romano, tanto numa quanto 
noutra rea.

A medicina grega, por exemplo, foi levada a Roma aos poucos, por alguns
mdicos gregos que deixaram de lado seus princpios ticos e passaram de 
imediato a explorar os abastados romanos.

Cato, o Censor (Marcus Porcius Cato--234 a 149 a.C.), detestava os
gregos. Em sua obra "Praecepta ad Filium" diz: "Falarei dos gregos no 
tempo e no lugar,
meu filho" .." uma raa perversa e indcil; creia que um orculo te fala 
quando
digo: Todas as vezes que essa nao trouxer seus conhecimentos, ela a 
tudo corromper.
E ser bem pior se ela nos mandar seus mdicos; eles juraram entre si 
matar a todos os
brbaros  custa da medicina". "De uma vez por todas, eu te probo os 
mdicos"
(Apud Laignel-Lavastine).

Plnio comenta em sua Histria Natural: " uma pena que no haja uma
lei para punir mdicos ignorantes e que a pena capital nunca  ditada 
para eles. No entanto, eles aprendem com o nosso sofrimento e fazem 
experincias, colocando-nos diante da morte" ("Histoire Naturelle", de 
Plnio).

Marcial (Marcus Valerius Martialis--40 a 102 d.C.) foi um mordaz autor
latino que num dos seus muitos e irreverentes epigramas ironizou da 
seguinte forma com
um mdico de problemas visuais. "Agora voc  gladiador, quando antes 
voc era mdico dos olhos. Como mdico voce fazia o que faz hoje como 
gladiador" ("Epigramas",
de Marcial).

--Mdicos romanos famosos e os males incapacitantes

No h dvida de que havia muitos mdicos dedicados e competentes,
tanto gregos quanto romanos. Falaremos sobre apenas trs daqueles que 
lidaram com
problemas de deficincias e que so citados por historiadores.

Alem de Dioscrides, autor de um compendio sobre assuntos de medicina, 
incluindo neles doenas e alguns problemas que levavam a deficincias, 
"De Materia Medica" (Sobre Matria Mdica), destaquemos dois famosos 
mdicos que pela sua
inquestionvel competncia passaram para a Histria da Medicina.

O primeiro deles  Asclepiades de Bitinia, nascido em 124 a.C. e que,
apesar de grego de nascimento, sempre viveu e trabalhou em Roma, 
semelhantemente ao
que sucederia sculos depois com Cludio Galeno, conforme verificamos 
quando discutiamos alguns aspectos de procedimentos precursores da 
reabilitao na Grcia.

Asclepiades estabeleceu a prtica mdica com base na chamada "teoria
da modificao corpuscular", segundo a qual qualquer doena resultava de 
uma certa
movimentao de corpsculos no corpo humano de uma forma no-harmoniosa. 
Em
seus trabalhos procurava restabelecer a indispensvel harmonia atravs de 
dieta acompanhada de alguns procedimentos teraputicos reconhecidos hoje 
em fisioterapia, tais
como a massagem, a hidroterapia e os exercicios fisicos. Foi Asclepades 
de
Bitnia o
primeiro mdico a usar a msica no tratamento e na recuperao de pessoas 
afetadas por
doenas mentais.

O segundo nome  o de Celso (Aulus Cornelius Celsus--42 a.C. a 37
d.C.), famoso, competente e reconhecido por muitos sculos como o "Ccero 
dos Mdicos" devido  sua interessante obra "De Re Medica" (Sobre a 
Medicina). Nessa obra
Celso descreve um nmero bastante elevado de doenas e seus sintomas 
principais, incluindo as paralisias e males de extremidades, indicando 
textualmente tratamentos de
massagens, de calor e de exercicios fsicos.

Em seu livro V Celso indica remdios para dores articulares, afirmando o
seguinte: "Os ungentos so bons principalmente nas afeces dos tendes 
e das articulaes; tambm o ungento de Euthycla deve ser empregado" 
.."quando  preciso combater a imobilizaao das articulaes provocada 
por uma cicatrizao recente,
estado que os gregos chamam de "ankylose" ("De Re Medica", de Celso).
No mesmo livro Celso d uma descrio sucinta que demonstra amplo
conhecimento da paraplegia e de suas caracteristicas quando da 
sobrevivncia de paraplgicos, afirmando textualmente: "Nas leses da 
medula da espinha h paralisia ou movimentos convulsivos e privao de 
sensibilidade; ao final de algum tempo, o esperma, a
urina e as matrias fecais so eliminados involuntariamente".

Celso discute tambm a epilepsia num capitulo bastante longo de sua
obra, recomendando lavagem intestinal com helboro negro, planta 
medicinal at hoje
utilizada para problemas neurolgicos. Segundo ele a alimentao do 
epiltico devia ser
leve. A carne de porco devia ser a ele proibid. Alm disso o doente 
devia evitar tenses
e cansao, sendo necessrio raspar a cabea e tomar duchas de gua 
salgada. Para alguns
casos Celso recomendava exercicios e massagens.

--Cs servios mdicos e os hospitais militares romanos

Nos primeiros tempos da Histria de Roma o tratamento dos doentes e
dos feridos em batalhas era deixado aos prprios companheiros de armas. 
Tanto assim
que por muitos sculos os soldados levavam consigo, como parte de seus 
pertences, pomadas, hervas e bandagens para a eventualidade no 
descartvel de serem feridos.

Os soldados mais experimentados dominavam por vezes conhecimentos
estranhos para um dos principajS problemas enfrentados pelos soldados: o 
do estancamento do sangue em ferimentos profundos. A preocupao 
estendia-se  eventualidade
da perda de um membro e  morte devido  hemorragia. Uma receita popular 
e muito
divulgada entre os soldados que nos  transmitida por Samnico  esta: 
cozer estrme
de cavalo com cascas de ovo trituradas, colocando a pasta sobre o 
ferimento.

Sabe-se que os comandantes e oficiais mais graduados tinham o privilgio
de serem atendidos por seus mdicos, especialmente contratados para 
segui-los e estar ao
seu lado nas batalhas. E houve tambm medicos das casernas que acumularam 
tanta experincia que se tornaram famosos. Sao os casos de Scribonius 
Largus, mdico de Cludio I durante a invaso da Bretanha; de 
Dioscorides, mdico militar nos tempos de Nero;
de Cludio Galeno, a respeito do qual j falamos; de Jpide, mdico que 
atendeu a Eneas
ferido, em pleno campo de batalha, e vrios outros que passaram para a 
Histria da
Medicina.

Embora haja poucas referncias, sabe-se que sempre houve preocupao
com a assistncia aos casos de doenas e de ferimentos mais srios nas 
legies romanas,
preocupao essa que muito vagarosamente foi requerendo algumas 
providncias, principalmente com a chegada dos mdicos gregos a Roma. 
Tcito, por exemplo, fala-nos
sobre a existencia de tendas para doentes e feridos nos acampamentos 
romanos. Sabe-se
tambm que por sculos os soldados gravemente feridos e amputados eram 
deixados para maiores cuidados em cidades romanas, sob a custdia de 
cidados responsveis e suas
famlias, aps terem recebido algum tipo de ateno em sua prpria 
legio.

Com a gradativa penetrao e divulgao da medicina grega chegaram as
legies romanas a contar com 40 mdicos em cada uma delas (ou seja, para 
dar cobertura a 6.000 homens armados).
Existem em alguns autores menes quanto  distribuio das reas nos
acampamentos de guerra, incluindo a localizao das chamadas 
"valetudinaria", uma
espcie de enfermaria para os "grandes feridos", claramente delimitadas e 
que muito
mais tarde se transformariam em hospitais de campanha, nos 
casosdeacampamentos
permanentes.

Ao que parece aos historiadores as "valetudinaria" foram inicialmente
instaladas durante o governo de Augusto, sendo certo que sob Trajano, ao 
final do sculo I d.C., elas j existiam em todas as legies.

--As "valetudinaria" descobertas em estudos arqueolgicos

Estudos arqueolgicos tm revelado ao mundo muito das caractersticas
dos exrcitos romanos atravs dos sculos, inclusive seus hospitais 
militares de retaguarda e mais permanentes, isto , "valetudinaria" 
construdas dentro de planos mais cuidadosos e materiais muito mais 
durveis.

Um dos pontos excavados situa-se a 30 quilmetros de Viena, s margens
do rio Danbio. O local era conhecido como Carnuntum, pujante cidade de 
aproximadamente 100.000 habitantes, que mantinha em suas imediaes duas 
legies permanentemente estacionadas. O hospital militar romano de 
Carnuntum tinha um saguo principal
que levava a uma sala de recepo, atrs do qual havia uma sala especial 
para cirurgias ou
curativos para ferimentos graves. Ao seu redor havia uns 60 quartos 
pequenos.

Existem outros locais escavados e que correspondem a hospitais militares
romanos, tais como Novaesium, perto de Dusseldorf na Alemanha, 
provavelmente construido pelo ano 100 d.C. no sistema de corredores; 
Borcovicus, perto de Housestead e
vrios outros na Inglaterra, incluindo um hospital conhecido como Pinnata 
Castra, em
Perthshire, uma enorme construo de 7.000 m2 (Apud Penn).

Graas aos mdicos e seus auxiliares das legies e dos navios de guerra 
romanos muitos homens feridos foram salvos da morte certa. E, sem sombras 
de dvida,
muitos tambm sobreviveram aps amputaes ou com algum outro tipo de 
problema
incapacitante e voltaram para a vida civil.

--Os auxiliares de mdicos nas legies romanas

Soldados gravemente feridos, muitos dos quais com membros decepados
a golpes de espada ou com seus olhos vazados, sobreviveram graas a um 
socorro mdico
de urgencia que era viabilizado por certos tipos de auxiliares lotados 
nas legies romanas
em pOcas dificeis de determinar. Dentre eles cumpre chamar a ateno 
primeiramente
para os "Optiones valetudinarii", ou seja, ajudantes ou auxiliares de 
enfermaria. Eram
meros funcionrios administrativos aos quais cabia cuidar da limpeza 
local, da alimentao dos acamados, dos curativos e dos remdios dos 
soldados gravemente feridos e alojados nas "valetudinaria".

Havia, no entanto, um tipo especial de auxiliares diretos dos mdicos das
legies que eram conhecidos como "deputati" (mais tarde, no Imprio 
Bizantino foram
conhecidos como "deputatoi"), ou seja, elementos delegados que no faziam 
parte dos
contingentes guerreiros e que eram obrigados a seguir numa pequena 
distancia a coorte 
qual estavam destacados, durante uma batalha. Seu objetivo bsico era 
prestar socorros
a feridos que tombavam ao cho, levando-os imediatamente a cavalo para a 
retaguarda,
onde por vezes havia carroas e meios mais seguros para seu transporte s 
"valetudinaria".

Como acontecia esse incipiente servio de socorro volante?

Cada general colocava oito ou dez "deputati" atrs das linhas de combate 
direto com o inimigo, tendo antes feito uma cuidadosa seleo entre civis 
muito vivos
e cheios de iniciativa. Ficavam a mais ou menos 50 metros de distancia, 
agindo com rapidez a fim de que os feridos que tombavam ao cho no 
fossem pisoteados nos casos de
retirada ou de avano de uma segunda ala de combatentes de sua prpria 
legio.

Para cada soldado ferido transportado o "deputatus" recebia uma certa
quantia de dinheiro. Para bem desenvolver sua tarefa eles levavam cavalos 
com selas especiais que tinham dois estribos suplementares, com os quais 
conseguiam remover at
dois feridos por vez. Suspenso  sela levavam tambm um recipiente com 
gua para poder reanimar um ferido desmaiado.

Julius Pollux em sua obra "Onomsticon" recomenda inclusive que esses
"deputati" exercitem seus cavalos a dobrar as pernas dianteiras para 
facilitar a um soldado ferido montar ou ter acesso aos estribos (Apud 
Cabans).

Esse sistema foi gradativamente sendo melhorado nas legies romanas
tendo sido continuamente adotado sob o imperador bizantino Mauricio que o 
menciona em sua obra "Stratgicon", conforme veremos mais adiante.

--O sistema hospitalar romano

Na medicina pura os romanos no realizaram muito. No entanto, uma das
maiores contribuies de Roma  Histria da Medicina foi iniciar uma 
espcie de sistema
de atendimento hospitalar para a populao civil, incluindo o atendimento 
a pessoas
com srios problemas incapacitantes. Sua organizao estava muito 
relacionada com a
experincia vivida e acumulada por centenas de anos de lutas e de 
dificuldades das legies romanas em vrias partes do mundo. Os mdicos 
que serviam nessas legies no
lidavam apenas com ferimentos, mas tambm com febres, doenas graves e 
corriqueiras,
acumulando com isso uma vasta experincia. Muitos desses mdicos passavam 
a dar atendimento  populao em geral, to logo deixavam os servios nas 
legies ou nos navios
de guerra, o que tornou vivel a organizao desse incipiente sistema 
hospitalar.

Foi em Roma que surgiram tambm as primeiras organizaes separadas
que cuidavam e davam abrigo a doentes crnicos e incapacitados. Lcio 
Jnio Moderato
Columella cita em seus trabalhos as "valetudinaria" para escravos doentes 
e incapacitados, em pleno sculo I d.C.

Os patrcios e todos os demais cidados romanos que tinham posses 
suficientes para pagar mdicos eram tratados em suas prprias vilas ou 
residencias. Mas com
o resultado satisfatrio do tratamento que era dispensado nas 
"valetudinaria", romanos
livres aos poucos comearam a usar esse novo tipo de recurso de 
tratamento mdico, especialmente quando vitimas de males crnicos ou de 
problemas fisicos limitadores.

Nas escavaes de Pompia existem locais que parecem indicar que mdicos 
mantinham instituies como se fossem casas de repouso ou de 
convalescena. E, segundo Cludio Galeno de Prgamo, nas provincias do 
Imprio Romano estabelecimentos
de cuidados mdicos acabaram tornando-se hospitais para atendimento a 
doentes graves
e pessoas mutiladas, com o subsidio financeiro do poder central e pessoal 
pago pelo
I mprio.

--O ensino da medicina no Imprio Romano

O atendimento melhor qualificado s pessoas doentes e quelas limitadas
por alguma deficincia fisica, sensorial ou algum mal crnico dependia da 
existncia de
mdicos bem preparados, e estes existiriam na medida em que houvesse boas 
oportunidades de adquirir conhecimentos e experincia. Estes, por sua 
vez, dependiam da existncia de recursos para treinamento.

O ensino destinado  preparao de mdicos no foi organizado em Roma a 
no ser na fase urea do Imprio. Inicialmente o ensino das vrias reas 
conhecidas
da medicina era feito em bases puramente individuais.

Na severa opinio de Cludio Galeno, era necessrio que o aprendiz de
mdicO trabalhasse por 11 anos at poder ser considerado um verdadeiro 
mdico. Tessalo achava que 6 meses eram suficientes para praticar os 
rudimentos da medicina.

No ano 46 a.C., quando os direitos de todos os cidados foram 
reconhecidos e aprovados, organizou-se com certa regularidade e critrio 
o ensino mdico.
Assim  que, terminados os estudos de botanica, anatomia e cirurgia, os 
aprendizes da
cincia mdica recebiam o ttulo de "Medicus a Republica" (mdico pela 
Repblica).

O imperador romano Stimo Severo (Lucius Septimius Severus-- 146 a
211 d.C.) conseguiu locais para as incipentes escolas de medicina e para 
suas indispensveis bibliotecas.

--Categorias de mdicos em Roma

No final do Imprio Romano do Ocidente--ou seja, aquele liderado por
Roma--havia cinco categorias de mdicos:

"Archiatri suori palatini", ou seja, os mdicos do imperador e do palcio 
imperial;

"Archiatri municipales populares" que eram os indicados para servir, s 
custas do Imprio, nas grandes cidades das provircias romanas e nos 
arredores importantes de Roma;

"Archiatri scholares" que dirigiam as escolas de medicina ou nelas 
participavam no preparo de novos mdicos.

As outras duas categorias englobam os mdicos dos ginsios esportivos,
aqueles que serviam nas termas e banhos pblicos, os que atuavam nos 
circos e que deviam ser tambm bons cirurgies, e os mdicos das vestais.

--Implantao de servios de assistncia mdica

Dentre os fatos que aos poucos foram afetando a vida das pessoas 
deficientes ou portadoras de males que normalmente podem levar  
instalao de uma situao incapacitante, no Imprio Romano todo, 
ressaltemos a gradativa implantao de
servios mdicos mantidos pelos seus governantes desde os primeiros 
tempos do Imprio. Mdicos (archiatri) eram indicados para diversas 
cidades ou para instituies existentes na ocasio, tanto em Roma como 
nas vizinhanas e tambm nas suas mais longinquas
provncias, onde permaneciam estacionados servidores pblicos 
provenientes da Capital
do Imprio e suas legies. O sistema de assistncia aos doentes, 
incluindo os portadores
de deficincias de ordem fsica, sempre esteve em bem melhores condies 
junto s legies romanas do que nas cidades, como vimos anteriormente.

--A higiene e os banhos pblicos

Desde o sculo VI a.C. Roma contava com uma obra que at hoje  
testemunha do zelo de alguns de seus governantes pela sade publica: a 
Cloaca Mxima construda pelos Tarqunios, famosos reis de Roma. A ela 
ligavam-se encanamentos de esgoto e de gua servida. Gradativamente 
latrinas pblicas foram instaladas, e na poca de
Constantino havia 150 delas.

gua potvel e de boa qualidade certamente ajudou tambm os romanos
na luta contra epidemias e contra muitos males. As adutoras de gua foram 
objeto de
um grande esforo dos romanos mais civilizados, pois at o ano 300 a.C. 
Roma ainda no era alimentada por fonte alguma de gua, a no ser o 
proprio Tibre, acima da
Cloaca. Na poca imperial Roma chegou a contar com 14 aquedutos. Os 
romanos, que
se contentavam anteriormente em lavar os braos e as pernas todas as 
manhs e o resto
do corpo uma vez por semana, puderam, sob o Imprio, dispor de 500 litros 
de gua por
dia cada um! A cidade recebia mais de um bilho de litros dirios de gua 
potvel, volume que nenhuma cidade moderna, de porte mdio, recebe.

Os banhos pblicos tornaram-se, nas ltimas dcadas da Repblica Romana, 
verdadeiros lugares de prazer, onde era mostrado um luxo refinado. Na 
poca de
Constantino existiam aproximadamente 850 banhos pblicos em Roma.

Inicialmente separados por sexo, os banhos tornaram-se comuns, tendo
sido essa uma das causas da depravao dos costumes de Roma, rigorosa e 
continuamente combatidos pelos cristos, impedidos de os freqentar.

--As pessoas deficientes nas artes romanas

No museu do Louvre, em Paris, existe um vaso de origem romana--
provavelmente do Sculo IV a.C.--no qual est representada uma pessoa com 
deficincia
motora. Ela se apoia num basto e utiliza um pilo na parte inferior da 
perna direita, devido a uma deformidade de origem poliomielitica talvez. 
Nota-se tambm o seu p esquerdo numa posio deformada, como se fosse um 
p eqino.

A coluna de Trajano, em Roma,  uma obra de arte "sui generis" e
muito interessante. Ela apresenta numa seqncia ininterrupta, em forma 
de espiral ascendente, toda a vida de lutas, vitrias e dificuldades do 
imperador Trajano e suas legies.
Um dos trechos dessa famosa ilustrao seqencial mostra-nos com bastante 
clareza o
atendimento a feridos nos campos de batalha. Nota-se, por exemplo, um 
soldado fazendo curativo num colega de armas, enquanto ???rlnic r)utr~s 
ajudam um t~rrpir~ h~ct7,nte ferido e que mal r-~nsPnlle manter-se em p.

Nas poticas paragens do vale do rio Gave, a nordeste dos Pirineus, a
5 quilmetros da vila de Pau, fica o vilarejo de Lescar. Num passado bem 
remoto ali
estava localizada Beneharnum, muito aprazivel cidade galo-romana que foi 
mais tarde
destruida pelos sarracenos. A mais importante de suas antigas construes 
 sua catedral,
pois Lescar j foi sede de bispado. Num de seus mosaicos parcialmente 
destrudos percebe-se a figura de um homem dando uma larga passada  
frente de um animal. A perna
direita da figura, todavia, no tem o p e o homem usa uma espcie de 
pilo para apoiar
o joelho, formando uma DrimitiVa e eficiente n???PrnA de madeira.

--Valores espirituais em pessoas deficientes

Em Roma, alguns anos antes de Cristo e mesmo  poca da vida de
Jesus, mas sem com Ele ter tido qualquer contato, dois sbios romanos 
chegaram a
expressar com muita clareza o que pensavam de pessoas portadoras de 
deficincias
de seu conhecimento. So eles Ccero e Seneca.

Cicero  bem explicito quanto a um problema incapacitante na vida de
uma pessoa, ou seja, quanto  cegueira. Fala sobre a adequacidade de 
alguns homens cegos famosos, ou de seu conhecimento face  vida.

"O velho pio, apesar de cego depois de longo tempo, exercia a mais 
elevada magistratura, sem faltar em nada a qualquer de seus deveres, 
pblicos ou privados.
A casa de C. Druso, o jurisconsulto, estava sempre cheia de clientes que, 
por terem sido
pouco clarividentes em seus negcios, ali tomavam um cego como guia. Em 
minha infancia, Cneo Aufidio, que havia sido pretor, no apenas dava seus 
pareceres no senado e
ajudava seus amigos com conselhos, apesar de ter perdido a viso, mas 
tambm escrevia
sobre histria grega e era versado em literatura. Tive em minha casa por 
muito tempo o
estico Diodote. Depois que perdeu a viso, ele se aplicou mais do que 
nunca  filosofia,
sem distraes outras a no ser tocar o alade  moda dos pitagoreanos. 
Liam para ele
dia e noite; e, o que poderia parecer impossivel sem a viso, continuou a 
ensinar geometria, demonstrando com clareza a seus alunos como traar 
linhas. Diz-se que Asclepiades, filsofo, bastante conhecido entre os 
homens de Eritricia, respondeu a algum que
lhe havia perguntado o que lhe incomodava mais com a perda da viso: . . 
. " que me
falta um criado para me acompanhar". "Tusculanae Disputationps de 
Cicero).
O atendimento a feridos no campo de batalha (detalhe da Coluna de 
Trajano, em Roma
- in "Chirurgiens et Blesss  travers l'Histoire", de A. Cabans)

Seneca, o grande pensador e filsofo romano que nasceu no ano 4 a.C. e
morreu em 65 d.D., sendo, portanto, contemporaneo de Jesus Cristo, 
escreveu muitas
obras de grande interesse at nossos dias e dentre elas cumpre destacar, 
neste contexto,
mais de 100 cartas ao seu amigo Lucilio. Numa delas ele analisa o 
problema das deficincias fsicas de ordem mais grave e os valores 
espirituais existentes nas pessoas deficientes. Diz ele:

"Finalmente, se eu considerar nosso amigo Clarano, ele me parece belo e
to reto de corpo quanto de esprito. Um grande homem pode sair de um lar 
pequeno e
uma grande alma pode ser encontrada num corpo pequeno e disforme; o que 
me faz crer
que a natureza produz essas pessoas a fim de que se perceba que a virtude 
pode nascer
em qualquer lugar" ... ... "Parece que Clarano existe expressamente para 
nos ensinar
que a alma no  manchada por deformidades do corpo, mas que o corpo 
recebe certos
brilhos pela beleza da alma" ("Lettres a Lucilius", de Sneca).

Em outra de suas obras, Sneca tambm comenta a respeito da importancia 
de compreender os problemas que nos afetam, mesmo que sejam deficincias 
fisicas
srias: "Existe alguma vantagem, diz voc, em ser mandado para o exilio, 
em ver seus
filhos cair na misria, em enterrar sua mulher, em ser marcado pela 
calnia, em ser mutilado?" ... ... "Se voce imagina que, como remdio, 
deve-se s vezes amputar membros que no poderiam ficar unidos ao corpo 
sem causar sua destruio, voc se deixar convencer que certos males so 
vantajosos para aqueles que os sofrem" ("De Providentia", de Sneca).

Eis alguns outros pensamentos desse sbio pensador romano:

"Ningum, em absoluto, me parece mais infeliz do que o homem ao qual nada 
de infeliz aconteceu jamais".
"Ningum conhece o que pode, sem ter-se provado antes".

"O importante no  o que voc sofre, mas como voc sofre".
CAPTULO TERCEIRO

O CRISTIANISMO, O IMPRIO BIZANTINO E A IDADE MDIA
FACE AS PESSOAS DEFICIENTES
1. O Advento do Cristianismo

Se analisarmos as circunstancias que cercaram o aparecimento do 
Cristianismo no mundo, ficaremos muito admirados, pois foi precisamente 
quando o Imprio
Romano apresentava-se a todas as naes como uma realidade imbativel e de 
slidas razes, com seus mais de sete sculos de lutas e muitas vitrias, 
e seus muito pomposos governantes desfrutando de muita autoridade, sempre 
garantida pela fora de legies bem
treinadas e bem armadas, que um grupo de homens muito simples, sem 
cultura e de origem judaica, surgiu e colocou-se face  humanidade para 
iniciar uma substancial transformao que alteraria todo o curso da 
Histria do Mundo.

Embora a prpria origem da nova doutrina tivesse sido um dos principais
fatores diretos de seu sucesso, ela no pode ser considerada como o 
nico. Houve tambm fatores indiretos que devero ser levados em conta, e 
um dos mais significativos foi
a consagrada "Pax Romana": a paz garantida a vastissimas e muito 
diversificadas regies
do mundo conhecido, coordenadas num imenso Imprio cujo poder central 
localizava-se
em Roma. Essa paz que passou para a Histria no foi garantida apenas 
pelas armas mui
to superiores dos romanos e de seus "aliados", mas tambm por um 
aceitvel sistema
administrativo nas provincias e naes conquistadas e por boas estradas. 
E havia um
outro fator pondervel: pelo fato de haver duas linguas bsicas em quase 
todo o Imprio, ou seja, o latim e o grego. E no podemos nos esquecer do 
fator que talvez tenha
sido dos mais relevantes quela poca, fator que de certa forma 
viabilizou inicialmente
a divulgao do novo modo de ser e pensar "cristo", ou seja, a 
uniformidade de direitos garantidos a todos os seus habitantes, direitos 
esses que eram conseqentes do esmero com que eram tratadas as leis em 
Roma.

Esses fatores todos--por mais estranho e ironico que possa parecer 
apresentaram-se no inicio da vida crist como agentes facilitadores. Mas, 
muito mais do que
eles, convm ressaltar aqui o lamentvel estado moral da sociedade romana 
como um
todo--especialmente a mais favorecida--que, alm dos desmandos quanto a 
usos e costumes, no chegava a atinar com o verdadeiro significado dos 
problemas que atormentavam continuamente certas camadas da populao, 
tais como os escravos, os oprimidos,
os servos e outros mais--enfim, todos aqueles que compunham a massa dos 
pobres do
glorioso Imprio Romano.

O contedo da doutrina crist que era toda voltada para a caridade, ou
seja, para o amor ao prximo, para o perdo das ofensas, para a 
valorizao e compreenso do significado da pobreza, da simplicidade de 
vida e da humildade, contedo esse
pregado por Jesus Cristo e divulgado com nuances cada vez mais 
convincentes, conquistou a grande horda dos desfavorecidos em primeiro 
lugar. No meio deles, aqueles que
eram vitimas de doenas cronicas, de defeitos fisicos ou de problemas 
mentais. Tudo
isso deixou perplexos todos os que deles viviam despreocupados. Aos 
poucos, alguns
comearam a posicionar-se favoravelmente a esse novo modo de ver o seu 
semelhante;
outros mantiveram-se alienados como sempre; muitos reagiram ferozmente 
contra tudo
o que se relacionava com cristos ou sua doutrina.
Nos primeiros tempos da Igreja Crist houve um significativo impulso ao
sentimento fraternal entre os cristos, no importando em nada sua 
situao social ou
mesmo sua nacionalidade, fosse ela romana, grega, egipcia, franca, 
hebria ou de qualquer outra natureza. A minoria crist foi aos poucos 
adquirindo mais e mais adeptos para se transformar em pouco mais de trs 
sculos maioria absoluta, principalmente na
Europa e no Oriente Mdio.

E houve, com a implantao e solidificao do Cristianismo, um novo e
mais justo posicionamento quanto ao ser humano em geral, ressaltando a 
importancia
devida a cada criatura como um ser individual e criado por Deus, com um 
destino imortal--o que, sem dvida, muito beneficiou os escravos e todos 
os grupos de pessoas sempre colocadas de lado e menosprezadas na 
sociedade romana, tais como os portadores de
deficincias fisicas e mentais, antes considerados como meros pecadores 
ou pagadores
de malefcios feitos em vidas passadas, inteis, possuidos por maus 
espiritos, ou simplesmente como seres que, em muitos casos, deveriam 
continuar sendo eliminados ao nascer,
segundo as leis e costumes de Roma recomendavam h sculos.

No entanto, a Histria nos conta que as conquistas do Cristianismo no
aconteceram nem com facilidade nem com tranqilidade. Problemas graves e 
muito srios surgiram desde os primeiros anos e mantiveram-se por trs 
sculos.

--As perseguies aos cristos nos primeiros sculos

A nascente Igreja Crist foi primeiramente desalojada da Sinagoga e 
depois perseguida pelos judeus devido s profundas divergencias 
existentes, o que levou
seus primeiros lideres e adeptos (muitos dos quais haviam conhecido Jesus 
em vida) a
procurar montar sua prpria organizao, em vez de tentar inutilmente 
manter-se como
parte da religio dos judeus, como talvez fosse a inteno inicial. O 
prprio Conclio de
Jerusalm, citado nos Atos dos Apstolos, estabeleceu as bases para 
transformar o Cristianismo incipiente em uma religio de carter 
absolutamente internacional, universal.

Essa caracteristica chamou imediatamente a ateno dos governantes 
romanos, pois o Imprio e seus mandatrios, que respeitavam (ou 
ignoravam) as religies e
crenas locais ou nacionais dos povos conquistados, no aceitavam em 
hipotese alguma
essa espcie de organizao judaica que se institua e que afirmava 
manter uma religio
"no licenciada" pelas autoridades de Roma  busca de adeptos em qualquer 
das naes
integrantes do Imprio. Foi dessa maneira que o Cristianismo comeou a 
ser olhado pelas autoridades como movimento ilegal, tendo sido 
extremamente fcil descobrir aspectos
"negativos" na audaciosa religio de um s Deus, que no apenas 
desprezava deuses sem
contedo e "surdos-mudos", como afirmavam seus lideres, como tambm 
recusava-se
a reconhecer a pretensa caracteristica de divindade no imperador romano.

Iniciaram as autoridades romanas a represso violenta, para desencorajar
sua expanso: as famosas perseguies aos cristos. Foram elas decretadas 
por diversos
imperadores romanos: Nero, Domiciano, Trajano, Marco Aurlio, Setimo 
Severo, Maximino, Dcio, Valeriano, Aureliano e Diocleciano (e sob seu 
nome, a feroz perseguio
de Galrio). Tiveram como conseqncia muitas mortes provocadas por 
sentenas injustas e por vezes muito cruis, cuja inteno principal era 
desencorajar as afrontas dos
cristos aos usos, costumes e autoridades estabelecidos.

A grande tragdia das violentas perseguies, seguidas de aprisionamento,
condenao sumria ao suplcio ou apenas perptuas e mesmo  morte durou 
129 anos.
E durou tanto tempo com certos imperadores que seus juzes chegaram a 
ficar literalmente cansados de no obter resultados satisfatrios. Alguns 
desses imperadores, preocupados em manter uma certa imagem de clemncia e 
de humanidade, resolveram mudar de ttica: os juizes passaram a receber 
ordens para no mais condenar os cristos 
tortura e  morte, "por um ato de clemncia do imperador" . . .

Eusbio, bispo de Cesara, que viveu entre 267 e 340 e foi um religioso
que gozava da mais absoluta confiana de Constantino I, o Grande, 
testemunha o seguinte ao falar dos cristos perseguidos e condenados:

"Ordenou-se que a partir de ento vazassem nossos olhos e aleijassem uma 
de nossas pernas. Esta foi a humanidade e esse lhes pareceu um gnero 
brando de suplicio contra ns.
Dessa forma, por causa dessa brandura dos homens mpios, de maneira 
alguma seria possivel contarmos o nmero daqueles aos quais foi 
primeiramente extrado o olho direito
e depois cauterizado com um ferro, ou daqueles aos quais foi estropiada 
(a musculatura)
a barriga da perna esquerda com um ferro em brasa, sendo imediatamente 
aps condenados s minas existentes na provncia, no tanto para 
trabalharem mas para serem atormentados" ("Histria Eclesistica", de 
Eusbio de Cesara).

Ao comentar a questo das mutilaes impostas aos cristos, sob o ponto
de vista do Cdigo Penal Romano, Mommsen afirma que "na perseguio aos 
cristos
que teve lugar sob Diocleciano, deixava-se inicialmente a cada tribunal, 
se estivermos
bem informados, a liberdade de agravar as penas como bem lhes parecesse, 
pela da mutilao corporal e finalmente o governo mandou adicionar  pena 
das minas, o vazamento
do olho direito e a amputao do p esquerdo" (" Le Droit Pnal Romain", 
de Mommsen ) .

De sua parte Allard nos diz, em seu pormenorizado estudo sobre a 
implantao do Cristianismo no Imprio Romano, o seguinte: "De 308 a 310, 
as pedreiras
da Tebaida, as minas da Cilicia, da Palestina e do Chipre, viam chegar 
longas cadeias de
cristos, quase todos coxos e cegos" ("Le Christianisme et l'Empire 
Romain",de Allard).

Por vezes os algozes desses muitos cristos que estavam condenados s
minas pelo resto de seus dias permitiam que se reunissem para orar e 
mesmo para formar
pequenos grupos que foram sendo chamados de "igrejas". Depois, todavia, 
dependendo
sempre dos tipos de homens encarregados de sua vigilancia, bem como da 
produo das
diversas minas, comeou a ocorrer a disperso violenta, sua transferncia 
de mina para
mina e finalmente a decapitao dos condenados enfermos e menos 
produtivos, incluindo sempre os portadores de deficincias srias e 
limitadoras da capacidade de trabalho.
--Stimo Severo, o sbio e firme imperador

Nascido em Leptis Magna, na frica, e morto na Bretanha (hoje 
Inglaterra), Setimo Severo foi imperador dos romanos de 193 a 211 d.C. 
Segundo os historiadores, desenvolveu um governo bastante firme. Uma 
sria mancha em seus dezoito anos de
imperador-foi uma acirrada e forte perseguio contra os cristos.

J no final de sua vida, com 62 anos de idade, organizou uma campanha
contra os calednjos revoltados, levando consigo seus dois filhos e 
herdeiros, Marco
Aurlio Antonino,que depoistornou-se imperador com o cognome de Caracala, 
e Lcio
Stimo Geta, assassinado pelo prprio irmo em 212, aps a morte do pai.

Devido a atrozes dores provocadas pela gota em seus ps e pernas, Stimo
Severo no conseguia mais andar. No entanto, manteve-se sempre muito 
ativo, superando a dificuldade de movimentao de varias maneiras, levado 
de um lado para o outro
pelos seus soldados ou escravos.

 o historiador Lissner que nos conta sobre o grave problema fsico desse
grande imperador romano, informando: "Sofrendo atrozmente de gota, Stimo 
Severo,
durante a campanha da Inglaterra, fez-se transportar em liteira" .."os 
soldados,
compadecidos com os sofrimentos de Severo, quiseram proclamar Antonino 
imperador.
Severo fez-se transportar ao tribunal, puniu implacavelmente os 
responsaveis por essa
iniciativa inoportuna, exceto seu filho, e declarou: Sabeis agora que se 
governa com a cabea e no com as pernas" ("Les Csars", de Lissner).
--"Praecepta Medica" e os males incapacitantes

Quando da morte de Stimo Severo no ano 211 d.C., assumiu o poder
seu filho cognominado Caracala (Marcus Aurelius Antoninus Bassianus - 188 
a 217
d.C.). Para garantir-se no poder, eliminou primeiramente seu irmo Lcio 
Stimo Geta e,
numa seqncia macabra, mandou matar mais de 20.000 homens importantes 
que considerava seus criticos e opositores.

Dentre eles iremos encontrar o grande sbio Samonico (Quintus Severus
Samonicus) que foi assassinado durante uma festa por ordem direta do 
imperador, no
ano 212.

Para compreendermos o significado de seu nivel de cultura, basta que 
saibamos o seguinte: Samnico tinha uma biblioteca com mais de 60.000 
obras que continuamente consultava. Escreveu uma interessante farmacopia 
em versos que chegou at
nossos dias e intitulada "Praecepta Medica". Atravs dela passou para a 
posteridade receitas de muitos remdios e orientaes quanto ao combate 
de certos males bem especificos. Neles vemos inseridos algumas doenas ou 
problemas que podem levar a deficiencias fsicas ou sensoriais, tais como 
a gota, a elefantase, os males das articulaes, a epilepsia, as doenas 
da viso e da audio e outros.

Embora tenha sido escrita no incio do sculo III d.C., a menos de dez
anos aps a morte de Cludio Galeno, nota-se na obra de Samnico 
progressos muito
pouco significativos na medicina. H conceitos baseados apenas em 
crendices e h indicaes de alguns preparados incuos. Verifica-se, 
todavia, certa objetividade face a problemas graves, tais como a gota, 
para a qual poucos remdios surtiam efeitos reais. Diz, ento, o sbio 
Samnico:

"Vrios, portanto, so os remdios prprios para a cruel podagra, da qual 
o deus de Epidauros enumerou 30 espcies. Ele prprio afirmou que impor o 
repouso ao paciente ser correto para pelo menos mitigar sua triste dor".

 sobre a epilepsia que ele faz uma alegao pouco aceitvel, mesmo para 
aquela poca: . . . "o prprio Esculpio lembrava que as pessoas 
concebidas durante o
tempo da lua (cheia) estaro sujeitas a ataques epilticos".

A respeito de sangramentos ou hemorragias por cortes profundos ocorridos 
em acidentes ou em campos de batalha, Samnico indica um preparado 
popular que
devia ser muito utilizado--e com sucesso--por soldados e por civis sem 
qualquer distino, e que j mencionamos anteriormente: "O esterco de 
cavalo, cozido com casca
de ovo,  ainda um remdio de maravilhosa eficcia para estancar a sada 
de sangue"
("Praecepta Medica", de Sammonicus).

--Galrio, imperador que morre com deficincia sria

No ano 311 falecia Galrio (Caius Galerius Valerius Maximianus) imperador 
entre 293 e 311 d.C., um dos integrantes da tetrarquia romana e dos mais 
cruis
perseguidores dos cristos por um longo periodo de doze anos. Embora 
parea irnico,
foi ele o primeiro imperador que, ao final de sua vida, formalmente 
permitiu  religio
crist sair da clandestinidade em que vivia, por meio de um dito 
especial. No entanto,
essa liberao s aconteceu devido a uma gravssima molstia que o 
atingira e que o havia incapacitado de andar no ltimo ano de sua vida. O 
mal caracterizava-se por ulceraes muito serias e que, apesar de serem 
tratadas com ferro em brasa--como era rotina--reabriam sempre, levando 
Galrio a perder muito sangue. Enfraquecido ao extremo, e sem mais poder 
mover suas pernas devido  deformao de seus ps, o cruel imperador 
mandou vir mdicos de todos os recantos de seu Imprio, sem qualquer tipo 
de
resultado. Chegou at a recorrer a Apolo e a Esculpio, mas seu problema 
no s continuou como piorou. As feridas chegaram a atingir seus 
intestinos.

Galrio, muito irritado com a falta de bons resultados, mandou executar
diversos mdicos que no haviam conseguido minorar seus males ou que no 
haviam
suportado o mau cheiro de suas lceras. No entanto, um deles, que era 
cristo, vendo-se
em verdadeiro perigo de vida ao tratar o imperador, usou de absoluta 
sinceridade. Disse-lhe que ele se enganava em esperar que os homens 
pudessem livr-lo de um mal que
lhe fora mandado por Deus. E lembrou Galrio sobre os muitos anos de 
perseguio
feroz dos cristos, indicando com isso onde poderia estar a soluo. 
Acreditando em tudo o que lhe sugeriam, resolveu o imperador desesperado 
publicar um dito imperial de
carter geral, pelo qual liberava a religio crist. Mas colocou algumas 
restries aos
cristos:
159

". . . considerando nossa mui doce clemncia e o costume que temos sempre 
observado
de perdoar a todos os homens, cremos dever dessa forma estender nossa 
ampla indulgencia sobre eles (os cristos) de tal maneira que possam ser 
cristos como antes, e restabelecer seus lugares de reunio, na condio 
de que no faam nada contra as leis; de resto,
faremos cientes os juzes, por outra carta, tudo o que devero observar. 
Portanto, de
acordo com esta graa que ns lhes fazemos, eles sero obrigados a rezar 
ao seu Deus por
nossa sade, pela segurana da repblica e deles mesmos, a fim de que a 
repblica prospere de todos os lados, e que eles possam viver seguramente 
em suas casas" (Citao de
Santo Eusbio, apud Rohrbacher).

Galrio morreu pouco depois da divulgao de seu decreto em todo o 
Imprio Romano, no qual j haviam sido iniciadas as providncias 
concretas para no mais
perseguir os cristos e para libertar os que estavam presos e condenados 
 morte ou ao
suplcio.

Sua grave enfermidade e sua morte trgica foram consideradas por todos
os cristos como um verdadeiro castigo de Deus.

--Mutilaes em cristos: a lingua de So Romo

Conforme nos relata o historiador Rohrbacher, a crueldade dos juzes e
das mais altas autoridades nas diversas Provncias do Imprio Romano era 
por vezes incompreensivel e assustadora. E as decises quanto  imposio 
de torturas eram sumriaS. Para uma infinidade a morte foi o destino 
imediato. Para outros o severo castigo
deixaria as marcas impostas pelo imperador ou em seu nome. Mutilaes 
ocorriam
em muitos casos, conforme indicamos antes.

Durante a perseguio conhecida como de Diocleciano, pelo ano 303
aproximadamente, um corajoso dicono da igreja de Cesria, na Palestina, 
chegou a
Antiquia e interpelou um juiz chamado Asclepades, que estava condenando 
os cristos a diversos tipos de tortura, simplesmente por no quererem se 
curvar ou reverenciar o imperador Diocleciano como divino. Diante do 
desafio pblico, o juiz mandou
aprision-lo e tortur-lo. No entanto, durante as torturas o bravo 
dicono no deixava
de reprovar o que estava acontecendo, condenando em altos brados a 
vaidade da idolatria e ressaltando a excelncia do Cristianismo.

Devido  bvia inconvenincia da palavra desabrida daquele cristo,
conhecido como Romo, Asclepiades mandou amputar sua lngua. Para tanto, 
foi
chamado um mdico ali presente, que tambm era cristo, mas que no havia 
suportado o martrio. Esse mdico, Ariston, usou instrumentos prprios 
para essa operao e
guardou consigo a lingua decepada, como uma espcie de reliquia.

O mrtir, mandado de volta  priso, foi barrado por um soldado que 
perguntou seu nome. E ele respondeu com clareza, apesar da lingua 
amputada.

O juiz e o prprio Diocleciano, presente em Antiquia, suspeitaram do
mdico e mandaram-no chamar. Ariston mostrou a lingua decepada e disse-
lhes que
Romo era um homem protegido por Deus.
Diocleciano passou a temer tanto a influncia desse loquaz cristo 
aprisionado que mandou coloc-lo com os ps presos ao cho por argolas de 
ferro, em sua
prpria cela. E assim mesmo, ps presos ao cho, foi enforcado no mesmo 
dia em que
Diocleciano celebrava a festa do vigsimo aniversrio de seu Imprio, 
ocasio em que
mandou soltar muitos prisioneiros, inclusive os detestados cristos.

O castigo infligido a Romo  um pequeno exemplo das muitas mutilaes de 
que foram vitimas, no Imprio Romano, os criminosos--dentre os quais os
cristos estiveram inseridos por longo tempo.

--Alteraes substanciais provocadas pelo Cristianismo

O Cristianismo foi muito relevante na mudana da mentalidade imperante no 
sculo IV, pois condenava abertamente muito do que o sistema vigente 
aprovava, como a libertinagem das pessoas solteiras, a perverso do 
casamento, a morte de
crianas no desejadas pelos pais devido a deformaes, dentre muitos.

Foi o imperador Constantino que, em 315, editou uma lei que bem demonstra 
a influncia dos principios defendidos pelos cristos de respeito  vida. 
Essa lei
considerava os costumes arraigados--embora no generalizados--de mais de 
cinco sculos, prevalecentes em Roma e em Esparta principalmente, que no 
s permitiam como
tambm exigiam que o pai de familia, senhor absoluto de tudo e de todos 
no lar, fizesse
morrer o recm-nascido que ele no queria que sobrevivesse, devido a 
defeitos ou a malformaes congnitas. Constantino taxou esses costumes 
de "parricdio" e tomou providncias para que o Estado colaborasse para a 
alimentao e vesturio dos filhos recmnascidos de casais mais pobres. 
Exigiu que essa nova lei fosse publicada em todas as cidades da Itlia e 
da Grcia, e que fosse em todas as partes gravada em bronze para, dessa
forma, tornar-se eterna.

--Um bispo com deficincia: Castigo de Deus?

H fatos narrados por historiadores da Igreja que falam sobre 
deficiencias
fsicas, relacionando-as com manifestaes superiores, indicando por 
vezes castigo de
Deus por faltas cometidas. Um desses fatos est inserido na vida de So 
Miles, bispo de
Susa.

Segundo a histria, havia um bispo chamado Papas, cujo temperamento,
arrogncia e orgulho haviam causado srios problemas ao clero a ele 
subordinado, levando a verdadeiro cisma na Igreja da Selucia e de 
Ctsiphon. Diante da seriedade do problema, os bispos reuniram-se num 
snodo no ano 314. Ocorreram discusses apaixonadas, principalmente entre 
So Miles e Papas.

Procurando descobrir a causa do dio com que Papas agia para com seus
sacerdotes, Miles perguntou se ele afinal considerava-se um Deus. No 
calor das discusses
Papas respondeu muito irritado: "Insensato! Tu queres me ensinar coisas 
como se eu no
as conhecesse?" Tomando o livro dos Evangelhos que trazia consigo, Miles 
colocou-o
sobre a mesa dos debates e lhe disse: "Se menosprezas aprender coisas de 
minha parte,
161

por eu ser um mortal, no desdenhe aprend-las do Evangelho do Senhor que 
aqui
est" . . . Papas no conseguiu conter-se mais, pois tomou o livro entre 
as maos e olhando-o ferozmente gritou: "Fala, Evangelho, fala!" . . .

Miles, assustado e ao mesmo tempo chocado com aquela atitude 
questionadora, tirou-lhe o Evangelho das mos, beijou-o com respeito e 
aproximou-o dos olhos.
Em seguida, num tom proftico e inspirado disse ao bispo irreverente: "J 
que em teu
orgulho ousaste falar dessa maneira contra as palavras de vida do Senhor, 
eis que seu
anjo est pronto para secar metade de teu corpo para inspirar o terror a 
todos; portanto, no expirars: a vida ser-te-a conservada como um 
milagre de punio".

No mesmo instante Papas sentiu a metade de seu corpo sem movimento
e sem vida. Tombou sobre um lado e assim permaneceu. Viveu assim por mais 
doze
anos, at sua morte no ano 326.

--Ddimo, telogo cego: diretor da Escola de Alexandria

Ddimo perdeu sua viso aos 4 ou 5 anos de idade, quando comeava a
aprender a ler. No entanto, esse problema no diminuiu sua vontade de 
saber. Pelo contrrio, parece que at a inflamou. Gravou o alfabeto em 
madeira e depois aprendeu pelo tato as letras, as slabas, as palavras e 
depois as frases inteiras. Seu ardor pelo estudo
no o fez parar nesse ponto de conquista. Tomava providncias para ouvir 
professores
clebres, quando j era moo, e conseguiu ajuda de pessoas que se 
prontificavam a ler
para ele, a fim de tomar conhecimento dos melhores livros. Quando seus 
ledores, cansados, adormeciam, ele meditava muito sobre o que acabara de 
ouvir e assim gravava o
assunto em sua memria.

Aprendeu as regras de linguagem e da gramtica, os mais belos trechos
dos poetas e dos oradores, e tambm noes de retrica. Tornou-se um 
timo conhecedor das letras sagradas e de assuntos humanos, das Sagradas 
Escrituras do Antigo e do
Novo Testamento, que conseguia explicar, trecho por trecho, das mais 
variadas maneiras. Dominava a dogmtica da Igreja Catlica, e sobre os 
dogmas discutia com preciso
e muita propriedade. Conhecia a filosofia de Plato e de Aristteles, a 
geometria, a msica, a astronomia e as diferentes opinies dos filsofos.

Quando chegou a Alexandria, atraiu muito a ateno e recebia muitas
visitas de pessoas que queriam ouvi-lo. Tinha amigos importantes, dentre 
os quais cumpre citar Santo Atansio, que acabou indicando seu nome para 
Diretor da Escola de
Alexandria. Era estimado e respeitado pelos mais santos monges e eremitas 
do Egito.

Recebeu um dia a visita de Santo Anto--talvez o mais famoso dos 
eremitas--que lhe perguntou se a cegueira o incomodava. Ddimo teve 
vergonha de responder e de confessar sua fraqueza. Mas Santo Anto 
repetiu a pergunta uma segunda
vez, e  falta da resposta perguntou uma terceira. Ddimo confessou que 
sim, a cegueira o afligia, o bloqueava. Segundo seus bigrafos, Santo 
Anto lhe disse nessa oportunidade: "Admiro-me muito que um homem sbio 
como voce se aflija de haver perdido
162

aquilo que as formigas e as moscas possuem, em vez de se alegrar de ter o 
que os santos
e os apstolos tinham.  mais importante preocupar-se com a alma do que 
com esses
olhos dos quais um s olhar poder perder o homem eternamente".

Ddimo foi Diretor da Escola de Alexandria do ano 345 at 395, ano
anterior  sua morte. Dentre seus alunos mais renomados podem ser citados 
So Jernimo, Rufino e Paldio. Ddimo escreveu diversos estudos e deles 
os mais famosos
so "Sobre o Esprito Santo" e "Sobre a Trindade".

--Os primeiros hospitais cristos e as pessoas deficientes

Sob a influncia da religio crist e graas aos seus preceitos de 
mansido, de caridade e de respeito a todos os semelhantes (motivos 
bastante srios para
dedicao a uma beneficncia ativa e voltada  populao mais pobre) 
comeou logo a
ocorrer o surgimento de hospitais em algumas localidades, marcados pela 
finalidade expressa de abrigar viajantes enfermos de um lado, e doentes 
agudos ou crnicos (e dentre estes muitos casos de pessoas deficientes) 
de outro lado.

Sozomen (*) relata-nos a fundao do chamado "Hospital de Edessa",
na Siria, cidade hoje conhecida como Urfa. Naquele ano (370), assolada 
por uma terrvel onda de carestia de vveres e de males decorrentes, 
Edessa recebeu a intempestiva
visita do eremita Efraim, que havia sado de sua recluso no deserto para 
censurar todos os cidados ricos da cidade devido  sua falta de caridade 
face  situao. Os pobres
morriam sem receber ajuda, e as riquezas e comodidades dos mais poderosos 
continuavam intactas. Muito aborrecido com essa falta de envolvimento 
cristo, Efraim lhes
disse: "Essa riqueza que acumulais com tanto cuidado, servir apenas para 
condenar-vos,
pois estais perdendo vossas almas, que valem mais do que todos os 
tesouros da terra" . . .

Assustados e persuadidos por essas contundentes palavras do anacoreta,
os ricos cristos de Edessa argumentaram que no tinham podido at aquele 
momento
decidir qual deveria ser a pessoa honesta  qual poderiam confiar 
dinheiro para uma
justa distribuio ou uso, pois as que conheciam eram pouco honestas e 
confiveis e
seriam capazes de desviar o montante coletado dos seus fins originais.

Efraim no duvidou e lanou a pergunta: "E qual  a vossa opinio a meu
respeito?" Os apaniguados cidados responderam que ele certamente era um 
homem honesto e a ele entregariam de bom grado as contribuies para uma 
aplicao justa. Efetivada a coleta, recebeu Efraim um significativo 
volume de dinheiro, com o qual encomendou imediatamente trezentas camas 
que foram instaladas no vestbulo de um edificio
pblico cedido pelos poderes locais. Ali comeou a ser dada ateno a 
todos os que sofriam de doenas graves conseqentes  falta de gneros ou 
 alimentao deficiente
(Apud "Encyclopaedia of Religion and Ethics").

H historiadores da Igreja Catlica, entretanto, que afirmam ter sido o
papa Anacleto, que reinou entre 76 e 88 como Bispo de Roma, o primeiro a 
organizar

(*) Sozomen foi um historiador da Igreja Catlica que viveu no sculo V. 
Uma de suas obras mais
conhocidas  a "Histria Eclesistica".
um abrigo para as vtimas de uma violenta peste que assolava toda a 
regio, vtimas da
carestia de vveres e tambm de vrios outros males, numa ala de sua 
propriedade. Isso
aconteceu em 76 e deve ter sido o primeiro exemplo de um hospital 
cristo.

Segundo alguns outros autores, todavia, o primeiro hospital cristo de
que se tem notcia foi aquele criado por So Baslio, o Grande (329 a 
379), clebre
autoridade da Igreja Crist, na cidade de Cesara, na Capadcia, hoje 
Turquia. Esse hospital teria sido construdo s portas de Cesara, no ano 
375, consistindo de vrios
edifcios separados. Era conhecido pela ,genrica e famosa designao de 
"xenodchium",
termo muito utilizado, tanto naquelas pocas quanto durante toda a Idade 
Mdia, e que
acabou sendo aceito para designar "abrigo para doentes", quando na 
verdade pela sua
derivao do grego significa "abrigo para estrangeiros" ("xens" para 
estrangeiro e
"dcheion" para abrigo e proteo).

Num trabalho escrito no sculo passado Broglie apresenta a seguinte 
descrio desse verdadeiro conjunto hospitalar:

"s portas de Cesara, sobre um terreno antes deserto, elevava-se como 
por encantamento toda uma comunidade edificada pela esmola e habitada 
pela caridade. Era a hospitalidade sob todas as formas, dando-se a essa 
palavra toda a acepo que lhe fez tomar a
 lngua crist, ou seja, considerando todo aflito em geral como hspede 
de Deus e da
Igreja. Ali havia um lugar de repouso para o viajante, um abrigo para o 
velho, um hospital para o doente, com instalaes reservadas para males 
humilhantes que arrastam consigo o contgio e a vergonha. E eram essas 
instalaes que So Baslio visitava mais vezes, lanando-se 
espontaneamente, ele mesmo, aos braos dos leprosos. Ao centro desses
edifcios elevava-se uma vasta igreja, ornamentada com todos os 
esplendores do culto
triunfante e servida por uma comunidade de monges, dos quais o prprio 
So Baslio
era o superior. Nas imediaes todas movia-se uma multido de auxiliares, 
de enfermeiros, de fornecedores, de carroceiros, cuidando das coisas 
necessrias  vida. Era o prprio movimento de uma cidade populosa. E, no 
meio dessa populao animada, So Basilio passava a toda hora, 
inspecionando tudo, falando com todos, edificando a todos
pelo seu zelo. Um sculo depois, todo esse lugar de Cesara ficou 
conhecido como "Basilrada" ("L'Eglise et l'Empire Romain au IVe Sicle", 
de Broglie).

Naqueles trs primeiros sculos da Igreja Crist os doentes de famlias
maiS abastadas continuavam a ser tratados em suas prprias residncias, 
da mesma forma como sucederia por sculos mais.

--Fabola e Pammachius associados num hospital de caridade

Na Roma do sculo IV d.C., no seio da famosa, multissecular e muito
abastada famlia patrcia dos Fbios, uma notvel mulher de nome Fabola 
dedicou toda
a sua fortuna e todo o seu tempo e energias para organizar o que  
reconhecido como o
primeiro hospital de caridade do Imprio Romano.

L ela recebia pessoas com os mais severos males, conforme poder ser
constatado em um documento daquela poca, ou seja, uma carta de So 
Jernimo (347
a 420) a um cristo de Roma, Oceanus. A famosa e muito inspiradora carta, 
que procurava incentivar a comunidade crist local a dedicar-se cada vez 
mais ao prximo dentro
dos princpios bsicos da caridade crist,  uma anlise sinttica da 
vida dessa mulher
muito dedicada, que nascera fora do Cristianismo e a ele se convertera 
quando j era
casada pela segunda vez.

Num certo ponto da missiva So Jeronimo afirma:

"Todo o seu patrimnio, que era considervel e proporcional  sua 
linhagem, ela distribuiu e alienou, destinando o dinheiro aos mais 
necessitados dos pobres; e logo em seguida ela fundou um hospital para 
nele abrigar os doentes abandonados nas ruas e mitigar
os sofrimentos dos infelizes acometidos por doenas ou consumidos pela 
fome".

Ao analisarmos os termos utilizados pelo famoso santo da Igreja Catlica, 
ao escrever essa carta, no podemos nos esquecer de que aproximadamente  
mesma
poca surgira a primeira tentativa bem sucedida de cristos na aplicao 
prtica dos preceitos da caridade, criando em Cesara, como vimos, o que 
era conhecido pelo nome de
"xenodchium", ou seja, um grande e bem organizado abrigo para peregrinos 
e estrangeiros doentes ou com problemas, que recebia tambm doentes e 
miserveis da propria
localidade e seus arredores. Verificamos que no texto original latino So 
Jernimo utilizou estas palavras:

. . . "et prima omnium "nosokmeion" instituit" ( e antes de mais nada 
criou um "nosokomeion"). O uso do termo grego, com caracteres gregos em 
sua carta original, indica-nos a inexistencia de um termo prprio em 
latim para o novo tipo de organizao de
caridade na qual Fabola e seus colaboradores cuidavam apenas de doentes, 
recebendo
tambm pessoas deficientes, como veremos a seguir.

So Jernimo fala expressamente delas em algumas consideraes adicionais 
que faz a Oceanus:

"Mencionarei agora algumas calamidades humanas, tais como, nariz 
decepado, olhos
vazados, ps mutilados, mos enfraquecidas, ventres tumefeitos, pernas 
enfraquecidas,
ps inchados?" Na verdade, esses eram os tipos de doentes e de pessoas 
deficientes que
fabrola por vezeS chegava at a carregar em seus braos para levar ao 
hospital.

Ressaltemos que o esforo de Fabola no foi isolado, pois ao que tudo
indica, o empreendimento foi concretizado e fortificado com o concurso de 
outras fontes de dedicao pessoal e financeira, como a de Pammachius, 
por exemplo.

A ele So Jernimo escrevera uma carta, mas quatro anos antes daquela
outra a respeito de Fabola, com o expresso intuito de consolar esse 
importante cristo pela morte de sua esposa Paulina.

E  nessa carta que o leitor poder encontrar esta pergunta:

"Ouvi dizer que voce construiu um hospital no porto romano?" E se for 
analisar de perto os originais do documento famoso, perceber que So 
Jeronimo, ainda pouco infor165

mado sobre todo o empreendimento, no texto latino usou a palavra grega 
geralmente
adotada para tal fim: "xenodochium".

Fabrola e Pammachius, segundo a grande autoridade da Igreja, "uniram
seus bens, associaram suas vontades, a fim de aumentar pela sbia 
inteligncia o que a
rivalidade poderia ter dissipado. E conforme foi dito foi feito. Foi 
construdo um hospital e a ele a multido acorreu e no h mais aflies 
em Jac nem dor em Israel" . . .
. . ."O mundo todo ouviu quase ao mesmo tempo que um hospital havia sido 
construdo no porto romano. A Bretanha ficou sabendo no vero; o Egito e 
Parthus souberam
na primavera".

As palavras de So Jernimo deixam-nos a impresso clara de que 
verdadeiramente algumas riquezas existentes nos primeiros sculos do 
Cristianismo haviam-se
voltado  causa dos mais miserveis dos pobres, ou seja, aos doentes 
crnicos e tambm
aos portadores de deficincias fsicas graves.

Repare o leitor neste outro trecho que se relaciona  faustosa vila da 
familia de Pammachius, bem como ao novo hospital, em que as deficincias 
so expressamente citadas:

"Aquele cego que estendia a mo e que muitas vezes pedia esmola a quem 
no o podia
socorrer,  hoje herdeiro de Paulina e co-herdeiro de Pammachius. Aquele 
homem deformado e forado a arrastar seu corpo, a mo de uma jovem 
ampara. Aquelas portas que
vomitavam uma multido de cortesos, so hoje assediadas pelos pobres. Um 
 hidrpico
que traz a morte dentro de si; outro no tem lingua e  mudo, sem a 
faculdade de pedir
esmolas, mas que as solicita de maneira mais tocante por no ter lingua 
para a pedir.
Aqui, um defeituoso de nascimento pede esmola, mas no para si".

Essas precisas informaes e os comentrios que a elas esto relacionados
podero ser encontrados na integra no volume intitulado "Lettres Choisies 
de Saint
Jrome", destacando-se as cartas a Oceanus, sobre Fabola, e a 
Pammachius, sobre
Paulina.

--A hospitalidade crist e o papel dos bispos

Para melhor compreendermos a prioridade que a Igreja Crist deu s 
atividades que garantiram a assistencia a pessoas pobres e marginalizadas 
nos seus primeiros
sculos de existncia,  necessrio lembrar que ela colocava a 
hospitalidade como a virtude mais importante dos bispos. Ao tentar 
convenc-los da necessidade de uma atuao
prtica, o conclio da Calcednia (em 451 ) adotou a diretriz com nfase 
e em seu canone oitavo deu aos bispos a responsabilidade de organizar e 
prestar assistncia aos pobres
e aos enfermos.

Os primeiros indicios de regulamentao dessa assistncia surgiram em
alguns conclios da Igreja Gaulesa. O primeiro desses conclios (Orlans, 
511 ) contou
com a autoridade interessada de Childebert, filho de Clvis e Clotilde. O 
canone dcimo
sexto dizia:
166

"O bispo prover alimentos e roupas, dentro da possibilidade de suas 
posses, para o pobre e para o enfermo que devido a seus males estejam 
impossibilitados de trabalhar por
sua conta".

O papel dos bispos no atendimento aos mais carentes da populao foi
aos poucos sendo delineado, visando uma atuao prtica. Tanto isso  
verdadeiro que
j no 5 conclio da Igreja Gaulesa (ano 549), o canone vigsimo primeiro 
determinava:
"Os bispos devem cuidar especialmente dos leprosos, dando-lhes comida e 
roupas"
(Apud "Encyclopaedia of Religion and Ethics").

--Noticias de organizaes para pessoas deficientes

Como resultado prtico de muitas recomendaes conciliares a Histria
da Humanidade nos mostra que varias organizaes de caridade ou de 
assistncia a pobres, a deficientes abandonados e a doentes graves ou 
crnicos, conhecidas popularmente e impropriamente como "xenodochium", 
foram estabelecidas j a partir do sculo V
por influncia direta da Igreja. No ano 542, convencido das prementes 
necessidades
dos pobres impossibilitados de se cuidar, o rei franco Childebert 
construiu um hospital
de caridade na cidade de Lyon, com recursos e instalaes que de alguma 
forma se assemelhavam quela primeira e bem sucedida experincia de 
Cesara, iniciada quase dois
sculos antes. Foi levado a isso pela presso da Igreja Gaulesa e de um 
modo especial
do bispo de Lyon. Todos os envolvidos -- rei e bispos--viam-se quase que 
forados
pelas decises conciliares (na verdade a Igreja havia j organizado os 
conclios de Nica
(325), Constantinopla (381), feso (431) e Calcedonia (451), considerados 
como dos
mais importantes) a dar abrigo e ajuda aos pobres e queles doentes que 
eram abandonados pelos seus parentes. Esta construo foi reconhecida e 
confirmada no concilio de
Orlans (549), atravs de seu canone dcimo quinto.

--A questo das deficincias fisicas em sacerdotes cristos

Seyundo alguns historiadores da Igreja Catlica, j nos chamados "Canones 
Apostolorum", cuja antigidade todos desconhecem e que, no entanto, foram 
elaborados no correr dos trs primeiros sculos da Era Crist, existem 
restries claras ao
sacerdcio para aqueles candidatos que tinham certas mutilaes. Para a 
Igreja surgiam
problemas srios, durante esses tres ou quatro primeiros sculos, com 
mutilaes de ordem sexual principalmente. Na verdade, mutilaes sexuais 
eram muito comuns, seja como pretexto para "fuga do pecado", seja em 
conseqncia de castigos impostos pelos tiranos daqueles distantes 
sculos. Tentando disciplinar a questo e esclarecer os bispos
quanto  seriedade do problema, os "Canones Apostolorum", do canone 
vigsimo primeiro ao vigsimo quarto, indicam o seguinte: "Que no se 
coloque dificuldade em sagrar como bispo, se o candidato for considerado 
capaz, aquele que for eunuco por natureza, ou que se tornou eunuco por 
malcia dos homens ou por crueldade dos tiranos" . . . Logo a seguir o 
canone vigsimo segundo declara como "irregulares" os casos
de sacerdotes que se auto-mutilavam, porque "eles so homicidas de si 
mesmos". Para
casos de sacerdotes que tomavam essas medidas, o canone vigsimo terceiro 
castiga
167

com sua deposio, seu afastamento das funes sacerdotais. Finalmente o 
canone vigsimo quarto "priva da comunho pelo perodo de trs anos o 
leigo que fez a auto-mutilao sexual" ("Les Conciles Gnraux et 
Particuliers", de Gurin).

O Padre Louis Thomassin (1619 a 1695), em sua obra "Ancienne et Nouvelle 
Discipline de l'glise" analisa em muitos pormenores diversas situaes 
relacionadas aos bloqueios que as deficincias fsicas ou sensoriais 
significavam para um homem
ser aceito como sacerdote da Igreja Catlica desde o incio de sua 
criao at o final do
sculo V. Segundo esse famoso autor, um dos primeiros papas a se 
manifestar abertamente a esse respeito foi Hilrio, que reinou entre 461 
e 468. De acordo com as prprias palavras do papa, na conhecida Epistola 
II, "propisciendum ne duo simul sint in
Ecclesia sacerdotes: nec literarum ignarus, aut carens aliqua parte 
membrorum". Ou seja,
na Igreja Catlica no deveria haver dois tipos de sacerdotes: nem o 
analfabeto, nem o
que no tivesse alguma parte de seus membros (Apud Thomassin).

A obra de Louis Thomassin sobre a disciplina na Igreja, que foi escrita e
publicada entre os anos de 1678 e 1679, foi revista e ampliada por 
M.Andr, um tambm famoso doutor em direito cannico, que a publicou em 
sete volumes em 1865.
Encontraremos, portanto, mais adiante neste trabalho, dados mais 
atualizados sobre
o assunto.

Mas ainda no sculo V houve posicionamentos de dois conclios, 
confirmando inclusive a posio do papa Hilrio, mais tarde canonizado 
pela Igreja. Assim, 
de se ressaltar que a posio dos concilios nunca foi dissonante. Vejamos 
os dois acima
citados: Primeiramente o concilio realizado em Angers, em 453, 
estabeleceu em seu canone terceiro uma forte medida contra sacerdotes que 
adotavam procedimentos cruis,
muito generalizados no seio da populao, acostumada com barbries sem 
conta: "So
proibidas as violncias e as mutilaes de membros". J o conclio 
realizado em Roma
no ano 465, reunido sob a autoridade do papa Hilrio, aprovou por 
aclamao cinco
canones. Um deles, o de nmero trs, diz com clareza: "Deve-se tambm 
excluir das ordens aqueles que no sabem ler, ou que deceparam algum 
membro"(Apud Gurin).

Gelsio I, papa que reinou de 492 a 496, reafirmou a mesma orientao
de Hilrio e do Concilio de Roma contra a aceitao de sacerdotes com 
deficiencias,
ao afirmar em sua carta ao bispo de Lucania que candidatos ao sacerdcio 
no poderiam ser nem analfabetos nem "ter alguma parte do corpo 
incompleta". Esse mesmo
papa afirmava ainda, muito convicto dessas justificativas para essa 
atitude de bloqueio
a pessoas com defeitos ou problemas fisicos, que "se trata de uma antiga 
tradio e
um costume observado desde muito tempo em Roma; mais do que isso, que se 
trata de
um desses louvveis costumes que a Igreja emprestou da Sinagoga" (Apud 
Thomassin).

Encontramos ocasionalmente pequenos relatos relacionados ao problema
aqui analisado. Existem histrias at de automutilao, destinada a 
caracterizar uma irregularidade, como no caso de Amnio, um santo eremita 
que ao se perceber praticamente "ameaado" pelo povo de ser elevado  
dignidade do bispado, tomou uma providncia extrema: cortou uma de suas 
orelhas. Todavia, as pessoas que o haviam procurado na tentativa de faz-
lo bispo, ficaram sabendo posteriormente que aquela mutilao
seria apenas vlida dentro da religio judica e no para os cristos. 
Assim sendo, voltaram a insistir com o mesmo propsito. Tiveram, todavia, 
uma surpreendente decepo,
pois o eremita, muito resoluto em sua posio de humildade, de faca em 
punho ameaou
cortar a prpria lngua na frente deles, conseguindo dessa forma 
dissuadi-los. Caso tivesse efetivado sua ameaa, Amnio estaria 
incapacitado inclusive para ser sacerdote.

A Igreja Catlica dos primeiros cinco sculos sempre procurou demonstrar 
pelos mais diversos meios que essas restries ao sacerdcio davam-se 
para benefcio
maior da Igreja e no por considerar as pessoas deficientes como indignas 
ou manchadas
pelo pecado. Ressalte-se tambm que quando as deficincias ou males 
incapacitantes
ocorriam "aps a ordenao sacerdotal", a Igreja usava do mximo de 
benevolncia e em
geral no impedia o sacerdote de suas funes bsicas.

--Papel dos mosteiros na assistncia aos miserveis

Conforme verificamos anteriormente, com o advento e o fortalecimento
do Cristianismo, um grande impulso foi dado s diversas formas de 
assistncia aos necessitados, por ser a caridade a prpria essncia da 
nova religio. Praticamente durante a
Idade Mdia inteira, somando aos esforos dos bispos, j engajados por 
determinaes
conciliares, os mosteiros constituiram-se numa nova fora impulsionadora 
da assistencia
social como pura expresso da caridade.

De outra parte, responsveis pela vida e bem-estar de seus sditos, 
alguns
senhores feudais sentiram-se tambm obrigados a cuidar dos menos 
afortunados, doentes
ou deficientes fsicos e mentais, de bom ou mau grado, desde que dentro 
de seu feudo.
No entanto, espalhados por toda a Europa e Oriente Mdio, os mosteiros 
eram de fato
os nicos lugares que possuiam alojamentos destinados a recolher 
enfermos, utilizando
as instalaes dos chamados "xenodchium" ou "nosocmium", abrigando 
tambm
eventualmente mendigos aos quais distribuiam a alimentao disponvel, 
roupa e algum
dinheiro.

2. O Imprio Bizantino e as deficincias

A Histria da Humanidade, conforme nos  transmitida nos pases do
mundo ocidental, minimiza e chega mesmo a deturpar a importancia eventual 
do Imprio Bizantino, isto , do Imprio Romano do Leste, que durou nada 
menos do que onze
sculos. Instalado no ano de 330 d.C. por Constantino I, o Grande (274 a 
337), ocasio
em que inaugurou a nova capital imperial com o nome de Nova Roma e para 
l transferiu o governo, caiu apenas em 1453, ano em que Constantinopla 
tornou-se uma possesso dos turcos otomanos liderados por Maom II.

Foram onze sculos pujantes, intensamente vividos na mesma poca em
que a Europa mergulhava numa etapa obscura e problemtica da Histria que 
foi a Idade Mdia. Durante vrios desses onze sculos foi uma notvel 
unidade poltica que manteve muito viva a cultura clssica de gregos e de 
romanos--e durante toda a sua durao
estabeleceu com clareza sua caracterstica fundamentalmente crist.
169

Neste trabalho sobre deficincias e pessoas deficientes o Imprio 
Bizantino tem um lugar especial, uma vez que diversos de seus imperadores 
destacaram-se em
sua histria no apenas por suas lutas, conquistas e intransigente defesa 
do Cristianismo,
como tambm pela severidade dos castigos e penalidades que infligiam, 
apoiados ou no
nas leis. Marca registrada da realidade bizantina foi, de fato, a 
existncia legal de punies de mutilao de membros ou do vazamento dos 
olhos das muitas vtimas--culpadas ou no--que cairam nas mos da 
justia.

Essas punies foram generalizadas e atingiram tanto a nobres senhores
quanto a membros das camadas mais pobres da populao, incluindo 
integrantes das
foras armadas.

No nos  difcil imaginar a extenso dos problemas das pessoas 
portadoras de deficiencias pelas causas usuais, quando a elas eram 
acrescentadas todas aquelas
outras cegas e amputadas devido a penalidades impostas pela lei ou pelo 
poder absoluto
dos imperadores.

--Constantinopla, o "Reino de Deus na Terra"

Capital do Imprio Bizantino, a maravilhosa cidade das muitas manses
senhoriais, dos inumeraveis palcios e das incontveis cpulas douradas, 
localizada em
ponto privilegiado e banhada pelas guas azuis do Chifre Dourado, do 
Bsforo e do mar
de Mrmara, toda cercada por aproximadamente ???~0 quilometros de 
muralhas inexpugnveiS, Constantinopla foi por muitos sculos considerada 
pelos seus habitantes como o
verdadeiro "Reino de Deus na Terra". Os bizantinos aceitavam e defendiam 
o seu imperio como "sui generis", pois havia sido estabelecido por ordem 
direta de Deus e questionar sua existncia ou seu sistema de governo 
estava totalmente fora de cogitao.

Brilhou como estrela solitria no mundo durante toda a Idade Mdia e
significou para muitos potentados um sonho impossvel. Alm de tudo, 
Constantinopla
era um verdadeiro bastio fortificado da Cristandade que desafiou durante 
todo um milnio o mundo brbaro aps a queda de Roma. Sculos aps 
sculos, mongis, trtaros,
blgaros, rabes, mas principalmente os turcos, atacaram-na, maravilhados 
pelo que conseguiam ver por cima das muralhas: suas cpulas douradas e os 
seus palcios. E dentro
desses palcios e igrejas as inimaginveis riquezas.

No entanto, a vida de Constantinopla era enclausurada nos tempos de
guerra, que foram muitos. Sua populao, constituda de gregos, latinos e 
asiticos (todos reconhecendo-se como "romanos") no conseguia imaginar o 
mundo alm do horizonte das muralhas. Nesse universo limitado seu 
imperador sempre foi considerado como o representante de Jesus Cristo e 
sua figura autocrtica era o prprio corao e a
fora propulsora de toda sua administrao, localizada e concentrada no 
palcio imperial.

--A pompa e a circunstancia na corte bizantina

No  de admirar que as autoridades existentes no palcio do imperador
e que com ele mantinham contatos prximos tinham permanente e 
inquestionvel im170

portancia. Mas elas todas respeitavam ao preo da prpria vida uma linha 
hierrquica
muito rgida e garantida por leis de muita severidade.

Numa clara demonstrao da importancia dessas autoridades, havia na
corte bizantina muitos ttulos, sendo que alguns deles eram honorficos e 
no estavam ligados a funes especficas; correspondiam a verdadeiras 
sinecuras. Eram outorgados
atravs de cerimnias faustosas durante as quais o imperador entregava 
ttulos, diplomas
e ensgnias; ttulos correspondentes a funes oficiais (de trabalho 
propriamente ditas)
eram confirmados por ditos do imperador.

Exclusivamente para a famlia do imperador havia ttulos honorificos
especiais, tais como "csar", "nobilissimo" e "curopalato". Com o correr 
dos sculos e
mesmo com a criatividade de algumas dinastias outros ttulos foram a eles 
adicionados:
"sebastocrator" e "dspota", por exemplo, que correspondiam ao de "csar" 
em termos
de sua importancia. Todos os titulares tinham o direito de serem tratados 
como "majestade imperial", sendo respeitados como tal.

Muitos outros titulos havia para os nobres ou as personalidades 
importantes do Imprio, sendo o mais elevado dentre eles o de "magister".

- As grandes e poderosas familias do Imprio

Em boa parte dos fatos que passamos a relatar e que se relacionam a 
deficincias fisicas ou sensoriais graves, desejamos destacar algumas 
famlias que muito
significaram na vida bizantina e a respeito das quais faremos meno mais 
adiante. So
os Phocas, Commenus, Angelus, Tzimisces, Dukas, Palelogus, Briennes, 
Lascris, Digenes e Argiros principalmente. A imensa influncia desses 
fortissimos cls nos assuntos
de Estado est evidenciada nas muitas pginas da vida de todo o Imprio 
Bizantino. E o
historiador ou o interessado nessa realidade conhece tambm o evidente 
perigo que eles
podiam constituir para determinado imperador, conforme circunstancias que 
mais adiante pretendemos expor.

Os palcios dessas enormes e fortes familias nobres na capital e 
principalmente nas provncias (por sculos conhecidas pela designao de 
"temas") eram verdadeiras cidadelas e cortes em miniatura.

--A misria na capital bizantina e as pessoas deficientes

O vasto triangulo de terras cercado por imponentes muralhas que compunha 
o cenrio de Constantinopla nunca foi uniformemente povoado. No sculo 
VII, por
exemplo, nele viviam com certeza cerca de 500 a 800 mil pessoas, compondo 
uma sociedade diversificada no s em termos de raas e origens, como 
tambm em termos de
poderio econmico: havia a nobreza dominante, a nobreza oprimida, as 
familias ricas, as
remediadas, as pobres e as miserveis.

"O nmero de pessoas miserveis em Constantinopla durante o citado sculo 
era de pelo menos 30.000 e o nmero de ladres e outros criminosos no 
pode ter
sido muito menor.  dificil imaginar que, numa cidade na qual a policia 
era extremamente ativa e uma organizao municipal das mais apuradas, que 
supervisionava a imigrao e cuidava dos empregos, esses elementos possam 
ter excedido a cinco por cento
da populao total, mesmo considerando terem sido os pobres reconhecidos 
como uma
parte integrante e socialmente importante de sua composio" ("Cambridge 
Medieval
History", de Hussey).

.,

A vida de Constantinopla,  fcil imaginar, mostrava muitas situaes
contrastantes, nas quais cumpre que enfatizemos as suas misrias e 
tragdias. Alm de
toda a populao pobre e pedinte e dos portadores de deficiencias por 
causas naturais
ou por acidentes que queles sculos pupulavam pela cidade, havia a 
presena incmoda
de ex-criminosos ou de traidores mutilados (olhos, nariz ou orelhas 
atingidos por carrascos frios cumprindo as sentenas previstas por lei) 
mostrando a quem quisesse olhar os
cotos de mos amputadas ou seus olhos vazados, deixando uma desagradvel 
impresso
de tudo.

Ressaltemos neste ponto que o segmento comercial da sociedade bizantina 
no era composto apenas de prsperos negociantes. Havia tambm um grande 
nmero de pequenos comerciantes, lojistas, artesos e seus assemelhados. 
E, procurando sobreviver a duras penas, abaixo deles surgiam os braais 
que trabalhavam por dia e aqueles
que, devido a circunstancias, estavam em condies piores, ou seja, 
braais no-qualificados, mendigos, ladres e prostitutas.

No meio dos mendigos havia sempre pessoas com deficincias ou vitimas
de males cronicos, todos vivendo de esmolas que lhes garantiam condies 
minimas de
sobrevivncia. Mas mendigar era por vezes uma atividade muito rendosa. 
Numa pequena
comparao existente na obra de Hussey, j citada, as prostitutas 
recebiam  poca do
reinado de Romano I, o Lecapeno (919 a 944), uma certa quantia de 
dinheiro por ms
para deixarem a prostituio, enquanto que muitos dos mendigos mais 
prsperos ganhavam bem mais do que elas, pois a renda de um ponto 
estratgico de coleta de esmolas
poderia levantar importancias muito significativas.

Esta no se caracterizava, no entanto, como uma situao comum e muito 
menos generalizada. O mais encontradio mesmo era, no inverno, ver-se 
mendigos em
condies de extrema miserabilidade, esqulidos, tremendo de frio em 
casebres mal cobertos com palha em muitos pontos da cidade. A realidade 
de Constantinopla e das
grandes cidades do Imprio Bizantino mostrava que longe dos palcios e 
das grandes
manses, havia as reas mais miserveis da cidade, com seus becos sujos e 
escuros. Mas
mesmo essas enormes reas de Constantinopla eram insuficientes para 
abrigar toda a populao mais pobre e suas multides de mendigos, de 
soldados estropiados pela guerra
ou pelas penalidades impostas pelo regulamento militar, aos quais 
adicionavam-se camponeses fugitivos e aqueles que procuravam na grande 
capital uma oportunidade para se
refazer das suas desgraas. Dormiam ao relento ou sob as arcadas 
existentes nos muitos
pontos das grandes avenidas, em instalaes do famoso e soberbo Hipdromo 
e nos
trios das muitas igrejas. As vezes juntavam-se grupos durante o inverno 
para se aquecer
ao redor de uma estufa ou de uma esterqueira,  falta de outros locais 
mais saudveis
(Apud Hussey).
- As doenas e as deficincias fsicas e sensoriais

A quase totalidade desses infelizes sem condies de trabalhar para sua
subsistncia e para garantia de uma habitao menos infecta, ficava 
exposta a males endmicos e epidemicos que em geral eram provocados pela 
total ausencia de condies
mrnimas de higiene e de saneamento. Algumas doenas graves e muitos males 
considerados como misteriosos levavam  instalao de limitaes fisicas 
e de males sensoriais severos, sendo a grande maioria deles considerada 
como sacrifcios para aperfeioamento
da vida espiritual e tambm para pagamento de males feitos anteriormente.

Mesmo na mais alta nobreza, todavia, a alta morbidade, a mortalidade 
infantil e a existncia de deficincias fsicas no eram incomuns. Um 
marcante exemplo
poder ser dado com a famlia do Imperador Basilio I, o Macednio (867 a 
886). De
seus cinco filhos homens, apenas um sobreviveu e depois foi coroado como 
Leo VI.
Este, por sua vez ficou vivo trs vezes e morreu com apenas 45 anos de 
idade. Dos
seus filhos, um morreu logo aps o batismo e o outro teve uma sria 
deficincia por toda
a vida.

Se esse podia ser o destino de uma familia da mais alta nobreza, que 
vivia protegida na limpeza, na boa alimentao e no luxo, imagine-se a 
dificuldade para o
restante da populao em termos de morbidade, mortalidade, longevidade e 
deficincias,
vivendo em ambientes menos saudveis, alimentando-se mal e abrigando-se 
mal.

--Os miserAveis no "Reino de Deus"

Mas com certeza uma das mais surpreendentes caracteristicas da vida de
Constantinopla foi a aplicao prtica que sua populao deu  caridade 
crist, insistente
e aguerridamente defendida pela Igreja.

"Os beneficios espirituais da prestao da caridade naturalmente 
dependiam da existncia de uma classe  qual essa caridade poderia ser 
dedicada. Os "pobres",
portanto, eram uma parte integrante da sociedade" . "Ao pedir esmolas os 
mendigos gritavam: "O paraiso bate  sua porta" . . . e esmolas eram 
dadas com liberalidade.
Mendigar era uma profisso reconhecida, da qual, como de outras 
profisses, os intrusos
eram expulsos. Os pontos mais valiosos eram preservados ciumentamente. 
Cada trio de
igreja era cercado por mendigos, cuja inoportunidade garantiria um 
suprimento liberal
para seu po de cada dia. Mas a caridade organizada transcendia de longe 
os limites da
ajuda meramente casual. A cidade era com justia famosa pelos seus 
hospitais, seus orfanatos e seus abrigos para idosos e para carentes" 
("Cambridge Medieval History", de
Hussey).

Nos trabalhos de organizao e de manuteno dessas instituies a 
famlia imperial e a nobreza mais refinada tomavam parte ativa. Os seus 
membros do sexo
feminino dedicavam-se ativamente  ajuda aos doentes. Algumas mulheres 
chegaram
mesmo a adquirir o hbito de visitar as prises, que eram os ambientes 
mais degradantes
da misria humana na esplendorosa capital.
173

E a Igreja era a principal responsvel por essas organizaes vrias, 
desempenhando um papel de auxiliadora. Ressalte-se que somas fabulosas, 
levantadas em banquetes ou por meio de doaes e legados, eram 
continuamente destinadas aos cofres da
Igreja para distribuio aos pobres e, segundo os historiadores, essa 
distribuio era sempre feita com justia, conhecimento de causa e 
pontualidade dignos de nota.

--As organizaes assistenciais de Constantinopla

A Igreja e o Estado deram-se as mos desde a poca de Constantino I para 
prover os servios assistenciais bsicos, muito antes de existir qualquer 
servio ou esforo organizado na Europa ocidental e crist. Assim  que 
foram gradativamente estabelecidas entidades diversas ???anP :Ir~h~r:~m 
CPnrln r iACcifir~ c Pm nn~ rAlpnnriA~ A cAher

"brephotrphium"

"gerontotrphium"

"orphanotrphium" 
lar para recm-nascidos;

lar ou abrigo para pessoas idosas abandonadas ou sem condies
familiares de sustento continuo e seguro;

"lobotrphium" -- abrigo e internato para pessoas vitimas de limita es 
fisicas crnicas e muito severas;

"nosokmeion" criado para tratamento e abrigo de doentes agudos e 
cronicos
 sem posses nem condies para tratamento domiciliar;

 - abrigo e alimentao para crianas rfs ou abandonadas pela fa mlia 
;

"pandchium" - abrigo polivalente destinado indiscriminadamente a todos 
os ti pos de desamparados no enquadrados nas demais organizaes;

"ptochotrphium" -- abrigo e alimentao para mendigos e pessoas pobres e 
abando
nadas sem condies de sustentao prpria;

"typhlokmeion"

"xenodchium"

abrigo e alimentao para pessoas cegas pobres e desprovidas de
condies familiares para garantir seu sustento;

- organizao destinada--pelo menos no inicio--a viajantes e peregrinos 
estrangeiros adoentados ou em srias dificuldades de
abrigo .

A eventual "latinizao" das palavras no disfara de maneira alguma sua
origem grega. Os radicais "kmeion" e "dcheion" correspondiam a abrigo, 
proteo,
cuidado, recipiente, enquanto que o radical "trpheion" relacionava-se  
idia de alimentao e de educao.

Observe-se que o "Orphanotrphium" de Constantinopla foi to importante e 
to magnificamente construido e montado que levou o Imprio a manter o 
ttulo honorifico de "orphanotrphus" para seu diretor, geralmente 
outorgado a um sacerdote ou bispo da Igreja.
--O imperador Justiniano e as pessoas enfermas P deficientes

Em uma de suas muitas leis (Nova Constituio n. LXXX) o imperador
Justiniano (482 a 565) tratou dos problemas dos mendigos que no tinham 
doenas graves ou deficincias. E nessa norma fica muito patente a 
preocupao da sociedade bizantina em ocupar essas pessoas em algum tipo 
de trabalho ou atividade. O imperador deu
 mais alta autoridade judicial do Imprio, o questor, a responsabilidade 
de no deixar
essas pessoas  merc da sorte e da esmola.

"Convm que ele as faa comparecer imediatamente aos diretores de 
trabalhos pblicos, aos chefes das padarias, aos encarregados do correio, 
aos diretores dos
jardins ou das demais oficinas existentes, nas quais elas possam ao mesmo 
tempo trabalhar, ser alimentadas e tambm passar de uma vida ociosa para 
uma vida mais til. Mas
se algumas delas no quiserem trabalhar nas oficinas para as quais 
tiverem sido encaminhadas, o ???oupctnr as Pxnul~Ar desta cidade r~

A orientao do imperador Justiniano era para que o questor usasse sempre 
de indulgncia para com as pessoas pobres encaminhadas de acordo com a 
lei; a
preocupao expressa era que a preguia no levasse as pessoas em 
dificuldades para
atos ilicitos e com isso fossem condenadas pela justia civil.

Ainda sobre mendigos ou sobre pessoas pobres em dificuldades existia
uma distino importante que levou a sociedade bizantina a manter e mesmo 
ampliar
sua organizao de socorro aos necessitados. Afirmou o imperador 
Justiniano, ao final
de sua Nova Constituio n. LXXX:

"No obstante,  nossa vontade que as pessoas de um ou de outro sexo que 
no sejam
ss de seus corpos" (ou seja, pessoas portadoras de condies 
incapacitantes) "ou que
sejam gravemente enfermas, no sejam molestadas em nossa cidade; 
queremos, pelo con
trrio, que elas sejam atendidas por pessoas ???nierlncAs"

--O desenvolvimento da medicina e dos hospitais

No ambiente criado em conseqencia de um governo autocrtico com
fortes pinceladas de teocracia e ampla aceitao, havia muitos contrastes 
entre ricos e
pobres, entre palcios e casebres pauprrimos em ruas cobertas de 
imundcies, conforme vimos anteriormente. E, segundo especialistas, tudo, 
absolutamente tudo, inclusive
a misria, a doena, a mutilao, a cegueira, tudo era considerado como 
motivo para se
pensar no pagamento de pecados cometidos, no cerceamento dos impulsos 
carnais, na
purificao da alma e no seu aperfeioamento. E esse modo de ver o mundo 
sempre foi
considerado como uma positiva influncia do Cristianismo.

No  de estranhar que tenha havido uma forte proliferao de entidades
assistenciais e caritativas de um lado, e certa estagnao na cincia 
mdica, de outro.
Houve, entretanto, o cuidado de se estabelecer uma pormenorizada 
compilao dos
conhecimentos j acumulados de medicina na realidade grega anterior  
construo e 
consagrao de ConstantinoDla como capital do Imprio Bizantino.
Essa mesma realidade, influenciada pelo Cristianismo to marcante, 
considerava o enfermo, o acidentado, a vitima da justia, o portador de 
uma deficincia
congnita ou adquirida, como "santos" em potencial. Para todos os que 
sofriam, o
melhor e mais certo remdio era a orao orientada e dosada por 
sacerdotes; o melhor
hospital que poderia haver deveria estar funcionando em ambiente da 
Igreja; o melhor
e mais seguro "curativo" era o prprio Jesus Cristo.

Do milnio de existncia do Imprio Bizantino no podemos dar relevancia 
especial a quase nada, em termos de medicina, a no ser aos nomes 
universalmente conhecidos de Cosme e Damio, santificados pela Igreja.

--A mutilao nas leis bizantinas

A uma anlise superficial a lei criminal bizantina mostra-nos alguns 
traos de uma positiva influncia crist, embora haja categricas 
afirmaes em contrrio.

Vindos de um sistema de penalizao muito severo em que a pena de
morte prevalecia para muitos crimes, os sistemas introduzidos por 
Justiniano e por Leo
III, o Isauriano (680 a 741), foram amenizando as penas, graas  
influncia do Cristianismo. A "Ecloga" (Cdigo de Leis) de Leo III 
restringe a pena de morte a alguns crimes apenas: assassinatos, alta 
traio, desero das foras armadas e prticas sexuais
no-naturais. Alm disso, prev diversas penas por mutilao ou por 
vazamento dos
olhos que no existiam no Cdigo de Justiniano, em vigencia desde o 
sculo V. Muito
embora a "Ecloga" e as legislaes posteriores tenham significado, para 
aquela poca,
uma amenizao de parte do sistema penal, o fato concreto  que, com as 
penas de mutilao e de vazamento dos olhos provocava uma verdadeira e 
desagradvel regresso a
pocas anteriores a Constantino I, que proibia mutilar o rosto humano que 
era "feito
 imagem da beleza divina".

A suposta amenizao no ocorreu em todas as linhas, porm, de cominaes 
estabelecidas no Cdigo de Justiniano em simples multas, verificou-se na 
"Ecloga" um forte endurecimento para a pena mxima.

No entanto, a Cristandade do Imprio Bizantino no questionava nada do
que vinha do imperador e para ela, a substituio da pena de morte por 
mutilaes podia at ser justificada no prprio Evangelho. Era questo de 
se tomar a palavra de Mateus ao p da letra: . . . "se tua mo ou teu p 
te escandalizam, corta-os e atira-os fora" ..."e se teu olho te 
escandaliza, arranca-o e atira-o fora". Havia tambm outro
fator de extrema importancia: ao criminoso, ao pecador, seria dada a 
oportunidade de
arrepender-se de seus pecados e se regenerar na penitencia, na dor, na 
fome, na misria,
muitas vezes confinado num mosteiro.

Ressalte-se, todavia, que o imperador bizantino, representante de Cristo
na Terra, em seu juramento de coroao, obrigava-se a ser misericordioso 
e humano para com seus sditos, evitando a pena capital e a mutilao 
tanto quanto possivel--isso
nos interesses da justia e da propriedade, e em fidelidade  verdade e  
retido.
176

No rolar dos sculos, porm, o que sucedeu nas muitas histrias de 
mutilaes e vazamentos de olhos foi que essas punies aconteceram, numa 
grande variedade de casos, devido a meras vinganas polticas e para 
afastar srios pretendentes ao trono.

A Igreja colaborava dentro dessa realidade muito concreta com o banimento 
a um de seus muitos mosteiros retirados da civilizao, demonstrando com 
isso a
sua influncia no sistema penal em vigor. Ela tomava em suas mos tanto a 
execuo de
partes das penas, como tambm a reabilitao de muitos desses criminosos.

A profanao de sepulturas, a rapinagem de igrejas, a pederastia, as 
fraudes de funcionrios eram reprimidos pela mutilao.

"Pergunta-se como esse costume atroz, cuja crueldade refinada supe
uma perverso do senso moral, pde ser introduzido na sociedade 
bizantina", comenta
Brhier ao analisar as mutilaes. Segundo o famoso historiador, o gosto 
pela mutilao
pode ter sido o resultado do ambiente que cercava a sociedade local, ao 
redor do sculo
VII, e a influncia da imigrao de considerveis contingentes de turcos, 
rabes, srios e
outros, dentre os quais o suplicio era prtica corrente desde muitos 
sculos (Apud Brhier).

--Periodos principais do Direito Penal Bizantino

Para que bem entendamos a questo das penalidades impostas pelas leis
imperiais que redundavam na instalao de limitaes fsicas e 
sensoriais,  fundamental
que distingamos pelo menos dois periodos na histria desses castigos.

O primeiro vai do sculo V at u sculo VII, notando-se um esforo para
o estabelecimento de alguma humanizao do corpo geral da legislao 
romana pertinente, esforo esse feito principalmente sob Justiniano e 
expresso em seu Cdigo, apro
vado em 534. Esse Cdigo, somado  legislao aprovada e codificada 
anteriorment,
pelo mesmo imperador, teve o enriquecimento de mais de 150 "Novas 
Constituies"
que foram assinadas entre os anos 534 e 565, formando o famoso "Corpus 
Juris Civi
lis" de Justiniano.

O segundo periodo vai do sculo VII em diante. Nota-se nele, 
especialmente pela aprovao da "cloga" de Leo III, o Isauriano, uma 
tendncia a certa humanizao (ou pelo menos amenizao) da drasticidade 
da pena de morte, surgindo em
seu lugar maior incidncia de penas de mutilao ou de castigos 
corporais.

Note-se que no estudo das leis todas, tanto de Justiniano e de 
imperadores que ocuparam o trono depois dele, quanto de Leo III, deve-se 
ressaltar a relevncia da existncia de uma verdadeira universidade, 
criada no ano 425 em Constantinopla,
na qual estudava-se mais profundamente assuntos leigos (no-religiosos), 
dentre os quais
a Filosofia e as Leis.

--A moderao nas penalidades impostas no tempo de Justiniano

Inserida numa de suas "Novas Constituies" (a de n CXXXIV, ou
seja, assinada quando Justiniano estava no final de sua vida) encontramos 
uma orienta177

o geral do velho imperador a todos os governadores e autoridades 
judiciais do Imprio,
na qual fica evidente uma sria tendncia  humanizao, com 
determinaes explicitas
de moderao na aplicao de penas corporais. Diz o imperador:

"Como precisamos proteger a fraqueza humana, diminuimos uma parte das 
penas corporais e abolimos a amputao de duas mos, de dois ps e o 
suplicio da separao das juntas, que  aihda mais grave do que a 
amputao das mos". "Mas se a espcie de
crime comportar a amputao de um membro, limitar-se-  amputao de uma 
s mo,
Proibimos que seja indicada a amputao de um membro por um simples 
furto, ou que
o culpado sofra a pena de morte, mas desejamos que ele seja punido de 
outra maneira".

Ao final dessas consideraes e determinaes relacionadas  moderao
que as autoridades deveriam observar na aplicao de penas corporais ou 
pena de morte,
Justiniano procura garantir a severidade da pena para aqueles que 
ameaavam a estabilidade da coroa imperial, afirmando: "Mas ordenamos que 
a fora das antigas leis seja
conservada para os individuos condenados por crime de lesa-majestade".

--As "Novas Constituies" de Leo III: "leis mais crists"

As chamadas "Novas Constituies" editadas pelo imperador Leo III,
o Isauriano (717 a 741), aps a publicao da "cloga", so verdadeiras 
ordens imperiais. So leis escritas num linguajar quase coloquial, 
expressas em todos os seus termos
na linguagem prpria da poca. Trata-se de um total de 113 "Novas 
Constituies", das
quais desejamos aqui fazer meno a algumas que estabelecem a precisa 
condenao por
certos crimes, incluindo o aoitamento, a amputao do nariz, da lingua 
ou das mos,
o vazamento dos olhos e tambm a pena do "raspamento" de cabelos e barba, 
considerada como difamante.

Essas Constituies procuravam impedir a criminalidade por meio de 
cominaes severas; buscavam tambm desencorajar que o povo imitasse os 
imperadores
ou as autoridades maiores do Imprio que, no uso (e no abuso) de seu 
direito supremo
derivado de Deus, mandavam vazar os olhos ou amputar as mos dos 
traidores do Divino Imprio. Procuravam tambm garantir direitos, 
estabelecer penas corporais ou pecunirias e regulamentar alguns assuntos 
relacionados ao clero.

Poder nos parecer irrelevante nessa legislao, por exemplo, a 
preocupao com os cegos poderem ou no fazer testamento de seus bens, 
uma vez que no
havia proviso alguma que garantisse direitos bsicos a esses mesmos 
cegos, mas a preocupao da nobreza (das fortes e grandes famlias que j 
mencionamos) era compreensvel face  realidade do que continuamente 
sucedia: o problema de muitos dignatrios,
militares ou nobres, que tiveram seus olhos vazados, seja por crimes de 
traio (sob a
tica do imperador reinante), seja por falsas acusaes, seja mesmo por 
pertencerem 
familia de um indiciado traidor, no poderem legar seus bens.

Ser interessante ressaltarmos que das 113 Novas Constituies de Leo
III trs nos interessam diretamente neste trabalho. A respeito delas 
comentamos a seguir,
178

2. p.178
--A defesa de um direito dos cegos: fazer testamento

O prprio texto da Nova Constituio n. LXIX  suficiente para 
compreendermos a totalidade do problema e a soluo encontrada. Vejamos 
como o imperador considerou a questo:

"Levantam-se muitas vezes dvidas quanto  questo de se saber como os 
cegos podem
fazer testamento, e essas dvidas so originrias das leis que decidiram 
em contrrio, e
tambm dos costumes existentes sobre esse assunto: no  nem 
inconveniente nem difcil para mim, esclarecer e decidir sobre o assunto. 
H uma lei que probe aos cegos
de fazer um testamento secreto e estabelece que tal testamento no tera 
fora a menos
que testemunhas confirmem ter ouvido o testador proferir de viva voz as 
disposies por
ele guardadas; o testemunho por si s no pode fazer f de sua vontade. 
Outra lei, ao
contrrio, permite s mulheres e s pessoas iletradas fazer testamento na 
forma mstica,
e no as sujeita a outras formalidades, a no ser assin-los, se souberem 
escrever, ou se
no souberem, a faze-los assinar por um terceiro. Essas duas leis esto 
evidentemente em
contradio sobre o mesmo objeto; pois se as mulheres e pessoas 
desprovidas de toda
instruo, que sabem apenas o que desejam, podem fazer seu testamento na 
forma mstica, por que um cego no o poderia? Mas se essas leis esto em 
oposio entre si, esto
ainda mais com os costumes. De fato, os costumes estabelecem que os 
testamentos das
mulheres, de pessoas iletradas ou de cegos, feitos na forma mstica, no 
podem ter fora
alguma. Nesse estado de coisas, ordenamos que os testemunhos secretos dos 
cegos ou de
quaisquer outras pessoas tenham um pleno e inteiro efeito e adicionamos a 
essa disposio que, antes de as testemunhas serem ouvidas, os que 
lavraram o testamento e que a
ele aporo as suas assinaturas, declararo ter escrito o que o testador 
lhes ditou; e se
logo em seguida for reconhecido que cometeram alguma falha, sero 
despojados de seus
bens se forem ricos, ou ento sero aoitados e exilados se forem pobres. 
Adicionamos
mais que, se para confirmao do testamento for necessrio recorrer a 
juramento, como
acontece freqentemente, os que o lavraram devero estar concordes cum as 
testemunhas, que juraro atestar e confirmar a coisa" (Apud Brenger).

--Penalidade prevista para o vazamento dos olhos de outrem

A segunda Nova Constituio de Leo III que nos interessa neste trabalho
procura coibir frontalmente os crimes de vazamento dos olhos de algum. 
Para tanto o
legislador imperial estabeleceu penas severas e bastante 
desencorajadoras. Essa norma
especfica est intitulada no documento original como "Qual deve ser a 
pena para quem
cega algum voluntariamente".

Ela analisa a aplicao direta da lei do talio, fazendo meno expressa
desse procedimento. Estuda tambm o problema que poderia ser criado com o 
fato de o
malfeitor ter os dois olhos vazados por crime semelhante. Leo III 
pondera e decide da
seguinte forma:

. . . "se ele tiver tirado"--extirpado, arrancado ou mesmo vazado so 
termos correspondentes--"os dois olhos, como nesse caso a igualdade da 
pena no traria nenhum proveito para o que perdeu a viso (pois qual a 
vantagem que pode achar um cego em um
outro tambm ser cego?) e que a pena do talio, mesmo que merecida, seria 
muito cruel
para o culpado (pois nada  mais triste do que a cegueira), decidimos que 
ele no a sofrer e que ser punido de outra maneira, capaz de garantir 
alguma compensao  vtima.
 assim que concebemos a lei: qualquer pessoa que tiver vazado os dois 
olhos de um indivduo, ter um vazado e,
como mereceria perder a mo que cometeu o crime, pagar
em seu lugar uma indenizao igual  metade de seus bens, que ser 
entregue quele que
teve seus olhos vazados, como um abrandamento de sua misria. Dessa 
maneira este ser consolado e o culpado ser punido, tendo um olho vazado 
e em seguida perdendo
seus bens no lugar de sua mo" (Apud Brenger).

Mas o que sucedia se o malfeitor fosse uma pessoa pobre ou sem recursos
suficientes? Neste caso, no podendo o criminoso cumprir o estabelecido 
em termos de
compensao, era condenado a experimentar idntico mal infligido  sua 
vtima: tinha
os olhos vazados.

--Crime de rapto e sua condenao nos tempos de Leo III

Dentre os diversos crimes citados nessa legislao coberta pelas Novas
Constituies de Leo III, o rapto de uma jovem solteira merece nossa 
ateno especial.
Essa Nova Constituio--de n. XXXV--estava intitulada: "Da pena 
pronunciada contra o raptor de uma jovem e seus cmplices". Ela  clara, 
incisiva e no desperta qualquer dvida.

. . . "Se o rapto for cometido sem o uso de armas, ento o raptor no 
sera punido com
a morte, porque ele no manifesta a inteno de a provocar. Mas tera a 
mo cortada e
aqueles que o ajudaram, ou que tenham tomado qualquer parte em seu crime, 
sero
aoitados, raspados e exilados". A mesma Constituio estabelece que 
todos os que
ajudavam nesse tipo de rapto, mas a mo armada, seriam punidos da 
seguinte maneira:
. . . "tero o nariz decepado e sero aoitados e raspados". E conforme 
indicamos acima ser raspado correspondia a ter os cabelos e a barba 
cortados  fora, o que era considerado como um castigo estigmatizador e 
difamante.

Quanto ao autor desse crime de rapto de uma mulher solteira a mo armada, 
a Nova Constituio n. XXXV confirmava a pena de morte, j estabelecida 
sculos antes no Cdigo de Justiniano.

--General Belisrio: lenda e realidade de sua carreira

Belisrio foi um general bizantino nascido na Trcia aproximadamente
em 505, tendo falecido em 565, aps ter vivido seus ltimos anos cego, 
pobre e mendigo.

Aps alguns anos de glrias e vitrias  frente dos exrcitos que 
combatiam os muitos inimigos de Constantinopla, o imperador Justiniano 
transformou Belisrio no primeiro general de todo o Imprio. Seus 
contnuos sucessos, todavia, acabaram
por despertar em Justiniano os sentimentos de cime e de desconfiana, 
apesar dos incontaveis atos de fidelidade de seu general maior.
No ano 562 Belisrio foi envolvido numa conspirao e injustamente 
deposto de seu cargo. Acusado do crime de lesa-majestade, sofreu a pena 
usual amenizada:
perda da viso, somada  perda de seus proventos de todos os seus bens.

A lenda mostra-nos Belisrio cego por ordem direta de Justiniano, 
mendigando com o auxlio de um garoto para poder sobreviver. Sua figura 
magnifica de general adorado pelos seus subalternos e pelo povo em geral, 
transformado em mendigo,
levou alguns pintores a criar obras de arte que ficaram famosas, 
destacando-se dentre
eles Van Dick, Salvatore Rosa, David e Grard.

Levou tambm o escritor Nepomuceno Lemercier a escrever um romance
em versos que foi musicado por Dominique Pierre Jean Garat, famoso 
compositor e cantor frances, no final do sculo XVIII. Um dos versos 
musicados da obra intitulada "Belisrio" relata-nos o seguinte:

"Seguro o capacete do guerreiro,

Terror dos Vndalos e dos Godos.
Caminhou, dizem, sem escudo
Contra a fatal impostura.

Um tirano fez queimar seus olhos
Que velavam sobre toda a terra.
A noite cobre para sempre os olhos

Do triste e pobre Belisrio" (Apud "Larousse du XXe.Sicle").

Em algumas culturas europias de hoje o nome Belisrio  muito utilizado 
para fazer referencia simblica a uma pessoa cega de boa educao e de 
refinadas
maneiras.

--Notcia sobre uma prtese no sculo IV

Nos muitos documentos encontrados na pujante nova capital do Imprio
Bizantino, e que escaparam  fria destruidora dos seus muitos invasores, 
principalmente dos turcos, foram encontradas algumas referencias a 
prteses. Mencionam essas citaes eventuais casos de braos de metal, 
pernas de madeira e at mesmo casos de nariz
ou de orelhas artificiais.

George Kredinos, escritor grego do sculo XI, narra-nos o seguinte caso
que nos informa da fabricao de uma importante prtese:

"Uma pessoa da Macednia, de nome Basilio, afirmava falsamente que era 
Constantino,
filho de Dukas. Tendo maliciosamente persuadido muita gente a segui-lo, 
reuniu-a ao
seu redor e, viajando a p, causou distrbios nas cidades e instou com a 
populao para
se levantar contra o imperador de Constantinopla. E, tendo sido 
aprisionado por um general chamado Elefantino, e levado ao imperador 
bizantino, foi condenado a ter um dos
seus braos cortado. Depois de sua libertao da priso, colocou no lugar 
do brao cortado um outro artificial feito de cobre e, fazendo uma enorme 
espada, perambulou pelo
pas ludibriando outra vez os cidados mais ingnuos" (Apud 
Pournaropoulos).
--Abrigos para cegos e outros refgos para doentes e deficientes

Segundo alguns bigrafos de So Baslio, o Grande, ele patrocinou a 
criao e inaugurou um abrigo especialmente destinado a cegos em 
Constantinopla, conhecido pela genrica designao de "typhlokmeion". 
Outro famoso santo da Igreja no
Imprio Bizantino foi So Lineu que chegou a organizar e manter outros 
abrigos para
cegos na cidade de Syr, na Sria atual. Esses abrigos eram compostos de 
pequenas cabanas onde os internados viviam por sua conta e graas  
caridade das pessoas que garantiam seu sustento, todas elas ligadas a 
ricas famlias da regio. Essa experincia foi levada a efeito no sculo 
V.

No mesmo sculo, entre os anos 400 e 403, So Joo Crisstomo fez
construir alguns abrigos para doentes cronicos e pessoas que apresentavam 
condies
incapacitantes de seriedade, impeditivas de atividades rentveis. Usou 
para tanto as
esmolas que coletava e os excedentes que juntava de seus proventos como 
arcebispo de
Constantinopla.

No final do sculo IV, bem nos primrdioS da vida monstica que foi
muito pujante no Imprio Bizantino, o cuidado dos pobres em geral e das 
pessoas deficientes no meio delas, segundo nos relata So Joo 
Crisstomo, passou a ser uma preocupao bsica e continua dos mosteiros. 
Afirma esse famoso santo da Igreja que "atendem os mendigos e os 
aleijados que vm a eles s refeies e para abrigo". "um
dos irmos cuida das feridas de um mutilado, outro cuida de um homem 
cego, enquanto
que um terceiro apia algum que perdeu uma perna" lApud French).

--Assistncia a soldados a partir do sculo VI

O Imprio Bizantino, sempre bastante criativo, mantinha atendimento 
separado para soldados feridos ou deficientes, quando eram mutilados em 
atividades guerreiras, antes do inicio da Idade Mdia no mundo europeu 
ocidental. Em um trabalho
escrito pelo imperador Mauricio Flvio Tibrio (539 a 602) e intitulado 
"Strategikn",
encontraremos esta frase: "Cuidados especiais devem ser prestados para 
proteger os feridos aps a guerra" (Apud Pournaropoulos). No mesmo 
trabalho consta uma referncia
quanto  idade de incorporao s foras armadas, indicando que todos os 
sditos abaixo de 40 anos de idade eram obrigados ao servio militar, 
dando-nos assim uma idia
da eventual incidncia de leses graves por ferimentos inclusive em 
homens com familia formada e quase no final da vida. Existem outras 
referncias tambm quanto ao assunto, nesse mesmo trabalho, e uma delas 
conta-nos em poucas palavras e sem maiores comentrios --como se 
estivesse falando de assunto sobejamente conhecido--o que sucedia com os 
feridos em campos de batalha. Garantiam os exrcitos bizantinos um 
sistema de recolhimento desses feridos e de seu atendimento na 
retaguarda, salvando-osde
morrer devido a hemorragias, pancadas, pisaduras, queimaduras e outros 
traumatismos.
Afirma o imperador Mauricio o seguinte:

"Durante as batalhas um corpo de auxiliares volantes"--citados como 
"ambulanciers"
na verso original francesa--"a cavalo, os "deputatoi", estava 
encarregado de recolher
os feridos e de os transportar  retaguarda para serem tratados. De suas 
selas pendiam
estribos duplos que lhes permitiam erguer os feridos e os fazer montar. 
Recebiam eles
um "nomisma" por guerreiro salvo" ("Les Institutions de l'Empire 
Byzantin", de
Brehier) .

Uma referencia a benefcios estabelecidos para soldados que voltavam
com srias deficiencias fsicas ou doenas graves dos campos de batalha 
tambm  mencionada pelo autor na mesma obra: . . . "sob Constantino VII, 
o Porfirogeneta, os detentores de bens militares que ficavam invlidos 
continuavam a gozar de suas rendas a
ttulo de penso".

--Os primeiros hospitais da Terra Santa e de Bagd

Carlos Magno (742 a 814), rei dos Francos e chamado de "Imperador do
Ocidente", em contraposio aos imperadores bizantinos que eram por vezes 
conhecidos
como imperadores do oriente,  uma das mais impressionantes figuras da 
Histria da Idade Mdia. Sua vida toda esteve repleta de lances 
importantes. Uma de suas caracteristicas principais era sua habilidade de 
administrador; dizem que em vez de criar organizaes novas, reformava e 
melhorava as j existentes, levando-as a funcionar bem. Aliado
ao famoso califa Haroun-al-Raschid com o fito de intimidar o Imprio 
Bizantino, foi o
co-patrocinador da construo do primeiro hospital ("nosokmeion") 
separado dos abrigos para peregrinos e estrangeiros ("xenodchium") 
construido na Terra Santa. Segundo
seus bigrafos, Carlos Magno protegia tambm os cegos, tendo estabelecido 
severas penas para aqueles que os maltratassem.

Foi no sculo X que surgiu na cidade de Bagd um segundo hospital do
mundo islmico, sob o governo do califa Al-Muktadir. Um terceiro foi 
construido no
mesmo sculo (ano 970), tambm em Bagd, contando com 25 mdicos. 
Caracterizava-se este ltimo hospital como entidade de tratamento, de 
observao, de ensino e de
treinamento dos mdicos.

Esses hospitais e todos os demais 34 que foram organizados at o final do
sculo X recebiam no apenas doentes mas tambm portadores de 
deficincias srias e
limitadoras.

--Castigos brbaros levam a deficincias no Imprio Bizantino

Conforme tivemos oportunidade de verificar anteriormente, muito cruis
para os nossos dias eram as penalidades aplicadas por alguns imperadores 
ou potentados
bizantinos. No entanto, ressalte-se que elas estavam perfeitamente bem 
estabelecidas em
lei e o mundo oriental vivia sculos que demandavam fortes providncias 
para cercear o
crime, o roubo, o estupro, a traio e a desero das foras armadas. 
Alguns exemplos
sero apresentados deste ponto em diante quanto  aplicao de diversas 
dessas penas,
embora estejamos todos muito certos de que inmeros outros casos podero 
ser coletados pelos estudiosos do assunto.
183

Na obra intitulada "Vie et Mort de Byzance", de Brhier, h uma 
introduo escrita por uma das maiores autoridades no assunto, que foi 
Henri Berr. Esse famoso historiador chama-nos a ateno para um fato que 
caracterizou o Imprio Bizantino, ou seja, as mutilaes:

"Temos encontrado sem cessar nestas pginas, a meno no apenas de 
assassinatos, mas
de torturas as mais diversas, de "suplicios refinados": arranca-se os 
olhos, a lingua,queima-se com ferro em brasa; mas sobretudo vaza-se os 
olhos. Vazar os olhos  prtica corrente".

De fato, tao corrente  essa prtica que, s de acontecimentos 
importantes e muito notrios--e to notrios e importantes que passaram 
para a Histria--poderamos citar mais de trinta. Todos eles--vazamento 
dos olhos de um modo todo especial, mas incluindo mutilaes como penas 
por crimes e traies, ou mesmo para incapacitar certos pretendentes ao 
trono ou a postos importantes - foram praticados contra
membros da nobreza mais alta do Imprio, contra prncipes herdeiros, 
contra imperadores aprisionados ou destronados, durante toda a durao do 
Imprio Bizantino.

S no sculo VIII, por exemplo, encontramos diversos fatos que ocorreram 
aps 741, ano em que Constantino V (718 a 775) procurava combater com 
muita
fora os povos rabes nas terras da Asia, tendo para tanto se ausentado 
longamente de
Constantinopla. Durante seu afastamento da corte, porm, seu cunhado 
Artavasde conspirou contra ele e chegou mesmo a ser proclamado imperador 
por suas tropas. Entrou
vitorioso e sem maiores resistencias na capital do Imprio e foi coroado 
e abenoado pelo patriarca Anastcio. Logo em seguida, para garantir sua 
sucesso, associou seu filho
mais velho ao trono.

No entanto, um ano e pouco aps esses eventos Constantino V retornou
e conseguiu retomar o trono com as foras armadas ainda  sua disposio. 
Logo em seguida castigou severamente a traio do cunhado, mandando vazar 
seus olhos e de seus
pretensos herdeiros, ou seja, seus filhos. Fez mais o imperador: mandou 
aoitar publicamente a maior autoridade da Igreja que no lhe tinha sido 
fiel, o patriarca Anastcio.

J reafirmado no poder, encetou vrios anos aps uma violenta e pertinaz
campanha contra o culto das imagens na Igreja--parte do chamado movimento 
iconoclasta, ou seja, movimento contrrio  adorao de imagens no culto 
cristo--e, demonstrando um quase que incontrolvel dio contra os 
monges, mandou exilar, aprisionar e mesmo mutilar um imenso nmero deles. 
Nas provncias os governadores e autoridades da justia procuravam seguir 
o exemplo do imperador. O governador da Trcia,
por exemplo, fez reunir  fora todos os monges e religiosas daquelas 
terras numa praa
de feso, obrigando-os a fazer ali mesmo uma opo: deviam escolher o 
casamento ou
perder a viso (Apud Brhier).

--A imperatriz Irene e sua luta para conquista do trono

Ainda no sculo VIII, durante um curto espao de vinte anos, a Histria
Bizantina relata-nos algumas amputaes de lngua e vazamento de olhos na 
mais alta
nobreza de Constantinopla durante a vida da famosa imperatriz Irene, ou 
seja, entre os
anos 780 e 800.

Para ns, em pleno sculo XX, trata-se de uma histria no minimo bizarra. 
E poder ser iniciada com o jovem prncipe herdeiro do trono, Leo, filho 
de Constantino V, com 25 anos de idade, casando-se numa faustosa 
cerimnia realizada na igreja de Santa Sofia, com uma belssima jovem 
ateniense de 18 anos de idade, de nome Irene, que era plebia e rf de 
pai e me.

Explica-se: a escolha de algumas imperatrizes ou de esposas de 
governadores e de alguns nobres dava-se em verdadeiros concursos de 
beleza e de talento, segundo
alguns historiadores. Irene fora escolhida exatamente assim, pelo 
imperador Constantino
V, cinco anos antes do velho imperador falecer. Irene conquistou com 
extrema facilidade no s o amor e a confiana do marido, como tambm do 
sogro, que j colocava toda
a sua esperana de sucesso adequada no filho herdeiro do trono e em sua 
jovem, prendada, inteligente e belissima esposa.

--Os primeiros castigos contra conspiradores dentro da famlia

A morte de Constantino V levou Leo IV ao trono. Ja estava casado com
Irene e seu filho Constantino j havia nascido, mas o imperador estava 
doente e era muito inexpressivo em contraposio a uma imperatriz 
saudvel e muito vivaz. Leo IV faleceu logo, deixando Irene como guardi 
de seu herdeiro ao trono, ento com 10 anos de
idade. Esse acerto prvio esperado que tinha o intuito de garantir a 
coroa para o filho,
no agradou aos cinco irmos de Leo IV. Em circunstancias normais 
poderiam ter re
conhecido o direito do sobrinho, mas jamais poderiam permitir que a 
plebia Irene
assumisse o posto de imperatriz. Os titulos de "csar" e de 
"nobilissimos" que haviam
recebido do falecido pai no lhes interessavam mais. Queriam o poder, a 
glria e as
riquezas sem fim.

Foi face a essa situao que os cinco comearam uma trgica seqncia
de conspiraes,antes e depois da morte de Leo IV. A primeira tentativa 
de golpe, abortada, foi perdoada pelo imperador enfermo, sem maiores 
castigos. A segunda, entretanto, que aconteceu alguns anos aps, tinha 
encontrado Irene com as rdeas do poder nas
mos na qualidade de regente. A penalidade imposta por ela foi suave, mas 
contundente:
os cinco irmos foram forados a assumir o estado sacerdotal. E para que 
toda a nobreza e
todo o povo soubessem da realidade do castigo, "convidou-os" a oficiar os 
solenes ritos
do Natal na igreja de Santa Sofia, distribuindo inclusive a comunho aos 
fiis. O estado
sacerdotal forava as pessoas a manterem uma atuao a tempo integral e 
proibia o envolvimento em assuntOs alheios queles prprios da funo, o 
que presumivelmente deixaria Irene e o filho Constantino sossegados.

Poucos anos depois, entretanto, ocorreu nova e sria conspirao dos 
cinco irmos. Irene perdeu a paciencia e mesmo na qualidade de regente 
considerou-se atingida por crime de lesa-majestade. Mas aplicou penas 
"suavizadas", face  perspectiva da
185

pena de morte: mandou amputar a lingua dos quatro "nobilissimos" e vazar 
os olhos do
"csar" Nicforo.

--Punies severas continuam na corte bizantina

Com o evidente intuito de continuar com a totalidade do poder em suas
mos, mesmo aps a subida do filho ao trono como Constantino VI, Irene 
procurou sistematicamente abafar qualquer iniciativa dele, provocando com 
sutileza e malcia o fracasso de seus projetos. Seu plano, na verdade, 
comeara muito antes quando negligenciara com sagacidade e muita 
perspiccia sua preparao para o trono.

No entanto, a situao vivida pelo Imprio levou o general Mouselen a
destronar a imperatriz, aprisionando-a e garantindo a plena autoridade de 
Constantino VI.

Muito embora as foras armadas tivessem a inteno de afastar a m 
influencia da me sobre Constantino VI, a fim de que ele governasse em 
toda a sua plenitude, no contaram com o afeto natural, alm de uma certa 
dependencia do jovem imperador para com sua me, o que se tornava cada 
vez mais evidente conforme a visitava
na priso. A conseqncia no demorou quase nada: Irene foi libertada por 
Constantino
VI que, arrependido, restaurou-a ao poder com o ttulo de imperatriz e 
com poderes para governar ao seu lado.

Ano aps ano Constantino provou ser um imperador fraco e Irene foi
crescendo em sua influncia, seu poder e mesmo em sua aceitabilidade 
antes muito questionada na corte. E foi por sua influncia (e talvez 
exigencia) direta que o general Mouselen, comandante da revolta que a 
levara  priso vexatoria, foi preso e teve seus olhos
vazados, sem maiores consideraes.

Para a nobreza e para o povo esse ato demonstrou uma impressionante 
ingratido do imperador; demonstrou tambm a evidente fora de Irene que, 
com esse ato,
vingava-se da vergonha que lhe fora imposta.

--A selvageria de uma imperatriz na defesa de seu trono

Com o ambiente propcio criado pela dualidade do poder de comando, as
intrigas foram crescendo no palcio imperial, agora infestado por eunucos 
e por religiosos venais. No ano 797 Constantino percebeu que sua 
sustentao era precria e que sua
vida corria srio perigo dentro da corte, tal o nivel das intrigas e das 
conseqentes e esperadas suspeitas. Sorrateiramente fugiu do palcio, mas 
foi preso em curto espao de
tempo e levado de volta; foi trancado, por ordem da me, no mesmo quarto 
onde nascera 26 anos antes. E l mesmo, no meio da noite, teve seus olhos 
selvagemente vazados
por ordem de Irene. Sobreviveu  violncia do ataque que o inutilizou 
para o trono, vivendo ainda muitos anos verdadeiramente oprimido pela 
corte e esquecido pelo seu
povo (Apud Gibbon).

Anos aps, a quarta conspirao dos infelizes irmos de Leo IV aconteceu 
e Irene, plenipotenciria e desptica, no teve dvidas em aplicar a pena 
que considerou como definitiva para eliminar de vez suas pretenses ao 
trono: mandou vazar os
186

olhos dos "nobilissimos" j de lingua anteriormente amputada e mandou 
amputar a lingua do "csar" Nicforo, j cego; logo aps exilou os cinco 
para longe.

Irene foi destronada e exilada para a ilha de Lesbos alguns anos aps; 
ali
morreu trabalhando com suas prprias mos e muito pobre. Segundo a 
Encyclopaedia
Britannica, devido  sua intransigente luta pela restaurao do culto das 
imagens nas
igrejas do Imprio Bizantino, a Igreja Ortodoxa Grega elevou-a  
categoria dos santos.

--Mutilao documentada em pintura do sculo IX

Se o leitor tiver oportunidade de visitar o Museu Nacional de Espanha,
em Madri, poder admirar muitas miniaturas que foram pintadas com esmero 
por monges da Sicilia, diversas das quais registram fatos ligados  
histria de Basilio I, imperador
bizantino que reinou entre os anos 867 e 886. Nessa verdadeira histria 
em quadrinhos
nota-se momentos muito importantes da vida desse surpreendente imperador, 
sendo que
dois deles nos interessam sobremaneira neste estudo sobre deficincias e 
pessoas deficientes.

O primeiro retrata uma encarniada batalha, aparecendo ao centro o 
general bizantino Procpio mortalmente ferido por um magote de soldados 
inimigos, enquanto seus comandados, de costas para ele, batem em 
retirada. O episdio retrata uma
derrota bizantina causada por um desentendimento entre o citado general e 
um outro,
tambm de confiana de Basilio, de nome Leo. E o desentendimento havia 
ocorrido
pouco antes da batalha, levando Leo a no colaborar com Procpio na hora 
necessria.

Tendo tomado conhecimento do fato o imperador mandou prender o general 
Leo e lev-lo  sua presena. E  exatamente isso que o segundo quadro 
nos mostra em seu lado direito, aparecendu Baslio I de dedo em riste e o 
ar preocupado de Leo.
Mas h algo mais que impressiona neste quadro de reduzidas propores: 
so as duas cenas pintadas em seu lado esquerdo. Trata-se da execuo das 
penas impostas pelo imperador, aps Leo ter sido destituido de seu alto 
posto de general. Vemos o infeliz condenado com os braos amarrados s 
costas e deitado no cho, com o carrasco imobilizando-o com suas pernas e 
cegando-o com um ferro em brasa seguro firmemente com ambas
as mos. E mais  esquerda vemos ainda o mesmo prisioneiro com o brao 
estendido sobre um pedao de madeira enquanto o carrasco est com um 
machado a meio caminho
para decepar-lhe a mo.

Contam os historiadores que esse comandante deposto no morreu devido a 
esses castigos e viveu at idade avanada, mas exilado e na mais negra 
misria.

--Barbries que levaram a deficincias fisicas

Noticias de barbries sem precedentes--ou pelo menos conhecidas em
pases cristos - so relatadas no sculo XI. E a mais chocante de todas 
relaciona-se a
um imperador cristo considerado como um dinamico lider bizantino, no 
final do primeiro milenio da Era Crist. Trata-se de Basilio II, que 
recebeu apelido histrico e muito
sugestivo: "Bulgaroctonus", ou seja, matador de blgaros.
Nascera ele em 958, tendo falecido em 1025. Reinou entre os anos 976 e
o ano de sua morte. Dentre suas campanhas militares mais significativas 
para a Histria
Bizantina, destaca-se a que empreende em 1014 contra a Bulgria. Baslio 
II subjugou-a completamente.

No entanto, o golpe de misericrdia que aniquilou a resistencia dos 
patriotas e dos soldados blgaros e que terminou a guerra, levando os 
inimigos de Constantinopla  rendio total daquele pas (qual bomba 
atmica daqueles tempos) foi uma
ao de crueldade fora do usual. E ao citar o fato o historiador Gibbon 
nos diz:

"Sua crueldade infligiu uma vingana fria e estranha a 15.000 cativos que 
haviam sido
culpados apenas de defender seu pas. Foram privados de sua viso, mas 
para um em cada cem, um s olho foi deixado, para que pudesse conduzir a 
sua centria cega  presena de seu rei. Dizem que seu rei faleceu de 
pesar e de horror; a nao toda ficou traumatizada com esse terrivel 
exemplo" ("Histoire de la Dcadence et de la Chute de l'Empire
Romain", de Gibbon).

Ao escrever sobre esse mesmo episdio vergonhoso da vida de Basilio II,
o historiador ingls George Finlay apresenta alguns pormenores mais. 
Conta-nos ele que
"no dia 29 de julho de 1014 o imperador bizantino e seus generais estavam 
analisando a
situao da campanha contra a Bulgria e considerando tudo na mais 
perfeita ordem para a completa rendio da Esclavnia" (parte da 
Bulgria). "Seu inimigo principal e mais
persistente, que era o rei Samuel, ops-se ao seu poderoso exrcito num 
desfiladeiro, 
frente de considervel fora militar".

Muito irritado, Baslio II fez seus homens parar e deu ordens para que o
governador de Philippolis, Nicforo Xiphias, com um bem aparelhado 
contingente de
soldados, desse a volta numa das montanhas para assim atingir o exrcito 
blgaro por
um dos flancos. E numa ao conjugada, os bizantinos venceram as foras 
blgaras; mas
no tiveram a oportunidade de prender Samuel que escapou ileso. Finlay 
afirma neste
ponto o seguinte:

"O ato de vingana de Basilio II foi terrivel. Sua desumanidade 
amedrontadora forou
a Histria a despresar sua conduta e a quase enterrar no esquecimento os 
relatos de suas
conquistas militares. Nesta ocasio, ordenou que os olhos de todos os 
seus prisioneiros"--15.000 segundo o prprio Finlay--"fossem arrancados" 
("taken out", na verso
inglesa) "deixando um s olho para o lider de cada cem, e nesta condio 
enviou os desgraados cativos para procurar seu rei ou para perecer no 
meio da jornada. Quando chegaram a Achrida, um boato de que os 
prisioneiros haviam sido libertados levou Samuel a
sair ao seu encontro. Quando tomou conhecimento da extenso da tragdia 
toda, caiu
desmaiado ao cho, tomado de excessiva ira e dor, e faleceu dois dias 
depois" ("History
of the Byzantine Empire from DCCXVI to MLVII", de Finlay).

--Constantino VIII: "A violncia dos fracos e dos poltres"

A morte de Basilio II, que no tinha filhos, levou ao trono o seu irmo
que era "co-imperador" desde seu nascimento, Constantino VIII (960 a 
1028). Era um
homem frivolo ao extremo, muito forte e de crueldade renomada. Segundo 
Brhier,
tinha "a violncia dos fracos e dos poltres".

Acolhia com facilidade qualquer tipo de calnia, sem o mnimo 
discernimento e "punia faltas veniais com a ablao dos olhos" ("Vie et 
Mort de Byzance", de
Brhier) .

Entre as mais lamentveis vtimas desse imperador os historiadores 
destacam o nobre Constantino Boutzs, cujo pai havia sido detentor do 
mais elevado dos ttulos existentes fora da famlia imperial: o de 
"magister". O imperador, que o odiava de
longa data porque ele havia por diversas vezes denunciado seus desmandos 
e atos indignos a Baslio II, apressou-se em mandar vasar seus olhos.

Embora no fosse considerado  poca um tirano cruel, ele fazia vazar os
olhos de pessoas importantes das quais suspeitava, deixando-as logo aps 
em liberdade,

Sobre Constantino VIII e as penas de vazamento de olhos por ele 
aplicadas, Zonaras, cronista bizantino do sculo XII, afirma:

"Ele tinha verdadeira predileo por esse tipo de suplcio que imobiliza 
a vtima e a torna incapacitada, sem a fazer perecer. Ele utilizou 
continuamente durante seu reinado
esse terrvel suplcio para reduzir a nada uma multido de homens 
eminentes. Dava-se a
isso, em Constantinopla, um nome repleto de dolorosa ironia: a divina 
clemncia do imperador" (Apud Schlumberger).

Diversos so os historiadores que relatam fatos indicativos do uso e do
abuso do poder por parte de Constantino VIII. O caso mais flagrante e que 
provocou
uma mudana de rumo na Histria do Imprio Romano do Leste, relacionou-se 
 sua
sucesso .

Vejamos o que aconteceu: Constantino VIII tinha tres filhas e nenhum
herdeiro do sexo masculino; a mais velha das princesas ingressara num 
convento e as
duas outras - Teodora e Zo j com seus cinqenta anos de idade, no 
haviam casado.
Em 1028, nos primeiros dias de novembro, j em seu leito de morte aps 
trs anos de
lamentvel reinado, resolveu casar urgentemente pelo menos uma das 
filhas, podendo
dessa forma passar seguramente o trono a ela e a seu prncipe consorte.

Para assegurar um casamento condigno, convocou ao palcio o candidato
mais indicado pelos eunucos e por alguns nobres de seu circulo mais 
prximo: Romano
Argiro. Colocado aos ps do leito do imperador moribundo, tendo ao lado 
sua esposa,
foi "intimado a se divorciar dela e a casar-se com uma das princesas, ou 
teria os olhos
vazados. Tendo Teodora se recusado ao casamento, Romano Argiro casou-se 
com Zo
no dia 8 de novembro, trs dias apenas antes da morte de Constantino 
VIII. Muito embora os dois cnjuges fossem parentes, o patriarca de 
Constantinopla, Alexius, relevou
a dificuldade no interesse do Estado" ("Vie et Mort de Byzance", de 
Brhier).

Romano III, Argiro, foi o primeiro dos trs maridos de Zo.
--Miguel V: imperador bizantino por apenas 132 dias

A imperatriz Zo  lembrada na histria bizantina tanto por sua vaidade
quanto por suas aventuras amorosas. Mas ela  tambm lembrada pelas 
diversas tragdias
acontecidas durante seus 20 anos de imperatriz, tragdias que aconteceram 
devido aos
seus casamentos.

Romano Argiro, seu primeiro marido, por exemplo, que passou para a
Histria como um imperador muito voltado aos interesses do Imprio, 
esquecendo as
atenes que poderia dar  sua imperatriz que ainda era uma mulher 
bonita, bem conservada e saudvel, teve sua morte por ela encomendada no 
ano de 1034, depois de ocupar
o trono por seis anos. O motivo de Zo: estava profundamente apaixonada 
por um novo
amante seu e queria transform-lo em imperador. Morto Romano, a 
imperatriz casou-se
imediatamente, subindo ao trono Miguel IV. No entanto, o que logo a 
imperatriz descobriu foi que seu amado era doente e sofria de ataques 
epilticos cada vez mais constantes. Tanto isso e real que logo se 
desinteressou da imperatriz e retirou-se a um mosteiro
longnquo. Antes disso, porm, havia convencido Zo a adotar um sobrinho 
seu como herdeiro do trono, o que a imperatriz fez com poucas hesitaes 
face  paixo que a consumia.

Em fins de 1041 o imperador foi substituido pelo herdeiro que assumiu
o cargo com o nome de Miguel V. Para este jovem imperador leviano, 
hipcrita, bajulador e sem carter, que reinou por pouco mais de 4 meses, 
a glria terminou numa negra
tragdia pessoal.

Miguel V irradiava uma antipatia to forte ao seu redor que logo se 
tornou intolervel para a imperatriz e para a corte toda. Percebendo o 
perigo que corria,
Miguel procurou bajular e agradar em pblico a imperatriz. Em tudo Miguel 
V procedia
de acordo com orientaes recebidas de um tio seu, Constantino, que 
recebera o titulo
de "nobil ssimo".

No dia 18 de abril de 1042, entretanto, as intenes de Miguel V e de
seu tio confidente vieram  tona: Zo foi presa e internada num convento. 
Antes, porm, foi vtima de supremo ultraje, pois teve seus vistosos e 
bem cuidados cabelos loiros
cortados por ordem do imperador.

No dia seguinte a esses acontecimentos a revolta popular e das foras 
armadas estava montada e o palacio completamente cercado. Teodora, irm 
da imperatriz
destronada, foi trazida s pressas de volta a Constantinopla e coroada 
como "basilissa"
na igreja de Santa Sofia. No dia 21 de abril Miguel V estava deposto.

Mas sua histria no termina a, pois ele e Constantino conseguiram fugir
e procurar a segurana de um mosteiro. L foram localizados. "Miguel e 
Constantino
fugiram por mar para o mosteiro de Stoudios onde, por ordem de Teodora, 
vazaram seus
olhos e internaram-nos cada um num mosteiro diferente ("Vie et Mort de 
Byzance", de
Brhier) .

Em julho de 1042 Zo casava-se com Constantino Monmaco.
--Constantino IX, Monmaco: limitaes fisicas muito srias

Levado ao trono bizantino graas  sua boa estrela, Constantino Monmaco 
(980 a 1054) iniciou a parte mais conhecida de sua vida aps o casamento 
com
Zo, ele com 62 e ela com 64 anos de idade. Transformou-se dessa forma em 
seu terceiro marido e prncipe consorte, com o titulo de Constantino IX.

Constantino era um homem especial, segundo os historiadores. Ele  assim 
descrito logo ao inicio de seu governo: "Seu rosto era encantador: tinha 
a tez clara,
traos finos, um sorriso delicado, uma irradiao de graa espalhava-se 
sobre toda a sua
figura. Admiravelmente bem proporcionado, tinha um talhe elegante e bem 
dosado,
mos finas e bonitas" ("Choses et Gens de Byzance", de Diehl).

Estamos, no entanto, falando de um imperador que viveu muito intensamente 
uma serssima deficincia fsica, sofrendo muito com os problemas 
decorrentes
de um mal que os historiadores identificaram como gota, mas que poder 
ter sido artrite reumatide ou artrite deformante.

Para que tenhamos uma idia viva das limitaes fsicas que atingiram o
imperador bizantino  importante que analisemos os escritos de um 
contemporaneo seu:
Miguel Psellos, autor de 125 trabalhos escritos, professor de filosofia, 
escritor renomado
e Secretrio de Estado de Constantino IX.

Em sua notvel obra "Chronographie" ele nos refere, na linguagem prpria 
da poca e com os limitados conhecimentos de medicina de ento, o 
seguinte:

"Os elementos essenciais desagregaram-se e embaralharam-se e, tanto nos 
ps e no amago das juntas, quanto nas mos, afluiam para dali inundar os 
msculos e os ossos da prpria regio lombar" . . .

O mal no atingiu de imediato o corpo todo. Seus ps foram os atingidos
em primeiro lugar, impedindo-o imediatamente de andar. Movimentava-se 
apenas com a
ajuda dos outros, sempre carregado de um lado para o outro, no palcio, 
como um fardo. Psellos entra em pormenores preciosos quanto  vida diria 
do imperador e sua deficincia fsica to sria, pois privava muito com 
ele.

". . . o fluxo de imediato atingiu suas mos e depois seus ombros, e 
acabou atingindo o
corpo todo. A partir da, todo membro inundado por esse fluxo terrvel 
perdia sua energia e, com as fibras e ligamentos embaralhados, os 
elementos da harmonia deslocaram-se,
resultando em desequilbrio e enfraquecimento. E eu vi seus dedos, to 
bem feitos, negar sua prpria forma e, retorcidos e desalinhados, tornar-
se incapazes de segurar no importa o que; seus ps ficaram totalmente 
inchados e dobrados sobre si mesmos; seus joelhos, tambm inchados, 
formavam uma saliencia como um cotovelo, a tal ponto que no
eram capazes de assegurar sua marcha; e, impossibilitado de manter-se em 
p por longo
tempo, passava a maior parte do tempo no leito e quando desejava dar 
audincias, fazia-se preparar e arrumar para tal fim" ("Chronographie", 
de Psellos).
No entanto, o povo tinha o direito e ansiava mesmo pelas cerimnias e
191

procisses imperiais, to repletas de cores e de fausto. Constantino 
reconhecia isso e
participava, como era seu dever; mas seu sofrimento aumentava muito 
nessas ocasies.
Algumas providncias eram tomadas para reduzir a um mnimo as dores do 
imperador.

"Uma certa arte, a dos cavaleiros, o auxiliava e mantinha sobre a sela;
depois, uma vez a cavalo, respirava com dificuldade e as rdeas eram 
suprfluas; levado
por sua montaria, escudeiros vigorosos e de boa estatura sustentavam-no 
de ambos os
lados e assim, apoiando-o daqui e dali, seguravam-no como um fardo e 
transportavam-no
para onde deveria ser levado. Mas ele, mesmo no meio de tantos males, no 
deixava de
lado suas caractersticas bsicas; muito pelo contrrio, ele compunha com 
elegancia sua
aparncia; depois movia-se e mudava de lugar sozinho, ao ponto de aqueles 
que o viam
no ficarem muito seguros de que vivia entravado pelas dores e minado 
pela doena"
( Chronographie", de Psel los) .

Que outras providncias eram tomadas nessas procisses solenes para 
reduzir a um minimo suas dores e dificuldades? Cobriam todo o trajeto com 
tapetes a fim
de evitar que seu cavalo escorregasse nas lajotas das avenidas entre o 
palcio imperial e a
baslica de Santa Sofia. Em sua vida de todo o dia e dentro do palacio, 
para se movimentar de ambiente para ambiente ele era carregado por 
camareiros bastante fortes sem
maiores dificuldades, a menos que houvesse a incidencia de um forte ciclo 
de dores. Para repousar  noite com um mnimo de desconforto, a 
dificuldade crescia, pois qualquer posio lhe era incomoda e diante 
disso seus camareiros ajudavam-no a procurar
posies, viravam-no com cuidado no leito e com isso conseguiam acertar 
almofadas e
adaptaes no especificadas mas citadas na obra de Psellos, para tornar 
o sono possvel.

O grande cronista bizantino no faz qualquer comentrio quanto  
interveno de mdicos ou ao uso de medicamentos, muito embora seja certo 
que tudo era
feito para diminuir as dificuldades do imperador. Com o passar dos anos 
Constantino
IX sentia dores at na lngua ao falar, sendo-lhe um suplcio mudar de 
lugar. Assim, ele
acabou paralisado num lugar s praticamente.

Psellos informa tambem que Constantino, apesar da verdadeira batalha
com dores e problemas delas decorrentes, jamais deixou escapar uma 
palavra contra
Deus. E se algum vinha se queixar dos prprios sofrimentos, ele ficava 
aborrecido e
mandava a pessoa se retirar, s vezes at usando de palavras rudes.

No mais recondito de seu ser Constantino IX aceitava suas dores e a 
limitao fsica como uma punio pelos seus pecados passados e como 
freio de sua natureza. "Como meus instintos no cedem  razo, capitulam 
diante dos sofrimentos
do corpo; meu corpo sofre, mas os impulsos desordenados de minha alma so 
assim controlados", afirmava ele (Apud Psellos).

--Romano IV, Digenes: presa de um soldado com deficincias

Este imperador bizantino permaneceu na liderana do Imprio de 1067
at 1071. Logo que se casou com a imperatriz viuva, Eudxia, no ano de 
1067 e mal
investido da autoridade e da dignidade de imperador, Romano, que era um 
general muito competente, partiu no comando de um grande exrcito para 
combater sarracenos e
turcos Seljuk, em trs diferentes campanhas. Na ltima delas, levou suas 
tropas contra
o sulto turco Alp Arslan, com ele defrontando-se na grande batalha de 
Mantzikert.

Muito embora tenha lutado com extrema valentia e competncia, Romano IV 
foi feito prisioneiro e levado  presena de Alp Arslan, com o qual 
acabou assinando um tratado de paz que os bizantinos consideraram 
vergonhoso.

Nesse evento, todavia, queremos chamar a ateno para uma pequena 
informao do historiador Gibbon sobre as circunstancias de seu 
aprisionamento. Afirma
ele o seguinte:

"Enquanto a esperana sobrevivia, Romano tentava reagrupar e salvar o 
restante de seu
exrcito. Quando o centro, a estao imperial, ficou sem proteo de 
todos os lados e
cercado pelos turcos vitoriosos, ele, ainda com desesperada coragem, 
manteve a luta at
o final do dia,  testa dos bravos homens que haviam aderido ao seu 
estandarte. Eles
cairam ao seu redor; seu cavalo foi morto; o imperador foi ferido. Apesar 
disso ele se
manteve s e intrpido at que foi dominado e imobilizado pela fora das 
multides. A
glria por essa ilustre presa foi disputada por um escravo e por um 
soldado: um escravo
que o havia visto no trono de Constantinopla e um soldado cuja extrema 
deformidade
havia sido relevada face  necessidade de servios de sinalizao" 
("Histoire de la Dcadence et de la Chute de L'Empire Romain", de 
Gibbon).

Como podemos muito bem notar por essa informao, s vezes pessoas
deficientes eram consideradas aproveitveis nos exrcitos em funes que 
pouco ou nada
demandavam quanto ao uso de armas. E no caso do aprisionamento de Romano 
IV, esse
soldado com srias deformidades fisicas teve um destacado papel a fim de 
possibilitar
que seu importante prisioneiro chegasse ao dia seguinte com vida. 
Assinale-se que havia
premios altamente compensadores por prisioneiros resgatveis--e um 
imperador era um
caso altamente excepcional que levava no s a resgates a peso de ouro, 
como a tratados
diversos. O prprio historiador Gibbon afirma que, j despojado de suas 
armas, das suas
jias e do seu manto de prpura, Romano IV passou uma noite muito 
perigosa para sua
vida no devastado campo de batalha, cercado por uma multido quase sem 
controle que
saqueava tudo o que podia.

Voltando a Constantinopla, Romano IV foi destronado, preso e teve seus
olhos vazados, por ordem do csar Joo Dukas; foi internado num mosteiro, 
em Proti,
no mar de Mrmara, ao sul de Constantinopla.

--Enrico Dandolo: "doge" veneziano cego

Enrico nasceu perto de Veneza no ano de 1105 e faleceu com exatamente 100 
anos de idade na grande capital do mundo oriental daquele sculo: 
Constantinopla. Sempre muito hbil e corajoso em suas atividades 
comerciais e guerreiras, Dandolo
foi um timo politico e um hbil negociador, excelente orador e dono de 
um so193

berbo nome de familia romana das mais antigas tradies que o tornaram 
muito influente na Repblica de Veneza.

Foram essas condies bsicas e as circunstancias relacionadas a negcios
de Estado que o levaram a Constantinopla, em misso oficial e na 
qualidade de enviado
das autoridades da poderosa Repblica de Veneza. O objetivo era resolver 
uma pendncia muito sria no ano de 1171 quando Dandolo j estava com 66 
anos de idade: Manuel
Comnenus (1143 a 1180), imperador bizantino, havia aprisionado navios e 
tripulaes
de Veneza e recusava-se a devolv-los, desafiando acintosamente os 
direitos reclamados e
mesmo o cumprimento dos tratados assinados entre o Imprio Bizantino e a 
Repblica
Veneziana, que era muito importante quela poca.

Dandolo foi incisivo na corte bizantina e expressou com extrema clareza
e em termos convincentes a indignao sentida pelos venezianos face s 
atitudes do imperador quanto aos navios e suas tripulaes.

O que o velho embaixador certamente no havia imaginado era o tipo de
reao do imperador bizantino que, enfurecido ao extremo e of endido com 
as argumentaes fortes de Dandolo, apelou para a tortura refinada e 
cruel, tipica de sua corte:
mandou colocar prximo aos seus olhos vasos de metal incandecente que 
acabaram comprometendo seriamente sua viso. Dizem os historiadores que 
Dandolo ficou completamente cego.

De volta a Veneza foi reconhecido como fiel intrprete da opinio do 
governo e do povo veneziano e, apesar de cego, foi eleito "doge"--cargo 
supremo daquela
repblica - alguns anos aps o incidente na corte de Manuel Comnenus.

Dandolo foi extremamente importante nos eventos que transformaram
por completo a Histria Bizantina e a Histria de Veneza. Esses eventos 
envolveram a
Dinastia Angelus e levaram  introduo de algo totalmente novo na 
histria tumultuada de Constantinopla: os imperadores latinos. Levaram 
tambm  partilha do grande
Imperio entre os nobres cruzados e a Repblica de Veneza, como veremos a 
seguir.

--Isaac II, Angelus: olhos vazados, volta a ser imperador

Durante a primeira parte do reinado do questionado imperador Isaac II,
Angelus, que vai de 1185 a 1195, um parente seu, Constantino Angelus, 
proclamou-se
imperador bizantino com o apoio de suas tropas. Foi vencido e destronado 
pelas foras
de Isaac II, tendo sido julgado de acordo com as leis. A sentena: 
vazamento de seus
olhos. No entanto, um outro parente--e desta vez seu prprio irmo 
Alexius--liderou
outra revolta no ano de 1195, procurando afastar o incompetente e 
alienado imperador.
Desta vez Isaac II foi preso e teve seus olhos vazados por ordem do irmo 
a fim de eliminar suas pretenses de volta ao trono do Imprio Bizantino.

Alexius assumiu o Imprio com o nome de Alexius III e imperou de 1195
at 1203, mantendo seu irmo na priso ao lado do filho e pretenso 
herdeiro do imperador destronado. Com o passar dos anos, porm, o novo 
imperador soltou o sobrinho,
-- Heracleon-que tinha tambm o nome de Alexius, fazendo-o participar de 
campanhas militares ao
seu lado. O jovem principe mantinha-se inconformado e fazia planos para 
voltar a Constantinopla e conquistar o trono que por herana teria sido 
seu. E na primeira oportunidade fugiu e foi buscar a colaborao de 
nobres europeus que em Veneza procuravam
organizar uma cruzada  Terra Santa e ao Egito, sob a forte liderana do 
"doge" cego,
Dandolo.

Com o aval do papa Inocencio III conseguiu convencer o grupo de nobres
a viajar para Constantinopla a fim de derrubar Alexius III e de garantir 
sua instalao no
trono. Havia condies muito pesadas para tanto: pagar o aluguel dos 
barcos usados para
todo o transporte dos cruzados e seus exrcitos, ajudar financeiramente 
na organizao
de uma cruzada ao Egito e submeter a Igreja Ortodoxa a Roma. E a 
empreitada foi aceita na presuno lqida e certa de que Isaac II, cego 
como estava, no poderia mais ocupar o trono bizantino e de que Alexius 
seria, como de fato era, seu herdeiro.

No entanto, quando Alexius III foi afastado do trono, enquanto os 
garbosos cruzados avanavam deslumbrados pelas avenidas de 
Constantinopla, os habitantes
de origem grega libertaram Isaac II e colocaram-no no trono como 
imperador de fato.
Quando o jovem Alexius e os cruzados chegaram ao palcio imperial tiveram 
a surpresa
do fato consumado: o trono estava ocupado pelo velho imperador cego.

"O choque foi muito grande para Alexius e para os cruzados, pois de
acordo com a tradio bizantina, a cegueira incapacitava um homem para 
ser imperador"
("Cambridge Medieval History", de Hussey).

Mas foi um impasse curto, pois pai e filho, aps o reencontro, 
conversaram muito e Isaac II acabou aceitando as condies negociadas 
pelo filho, embora deixando claro que duvidava de sua viabilidade. E o 
velho imperador cego estava certo. Ficou logo claro que no seria 
possvel pagar os cruzados e cumprir o prometido. Foram
ambos afastados do trono, inaugurando-se ento a fase de investidura dos 
imperadores
latinos, sob a custdia dos cruzados Os imperadores do ocidente europeu.

Outros eventos que levaram a deficincias fisicas e sensoriais

Muitos outros eventos aconteceram no milnio de existncia do Imprio
Bizantino que levaram nobres e imperadores a terem seus olhos vazados ou 
corpos mutilados. Dentre eles cumpre destacar:

-- Filpico-- cognominado de Bardane--foi imperador entre 711 e 713, 
sendo originrio da Armnia. Foi infeliz em seu governo por ter que lutar 
contra
blgaros e rabes--inimigos externos alm de enfrentar internamente
os problemas com os ortodoxos e com os que pressionavam em favor da
Igreja vinculada a Roma. Deposto finalmente, teve seus olhos vazados.

???A';--imperador de fevereiro a setembro de 641. Ao final do governo de 
seu
pai, imperador Heraclius, obteve o titulo de "augusto", por influncia 
direta de sua me. Dessa forma, foi proclamado imperador ao lado de seu
irmo, Constantino III. A morte prematura deste levou a corte a suspeitar
de Heracleonas e de sua me. Foi logo aps destronado e preso; segundo
os historiadores foram mutilados e banidos para a ilha de Rhodes.

-- Bryenne, general bizantino-- Nicforo Bryenne, general bizantino do 
sculo XI, era
originrio de importante famlia. Foi nomeado duque da Bulgria em
1075, 60 anos aps a derrocada provocada por Baslio II. No ano de
1077 proclamou-se imperador da Bulgria mas foi derrotado por Nicforo 
Botoniate em 1078, preso e, por ordem do imperador Miguel VI, teve
seus olhos vazados.

-- Andrnico I--Andrnico Comnenus liderou revolta contra o imperador 
Alexius II,
Comnenus, destronando-o. Enquanto se manteve precariamente no poder
mandou cegar o "protosebaste", cujo titular tinha importancia 
correspondente  de um primeiro ministro. Entretanto, suas lutas acabaram 
por
garanti-lo no trono de 1183 at 1185. Foi um imperador cruel. "Multides 
reuniam-Se para ver o desfile ou a imolao de alguns traidores ou
criminosos horrivelmente mutilados; e as ferozes execues ordenadas
por Andrnico I foram o preldio natural para seu terrvel fim, que, 
todavia, ele suportou com uma valentia muito prpria" ("Cambridge 
Medieval History", de Hussey). Andrnico I morreu mutilado.

-- Teodoro Dukas--Foi imperador da provincia de Tessalnica e era irmo 
de Miguel
Angelus Comnenus. Fez algumas tentativas para conquistar Constantinopla e 
para tanto procurou atacar a cidade pelo norte. No entanto, no
quis "dar as costas"  Bulgria, considerada um perigo para seus 
exrcitos. Com isso, provocou um srio atrito com antigo amigo seu, o 
czar blgaro Joao Asen. Foi por ele derrotado na batalha de Klokotnika, 
em
1230, tendo l sido preso. E, por ordem do "amigo" czar, teve seus olhos
vazados. Teodoro Dukas, no entanto, era muito dinamico e sagaz. Acabou 
reconquistando a amizade de Joo Asen e foi posto em liberdade.
Voltou incontinenti  Tessalnica e viveu uma vida de contatos polticos
muito intensos, conseguindo inclusive lanar o chamado Imprio Grego
da Tessalnica em violentas lutas, influindo decisivamente nas tomadas
de deciso de seu irmo Manuel e de seus dois filhos, Joo e Demtrio.

Para finalizar os relatos de eventos histricos ou de fatos relacionados 
a
personalidades que marcaram o Imprio Bizantino, resta-nos falar de 
algumas figuras
histricas que viveram nos sculos XIII e XIV: destaquemos, para tanto, 
os nomes famosos de Miguel Palelogus e de Joo V, Palelogus.

--Ato friamente planejado instala a Dinastia dos Palelogus

Um ato muito frio e cruel nos  relatado por diversos historiadores e em
especial por Gibbon, em sua obra anteriormente citada. Esse proceder 
desumano ocorreu no inicio do sculo XIII.

O jovem principe Joo Lascris (1250 a 1300 aproximadamente) que
passou para a Histria Bizantina como Joo IV, era filho de Teodoro II, 
falecido em
1259. Com apenas 8 anos de idade o herdeiro do trono bizantino teve como 
tutor o
prprio patriarca de constantinopla, Arsenius Autorianus. No entanto, 
graas a tramas
muito bem urdidas e contando com o total apoio da grande famlia dos 
Palelogus,
Miguel foi apontado como tutor do jovem prncipe, tendo ento recebido o 
titulo honorfico de "dspota" e algum tempo aps o de "imperador-
adjunto". Para efeitos desse
segundo titulo, ele foi coroado na cidade de Nica em 1260.

No ano seguinte, estando Joo IV, Lascris, com apenas 11 anos de idade, 
Miguel Palelogus resolveu destronar o principe e com isso afastar a 
dinastia dos
Lascris. Para tanto mandou ceg-lo.

"A perda da viso incapacitou o jovem prncipe para as atividades do
mundo: em vez da violencia brutal de arrancar os olhos, o nervo tico foi 
destruido com
o intenso brilho de um vaso incandescente, e Joo Lascris foi levado 
para um castelo
distante, onde passou muitos anos na privacidade e na obscuridade" 
("Histoire de la Dcadence et de la Chute de l'Empire Romain", de 
Gibbon).

Arsenius Autorianus, ex-tutor de Joo Lascris, patriarca da Igreja 
Ortodoxa, excomungou Miguel Palelogus por esse ato--o que de fato 
provocava uma situao especial, pois o imperador era considerado o 
representante de Cristo. No entanto,
aps muita insistncia do imperador e da corte, no ocorrendo a revogao 
do ato punitivo, o patriarca foi trocado e a excomunho revogada.

Alm de cegar Joo IV, Miguel VIII, Palelogus, mandou cegar vrios 
nobres recalcitrantes e inconformados com a situao.

"Em 1261 Miguel Palelogus, querendo punir seu secretrio Manuel 
Holbolus por ter-se apiedado da sorte do infeliz Joo Lascris, fez 
amputar seu nariz e
seus lbios, aps ter ele os olhos vazados" ("Les Institutions de 
l'Empire Byzantin", de
Brhier) .

--O dilema de Joo V, Paleologus (1319 a 1389)

Durante o governo de Joo V, Palelogus, sob a quase total custdia do
sulto otomano Mourad I, o imperador bizantino procurou manter com os 
turcos um
relacionamento cordial. Praticamente todo o territrio do Imprio 
Bizantino j havia
sido tomado pelos turcos,  exceo de Constantinopla fortificada, que se 
mantinha intocada devido a um certo receio que os to aguerridos otomanos 
tinham dos cruzados
e das reaes da Europa Crist, caso a cidadela fosse tomada e saqueada.

Enquanto Joo V mantinha sua capital na inexpugnvel Constantinopla,
o sulto turco colocava a sua na cidade de Adrianopla, prximo s 
fronteiras da Bulgria e da Grcia e a pouca distancia da capital 
bizantina.

Havia visitas cordiais  corte do sulto e as familias ficaram se 
conhecendo bem. Tanto isso  verdade que Andrnico, o filho mais velho de 
Joo V, fez uma boa
amizade com Saoudj, filho mais velho e eventual sucessor de Mourad I. Os 
dois jovens
pretendentes aos respectivos tronos comearam a conspirar contra seus 
pais logo aps
Andrnico ter sabido que Joo V o havia afastado da sucesso em beneficio 
de seu irmo Manuel.

Mourad I descobriu a conspirao dos dois principes e tomou uma deciso 
drstica contra a traio de seu filho primognito: mandou vazar seus 
olhos, o que
ocorreu em 1376. Mas o rigoroso sulto no deixou o assunto morrer ai, 
pois forou o
imperador bizantino a se manifestar, confrontando-o com o aspecto 
"traio".

"O otomano ameaou seu vassalo com o tratamento de um cmplice e
de um inimigo, a menos que ele infligisse a mesma punio a seu filho. 
Palelogus tremeu e obedeceu, e uma precauo cruel envolveu na mesma 
sentena a infancia e a
inocncia de Joo, filho do criminoso. Mas a operao foi feita to 
brandamente ou to
imperitamente que um manteve a viso de um olho e o outro foi vtima 
apenas do mal
do estrabismo" ("Histoire de la Dcadence et de la Chute de l'Empire 
Romain", de
Gibbon).

Os dois prncipes conspiradores foram presos na famosa torre de Anema
e a sucesso aos dois poderes ficou garantida para Manuel, do lado 
bizantino, e para
Bayazet, do lado otomano. Dois anos aps a aplicao da pena, os dois 
mandatrios foram depostos e encerrados na mesma torre da qual os dois 
principes foram retirados
para ocupar os seus respectivos tronos (Apud Gibbon).

3. As Pessoas Deficientes na Idade Mdia

Dos anos 500 at o final do sculo X, mergulhada num generalizado estado 
de ignorancia, uma leve e quase imperceptivel chama de cultura clssica 
era conservada na Europa e em muitos pontos do Oriente Mdio. Os povos 
invasores e desmanteladores do antes inexpugnvel Imprio Romano 
mantinham-se em franca e obscura
atitude contrria aos ensinamentos deixados pelos grandes pensadores 
gregos e romanos,
enquanto que no Oriente Mdio, numa situao bem diversa daquela 
encontradia na
Europa, os povos rabes, igualmente invasores e expansionistas, 
procuravam desvendar
todo o mistrio de contedo da propalada sabedoria grega e dos seus mais 
renomados
filsofos e cientistas.

E no meio do caos do destroado Imprio Romano, a Igreja Crist 
demonstrava sua pujana e sua rigidez: ela passou a ser quase que o nico 
baluarte capaz de
manter a cultura classica que ela preservava com segurana nas 
bibliotecas dos mosteiros
e dentro de seus fortes muros organizacionais.

--A criao de hospitais e abrigos para pobres

Apesar de todas as concepes misticas, mgicas e muito misteriosas, de
muito baixo padro, que foram a tnica da cultura das populaes menos 
privilegiadas
e mais empobrecidas durante muitos sculos da Idade Mdia, em muitas 
partes da Europa e do Oriente Mdio, os casos de doenas e de deformaes 
das mais diversas naturezas
ou causas passaram aos poucos a receber mais ateno. Isto  verdadeiro 
no s quanto 
Europa Crist mas tambm a todo o leste islamico. Um dos sintomas dessa 
ateno mais
humanizada foi a continua criao de hospitais.

No leste da Europa, por exemplo, hospitais e abrigos para doentes e 
pessoas portadoras de deficincias mais pobres eram criados por vezes por 
senhores feudais
ou por governantes de aglomerados urbanos mais fortes ou de burgos mais 
significativos,
sempre ajudados pela cooperao de esforos provenientes da Igreja. Alm 
disso tivemos
no sculo VII a criao de uma instituio para cegos perto de Pontlieu, 
na Frana, por
iniciativa do bispo de Le Mans, So Bertro. Foi um projeto diferente 
daqueles usualmente encontrados na mesma poca.
3. p. 198
--Um santo cego na histria da Bretanha do sculo VI

A histria de Santo Herveu, o monge cego,  tipica do inicio da Idade
Mdia, pois est repleta de poesia e de crendices. Segundo ela, Herveu 
nasceu no ano
520 na Bretanha continental. Seu pai foi o bardo (cantor e poeta) 
Hoarvian e sua me,
uma piedosa jovem que cantava os salmos com excelente voz, Rivanone.

Dizem os poucos bigrafos desse pouco conhecido santo breto que sua
jovem e inexperiente me, muito inquieta com os perigos do mundo, pediu a 
Deus que
seu filho nascesse cego. O pai, menos sonhador e muito mais prtico, 
ficou atemorizado
com essa prece e repreendeu-a, dizendo:

" mulher, no  cruel por parte de uma me pedir que seu filho seja 
privado da luz da
vida? Se ele deve nascer assim, todavia, peo de minha parte a Deus todo 
poderoso, que
essa criana j daqui desse mundo tenha viso dos esplendores do cu. E 
para que minha
prece seja atendida, renuncio desde agora a todas as vaidades deste mundo 
para servir
apenas a Deus pelo resto de meus dias".

E o pai acabou partindo de fato, sem ter chegado a ver o filho que, de
acordo com oraes de sua me, nasceu cego. O nome Herveu, recebido no 
batismo,
significa "amargo". Bem mais tarde a me tambm deixou o filho com um 
monge conhecido pelo nome de Arzian, passando o menino a viver confinado 
no mosteiro.

Herveu aprendeu muito com a escola existente no mosteiro de Arzian, 
incluindo em suas preferncias tambm as cincias profanas, alm de todos 
os salmos que
sua me--ele recordava muito bem--cantava com lmpida voz. No seu dia-a-
dia o jovem Herveu movimentava-se com a ajuda de um guia chamado 
Guiac'han.

Foi durante sua adolescncia que deixou o mosteiro de Arzian e foi em
busca do retiro do eremita Urfold, num local prximo ao convento onde sua 
me vivia
confinada. Com a ajuda do eremita, Herveu acabou encontrando sua me, 
muito debilitada pelos jejuns e pelas penitncias.

Transformou-se logo em professor, apesar da cegueira. No entanto, por
humildade afastou-se e comeou a peregrinar de mosteiro a mosteiro, 
seguido por grupos de alunos seus. Nessa espcie de peregrinao 
constante, o grupo visitou o bispo de
I louardon que quis ordenar Herveu sacerdote. Mas, devido  sua cegueira 
e  sua humil199

dade, no aceitou a ordenao. Recebeu finalmente as chamadas "ordens 
menores" e
o poder do exorcismo. Fundou um mosteiro prprio pelo ano de 540, num 
local posteriormente conhecido como Lanhouarneau.

Apesar de no ser sacerdote, recebeu o titulo de abade de sua congregao 
e nessa qualidade foi convocado para o conclio que ia ser realizado em 
Menez-Br,
em 545. Conta-se que os participantes ficaram o dia todo esperando por 
ele para iniciar
o conclave, o que irritou sobremaneira um dos bispos presentes.

--"O que? ! . . . Foi para esperar esse ceguinho que perdemos um dia 
todo?", explodiu o prelado. Sentiu-se uma indignao geral contra o bispo 
que, castigado
no prprio ato, caiu cego ao cho. Herveu aproximou-se e tomando de um 
pouco de
gua que comeara a brotar de seu bordo, umedeceu os olhos da vtima que 
logo a seguir voltou a enxergar (Apud Le Berre).

Suas relquias ainda hoje existentes no mosteiro de Lanhouarneau 
(distrito de Finistre, na Bretanha, a oeste da Frana, entre a Baia de 
Biscaia e o Canal da
Mancha) so sempre usadas para a beno das guas da Fonte de Santo 
Herveu, em procisso solene realizada no dia de sua festa. Dizem que 
essas guas tm virtudes um tanto misteriosas para a cura de males dos 
olhos nelas lavados. Seus restos mortais foram
transferidos para a catedral de Nantes em 1002.

Santo Herveu  considerado o patrono dos cantores populares e  festejado 
em 17 de junho.


--Santo Egdio, padroeiro dos deficientes

Santo Egdio (Gilles, em francs e Aegidius, em latim)  patrono da 
pequenina cidade de Saint Gilles, ao sul da Frana. Fica situada no 
Departamento de Gard,
as margens do canal do rio Rhone--Ste. Existe na vila uma antiga abadia 
que chegou a
ser expressamente protegida por Carlos Magno e que hoje guarda as 
relquias de seu santo padroeiro, que l viveu no sculo VI.

 ele considerado na Frana como um dos dez santos que mais ajudam 
populao desamparada e sempre foi venerado na Europa como o padroeiro 
dos mendigos, dos ferreiros e das pessoas com defeitos fisicos.

Sua fama foi to importante no passado que os peregrinos agradecidos
chegaram a contribuir para a melhoria da vila e da abadia. O famoso santo 
 representado tendo ao seu lado uma flecha e uma cora. Segundo lendas 
do sculo X Egidio era
um jovem aristocrata de origem ateniense que, aps ter visitado o 
mosteiro de So Cesrio de Arles, pelo ano 543, passou a viver como 
eremita no meio do bosque. Foi ferido acidentalmente pelo rei Flavius dos 
Godos quando este perseguia uma cora e ela
procurara segurana aos ps de Egidio. Arrependido com o engano, Flavius 
mandou imediatamente construir uma abadia naquele bosque e nomeou Egdio 
seu abade.

Sua festa  celebrada no dia primeiro de setembro. Os restos mortais de
Santo Egidio, levados a Toulouse no seculo XVI, foram transladados para 
Saint Gilles
apenas em 1862.
--Assistncia aos pobres pela Igreja

Os pobres, os doentes e os deficientes fsicos e mentais foram objeto de
uma norma da Igreja Catlica em pleno sculo VI, norma essa que pretendia 
assisti-los
e ao mesmo tempo circunscrever seus movimentos a um determinado 
territrio.

E foi o conclio de Tours, realizado nos anos 566 e 567 que decretou pelo 
seu canone quinto o seguinte:

Cada cidade alimentar os seus pobres. Os sacerdotes da zona rural e os 
habitantes tambm alimentaro seus pobres, a fim de impedir os mendigos 
vagabundos de correr as cidades e as provncias (Apud Gurin).

 tambem relevante saber que o conclio de Lyon (583) aprovou, em seu
ltimo canone, a seguinte medida relacionada aos hansenianos:

Os leprosos de cada cidade e de seu territrio sero alimentados e 
abrigados s expensas da Igreja, aos cuidados do bispo, a fim de lhes 
impedir a liberdade para serem vagabundos em outras cidades (Apud 
Gurin).

--A mutilao como castigo no sculo VII

Desde epocas imemoriais, em quase todas as culturas espalhadas pela 
Europa e por todo o resto do mundo conhecido at o sculo VII d.C., 
praticamente todos
tinham o direito--ou viam-se investidos desse direito--de punir 
severamente seus criados, seus escravos ou empregados, mesmo que fosse, 
conforme as circunstancias, pela
mutilao de parte de seus corpos: orelhas, nariz, dedos, membro sexual, 
etc.

Durante os primeiros sculos da Idade Mdia essa punio tanto podia ser
aplicada diretamente pelo senhor como, de um modo indireto, por meio de 
juzes. A
gravidade da situao poder ser bem retratada por uma deciso tomada num 
dos conclios particulares da Igreja. Foi o concilio de Mrida, em 
Portugal, no ano 666 que procurou cercear esse brbaro costume, pelo 
menos com relao aos bispos e sacerdotes, j
um tanto distanciados dos preceitos da caridade. O canone dcimo quinto, 
aprovado
nesse conclio, probe aos bispos e aos sacerdotes maltratar os 
empregados da igreja
pela mutilao e manda que, se forem eles considerados culpados de 
qualquer crime, que
sejam entregues aos juizes seculares, pelo menos para os bispos moderarem 
a pena  qual
sero condenados, e no deixarem que sejam marcados com ignomnia (Apud 
Gurin).

--O milagre de fazer um mudo falar

So Vedo, cognominado o Venervel, tem sido considerado nos meios
catlicos ingleses no s como um homem santo, mas tambm como um sbio e 
grande
historiador. Masceu em 675, vindo a falecer em 735. Escreveu muitas obras 
dentre as
quais no podemos deixar de chamar a ateno para a Histria Eclesistica 
da Nao
Inglesa a qual cobre perodo que vai desde os primrdios da Igreja Crist 
na Inglaterra
at 731.
Consta nessa obra que em 685 um bispo catlico chamado Joo, tido
201

como santo e miraculoso, ensinou um jovem que nunca havia pronunciado 
palavra alguma a falar. Apesar do Santo historiador ingls citar o fato 
como um milagre, no causaria impacto maior hoje em dia ou mesmo h dois 
ou trs sculos atrs.

Segundo So Bedo, o bispo Joo pediu ao jovem para mostrar sua lngua
e soltar o som j, o que foi feito aparentemente sem maiores 
dificuldades. A partir
desse ponto, pronunciando uma a uma as vrias letras do alfabeto, o bispo 
orientou o
jovem arepeti-las. Da por diante o prelado comeou a inserir silabas, 
palavras curtas
mesmo frases simples. O moo obteve pleno xito e no parou mais de 
falar.

No campo da comunicao dos deficientes da palavra falada esse  um
fato totalmente isolado ocorrido no incio da Idade Mdia, uma vez que s 
ouviremos
falar sobre o ensino de surdos e de surdos-mudos pelo final do sculo XV 
(Apud Muller).

--Amputaes como penalidade por crimes cometidos

Embora no disponhamos de dados muito precisos, existem evidncias
de penas severas para crimes considerados graves durante toda a Idade 
Mdia, em diversos pases europeus. Na maioria dos casos o objetivo 
dessas penas--principalmente as
mutilatrias--no era matar o criminoso, masdeform-lo, sendo a mutilao 
um meio
visual destinado a amedrontar outros criminosos. Cuidavam os aplicadores 
das penas
mutilatrias que os condenados no morressem devido  hemorragia ou a 
eventuais
complicaes.

Como as vtimas dessas penalidades quase sempre se viam impedidas de
trabalhar, restava-lhes o recurso de esmolar, que de certa forma, como no 
Imprio Bizantino, levava o povo cristo a ter oportunidade de fazer 
caridade . . .

Dentre os diversos crimes que podiam ter como pena a amputao das
mos, por exemplo, um deles (bastante especfico para determinado fato 
ocorrido na
Histria) sucedeu em Milo em 630, durante uma violenta peste.

De acordo com muitas acusaes baseadas em observaes e tambm em
crenas de natureza pseudo-cientficas, a peste era espalhada por um 
certo ungento que
era esfregado nas paredes das casas por individuos criminosos. As 
autoridades e o povo
deram caa aos mesmos, tendo todos eles sido submetidos a torturas, 
am,nutaes e mesmo  morte. Um dos castigos a eles aplicados foi a 
amputao de uma das mos, confor
me nos  mostrado em estampa existente no Welcome Medical Historical 
Museum, de
Londres (Apud Brothwell e Muller-Christenselm

--A evidncia de dupla amputao: sculo ViI

Foi em 1956 que uma rea desabitada na ilha de Tean (uma das Scilly,
a sudoeste da Inglaterra) mereceu toda a atenSo dos cientistas do 
Departamento de
Arqueologia Pr-Histrica da Universidade de Edinbourgh.  que l haviam 
sido descobertos diversos tmulos--talvez do sculo VII d.C.--e um dos 
esqueletos apresentava
peculiaridades bem marcantes.
Castigo por um crime grave: amputao da mo direita (gravura do sculo 
VII existente no Welcome Historical Medical Museum, de Londres--in 
Medico-Historical Aspects of a Very Early Case of Mutilation,
de Brothwell e Muller-Christensen)
Eram os restos mortais de um homem de 40 a 50 anos presumiveis ao
morrer que, alm de ter sido vtima de um processo artrtico srio, 
apresentava algo
bastante inusitado. Eis os dados que nos so repassados por dois 
cientistas:

-- O brao esquerdo apresenta sinais da amputao da mo a 10 mm acima do 
punho.
Com a sobrevida de mais de um ano, a extremidade spera correspondente ao 
ponto
da mutilao ficou arredondada e quase lisa e uma espcie de calosidade 
ssea uniu as
duas pontas do rdio e do cbito num nico osso. H leves sinais de 
infeco, mas ao
que parece no houve dificuldades na fase de cicatrizao sem 
inflamaes.

-- A perna direita apresenta mutilao do p, tendo a amputao cortado 
50 mm da
tibia e do pernio. Como no caso do brao esquerdo, o coto est 
arredondado, com
a unio de ambos os ossos num s.

Segundo Broththwell e Moller-Christensen, acrescente-se a esses problemas 
o fato de que vrios anos antes o mesmo individuo havia fraturado a 
clavicula e
uma vrtebra torxica que, embora bem solidificadas, provocaram alguma 
deformidade.

As mutilaes indicadas pelos dois autores provavelmente no foram feitas 
sem conhecimento de causa. Vejamos a sua opinio:

Com certeza somente um ou dois anos antes de sua morte foi realizada a 
amputao
de sua mo esquerda a 10 mm acima do punho e do seu p direito 
aproximadamente a
50-60 mm acima da junta do tornozelo. Essas mutilaes no foram 
provavelmente feitas com uma serra ..mas foram o resultado de uma remoo 
intencional por
machado ou faca pesada e martelada com um malho--mtodos sabidamente 
empregados como punies na Inglaterra durante a Idade Negra. (Mdico-
Historical Aspects
of a Very Early Case of Mutilation de Brothwell e Muer-Christensen).

--Os hospitais criados pela Igreja na Europa

No ocidente europeu hospitais continuaram sendo organizados graas 
iniciativa e  continua ao de segmentos da Igreja Catlica, tendo as 
ordens monsticas
dado uma relevante contribuio, pois a experincia dos religiosos 
enclausurados em tratar seus irmos feridos ou doentes, bem como os 
pobres e desvalidos portadores de srias limitaes fisicas, passou a ser 
um verdadeiro modelo. Era j o resultado de uma experiencia multissecular 
desenvolvida por mosteiros espalhados pela Europa e pelo Oriente Mdio, 
alm daqueles localizados na frica.

No entanto, j no ano 845, o concilio de Meaux referiu-se ao que chamou 
de Hospitia Peregrinorum (Abrigos dos Peregrinos) ???/le de Hospitia 
Scotorum

(Abrigos dos Escoceses), queixando-se que eles haviam sido desviados de 
seus propsitos originais de hospitalidade e pedindo sua reinstalao em 
moldes diferentes, no s
como casas destinadas  assistncia aos peregrinos ou a viajantes 
doentes, como tambm
abrigos aos invlidos.

Duzentos anos antes desse concilio, considerando que era uma obrigao
quase que funcional dos bispos dar abrigo e proteo a peregrinos e a 
doentes pobres, o
204

bispo Landry, de Paris, organizou um lar para invlidos e para peregrinos 
doentes num
local bem perto de sua igreja. Foi dessa experincia do sculo VII que 
surgiu o nome
de Htel Dieu para hospital de caridade na Frana.

Do sculo VII ao sculo XII os hospitais mantidos nas propriedadesdos
mosteiros e das abadias ou mesmo das poucas instituies especialmente 
preparados para
tanto foram praticamente as nicas organizaes europias que mantiveram 
como seus
objetivos bsicos cuidar do doente agudo e em muitos casos tambm do 
crnico. Serviram tambm de abrigo para pessoas impossibilitadas de 
prover seu prprio sustento devido a srias limitaes fisicas e 
sensoriais.

Convm aqui voltar a ressaltar que no havia propriamente nenhum mosteiro 
ou abadia de porte, durante a Idade Mdia, que no mantivesse seu 
xenodchium

devido ao espirito de caridade e de hospitalidade crists, enquanto que 
muitos foram se
aparelhando e alterando seus servios para um atendimento prprio de um 
nosocmium .

--A profisso de massagista no Japo do sculo IX

Segundo documentos histricos existentes no Japo do sculo IX os cegos 
passaram a dominar completamente a profisso de massagista, considerada 
desde ento como de sua exclusividade absoluta. Alm disso, eram os cegos 
os quase que exclusivos aplicadores de certas tcnicas especiais de 
acupuntura.

Esse verdadeiro privilgio foi-lhes garantido devido  circunstancia de o
filho do imperador japones, o prncipe Hitoyasu, ter perdido a viso e 
ter fortemente
influenciado seu pai em favor dos cegos que no tinham trabalho digno e 
que podiam
perfeitamente bem desenvolver aquelas atividades.

Esses privilgios para cegos prevaleceram praticamente por dez sculos,
mas ainda hoje percebemos resquicios deles, uma vez que  notria a 
presena muito
numerosa de cegos como massagistas no s no Japo como em muitos outros 
pases
que recebem ou receberam sua influencia.

--Bispo Hi:lcmar, vtima da crueldade de seus algozes

Hincmar (830 a ???8~2) foi um dos bispos mais jovens de que se tem 
notcia na Histria da Igreja Catlica. Foi sagrado bispo de Laon, na 
Frana, com apenas
20 anos de idade, por indicao e por influncia direta do rei Carlos, o 
Calvo, que logo
lhe confiou duas misses diplomticas na Germnia.

No entanto, depois de 21 anos de bispado, durante o conclio de Douzy,
presidido por um arcebispo que tinha o mesmo nome e que era seu tio, 
Hincmar foi deposto e aprisionado. As condies da cela e do prprio 
ambiente para onde o bispo deposto foi mandado eram terriveis, tendo ele 
sido deixado sob violentos maus tratos de
seus algozes que vazaram seus olhos. Essas violncias desumanas 
aconteceram, segundo
os historiadores, por ordem direta do arcebispo Hincmar de Reims, que 
levara o sobrinho prelado  priso.
205

Passados cinco anos, todavia, Hincmar foi liberto por influncia direta 
do
papa Joo VIII, que reinou entre 872 e 882. E, um fato singular na 
histria da disciplina da Igreja Catlica, esse mesmo papa autorizou 
Hincmar a celebrar missa, por ter considerado que sua cegueira no era 
impeditiva, pois havia ocorrido aps sua ordenao,
no significando, portanto, nenhuma irregularidade.

--Deficincia fsica na mitologia germanica

Wayland, o ferreiro,  um heri mitolgico famoso na cultura germanica.
No necessariamente uma rplica nem cpia de Hefesto, j citado e 
inserido em muitas
histrias da mitologia grega, Wayland tambm era um excelente arteso e 
ferreiro. Chegou a fabricar peas famosas que passaram para diversas 
histrias da avantajada mitologia do norte da Europa dos meados da Idade 
Mdia. Dentre essas peas imortais  importante destacarmos que, segundo 
as lendas, Wayland fabricou a espada de Siegfried
( Nothung ) e a do rei Artur ( Excalibur ).

Wayland, o nico heri teutnico assimilado pela cultura e pelo folclore
de diversos paises europeus, inclusive pela mitologia inglesa, aparece em 
histrias lendrias tanto na Alemanha quanto na Escandinvia.

A lenda principal relacionada a esse fantasioso ser fala a respeito de 
sua
vingana contra o rei que o havia aprisionado. Esse rei havia mandado 
quebrar seus joelhos para torn-lo incapacitado de se mover com destreza 
e rapidez. O objetivo era ret-lo no reino e com isso garantir seus 
servios de alta qualificao.

No entanto, o muito sagaz Wayland, depois de anos de paciente 
planejamento e da espera de um momento mais adequado, matou os dois 
filhos do rei Nipopr.
Fez mais para dar mais peso  sua vingana: deflorou a princesa, sua 
filha. Logo aps,
tendo completado todos os atos que havia premeditado, empreendeu uma fuga 
espetacular, utilizando-se de um par de asas por ele mesmo fabricadas.

--As deficincias em sacerdotes cristos na Idade Mdia

Questo permanentemente discutida por autoridades eclesisticas, tendo
j merecido o posicionamento de papas e concilios e um lugar permanente 
no Cdigo
de Direito Cannico, o problema das deficincias fisicas e sensoriais nos 
sacerdotes ou
nos bispos  citado por Thomassin. No que diz respeito a alguns dos 
primeiros sculos
da Idade Mdia essa autoridade da Igreja informa:

O Conclio de Tribur (Canone XXXIII) alega as decises do Conclio de 
Nicia sobre
os eunucos, aquelas do papa Inocncio I sobre quem amputou seu prprio 
dedo, ou a
quem se cortou o prprio dedo acidentalmente, dos quais o primeiro  
irregular e o
outro no o : enfim, aquelas de Gelsio que excluem do clero todos os 
que so mutilados de qualquer parte do corpo. Esse concilio confirma em 
seguida todas essas ordens
e a elas acrescenta que aqueles que se tornaram coxos por qualquer 
enfermidade corporal no devem ser impedidos das santas ordens ( Ancienne 
&NouveIIe Discipline de
l glise, de Thomassin).
Nesses primeiros sculos da Idade Mdia a Igreja Ortodoxa Grega seguia
basicamente as mesmas regras, sendo mais condescendente para com 
candidatos ao sacerdcio que apresentassem deficiencias. Essa faco da 
Igreja decidira mesmo, por meio
de canones apostlicos, que os coxos e mesmo os que haviam perdido um 
olho, podiam
ser ordenados e at mesmo elevados ao bispado. O motivo alegado era 
contundente para
a poca, mas muito real: So as manchas da alma e no os defeitos do 
corpo que nos
afastam dos divinos mistrios . . . Segundo seus lideres e autoridades 
maiores, cegos e
surdos eram considerados como impedidos ao sacerdcio porque essas 
deficincias os
incapacitavam para exercer as funes mltiplas da vida sacerdotal.

No entanto, os que j haviam sido ordenados podiam continuar exercendo o 
sacerdcio sem maiores dificuldades e no perdiam de maneira alguma a 
dignidade
ou os beneficios e proventos que recebiam.

Teodoro Balsamon, canonista grego do sculo XII, afirma ter conhecido
diconos, padres e mesmo bispos que, tendo-se tornado surdos ou cegos, 
no foram por
causa disso privados de sua dignidade, e que a lei civil possibilitava 
queles que haviam
perdido a viso gozar de sua antiga posio de juiz ou de senador, apesar 
de no permitir
o acesso a outro tipo de magistratura (Apud Thomassin).

Vrios papas foram aos poucos tornando o assunto mais e mais esclarecido 
atravs de decises, permisses, epistolas e regras. Encontramos no 
sculo XII, durante um reinado de 22 anos, entre os anos de 1159 e 1181, 
o papa Alexandre III esclarecendo que, quanto a mutilaes e deformaes 
do corpo, elas tornavam uma pessoa irregular para o sacerdcio quando 
essas dificuldades fossem de tal monta que seria impossivel exercer as 
funes sacerdotais sem provocar escandalo ou problemas.

Ocorreram casos de sacerdotes parcialmente impedidos de ordens devido
a deficincias fisicas e sensoriais. Esses impedimentos incluiam: 
sacerdotes proibidos de
celebrar a missa, sem ser impedidos das demais funes de seu ministrio, 
por ter perdido metade de uma das mos. O motivo: o alegado escandalo que 
j quela poca correspondia a algo chocante e que chamava muito a 
ateno. Os textos latinos, porm, utilizam o termo indicado: nec sine 
scandalo propter deformitatem membri .

Inocncio III, reinando ao final do sculo XII e entrando no sculo XIII
at o ano de 1216, analisou o assunto em maiores detalhes, indicando que 
os mesmos
defeitos e mutilaes que tornavam impedido um homem para as chamadas 
ordens
maiores no precisavam necessariamente excluir das ordens menores, pois 
estas expunham muito menos os candidatos j clrigos  vida pblica.

Esse mesmo papa, ao julgar o problema de um sacerdote que fora atingido 
por um assaltante e com isso perdera um dedo da mo esquerda, decidiu que 
no incidira em qualquer impedimento s suas funes, uma vez que o 
acidente ocorrera aps
sua ordenao.

Foi Inocncio III tambm que chegou a determinar a deposio de um
abade, pois o mesmo no tinha uma das mos (a esquerda), o que, se 
descoberto a tem207

po, e se tivesse sido constatado antes de sua ordenao, teria sido 
impeditivo dos mais
srios. Um outro motivo alegado pelo papa foi a dissimulao do referido 
abade: ele havia muito habilmente escondido o defeito durante sua eleio 
para o cargo de superior
(talvez tivesse usado uma prtese).

--Lus III, o "Cego", rei da Provena e da Itlia

Lus III, conhecido pelo cognome de o Cego, nasceu em 880 e era
filho de Boso, rei da Provena--hoje parte Sudeste da Frana.  morte de 
seu pai em
887 foi protegido pelo imperador Carlos, o Gordo. Lus foi reconhecido 
como rei da
Provena com 10 anos de idade, sob o forte apoio do papa Estvo V.

No correr do ano 900, quando estava com 20 anos de idade, por insistencia 
e muita presso dos inimigos de Berengar, rei da Itlia, cruzou os Alpes 
com suas foras, deps o monarca aps muita luta e reclamou sua coroa. 
Foi coroado rei dos lombardos na cidade de Pvia e rei da Itlia em Roma, 
em fevereiro de 901, ocasio em que recebeu a coroa real das mos de 
Benedito IV, papa que ocupava ento o trono da Igreja
Catlica.

Mas o jovem rei tinha deixado em seu rastro um feroz e muito cruel 
inimigo: Berengar. Aps poucos meses de reorganizao de suas foras e de 
insistente luta,
conseguiu surpreender Luis III em Verona e l mesmo, com muito dio, 
mandou vazar
seus olhos.

Levado de volta  sua Provena, Lus III, o Cego, l permaneceu em
Arles, vivendo por mais de 26 anos uma vida atrapalhada devido  
cegueira. Deixou os
negcios de sua coroa aos cuidados de um primo seu, Hugo, duque de 
Provena, que
bem mais tarde tornou-se rei da Itlia.

Na vida deste personagem da Histria da Provena e da Itlia h um 
registro lamentvel e raro nos pases da Europa, embora no to 
surpreendente na corte bizantina: mandou vazar os olhos de seu irmo 
Lamberto, marqus de Toscana, por motivos de alegada traio.

Berengar, que havia derrotado e vazado os olhos de Luis III, acabou 
derrotando tambm as foras deste odioso Hugo, rei da Itlia, em 945.

--Deficientes fsicos impedidos de participar da Primeira Cruzada

Apesar de ter sido Urbano II o papa que verdadeiramente inventou as
Cruzadas e que estimulou fortemente a realizao da primeira delas, que 
aconteceu entre
1096 e 1099,  muito importante que ressaltemos e prestemos a devida 
ateno ao papel
de um tpico pregador daqueles dias que ficou muito famoso no centro da 
Europa: Pedro, o Eremita.

Vestido com uma longa tnica de l parcialmente coberta por um manto
escuro com capuz, Pedro, o Eremita, andava descalo e apoiado em longo 
basto; comia
muito pouco, alimentando-se de peixe e vinho unicamente.
208

Ele teve muita influncia no surgimento da chamada Cruzada Popular ,
que se caracterizava por bandos de pessoas do povo interessadas em 
peregrinar at Jerusalm e ali lutar pela libertao da cidade santa, 
mesmo  custa da prpria vida.

Esse movimento quase espontneo acabou levando  organizao precria
de uma Cruzada do prprio povo contra os infiis, bem dentro do esprito 
pregado pelo
papa Urbano II. E esse foi o seu mrito maior.

No entanto, procurando ordenar um pouco a incontrolvel horda que j
se movimentava antes mesmo de os nobres terem se organizado, o papa tomou 
uma posio de energia: proibiu que participassem dessa peregrinao 
guerreira desordenada os
velhos, as mulheres solteiras e os deficientes fsicos. Essa posio do 
papa foi sacramentada pelo conclio de Clermont, convocado para discutir 
a questo das Cruzadas no
ano de 1095.

Com essa ordem do chefe mximo da Igreja Catlica os portadores de
deficincias fsicas foram bloqueados de lutar tambm pelos prprios 
postulados da Cruzada, ou seja, a imediata reconciliao do pecador com a 
Igreja por meio da confisso,
mas sem os deveres da penitencia (que seria a peregrinao guerreira . . 
.).

A Cruzada Popular, como alguns historiadores a intitulam, acabou em total 
tragdia nas proximidades de Nica e de Constantinopla, graas  
incompetncia de
seus chefes, e de no ter coincidido com o esforo guerreiro dos nobres 
latinos de diversas partes da Europa, sob a liderana de um delegado 
papal.

--Barbeiros-cirurgies na Idade Mdia

Os clrigos e monges que viviam em mosteiros e abadias eram os detentores 
dos melhores conhecimentos a respeito de doenas e doentes, e das 
limitaes fsicas
que sempre levavam as pessoas a situaes de miserabilidade e 
dependncia. Logo aps
1163, todavia, surgiria um outro grupo de pessoas que muito se envolveu 
por sculos: os
barbeiros. E por que motivo?

Foi precisamente em 1163 que o conclio de Tours proibiu todo o clero
derramar sangue, seja em lutas, seja em hospitais ( Ecclesia abhorret a 
sanguine ).

Com o documento papal a funo passou aos poucos a outras pessoas,
sendo a mais indicada a do barbeiro porque desde 1031 havia 
obrigatoriamente barbeiros nos mosteiros e abadias; a partir desse ano 
todos os monges e sacerdotes deviam respeitar um canone do conclio de 
Bourges: . . . todos os que forem empregados em funes eclesisticas 
portaro tonsura e tero a barba feita . O uso de navalhas e tesouras
recomendava o barbeiro para funes de sangria, lancetamentos e 
curativos.

--A evoluo dos hospitais medievais e as deficiencias

As Ordens dos Cavaleiros que se preocupavam de um modo especial com
doentes e com peregrinos, serviam tambm para socorrer as vtimas de 
ciladas, os acidentados, os portadores de males mais graves e as vtimas 
das intempries  poca dos rigorosos invernos. A primeira das 
Congregaes Religiosas que surgiu para dar atendimento
direto s de enfermagem, entretanto, foi a Congregao das Irms de Santo 
Agostinho,
no ano de 1155.

Aps a total desintegrao do Imprio Romano Ocidental, sob a forte
presso dos invasores brbaros, os hospitais de diversos feudos e reinos 
da Europa foram
sendo instalados em cidades melhor organizadas ou mais ricas e aos 
poucos, com a ajuda
de comerciantes abastados, bem como de mdicos formados em algumas das 
novas unidades de ensino chamadas de universidades, foram melhorando de 
padro. E as cidades mais pujantes e dinmicas passaram de certa forma a 
competir para montar hospitais
cada vez mais sofisticados, dando assistncia a um mais amplo nmero de 
pacientes,
sempre, entretanto, sob a custdia ou a manuteno de servios de 
enfermagem por parte de diversas ordens religiosas.

Durante os ltimos sculos da Idade Mdia encontra-se noticias de 
associaes especialmente criadas que tentavam levantar e manter fundos 
para a assistncia a
doentes e aos permanentemente deficientes que eram mais pobres e que se 
mantinham
alojados nas instalaes dos hospitais, sem qualquer esperana de cura.

A iniciativa tinha a inteno de evitar ou pelo menos de minorar as 
dificuldades causadas pela superlotao perniciosa que estava ocorrendo 
nos hospitais, onde
esses pobres acabavam abrigando-se at a morte. No h noticia de 
tentativas bem sucedidas na construo ou mesmo na simples instalao de 
entidades com finalidades muito
especficas no atendimento aos portadores de deficincias, a no ser nos 
casos de cegos e
tambm dos hansenianos, quela poca e por vrios sculos futuros 
reconhecidos por
leprosos, lzaros e outros apelidos, sempre temidos e marginalizados em 
todo o
mundo.

Do sculo XII em diante os hospitais, que conforme vimos eram organizados 
e mantidos por religiosos recolhidos em mosteiros ou abadias, salvo raras 
e muito
honrosas excees, ainda misturavam pessoas doentes com as que no tinham 
meios de
subsistencia e dentre estas ficavam sempre os portadores de deficincias 
fsicas e sensoriais mais graves. Esses hospitais foram a pOUCO e pouco 
sendo secularizados e, devido
s conseqncias cada vez mais srias da concentrao urbana, da falta de 
cuidados bsicos com a sade e da inexistncia de medidas de saneamento 
bsico e outras, um volume
muito mais expressivo de doentes levou ao aumento substancial de seu 
nmero.

Do sculo XII ao sculo XV, por exemplo, s a Inglaterra chegou a o rga
nizar 750 hospitais, dos quais 217 eram destinados s vtimas da temivel 
lepra .

--O estigma da hansenase durante toda a Idade Mdia

A lepra, hoje mundialmente conhecida como hansenase, sempre causou
muitas mutilaes e outros tipos de deficincias. J existia no Egito e 
na ndia muitos
sculos antes da Era Crist e foi conhecida dos gregos e dos rabes. 
Levada para toda a
Europa pelos soldados romanos, espalhou-se mais ainda durante a poca das 
Cruzadas.
Para combat-la durante toda a Idade Mdia, foram tomadas muitas 
providncias concretas por todos os povos, face  periculosidade que 
apresentava e ao pavor de suas conseqncias.

Embora at hoje permanece como um verdadeiro mistrio o surgimento
da hanseniase no mundo, apavorando por milnios a humanidade,  mistrio 
maior ainda o seu quase desaparecimento ao redor do sculo XVI I na 
Europa.

Nos tempos biblicos e nos primeiros dez sculos da Era Crist j havia
uma certa variedade de males dermatolgicos considerados como 
contagiosos. Dentre
eles destacava-se evidentemente a hanseniase, mas com ela confundiam-se a 
psoriase, a
escabiose e o ergotismo.

Na Idade Mdia, quando um homem era declarado leproso tinha apenas um 
destino: banimento da sociedade e do convivio de seus familiares pelo 
resto da
vida. Para tal fim a sociedade armava-se de certas cautelas, sendo uma 
delas o estabelecimento de uma comisso responsvel pelo reconhecimento 
do mal. Nessa comisso estavam obrigatoriamente incluidos um mdico e um 
hanseniano.

Muitos casos foram vitimas de diagnosticos mal formulados. Os casos de
ergotismo, por exemplo, apresentavam mutilaes serissimas nos dedos 
devido  gangrena. Era um mal causado pelo uso continuado de farinha de 
centeio com fungos venenosos e que em sua forma gangrenosa levava a 
amputaes muito serias dos dedos.

Se o resultado do exame do doente suspeito de lepra fosse positivo, 
rezava-se uma missa de Rquiem sobre o doente, o que correspondia a um 
sepultamento
simblico. Era ento conduzido para fora da cidade e no caminho o 
sacerdote, acompanhado de um aclito que tocava uma matraca, dava 
orientaes bsicas ao doente, repassando as proibies que iriam marcar 
sua vida futura. Era-lhe proibido:

-- entrar em igrejas, mercados, moinhos, padarias ou qualquer lugar 
pblico;

-- lavar as mos ou o corpo em qualquer riacho ou fonte (devia saciar sua 
sede usando
uma caneca de sua propriedade exclusiva);

-- sair s ruas sem as vestes identificadoras do leproso e sem calados;

-- tocar em objetos que desejava comprar (devia apontar com um basto):

-- tocar os beirais das pontes ou batentes de portas (devia ter as mos 
cobertas);

-- tocar ou ter relaes sexuais com qualquer pessoa, inclusive sua 
prpria esposa;

-- comer ou beber na companhia de qualquer pessoa que no fosse leprosa.

Com alguma sorte e com o apoio de sua famlia poderia conseguir um lugar 
num lazareto ou leprosrio . Caso contrrio passaria a vida toda 
espalhando o
terror da doena, mendigando por comida e por bebida. Muitas vezes 
identificando-se
por roucos gritos de impuro, impuro o temido leproso era tambm 
reconhecido por
sinetas, matracas ou pequenas cornetas. A esmola a eles destinada era 
colocada s carreiras no meio das vielas ou dos campos.

Foram por sculos marcados e a marca mais forte e evidente ficava nas
roupas que eram obrigados a usar, nas cores cinza ou preta. Deviam usar 
chapus ou capuzes e s vezes faixas vermelhas. pocas houve na Europa 
durante as quais eles eram
obrigados a levar ao peito um tecido vermelho com desenhos 
caracteristicos.

S na Frana dos sculos XII e XIII havia em torno de 2.000 lazaretos
que se destinavam apenas  segregao e nunca ao tratamento dos doentes. 
Na Europa
inteira, devido  extenso do problema, havia aproximadamente 19.000 
desses abrigos,
todos separando duramente seus doentes da sociedade e deixando que 
morressem sem
qualquer assistncia.

--Ricardo Corao-de-Leo e sua vingana

Ricardo Corao-de-Leo (1157 a 1199), rei da Inglaterra, muito envolvido 
com as Cruzadas e com diversos feitos hericos que se tornaram lendrios, 
tem sido
citado como personagem quase que de fico, tal a quantidade de lendas e 
de histrias
a seu respeito.

Um dos traos caractersticos desse rei famoso dos ingleses era sua 
crueldade. Ricardo era valente, destemido, aventureiro, mas muito cruel e 
vingativo.

Quando em guerra com a Frana, que procurava a todo custo desalojar os
ingleses da Normandia, Ricardo Corao-de-Leo chegou a praticar um dia 
uma barbaridade inacreditvel.

Devido ao exterminio de um grupo de seus melhores homens pelos franceses, 
Ricardo mandou que trezentos cavaleiros franceses fossem atirados ao rio 
Sena
com suas armaduras, para ali morrerem afogados. Ainda no satisfeito, 
mandou vazar os
olhos de 15 outros cavaleiros que foram mandados de volta, ao encontro do 
rei Felipe
Augusto (1165 a 1223), guiados por um cujo olho direito havia sido 
poupado, imitando
de certa maneira a brutal atitude de Basilio II, imperador bizantino.

Segundo historiadores como Finlay, Felipe Augusto no se deixou ficar
atrs: tratou quinze cavaleiros ingleses aprisionados da mesma forma.

Finlay comenta em sua obra que vazar os olhos de soldados ou de pessoas
culpadas, em geral, foi um costume comum em toda a Europa, por diversos 
sculos. Era
visto, portanto, sem exagerado horror, como o fazemos hoje. Na Inglaterra 
foi apenas em
1403, durante o reinado de Henrique IV, que o Parlamento ingls aprovou 
um ato que
considerava como crime as penas de cortar a lingua ou de vazar os olhos 
das pessoas
(Apud Finlay).

--Hospitais proliferam no Oriente Prximo: sculo XIII

Prosseguindo seus esforos para dar assistncia aos doentes mais 
necessitados, e para melhor desenvolver os conhecimentos mdicos de 
ento, o governante
turco Seljuk e seus sucessores (turcos otomanos) criaram diversos 
hospitais e escolas
de medicina.

Segundo o Professor Dr. A.Sheyl Unver, diretor do Instituto de Histria 
da Medicina da Universidade de Istambul, os mais antigos desses 
estabelecimentos de
ensino terico e prtico foram os de Kayseri (1206) e de Amasya (1205).

Ainda dentro do sculo XIII surgiram os hospitais-escola de Sivas, no ano
de 1214, Konya, em 1219, ankiri, em 1235 e outros mais.  interessante 
notar que os
hospitais estabelecidos em Kayseri e ankiri colocaram,  sua entrada, a 
figura de uma
serpente. Este simbolo, apesar de grego em sua origem, graas aos templos 
de Asclpios,
chegou aos turcos por influncia dos egpCiOS (Apud Unver).

--Os progressos da medicina at o sculo XIV

Por volta de 1250, a Europa Ocidental e suas novas organizaes ou 
associaes de ensinO programado (universidades) comearam a absorver os 
conhecimentos
e as experincias mdicas acumulados pelos rabes, quase todos extrados 
da cultura grega clssica. Na Itlia e na Frana a cirurgia comeou a dar 
passos interessantes, especialmente com o concurso de Guy de Chauliac 
(1300 a 1368) que chegou a fazer operaes
de catarata com sucesso. A anatomia teve tambm seus progressos marcantes 
com o mdico italiano Mondino De Luzzi (1270 a 1326). A dissecao de 
cadveres, deixada de
lado por aproximadamente dez sculos, foi retomada, uma vez que os 
mdicos tinham
apenas noes de anatomia retiradas das obras de Galeno. Mondino De Luzzi 
escreveu
uma obra intitulada Anathomia no ano de 1316, e essa obra tornou-se 
padro para ensino por mais de duzentos anos na Europa.

Evidentemente esses progressos todos beneficiaram toda a humanidade, e
dentro dela, de um modo especial pessoas que sofriam as conseqencias das 
doenas crnicas ou que provocavam limitaes na plena utilizao do 
corpo.

Um dos resultados prticos da formao de mdicos em universidades Foi
uma pequena ampliao do nmero de hospitais mais dedicados a tratamento 
do que a
abrigo, como era de se esperar. De acordo com o cronista italiano Giovani 
Villani, s na
cidade de Florena havia, pelo ano de 1300, trinta hospitais gerais e uma 
verdadeira rede
de assistncia a doentes e deficientes pobres, com capacidade para 1.000 
vagas.
--Epidemias na Idade Mdia e suas conseqncias: "Castigo de Deus"?

 preciso aqui relembrar que dos anos 500 at o sculo XVI--portanto,
durante toda a Idade Mdia praticamente--o mundo europeu viu decrescer 
muito os
cuidados bsicos com a sade e com a higiene na imensa maioria das 
cidades, um pouco
em decorrencia do seu continuo crescimento. Os aglomerados urbanos 
menores tambm
no tinham qualquer infra-estrutura ou recurso voltado para a sade de 
sua
populao. E
por muitos sculos, os habitantes das cidades medievais viveram sob o 
permanente receio
das epidemias ou das doenas mais srias.

Devido  ignorancia imperante, as epidemias, as doenas mais graves, as
incapacidades fsicas, os srios problemas mentais e as malformaes 
congnitas eram
considerados como verdadeiros sinais da ira celeste e taxados como 
castigos de Deus .
E, como no podia deixar de acontecer, e como nos relatam todos os 
historiadores,
ocorreram diversas epidemias de gravssimas conseqncias, grandes 
incidncias de males
no controlados pelos mdicos que nem chegavam a atinar com suas causas 
ou no dispunham de meios para debel-los com sucesso. Hanseniase, peste 
bubonica, difteria, influenza e outros males devastaram diversas vezes a 
Europa durante os vrios sculos da
Idade Mdia e deixaram um significativo saldo de pessoas que 
sobreviveram. Muitas delas
conseguiram salvar-se, mas com srias seqelas, para ver o resto de seus 
dias passar em
situaes de extrema privao e quase que absoluta marginalidade.

--A medicina qualificada e a falta de assistncia geral

Durante todo o periodo medieval, com excees no levantadas mas que
certamente devem ter ocorrido, o trabalho do mdico mais qualificado, 
isto , daquele
formado pela prtica ao lado de outros mdicos ou daquele que depois do 
sculo XI comeou a ser formado pelas universidades, na grande maioria 
dos casos continuava no
sendo desenvolvido dentro dos hospitais. A proliferao dessas casas 
especialmente destinadas a recolher os doentes provenientes de famlias 
sem recursos, muitos deles portadores de males incurveis ou defeitos 
fsicos bastante limitadores, foi um fato comprovado
e verificado em todos os pases europeus. Construes especiais eram 
raras e dentre elas
cumpre destacar o Hospital de So Bartolomeu, em Londres, que comeou a 
funcionar
no ano de 1123.

E para ns, mesmo to distanciados da Idade Mdia, no  nada dificil
imaginar que esses doentes no tinham a minima condio de pagar, quer 
pelos servios
do mdico, quer pelas mezinhas ou pelos curativos feitos em outros 
ambientes. Assim,
hospitais continuariam por sculos sendo verdadeiros depsitos de pessoas 
pobres,  beira da morte, ou vitimadas por males crnicos e defeitos 
fsicos graves que l ficavam at
morrer, sem famlia e sem amigos.

Os mdicos continuariam tambm por sculos como profissionais muito
caros e muito raros em muitas partes da Europa para a populao mais 
pobre e desprovida de recursos minimos para encontrar solues aos 
problemas decorrentes de enfermidades ou de acidentes a no ser aquelas 
advindas da medicina caseira ou dos charlates.

--As solues populares e as crendices

Como em pocas mais antigas da Histria da Humanidade, as camadas
mais pobres da populao tinham suas solues para doenas. Muitas delas 
eram multi-seculares, enriquecidas com a experiencia de certos ncleos 
populacionais mais adiantados, mas empobrecidas pela falta de registro de 
seus segredos. Benzeduras de um lado,
exorcismo e ritos misteriosos de outro, entremeados pelo uso de 
medicamentos extrados de produtos naturais, tudo isso fazia parte da 
medicina popular. A crena generalizada nas maldies e nos feitios, na 
existncia das doenas e das deformidades fsicas ou
mentais como indicios da ira de Deus, ou como resultado da atuao de 
maus espritos
e do prprio demonio, sob o comando direto de bruxas, era s vezes levada 
a extremos.
Acreditava-se, por exemplo, que a epilepsia era conseqencia de uma 
possesso instantanea por um espirito maligno e o remdio era o exorcismo 
por ritual ou pela tortura.
--O destino das pessoas deficientes na Idade Mdia

Durante toda a Idade Mdia e principalmente durante seus sculos mais
obscuros crianas que nasciam com seus membros disformes tinham pouca 
chance de
sobreviver, devido s crenas e s histrias fantsticas transmitidas 
pelas mulheres que
praticavam a funo de curiosas ou aparadeiras. Essas crianas cresciam 
separadas das
demais e eram ridicularizadas ou desprezadas. Os exemplos de anes e de 
corcundas
inseridos na sociedade medieval com certo destaque so significativos.

As supersties da poca medieval levavam a atribuir a essas pessoas 
poderes especiais para uma espcie de contra-ataque aos efeitos 
deletrios de feitios ou
de maldies, do mau-olhado e mesmo das pragas e das epidemias. Com o 
tempo, essas
pessoas disformes foram sendo objeto da diverso das grandes moradas e 
dos castelos
dos nobres senhores feudais e seus vassalos, e mesmo das cortes de muitos 
reis, devido
 sua aparncia grotesca, aos seus trejeitos e tambm a uma propalada 
sabedoria de que
no dispunham. Esses tipos de pessoas deficientes--corcundas e anes--
comearam
aos poucos a ter livre acesso a todos os ambientes--traziam sorte e 
afastavam os demnios--podendo alguns inclusive participar de todas as 
conversas e falar o que bem entendessem, pois eram supostamente tolos, 
divertidos e inconseqentes.

Os famosos individuos deformados e por vezes repelentes, segundo os
historiadores, extravagantemente vestidos, temidos por serem 
manipuladores de situaes embaraosas e conhecedores de segredos 
delicados de alcova, chantagistas e confidentes de seus senhores, na 
maioria dos casos acabaram no passando de pessoas simplrias.

E a Histria do mundo conta-nos casos em que esses "bobos da corte"
cumpriam ordens criminosas de seus senhores, aos quais deviam servil 
obediencia. O bufo corcunda hindu conhecido por "Vidusala" (significa 
atrevido)  certamente um dos
primeiros a aparecer com destaque na literatura, pois logo nos primeiros 
sculos da Era
Crist ele aparece em trechos de dramas e mesmo em eventos da antiga 
sociedade da India.

--O significado das deficincias da Idade Mdia

Conforme verificamos anteriormente, por falta de conhecimentos mais
profundos quanto s doenas e suas causas, falta de educao generalizada 
e o receio do
desconhecido e do sobrenatural,ocorriana Idade Mdia uma verdadeira 
necessidade no
seio do povo e mesmo das classes mais abastadas, de dar aos males 
deformantes uma conotao diferente e misteriosa, muito mais diablica e 
vexatria do que em qualquer
outro sentido mais positivo.

O significado religioso ou sobrenatural das deformidades mais marcantes,
durante essa poca, pode ser perfeitamente notado em alguns quadros 
pintados durante
o seu transcorrer. Neles, tanto os espiritos malignos da hierarquia 
imaginria de Sat
quanto os seres lendrios e de comportamento malvolo e desumano so 
invariavelmente representados por seres com os rostos monstruosos, os ps 
deformados, as cabeas
enormes ou muito pequenas, as orelhas desproporcionais, o nariz aquilino 
muito comprido, corcundas, membros retorcidos . . . E apesar dos esforos 
eventuais dos grupos
religiosos -- e mesmo da prpria doutrina crist--o povo em geral 
acreditava que um
corpo deformado somente poderia abrigar uma mente tambm deformada. Caso 
contrrio certamente no teria havido necessidade das autoridades da 
Igreja Catlica, por meio
dos preceitos canonicos, justificar a no aceitao de pessoas com 
deficincias ao sacerdcio com estas palavras que bem mostram a atitude 
imperante, ou seja, o reverso da
medalha: . . . "essas restries ao sacerdcio davam-se para beneficio da 
Igreja e no por
considerar as pessoas como manchadas ou indignas" (Apud Thomassin). (*)

Dentro desse ambiente e devido ao fato de no poder contar com meios
para garantir sua sobrevivncia de maneira digna, restou ao portador de 
defeitos fsicos
ou sensoriais a posio de elemento marginalizado e o recurso  esmola 
diria, sistemtica, para com isso ganhar seu sustento. Pelas estradas e 
caminhos mais importantes da
Europa Medieval, por onde passavam de quando em quando nobres cortejos e 
os bem
ajaezados cavaleiros e cruzados, sujos e por vezes asquerosos seres 
humanos, com seus
membros deformados ou suas feridas  mostra, defendiam-se como podiam 
para garantir
seu infeliz sustento. Chegaram a organizar-se em verdadeiras redes para 
angariao de esmolas e de donativos.

De seu lado, a populao ligada aos vassalos e seus senhores, aos reis e 

nobreza toda, bem como os comerciantes e homens enriquecidos pela sorte 
ou pela
aventura--e mesmo o povo mais simples--todos temerosos dos invisiveis e 
fantasiosos
poderes malignos que esses seres deformados poderiam ter, faziam de tudo 
para os afastar, mantendo-os longe de si em todas as ocasies e por vezes 
at pagando por isso com
comida ou com esmolas.

--Os privilgios para cegos durante a Idade Mdia

2.
Sob diversos aspectos a situao era bem diferente para os cegos, 
principalmente para aqueles que viviam na Frana durante o sculo XIII, 
por exemplo. J ao
final do sculo XI e inicio do sculo XII, em Rouen, em Chlons e perto 
da cidade de
Orlans, havia abrigos que aceitavam os cegos mais pobres. Tambm na 
cidade de Chartres havia um recurso para atendimento aos cegos. Era uma 
verdadeira comunidade criada por Renaud Barroult e conhecida como "Les 
Six-Vingts".

Sob o reinado de Lus IX (1214 a 1270), conhecido como So Lus de
Frana, foi criado um novo abrigo chamado "Hospice des Quinze-Vingts", 
por inicia
( *) Na verdade algumas dessas situaes no so de todo diferentes hoje. 
Se ns observarmos, por
exemplo, as ilustraes em historias de quadrinhos e sem dvida alguma 
muitos dos desenhos
animados apresentados em nossa televiso para entretenimento de nossos 
filhos alm de peas
teatrais e filmes, notaremos que algo de medieval e, no fundo, de muito 
cruel xiste em nossa
sociedade pretensamente crist e humanista. Bandidos, bruxas, gente 
perversa ou mesmo pervertida, por vezes so apresentados com seus corpos 
ou alguns de seus membros deformados.
Qual o motivo? Est ainda subjacente a crena de que um corpo defeituoso 
apenas pode abrigar
um espirito malvolo? Ou ser para ir condicionando nossas crianas e 
nossa sociedade ao repdio do mal, ligando o s idias de deformidade? . 
.
tiva direta do rei no ano de 1260. Sua criao chegou a beneficiar 
fortemente uma confraria pobre de cegos cujos membros,  falta de outro 
local, reuniam-se no Bosque de
Garenne, em Paris. Quando o local foi descoberto pela coroa e pelo povo 
em geral, ficou conhecido pelo apelido de "Champovri", de uma corruptela 
para as palavras "Champ
des Pauvres" (Campo dos pobres).

Qual teria sido o interesse direto de Lus IX para dedicar tempo e 
dinheiro na criao de uma organizao dispendiosa s para cegos? Segundo 
consta, quando
Lus IX foi aprisionado pelos sarracenos durante sua primeira Cruzada, 
trezentos de seus
soldados tiveram seus olhos vazados pelos inimigos, por ordem direta do 
sulto,  base
de vinte por dia durante quinze dias, enquanto aguardava os resultados da 
demorada negociao para pagamento do pesado resgate exigido para 
libertao do rei da Frana.
Quando de sua volta So Lus dedicou-se com seriedade e muito empenho ao 
problema
do abrigo dos cegos e mandou construir a famosa entidade para dar 
assistncia de morada e alimentao pelos menos a 300 cegos.

Entretanto, o incidente alegado para justificar o interesse de Lus IX 
nos
cegos no  confirmado por vrios de seus bigrafos.

O rei foi muito atacado ainda durante sua vida por ter dedicado tanto 
esforo oficial aos cegos. Rutebeuf, trovador e satirista francs do 
sculo XIII, cantava
ironicamente pelas ruas de Paris: "Eu no sei porque o rei juntou 
trezentos cegos em
uma casa, s para eles sairem s ruas de Paris, o dia inteiro, pedindo 
esmolas incessantemente. Eles do encontres uns com os outros, 
machucando-se, pois, no h nenhum
deles que os lidere" (Apud French).

Entre os reinados de Lus IX e LuiS XVI os cegos emanciparam-se e 
receberam privilgios tanto de reis quanto de bispos da Igreja Catlica, 
chegando mesmo a
acumular riquezas enormes e a vestir-se de veludo, um dos tecidos mais 
dispendiosos
da poca.

A Igreja ajudou significativamente dando-lhes permisso expressa e 
exclusiva para esmolar nas escadarias e nas portas das igrejas. Tinham 
tambm autorizao
eventual para vender grinaldas e flores dentro de suas naves.

No  dificil imaginar que idias de emancipao dos cegos nesses 500
anos da Histria Francesa fossem tidas como uma espcie de questionamento 
da autoridade da poderosa Igreja Crist, ou talvez um sacrilgio. Os 
primeiros bispos que deram
as famosas autorizaes exclusivas tanto para mendigar nas portas das 
igrejas quanto
para comercializar flores foram o de Paris e o de Chartres. No foram 
autorizaes individuais, mas dirigidas s corporaes dos cegos.

A organizao dos cegos em corporaes, confrarias ou associaes no
ocorria apenas na Frana. No ano de 1337 surgia em Pdua, na Itlia, a 
Congregao de
Santa Maria dos Cegos. Uniam-se esses cegos sob a liderana de um mestre, 
observando
regras prprias e muito severas, por eles estabelecidas, como, por 
exemplo, a proibio
de dizer palavres e blasfmias . . .
-- Dois heris histricos com deficincia nos sculos XIII e XIV

Podemos destacar duas personagens histricas, uma na Europa e a outra
Africa, e ambas com deficincias fsicas srias. So elas:

Sundiata, um lder negro Mandingo que, aps ter conquistado Gana, no 
Oeste Africano, estabeleceu as bases de um novo e mais poderoso imprio 
Mandingo, ou seja, o
chamado "Imprio Mali", em pleno sculo XIII. Sundiata era um homem com 
ambas as pernas paralisadas, segundo depoimento de N'Kanza, alta 
funcionria da Organizao das Naes Unidas e ex-diretora do Centro das 
Naes Unidas para Assuntos
Humanitrios e Sociais de Viena.

Joo de Luxemburgo, tambm conhecido como Joo, o Cego, nascido em 1296, 
era
rei da Fomia, filho de Henrique VII. Joo de Luxemburgo ficou cego em 
1340, com
44 anos de idade, devido a um mal no identificado pelos mdicos de sua 
corte. Mes
mo cego, sempre imbudo de um vivo espirito aventuresco que o 
caracterizou fortemente at sua morte, continuou a participar de diversas 
campanhas militares, em muitas partes da Europa. Foi morto em plena 
batalha, em Crcy, no ano de 1346, lutando em prol de Felipe, rei da 
Frana.

-- Os hospitais face s pessoas deficientes nos sculos XIV e XV

Apesar dos tropeos sem fim e da heterogeneidade das situaes 
encontradias nos diversos pases europeus que se formavam com o 
gradativo esfacelamento
do sistema feudal, o atendimento mdico de um modo geral progredia--o que 
seguramente muito significou para pessoas que sofriam as conseqncias de 
males limitantes.
Dentre providencias marcantes no sentido de ampliar o atendimento nos 
hospitais existentes podemos citar aquela tomada por Carlos VI, da Frana 
(1368 a 1422). Assinou
uma ordem real estabelecendo uma coleta obrigatria em beneficio dos 
hospitais, por
ocasio dos casamentos. Essa coleta ajudou efetivamente na reduo dos 
custos tanto
dos hospitais quanto dos remdios, e na construo de alguns novos 
hospitais para dar
atendimento e abrigo a um maior nmero de doentes, de pobres sem famlia 
e sem condies de sobrevivncia e tambm de pessoas com deficiencias 
permanentes.

Uma outra iniciativa interessante ocorreu na Espanha. A rainha Isabella, 
a
Catlica (1451 a 1504), mandou montar verdadeiros hospitais em 
localidades prximas
s frentes de combate. Eram hospitais transitrios e foram quase que 
institucionalizados
desde ento, pois foram considerados como muito teis para o atendimento 
imediato e
a conseqente salvao de vidas em grave perigo. Durante o cerco de 
Mlaga--talvez a
primeira experincia desses hospitais de campanha--receberam o nome de 
"ambulancias".

Uma observao final quanto aos hospitais existentes na Idade Mdia: 
Segundo diversos autores, eles existiam mais para o cuidado do que para a 
cura das pes221

soas; menos para alivio do corpo e de suas dores do que para assistncia 
da alma e sua
preparao, considerada indispensvel pelas religiosas que dentro deles 
trabalhavam, para a vida futura.

Na verdade, no havia na quase totalidade dos hospitais medievais 
qualquer conhecimento cientifico ou preparo tcnico, mas outros 
ingredientes, tais como o
amor ao prximo e a f na outra vida, na vida aps a morte.

Parece, todavia, que mdicos treinados em universidades, principalmente
as inglesas, eram muito mais comuns de se encontrar nos hospitais da 
poca do que se
poderia supor. Dessa forma podemos tambm imaginar que, apesar dos 
relatos transmitidos pelos historiadores menos avisados, todos os 
pacientes internados em hospitais europeus de certa qualidade, seja por 
doena, seja por pobreza atroz, seja por deficiencias
muito graves, recebiam mais cuidado profissional do que o imaginado.

De outra parte pode-se tambm afirmar que ao final da Idade Mdia as
sociedades existentes na Europa deram seus primeiros passos no sentido do 
reconhecimento de sua responsabilidade face aos pobres em geral. 
Inseridos no contexto estavam
todos aqueles que eram, alm de pobres, deficientes e impossibilitados de 
se sustentar.

No final do sculo XV os problemas especficos das pessoas deficientes
ainda no eram nem entendidos nem atendidos com propriedade, uma vez que 
faziam
essas pessoas parte de um grupo bem maior e de uma problemtica mais 
sria ainda, ou
seja, aquela representada pelos pobres, pelos enfermos, pelos mendigos. 
Ela marcou e
chegou mesmo a caracterizar os ambientes das cidades e dos campos 
europeus do final
da Idade Mdia.

Na penosa histria do homem portador de deficincia comeava a findar
uma longa e muito obscura etapa. Iniciava a humanidade mais esclarecida 
os tempos
conhecidos como "Renascimento"--poca dos primeiros direitos dos homens 
postos 
margem da sociedade, dos passos decisivos da medicina na rea de cirurgia 
ortopdica
e outras, do estabelecimento de uma filosofia humanista e mais voltada 
para o homem,
e tambm da sedimentao de atendimento mais cientfico ao ser humano em 
geral.
CAPITULO QUARTO
A PESSOA DEFICIENTE DO RENASCIMENTO AT O SCULO XIX
Todas as pessoas que estudaram um pouco de Histria Universal sabem
que entre os sculos XV e XVII ocorreu no mundo europeu cristo uma 
paulatina e
inquestionvel mudana, com o surgimento do chamado "esprito 
cientfico", e com o
parcial desmoronamento das concepes muito tradicionais de "natureza", 
muito afastadas que eram da realidade.

O que sucedia era que o homem estava vivendo num mundo difcil e repleto 
de problemas no qual os homens ligados ao poder espiritual taxavam muito 
do
que era "natural" e relacionado ao dia-a-dia--ou seja, bens e/ou 
comportamentos--como desprezvel, miservel, pecaminoso face ao destino 
imortal do homem, sua vida eterna e as idias de paraso, purgatrio e 
inferno. No entanto o homem, no fundo de seu
corao, no podia negar que achava bons, bonitos e agradveis essas 
coisas e esses comportamentos considerados como proibidos e pecaminosos.

Evidentemente que essa ambivalncia  multissecular, e dela alguns homens 
da Idade Mdia procuraram escapar sem ferir seus princpios e seu modo de 
viver
cristos das mais variadas maneiras.

Segundo sabemos, alguns utilizaram-se da pintura, outros da poesia ou
do canto, enquanto uns poucos procuraram derivativos na arquitetura. o 
fato  que o
aceno do paraiso como recompensa por uma vida mortificada, sacrificada e 
miservel,
e a contrapartida das ameaas do inferno e do castigo eterno, continuavam 
a deixar na
alma do homem medieval grandes e doloridas dvidas.

O mundo europeu foi sentindo de vrias maneiras que era necessrio 
alterar essa situao e dar um corajoso mergulho na direo da luz, da 
cultura, das coisas
novas e desconhecidas e--por que no?--tambm das coisas tidas como 
proibidas.

H um versinho popular do sculo XII que expressa muito bem esse forte
conflito vivido pela humanidade e que diz:

"Vita mundi, res morbosa,
Magis fragilis quam rosa;
Cum sis tota lacrimosa,
Cur est mihi gratiosa? . . . " (Apud Taylor)

Ou seja: Vida terrena, coisa doentia, mais frgil que a rosa; por que me
parece to graciosa, se s toda lacrimosa?

Conforme a incmoda situao do homem medieval ia sendo definida,
mesmo que por meio de modinhas ou versinhos populares de um latim tambm 
popular
um tanto universalizado, surgiam contos em verso ou em linguagem 
corrente, divulgados cada vez mais, no graas aos arautos que sempre se 
limitaram a ler aos berros as
ordens rgias ou as imposies dos senhores e dos governantes, mas graas 
 inveno
da imprensa, por Gutenberg.

Pensadores comearam a ser mais popularizados e a se impor. A cultura,
to confinada que era e to restrita a certas areas espeCiaiS do mundo 
feudal, foi sendo
espalhada por toda a Europa. E com ela chegou tambem a sede pela 
sabedoria dos clssicos gregos e latinos, muito famosos e praticamente 
esquecidos pelo povo, e que acabaram se transformando numa espcie de 
paixo dos estudiosos.

Alm disso tudo, outras alteraes caminhavam celeremente pela Europa
com a descoberta de novas terras no final do sculo XV e inicio do sculo 
XVI; com a
contnua chegada de sbios de Constantinopla, que no suportavam a 
presso dos turcos
invasores; com a proteo que reis e nobres davam aos artistas da poca. 
Esses fatos de
inegvel valor foram -- somados a muitos outros de menor e menos 
significativo vulto--os verdadeiros incentivadores da nova onda 
intelectual e cultural que, iniciada na
Itlia, passou logo para a Frana, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Holanda 
e alguns
outros pases.

Nomes famosos que antecederam imediatamente esse perodo foram os
de Dante, Bocaccio, Giotto e Petrarca. Durante essa importante onda de 
mudanas e de
progressos, depois universalmente aceita e batizada como "Renascena", 
nomes destacados e muito representativos foram os de Donatello, Ariosto, 
Machiavel, Leonardo da
Vinci, Michelangelo, Raffaelo, Calvino, Montaigne, Erasmo, Cervantes, 
Cames e muitos outros escultores, escritores, pintores, arquitetos, 
filsofos humanistas e homens voltados para a religio.

Nesse movimento novo e muito renovador, o reconhecimento do valor do
homem era a nota dominante--era o Humanismo que surgia e se fortificava. 
Por meio
dele, pelo menos no campo das idias, o homem se sentiria mais livre, 
menos oprimido,
mais valorizado, no mais um mero escravo dos poderes da Terra, nem mesmo 
preso 
crena de que tinha que fazer o bem para merecer o cu ou simplesmente 
para escapar s
torturas do inferno.

Revolucionrio sob muitos aspectos, esse novo modo de ser alteraria a 
vida do homem menos privilegiado tambm, ou seja, a imensa legio dos 
pobres, dos enfermos, enfim, dos marginalizados. E dentre eles, sempre e 
sem sombra de dvidas, os
portadores de problemas fisicos, sensoriais ou mentais.

A RenascenSa surgia no mundo para tirar o homem de uma era de trevas,
ignorancia e superstio, que foram os sculos da Idade Mdia.
--O problema dos hospitais e abrigos ao inicio da Renascena

Dentro desse contexto, ao analisarmos o desenvolvimento dos hospitais
e de muitos abrigos destinados a enfermos pobres ao se encerrar a Idade 
Mdia, verificamos que os cuidados prestados em muitos casos mostravam 
tambm sinais de um indisfarvel e novo modo de ver e de considerar o 
ser humano atingido por algum mal e
no apenas os resultados de novas tcnicas mdicas em experimentao ou 
em vias de
aperfeioamento. O cuidado para com as pessoas deficientes como um grupo 
especial e
sempre marginalizado, diferente da significativa massa atingida e marcada 
pela pobreza,
comeava a se definir em pontos isolados do mundo, surgindo por meio de 
providencias
bastante prticas.
Fato que no pode ser desmentido  que, apesar da baixa qualidade dos
servios, nos ltimos decnios da Idade Mdia a Europa estava 
praticamente coberta por
uma verdadeira rede--desarticulada,  verdade--de hospitais, casasde 
abrigo a doentes,
enfermarias em conventos e mosteiros e tambm de casas montadas para 
abrigar pessoas
necessitadas de tudo para poder sobreviver. Corresponde a uma verdade 
histrica e no
h exagero algum em assinalar o desenvolvimento dos hospitais e a 
gradativa humanizao das atenes para com os doentes ou pessoas 
deficientes, como um dos marcantes
feitos do final da Idade Mdia.

Tanto a proviso de servios individualizados quanto a indispensavel 
garantia e manuteno permanente de servios de sade para as cidades, na 
Europa, durante
os sculos XVI e XVII, firmaram-se e permaneceram como uma 
responsabilidade de cada comunidade e no do Estado como um todo. Os 
poderes comunais, as parquias, os
mosteiros e abadias que j acumulavam experincias das mais variadas 
naturezas, procuravam cuidar dos doentes agudos e crnicos, prestando-
lhes servios de ordem cada vez
mais eficiente. O cuidado mdico comeara a ser prestado atravs desses 
hospitais, em
geral por meio de mdicos contratados ou pagos pelo poder pblico local. 
No entanto,
quanto aos homens de maior posse e suas respectivas famlias, continuou a 
prevalecer o
costume de serem tratados em suas prprias casas, e nunca nos hospitais.

No sculo XVI foram dados alguns passos decisivos no atendimento de
pessoas portadoras de deficincias auditivas que at ento eram 
consideradas como ineducveis, quando no possuidas por maus espritos.

--Os problemas dos deficientes auditivos no sculo XVI

Com o aparecimento e fortalecimento de novas formas de ver o homem,
que vinham no prprio bojo do movimento renascentista, muitos esforos
comearam
a ser desenvolvidos para compreender os problemas vividos por seres 
humanos deixados
 margem da sociedade por milnios. Dentre esses esforos e movimentos 
destaquemos
os relacionados aos deficientes da audio e da palavra, ou seja, os 
surdos-mudos.

Na verdade a luta chamara a ateno j no final do sculo XV, com a 
publicao da obra "De Inventione Dialectica", de Rudolph Bauer (1433 a 
1485). Nessa
obra o autor faz meno a um surdo-mudo que se comunicava por escrito. No 
entanto,
foi apenas um sculo aps que Jernimo Cardan (1501 a 1576), mdico, 
matemtico,
astrlogo e, segundo alguns contemporneos, jogador e ardiloso egomanaco 
de origem
italiana surgiu no panorama, questionando um princpio defendido por 
Aristteles (o
pensamento  impossvel sem a palavra).

Cardan inventou um cdigo para ensinar os surdos a ler e escrever, 
semelhana do futuro cdigo de escrita e leitura Braille para os cegos 
que surgiria apenas no sculo XIX. Foi Cardan quem influenciou as idias 
do monge beneditino espanhol Pedro Ponce de Lon (1520 a 1584), muito 
dedicado  educao dos deficientes
auditivos e que nunca escreveu sobre seu mtodo de trabalho.
228

Ainda no sculo XVI o mdico francs Laurent Joubert (1529 a 1582)
inseriu todo um captulo sobre o ensino de surdos-mudos em sua obra 
"Erros Populares
relativos  Medicina e ao Regime de Sade". Defendia um outro principio 
de Aristteles (o homem  um animal social com habilidade para se 
comunicar com os outros homens). Desse ponto ele partiu para desenvolver 
todos os postulados que defendia: a habilidade existia em toda e qualquer 
criana, mesmo nas nascidas surdas ou que mais tarde viriam se tornar 
surdas. O mestre dessas crianas deveria agir com paciencia e cuidado, 
pois da mesma forma como uma criana aprende uma lngua estrangeira 
poder
aprender a se comunicar em seu prprio ambiente se ela for surda. Devia o 
mestre comear por palavras simples e pequenas, reforando sempre as 
expresses faciais. E acrescentava sua enftica opinio: a criana com 
deficiencia auditiva aprenderia a falar mesmo
sem se ouvir, desde que ensinada com pacincia (Apud Mullett).

--A pintura renascentista e as pessoas com deficincias

Muitos pintores do conhecido Periodo Renascentista retrataram em suas
obras cenas em que aparecem pessoas portadoras dos mais variados males 
incapacitantes.
Alguns dos quadros mostram-nos com clareza a situao de miserabilidade 
em que viviam; outros ressaltam cenas que deixam patente a inadequacidade 
de atitudes; e vrios
outros so retratos encomendados.

Alguns exemplos sero aqui citados para propiciar ao leitor mais curioso
algumas indicaes caso deseje aprofundar-se no assunto.

a) Anes retratados individualmente ou inseridos em grupos

"Retrato da familia da Marqueza de Mtua", de Mantegna (1431 a 1506); "O 
Ano
de Felipe IV", "Retrato de Dom Antnio, o Ingls" e "Menino de Vallecas", 
de Velazques (1599 a 1660); "Conde Toms Alveo e sua mulher", de Rubens 
(1577 a 1640);
"O Ano de Carlos V" e "Retrato do Bufo Pjron", de Moro (1512 a 1578).

b) Anes inseridos em cenas variadas

"Os Anes",deJohann Van Kessel (1626 a 1679); "Cilene como a Bacante", de
Rubens (1577 a 1640); "A Ceia na Casa dos Fariseus", de Moretto da 
Brescia (1490
a 1555); "Npcias de Can", de Paulo Veronese (1528 a 1588); "Estudo 
sobre
Anes", de Tiepolo ( 1693 a 1770).

c) Pessoas com deficincias fsicas ou sensoriais

No tocante a deficincias fisicas, um dos pintores mais clebres da 
Renascena, Rafaello (1483 a 1520), desenhou uma interessante gravura que 
se encontra no Museu
de South Kensington. Ela nos mostra um homem paralitico na porta de um 
templo,
perto de So Pedro e de So Joo em seu trabalho de assistencia a 
enfermos.

Fra Angelico (1387 a 1455), do Periodo Pr-Renascentista, sempre devotado 
 arte
sacra,  autor de um quadro muito famoso que se encontra na Capela de 
Nicolau V,
no Vaticano, intitulado "So Loureno distribui bens aos pobres". Nele 
aparecem diversas pessoas com deficiencias: um amputado bilateral das 
pernas usando apoios para
as mos e um cego usando um longo basto. Ambos levam grandes sacolas 
destinadas
s esmolas angariadas, como era costumeiro.

Outros quadros relevantes que conhecemos e que podem ser melhor estudados 
so os seguintes:

"Parfibola dos Cegos", que retrata uma cena em que vrios cegos Vo 
caindo numa valeta.  de autoria de Pieter Bruegel (1530 a 1569).

"Combate entre o Carnaval e a Quaresma" do mesmo pintor. Nele so 
retratados diversas figuras com deficiencias fsicas, inclusive um 
amputado da perna direita com
guizos na perna esquerda.

"O Tocador de Alade", de Georges La Tour (1593 a 1652), no qual o pintor 
retrata
um tocador de alade cego.

"A Briga dos Mendigos", do mesmo pintor e no qual podemos ver o mesmo 
tocador
de alade do quadro anterior numa violenta briga com outros mendigos.

"So Pedro cura os enfermos com sua sombra", de autoria de Masaccio (1401 
a
1428), tambm do perodo que antecedeu a Renascena nas artes. O pintor 
retrata
em sua obra duas pessoas deficientes e seus aparelhos para locomoo ao 
lado esquerdo do quadro.

"O P Aleijado", quadro de Ribera, pintado em 1642 e exposto no Museu do 
Louvre,
em Paris. Mostra um sorridente jovem com seu p direito e sua mo direita 
com evidentes deformaes.

"Os Cegos de Jeric", de autoria de Nicolas Poussin e pintado no ano de 
1651, no
qual aparecem dois cegos sendo curados por Jesus.

"A Fonte da Juventude", pintado por Lucas Cranach, o Velho, em 1546, 
mostra-nos
com clareza alguns meios de transporte de pessoas deficientes.

-- Ambroise Par: os primeiros passos da futura "ortopedia"

Foi nos meados do sculo XVI que a luta pelo estabelecimento de uma
especialidade mdica que tratava de ossos se iniciou. Nessa luta Ambroise 
Par (1510 a
1590), dono de notvel experiencia, teve um papel relevante.

Par comeou a preparar-se para a medicina com um barbeiro de Angers e
continuou em Paris com um barbeiro-cirurgio, homem evidentemente mais 
experimentado. Logo que sentiu ter adquirido experincia suficiente 
procurou emprego no hospital de atendimento geral da populao 
parisiense, ou seja, o Htel Dieu e l permaneceu
trabalhando como auxiliar durante trs anos. Engajado como cirurgio no 
exrcito do
Marechal Montejan, introduziu muitas inovaes, das quais duas so mais 
relevantes
no tratamento de ferimentos por projteis que no sculo XVI provocavam 
muitas mortes. Quando no ocorria o bito ocorria em geral um acervo de 
seqelas que podiam levar a deficincias fisicas. Esses tipos de 
ferimentos eram tidos como "queimaduras envenenadas".

O tratamento original consistia na aplicao de azeite fervendo para sua
desinfeco e cicatrizao. Caso ocorresse a necessidade de amputao do 
membro atingido, o estancamento do sangue demandava o uso de ferro em 
brasa.
Por ver-se em certa ocasio em dificuldades por no haver "azeite 
fervendo"  sua disposio, Par teve oportunidade de observar seus 
pacientes passando muito
melhor. Experimentou a ligao das artrias e vasos, prtica que havia 
sido abandonada e
quase que esquecida pelos poucos mdicos que faziam cirurgia naquele 
sculo. Nas muitas amputaes de membros que fez, Par teve oportunidade 
de tentar tambm o uso
de retalhos da pele do doente, junto ao coto, para recobrir a superficie 
da amputao.

Sempre lutando pela melhoria das condies de seus pacientes com
seqelas de problemas ortopdicos, de amputaes ou mesmo de males 
neurolgicos,
Ambroise Par chegou a propor o uso de coletes reforados com tiras de 
ao para problemas ocasionados pelos desvios da coluna vertebral, botas 
especiais para ps tortos,
dentre vrios outros aparelhos. Acresce tambm lembrar que Par foi o 
cirurgio que
lanou a expresso "Bec de Livre" (entre ns "lbio leporino") e chegou 
a preparar
obturaes palatais para perfuraes traumticas,de ordem sifilitica ou 
congnita. Usava igualmente obturadores para defeitos causados pelas 
armas de fogo.

--Antonio de Cabezn: compositor cego

Um dos maiores e mais conceituados compositores de msica para rgo
da Espanha, Cabezn nasceu em Castrillo de Matajudos no dia 30 de maro 
de 1500 e
morreu em Madri no ano de 1566. Cego desde a primeira infancia, conseguiu 
a custo superar todas as dificuldades que se lhe interpunham e em 1521 
conseguiu iniciar seus estudos em Palencia. Alguns anos aps, j com 26 
anos de idade, foi designado organista e
clavicordista da Rainha Isabel da Espanha, tal a sua competencia na 
execuo da msica
sacra nesses dois instrumentos.

Em 1548 passou a prestar servios semelhantes ao prprio rei da Espanha
Felipe ll. Viajou com a Capela Real da Espanha para a Itlia, Alemanha, 
Holanda e Inglaterra, tendo obtido um sucesso enorme e feito muitos 
amigos e admiradores.

Foi um verdadeiro mestre da polifonia e influenciou decisivamente vrios
organistas de seu tempo, inclusive o famoso Thomas Preston, da Capela de 
Windsor, na
Inglaterra, seu contemporaneo.

--Goetz von Berlichingen, o "Mo de Ferro"

So poucas as referncias histricas a membros artificiais durante a 
Idade
Mdia e primeiros tempos da Renascena. Uma delas diz respeito a uma 
prtese parcialmente funcional que foi utilizada durante muitos anos por 
uma figura um tanto fora de
moda em sua prpria poca--inicio e meados do sculo XVI--durante a qual 
boa parte
do mundo no estava mais preocupada com valores predominantes na Idade 
Mdia, mas
estava francamente  busca de um modo de viver mais humano.

Trata-se de um famoso cavaleiro alemo apelidado de "Mo de Ferro",
ou seja, Goetz von Berlichingen, nascido em 1480 e morto em 1562. Viveu 
ele numa regio da Europa que procurava manter um sistema feudal 
absolutamente decadente e
uma cavalaria em extino, muito embora como cavaleiro lutador tenha sido 
muito valoroso e til para seus senhores.
O apelido de "Mo de Ferro" deve-se ao fato de Goetz ter recebido uma
profunda ferida na mo direita durante o cerco de Landshut. Complicaes 
que se seguiram ao acidente ocorrido durante a sangrenta luta levaram  
necessidade de amputao
de sua mo. Estava ento com menos de 30 anos de idade.

Logo aps sua recuperao tomou todas as providncias com pessoas 
entendidas no assunto e principalmente com armeiros para a fabricao de 
uma mo de
metal que mais tarde o imortalizaria. Ela foi to bem planejada que podia 
ligar-se com
absoluta segurana e firmeza ao seu antebrao e tinha a caracterstica 
principal de poder
manter sua espada firmemente presa em posio de ataque ou defesa.

Por muitos anos mais Goetz envolveu-se em campanhas militares e 
escaramuas, tornando-se quase lendrio. Casou-se duas vezes e teve 
diversos filhos. Foi sem
dvida um dos ltimos cavaleiros medievais e da incipiente Renascena de 
soberbo renome. No terminou seus dias sem antes escrever sua biografia, 
intitulada: "Vie de Gotz
von Berlichingen, dit Main de Fer".

--O problema da mendicancia organizada nos sculos XVI e XVll

Muito embora a teoria do humanismo renascentista procurasse valorizar o
homem, na prtica as situaes de vida continuavam muito abaixo do mnimo 
aceitvel.
A necessidade de sobrevivencia continuava levando muitos a recorrer no 
apenas  esmola como a expedientes menos honestos, como o furto e o dolo. 
Os mais geis e menos escrupulosos chegavam a tirar vantagens muito 
acentadas, ao passo que os doentes e os
deficientes socorriam-se apenas das esmolas e muito sofriam com a desleal 
concorrncia
dos falsos mendigos e falsos doentes.

Havia para todos a obrigatoriedade estabelecida pelo imenso grupo dos
mendigos de se vincular a organizaes ou a confrarias de miserveis, 
pagando taxas
pr-estabelecidas.

Houve pocas, na Histria da Europa, em que a esmola pblica foi 
explorada dentro de uma forte organizao na qual a figura do doente 
crnico e do deficiente
fsico teve um relevante papel. Podemos verificar a veracidade dessa 
afirmao pelo relato objetivo de historiadores.

--A grande malha organizacional dos miserveis na Frana

Liderados por um personagem conhecido pelo ttulo misterioso de "Grand
Coesre", muitos grupos de mendigos (falsos e autnticos, reuniam-se em 
grandes confrarias em diversos pases europeus, no correr dos sculos XVI 
e XVll. Reuniam nelas malfeitores, ladres, bandidos, assaltantes de 
estrada, alguns tipos de artistas e integrantes
do mundo bomio, alm dos pobres autnticos.

Paul Lacroix (1806 a 1884), literato e erudito francs, autor de 
importante srie de obras sobre usos e costumes da Idade Mdia e da 
Renascena, apresenta-nos pormenores muito interessantes sobre os 
mendigos e miserveis.  ele que nos informa que na Frana existia a 
Ordem de Argot que congregava diversos tipos de indigentes. Eles usavam 
um linguajar muito seu, repleto de grias exclusivas e matreiras, 
conhecido pelo nome de "le jargon".

Dentre esses grupos que mantinham identificao prpria, nos quais 
estavam invariavelmente inseridos pobres com deficincias evidentes,  
importante destacar
alguns, tais como:

-- os "Orphelins"--mendigavam chorando pelas ruas das cidades;

-- os "Marcandiers"--errantes, andavam vestidos com um gibo velho mas de 
qualidade, fazendo-se passar por comerciantes arruinados;

--los "Malingreux"--cobertos de andrajos, mostravam suas feridas e chagas 
(falsas muitas vezes) e pediam dinheiro para uma pretendida viagem de 
peregrinao a um templo milagroso para sua cura;

--los "Pitres"-- mendigos com deficincias fsicas, locomoviam-se com 
muletas ou
pequenos aparatos para as mos e joelhos;

- os "Sabouleux"--pedintes em feiras, mercados e igrejas, simulavam 
ataques e convulses, espumando pela boca graas a um pequeno pedao de 
sabo, rolando pelo
cho e conseguindo polpudas esmolas.

Havia tambm outros grupos de mendigos filiados e especializados em seu
modo de se apresentar ou de atuar em determinados ambientes para 
angariao de esmolas em dinheiro ou em espcie: "Callots", 
"Coquillards", "Hubins", "Polissons", "Francs
Mitoux", "Ruffs", "Millards", "Convertis", "Narquois" e muitos outros.

Em Paris todos eles pagavam uma taxa fixa por ano ao rei dos mendigos,
o "Grand Coesre", enquanto que nas maiores cidades da Frana havia seus 
lugares-tenentes, conhecidos pelo ttulo generalizado de "Cagoux", que 
coletavam as taxas, alm de
serem os responsveis diretos pelo treinamento dos novos mendigos quanto 
 apresentao, aos apelos ao pblico e  linguagem da Confraria.

Esses grupos reuniam-se diariamente, comiam, bebiam, inteiravam-se das
novidades e divertiam-se um tanto grotescamente naqueles famosos e 
comentados "Ptios dos Milagres" ("Cours des Miracles"), que eram 
logradouros mal iluminados e infectos da mais triste memria. A noitinha 
aos poucos iam aparecendo os mais variados
tipos de verdadeiros e de falsos mendigos: amputados, paralticos, cegos, 
epilticos--cada qual trazendo em seus alforges ou debaixo dos braos 
algum alimento ou bebida. L
muitos abandonavam suas muletas ou bengalas, transformando-se em pessoas 
bem dispostas que danavam todo tipo de msica e que bebiam  vontade, 
fartando-se sem a
mnima preocupao com eventuais dificuldades no dia seguinte. Sua 
diretriz maior era
alimentar-se e divertir-se no Ptio dos Milagres "ni foi ni loi" (sem f 
nem lei).

Embora a Frana no fosse a nica nao europia a viver esse problema,
ela tomou uma providncia que iniciou os primeiros passos no sentido do 
equacionamento do "modus vivendi" dos miserveis daqueles sculos: foi 
organizado o "Grand
Bureau des Pauvres".
--O problema da mendicancia organizada em outros pases

A Espanha, a Itlia, a Inglaterra, a Alemanha e todo o resto da Europa 
viviam situaes quase que inteiramente semelhantes durante diversos 
sculos e que, devido ao alheiamento da nobreza, da burguesia e dos 
governantes, muito demoraram para
ser sanadas.

A Itlia, por exemplo, tinha os seus mendigos e indigentes (conhecidos
pelo apelido de "Bianti" e tambm de "Ceretani") subdivididos em mais de 
quarenta
grupos reunidos numa s organizao.

Dentre eles cumpre destacar os "Affrati" (vestidos com hbitos 
sacerdotais, roubavam as esmolas das igrejas e santurios), os "Accatosi" 
(pareciam cativos recm-libertos, com restos de algemas nos punhos e nos 
tornozelos), os "Allacrimanti"
(apresentavam-se chorando muito suas desgraas), e mais, os "Morghigeri", 
os "Felsi",
os "Vergognosi" e muitos mais (Apud Lacroix).

Dentre os que obtinham mais e melhores esmolas sempre estavam os
mendigos com deficincias fsicas mais srias ou que mais tocavam a 
populao.

--Deficientes mentais no sculo XVI: entidades no-humanas

At o sculo XVI as crianas com retardo mental profundo eram 
consideradas em certos meios como entidades que se assemelhavam a seres 
humanos, mas que
no o eram. Havia a crena generalizada principalmente entre alguns 
religiosos que essas
crianas ocupavam o lugar e chegavam a substituir mesmo crianas normais, 
atravs da
atuao e interferncia diretas de maus espritos, de bruxas ou de fadas 
maldosas e de
duendes demonacos.

E  surpreendente verificar que mesmo intelectuais do mais alto nivel
acreditavam sem qualquer sombra de dvida nesses postulados. Exemplo dos 
mais marcantes foi o de Martinho Lutero que negou a prpria natureza 
humana de uma criana
com retardo mental de alguma seriedade. Eis o que Martinho Lutero relatou 
a respeito
desse caso:

"H oito anos atrs havia em Dassau uma dessas crianas que eu, Martinho 
Lutero, vi e
examinei. Tinha doze anos de idade, usava seus olhos e todos os seus 
sentidos de tal maneira que a gente poderia pensar que era uma criana 
normal. Mas ela s sabia fartar-se
tanto quanto quatro lavradores. Ela comia, defecava e babava e se algum 
tentasse segur-la, ela gritava. Se alguma coisa ruim acontecia, ela 
chorava. Assim, eu disse ao prncipe de Anhalt: se eu fosse o prncipe, 
eu levaria essa criana ao rio Malda, que passa perto
de Dassau e a afogaria. Mas o prncipe de Anhalt e o prncipe da Saxnia, 
que estavam
presenteS, recusaram-se a seguir meus conselhos. Eu disse, ento: Bem, 
ento os cristos
rezaro o Pai Nosso nas igrejas e pediro que Deus leve o demnio embora. 
E assim foi
feito diariamente em Dassau, e o retardado morreu um ano depois".

Lutero chegou a afirmar que estava convencido de que aquele retardado
de doze anos de idade era apenas massa de carne ("massa carnis") sem 
alma. "O demnio possui esses retardados e fica onde suas almas deveriam 
estar" (Apud Wolfensberger).

--A "Lei dos Pobres" e as pessoas deficientes na Inglaterra

Passos muito importantes foram dados durante os sculos XVI e XVII na
Inglaterra quanto ao atendimento a alguns grupos especiais de pessoas 
incluidas num
grupo muito maior: o dos miserveis. Com o esfacelamento do regime feudal 
e a posterior dissoluo dos conventos, mosteiros e abadias, por expressa 
determinao do rei
Henrique VIII (1491 a 1547), logo aps seus desentendimentos com o 
Vaticano, todos
os religiosos foram expulsos da Inglaterra. Houve uma parcial paralisao 
e mesmo destruio do sistema de abrigo e de tratamento de doentes, bem 
como de assistncia vigente e organizado pelo catolicismo sob a forma de 
caridade. A maioria desses edificios
religiosos foi sendo ocupada e utilizada para outros fins.

Entre essa poca (1536 a 1539 aproximadamente) e o sculo XVII poucos 
estabelecimentos hospitalares foram criados no Reino Britanico. Durante 
esses sculos da Renascena muitos hospitais no sofreram alteraes 
substanciais na Inglaterra, uma vez que continuaram com suas 
caracteristicas bsicas de abrigo ou de mero asilo para doentes at a sua 
morte, ou tambm para deficientes fsicos sem condies de
sobrevivncia e mesmo para velhos abandonados. O pauperismo na Inglaterra 
agravou-se
com o fechamento dos mosteiros e abadias.

A deteriorao das condies de vida das populaes mais pobres, dos
enfermos e dos doentes ou deficientes em geral levou o prprio Henrique 
VIII a promulgar a primeira "Lei dos Pobres", pela qual todos os sditos 
eram obrigados a recolher o
que foi chamado de "taxa da caridade".

As famosas "Leis dos Pobres" da Inglaterra comearam a ser aplicadas na
prtica apenas no ano de 1531, pois foi exatamente nesse ano que surgiu 
um primeiro
ato oficial, autorizando juizes a dar licenas para velhos abandonados e 
para pessoas portadoras de defeitos fsicos srios pedir esmolas, mas 
apenas em suas prprias comunidades ou, no mximo, em reas 
circunvizinhas.

O problema dos pobres passou a ficar to srio na Inglaterra que em 1535
iniciaram-se discusses gerais para encontrar solues aos seus mltiplos 
aspectos, sendo
uma delas a inserSo dos pobres "sem deficincia fisica" em trabalhos que 
eram pagos
pela Coroa Inglesa.

No ano seguinte a presso continuava a mesma, seno maior do que antes, 
de tal forma que fundos privados foram organizados para de certa maneira 
forar a
participao do povo na soluo do problema. A contribuio para a 
necessria ajuda
aos pobres passou a ser, ento, uma obrigao social em toda a 
Inglaterra. Essa contribuio, estabelecida no ano de 1576, levou ao 
desaparecimento do carter voluntrio daquela anteriormente existente.

Mesmo antes dessa contribuio decorrente de uma determinao legal,
porm, a Inqlaterra j vinha estudando as mirades de ngulos da questo 
da pobreza e
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montava instituies em diversos centros urbanos dos mais pujantes, para 
o atendimento separado dos pobres devido a incapacidades fsicas ou 
mentais e pobres devido a circunstncias de vida, tais como acidentes e 
doenas. Estavam includos nessas consideraes os pobres por mero 
desleixo ou por falta de condies para a necessria auto-suficincia.

--O atendimento s crianas deficientes na Inglaterra: sculo XVI

As crianas inglesas abandonadas, doentes ou portadoras de males 
incapacitantes comearam ento a ser assistidas por organismos vinculados 
 Coroa Britanica e
tambm por iniciativa das comunidades que procuravam manter seus esquemas 
com alguns objetivos mais ou menos bem definidos e que por vezes chegam a 
surpreender-nos
em pleno sculo XX, pois j no sculo XVI incluiam, pelo menos na teoria 
ou nos seus
postulados, o seguinte:

-- a obteno de trabalho para essas crianas ao chegarem  idade 
requerida para uma
atuao rentvel;

-- a definio de alguma proteo para elas fora dos orfanatos e dos 
abrigos provisrios,
ficando aos cuidados de famlias que delas se dispusessem a cuidar por 
baixo custo
para o governo ou para instituies privadas bem organizadas;

-- internao definitiva em orfanatos, caso nenhuma dessas duas 
alternativas chegasse a
se concretizar ou a se mostrar viveis.

--O "Grand Bureau des Pauvres" da Frana

No ano de 1544 foi fundado o "Grand Bureau des Pauvres" na Frana,
sob o reinado de Francisco I (1494 a 1547), um monarca seguidor de uma 
filosofia aparentemente humanista, alm de muito voltado para as 
inovaes da Renascena na Europa. O "Grand Bureau" era composto de 
burgueses ocupantes das mais importantes posies em Paris e ficou 
conhecido pelo apelido de "Aumne Gnrale" (Esmola Geral).
Com as contribuies que recolhia conseguia manter os hospitais da 
Trindade e das "Petites Maisons", atendendo a doentes pobres, incluindo 
aqueles com paralisias, amputaes, deformaes e cegueira. Organizaes 
semelhantes existiam em diversas importantes cidades francesas, dando 
alguma cobertura aos desamparados em geral quando em
situao de doena ou de impedimento continuo para ganhar a prpria vida.

--Classificao de indigentes na Frana no sculo XVI

Henrique II (1519 a 1559), rei da Frana, casado com Catarina de Mdicis, 
tomou a srio e resolveu prosseguir os esforos de Francisco I. Assinou 
um decreto
em 1547 atravs do qual imps aos parisienses uma coleta em favor dos 
indigentes.

Eles eram, quela poca, classificados em trs categorias principais:

"Robustes"--os que no eram doentes ou deficientes e podiam trabalhar

"Invalides"--com problema srio de invalidez, mas com domicilio
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"Invalides sans feu ni lieu"--deficientes sem abrigo nem domicilio.

A primeira categoria tinha direito a empregos sem dificuldades; a segunda
recebia ajuda em seu prprio domicilio; a terceira--a dos invlidos sem 
lar--era recolhida a um abrigo.

--Lus de Cames, o poeta pico portugus por excelncia

O "cavaleiro-fidalgo" Lus de Cames (1524 a 1580) engajou-se na vida
militar, servindo em Marrocos entre os anos de 1545 a 1548. Ali perdeu um 
de seus
olhos em escaramuas com os marroquinos. Pouco depois voltou a Lisboa e 
aos ambientes da corte. Tendo l chegado, a notria deficincia passou 
logo a ser motivo de algumas brincadeiras e zombarias por parte de uma 
jovem por quem Cames sentia forte
atrao. Segundo amigos mais prximos do poeta, ela se referira a ele 
como "cara sem
olhos".

Lus de Cames, em seus 25 anos, sentiu a agulhada do comentrio. Mas
acabou por transform-lo em um galanteio com o seguinte verso dirigido  
mimosa dama:

"Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu:
Pois cara sem olhos viu
Olhos que lhe custam caro.
De olhos no fao meno,
Pois quereis que olhos no sejam
Vendo-os, olhos sobejam,
No vos vendo, olhos no so" . . .

A deficiencia, que poderia ter arruinado a vida de um jovem galante, no
prejudicou nem a vida guerreira e aventuresca, nem a vida literria de 
Lus de Cames
que muitos anos mais tarde, aps infindveis viagens para Goa, Calabar, 
Meca, ndia,
China, Mlaca, ilhas de Malsia, Moambique e outros lugares, escreveu a 
epopia portuguesa que intitulou de "Os Lusadas".

--Pintor mudo decora El Escorial, na Espanha

Navarrette, conhecido pelo cognome de "El Mudo" foi pintor da Escola
Espanhola. Nasceu em 1526 em Logrorio e faleceu em Toledo em 1579. 
Recebeu lies
de Ticiano e com 42 anos de idade foi convidado pelo rei Felipe II (o 
mesmo rei que
tinha um organista cego) a decorar El Escorial. A incapacidade de falar 
no o inibiu em
seus mltiplos relacionamentos durante o empreendimento. Cita-se entre 
suas obras mais
famosas o quadro intitulado "So Joo Escrevendo o Apocalipse". Outra 
obra sua muito
conhecida  o quadro "Martirio de So Tiago, o Maior".

--Continua a epopia dos hospitais nos sculos XVI e XVI I

Ainda dentro do sculo XVI a situao dos hospitais continuava 
extremamente ruim nos pases do continente europeu, apesar dos muitos 
esforos feitos pelas
ordens religiosas. Havia enorme falta de higiene, negligncia e s vezes 
at crueldade por
parte de atendentes mal preparados. E foi nessa situao que surgiu no 
cenrio dos hospitais a figura de Camilo De Llis (1550 a 1614) que com 
25 anos de idade resolveu devotar-se a doentes hospitalizados. Trabalhou 
inicialmente com doentes crnicos internados no Hospital de So Tiago 
para Incurveis, em Roma.

Fundou uma congregao de religiosos para o servio hospitalar que 
preparava ministros para os enfermos, a fim de dar a requerida ateno ao 
corpo e  alma
do doente.

Ele mesmo foi mais tarde vitima de ulceraes malignas numa das pernas,
que o tornaram parcialmente deficiente at o final de sua vida. Os 
"Camilianos", como
passaram depois de muitos anos a ser reconhecidos, contribuiram muito, 
atravs dos vrios sculos de sua existncia, para a melhoria dos padres 
de atendimento nos hospitais
e nas casas de sade onde tiveram oportunidade de atuar.

Com raras e honrosas excees muitos hospitais da Alemanha e da Frana
comearam, j no sculo XVII, a passar gradativamente para o controle dos 
governos locais. Sob a firrne orientaao do cardeal frances Jules Mazarin 
(1602 a 1661), alguns esforos especiais foram coordenados pelo governo 
francs para colaborar na soluo ou
pelo menos na diminuio dos sofrimentos e das dificuldades vividas pelos 
mendigos e
pelos doentes pobres e incurveis, e no meio deles sempre inseridos por 
no terem outro
destino os deficientes fsicos e mentais.

Foram tambm criados na Frana, em 1656, os chamados Hospitais Gerais 
(Hopitaux Gnraux) que eram uma combinao de asilo e de hospital, mas 
bem
melhor organizados e onde os servios mdicos estavam sempre presentes e 
a medicao era melhor controlada e administrada. Foi nesses hospitais 
gerais da Frana que
pessoas deficientes foram tambm atendidas e passaram a ser objeto no s 
de abrigo
e alimentao, como de assistncia mdica.

--Galileo Galilei, matemtico, astrnomo e fsico

Nascido em Pisa no ano de 1564, Galileo foi o primeiro homem a usar
um telescpio. Aps anos de continuos e dedicados estudos, provou que a 
terra no
era o muitas vezes pretendido "centro do universo", e que ela girava em 
torno do sol.
Era uma teoria muito ousada para a poca da incipiente Renascena e 
principalmente
para as autoridades da Igreja Catlica. Face  gravidade das suas 
afirmaes que, no conceito de muitos iria atingir duramente a posio 
at ento assumida e defendida pela
Igreja e seus doutores, Galileo foi preso e formalmente acusado na 
Inquisio. Devidamente julgado, foi condenado a se desdizer e a passar 
seus ltimos oito anos de vida em
casa, sob custdia. No entanto, continuava a crer em sua teoria e morreu 
em 1642 balbuciando suas famosas ultimas palavras: "Eppur, si muove" (no 
entanto, ela se move . . .).

Galileo sofria de um problema reumtico srio e em conseqncia dele
acabou ficando cego nos ltimos quatro anos de sua vida. Continuou, 
todavia, estudan242

do e mantendo correspondncia cientifica, ditando seus trabalhos e suas 
cartas a dois de
seus alunos: Viviani e Torricelli.

No dia 4 de julho de 1637 o grande cientista escreveu uma carta a Donati, 
seu antigo companheiro, na qual se queixava: " . . . Encontro-me acamado 
h cinco
semanas . . . Acrescente-se, oh dor!, a perda total de meu olho direito 
que e aquele que
fez tantos tantos e tantos, seja-me licito dizer, trabalhos gloriosos! 
Ele est agora, meu
senhor, cego: o outro, que era e  imperfeito, mantm-se ainda sem o 
pouco uso que dele poderia fazer se o operasse, uma vez que um lacrimejar 
contnuo me tira a possibilidade
de fazer qualquer qualquer qualquer das funes que se espera da viso" 
(Apud Germani).

--O continuo problema dos soldados mutilados

No atendimento ao soldado doente ou mutilado devido a atividades 
relacionadas s lutas armadas ou em atividades afins, sabe-se que, por 
ordens diretas de Henrique IV, da Frana, que reinou entre 1589 e 1610, 
foi organizado na Maison de la Charit, em Paris, um abrigo para os 
soldados franceses de todos os niveis. Era uma das primeiras e notrias 
tentativas europias destinadas a dar cobertura de assistncia aos 
problemas daqueles homens que arriscavam sua integridade fisica e sua 
sade em beneficio
de sua terra, de sua gente e de seu rei.

--Os trabalhos com os deficientes auditivos no sculo XVII

As idias defendidas no correr do sculo XVI sobre os surdos e surdos-
mudos no eram na maioria dos casos passadas para a prtica e foi Juan 
Pablo Bonet
que deu os primeiros passos nesse sentido. Escreveu sua obra intitulada 
"Reduccin de
las Letras y Arte para Ensear a Ablar los Mudos", levantando questes a 
respeito das
causas das deficincias auditivas e dos problemas da comunicao oral. 
Chegou a indicar
qual a idade mais recomendvel para crianas mudas poderem se beneficiar 
do aprendizado para falar.

Concluiu que havia basicamente duas causas para o mutismo: a primeira
e mais importante era a surdez; a segunda era algum eventual defeito na 
lngua. Quanto
 melhor idade para a criana surda aprender, achava que seria entre 6 e 
8 anos, apesar
de reconhecer as dificuldades de fazer as crianas exercitar-se para 
tornar a lingua mais
gil para articular palavras: elev-la at o palato, entort-la, baix-
la, curv-la para a direita e para a esquerda, coloc-la para fora da 
boca em posies diversas, atrit-la ou rasp-la contra os dentes, enfim, 
todas as posies indispensveis para algum falar.

Alm disso Bonet condenava mtodos brutais de gritarias e de 
enclausuramento em caixas que provocavam ressonancia, defendendo sempre a 
necessidade de se
garantir a compreenso dos alunos quanto ao que deles se esperava. Achava 
que o mestre
e o aluno deviam ficar a ss e num ambiente bem iluminado porque a 
instruo exigia
toda a concentrao possivel e o aluno precisava tambm observar bem a 
boca de seu
mestre tanto do lado de fora quanto do lado de dentro.

Outro autor que marcou poca no sculo XVII no campo da surdez foi o
ingles John Bulwer (1600 a 1650), com sua obra intitulada "Philocophus" e 
que tinha
como sub-titulo elucidativo a pouco modesta inteno do autor: "O amigo 
dos homens
surdos e mudos mostrando a verdade filosofica da sutil arte que pode 
capacitar algum
com olhar observador a ouvir o que qualquer homem fala pelo movimento de 
seus lbios. Provando aparentemente que um homem nascido surdo e mudo 
pode ser ensinado
a ouvir o som das palavras com seu olhar e de aprender a falar sua 
lngua" Apud Mullett).

Bulwer foi um dos primeiros educadores que defendeu um mtodo de ensino 
da leitura labial, apesar de ter escrito tambm sobre a linguagem dos 
sinais.

H outros autores e educadores que atuaram com determinao e competncia 
nesse campo no correr do sculo XVII e dentre eles cumpre chamar a 
ateno para Kenelm Digby, John Wallis, William Holder, John Wilkins e 
Francis Mercury van
Helmont.

--Johannes Kepler, astrnomo alemo

Nascido em 1571 e falecido em 1630, Kepler desenvolveu importantes 
estudos sobre o movimentO dos planetas, que muito ajudaram na elaborao 
das bases modernas da astronomia.

O que poucos sabem, todavia,  que Kepler tinha uma sria deficincia 
visual, causada pelo sarampo contrado aos quatro anos de idade. As 
dificuldades causadas
pela severa reduo da acuidade visual, entretanto, no afetaram sua 
forte vontade de
aprender e de estudar. Apesar de pobre, superou os problemas e mil 
dificuldades que se
interpunham aos seus propsitos e trabalhou muito.

Kepler legou ao mundo trs leis bsicas da astronomia, conhecidas pelo
seu nome, das quais a mais popular  esta:

"As rbitas dos planetas so elipses, tendo o sol como um dos seus focos" 
. . .

--Padre Lejeune, maior pregador do sculo XVI I

Nascido em Poligny (Frana, o padre Jean Lejeune foi o mais clebre
pregador de seu sculo, segundo seus bigrafos. Perdeu a viso aos 43 
anos de idade
quando pregava durante a quaresma na cidade de Rouen.

Mas a cegueira no diminuiu sua competncia de grande orador nem sua
alegria sempre muito natural.

Lejeune morreu aos 80 anos de idade, muito ativo e muito vivaz, apesar
das doenas. A solidez de suas idias e o seu estilo levaram o prelado e 
ao mesmo tempo
grande pregador das cortes de Lus XIV e Lus XV, Massillon, a recomendar 
a muitos seminaristas e jovens sacerdotes o estudo de seus maravilhosos 
sermes publicados em dez
volumes sob o titulo de "Le Missionaire de l'Oratoire", entre 1662 e 
1676.

--Novas formas de utilizar os hospitais

A permanente luta para a criao de entidades hospitalares, ou pelo menos 
de organizaes destinadas ao atendimento de pessoas com problemas 
crnicos ou
gravemente incapacitadas para a vida independente, na poca da 
Renascena, refletia o
crescente papel que o Estado assumia para encontrar solues para 
problemas sociais e
econmicos de sua populao, ou tambm de algumas entidades privadas em 
muitos pases europeus.

Na Alemanha, por exemplo, a responsabilidade pela manuteno de 
hospitais, aps a reforma protestante, passou durante muitos anos para as 
mos das corporaes municipais.

Devido  precariedade de recursos para o aprendizado da medicina, alm
das dificuldades dos mdicos em adquirir experincia de ordem mais 
significativa na proximidade e mesmo convivio com colegas de profisso e 
de trabalho, uma importante e
muito auspiciosa tendncia comeou a surgir no sculo XVII: a de 
considerar os hospitais no mais como meros depsitos de doentes pobres e 
nos quais os mdicos quase
nem compareciam ou davam atendimento, mas como uma organizao destinada 
ao tratamento e  cura das pessoas doentes, com uma inegvel 
possibilidade de se tornarem
centros de estudos de casos e de treinamento prtico de estudantes de 
medicina.

A Holanda, liderando o ainda mal definido movimento, e reconhecendo
a necessidade de poder contar com mdicos melhor preparados, instalou no 
ano de
1626, na cidade de Leyden, o primeiro sistema de treinamento prtico e 
bem orientado
de mdicos nos hospitais, o que sem dvida acabou levando a medicina a 
prestar muito
maior ateno no apenas aos doentes vitimados por males curveis e 
comuns, mas tambm por males ainda pouco conhecidos que levavam  
permanente vinculao ao leito,
ou ainda a problemas incapacitantes do fsico e do mental.

--As deficincias fsicas em peas de Shakespeare

Nascido no ano de 1564 e morto em 1616, William Shakespeare foi o
maior poeta e dramaturgo ingls de todos os tempos. Tal  sua 
versatilidade que para
muitos ele d a impreSSo de ter formao mdica, devido  demonstrao 
que faz de
seus conhecimentos de anatomia, neurologia, fisiologia e outras reas 
afins, colocados
em diversas de suas peas. O volume de citaes que faz de males 
incapacitantes  bastante expressivo.

Em diversas de suas obras o leitor poder encontrar casos de fraturas 
graves, de mutilaes, de deformidades congnitas ou adquiridas.

Como todos sabem, Shakespeare escreveu peas imorredouras, tais como
Romeu e Julieta, Hamlet, Sonho de uma Noite de Vero, Rei Lear, Mcbeth e 
outras.
H diversas que so pouco conhecidas entre ns e que tm muita 
importancia em sua
imensa obra literria, e nas quais o genial escritor insere personagens 
com deficincias,
como em Ricardo III, Henrique IV, Henrique VI, Henrique VIII, Trilus e 
Crssida, a
Tempestade, Titus Andronicus, Pricles e Otelo.

Vejamos alguns exemplos ilustrativos, iniciando pela pea Titus 
Andronicus. Trata-se de uma tragdia de propores vastas. Um dos 
personagens, Lavnia, filha
de Titus, teve seus braos cortados e sua lngua decepada em dramticas 
circunstancias.
O autor explora muito bem o fato narrado e suas circunstancias, dando 
cores muito vivas a todas as cenas em que Lavnia aparece. Esse realce  
mais evidente na cena em que,
de certa forma imitando a lenda de Filomela, Lavnia consegue indicar os 
culpados pela sua situao, mesmo sem ter mos para escrever ou lngua 
para falar.

Na tragdia Otelo, o personagem Cssio  ferido traioeiramente na perna
pelo prfido lago e grita desesperado na escurido de uma rua cipriota:

--"Estou aleijado para sempre! Socorro! Assassino!", . .

Ao leitor no fica muito clara a extenso da leso, embora algumas frases 
dos dilogos que seguem sejam bem indicativas. Da boca de Cssio temos, 
por exemplo, estas duas frases:

- "lago? Oh! . . . Fui inutilizado, aniquilado por viles" . . .

--"Minha perna foi cortada em duas" . . .

J na tragdia Ricardo III, Shakespeare associa o defeito congnito com
maldade, perfdia, malcia, o que sucede tambm na pea Trilus e 
Crssida, com a indefinvel figura de Trsites. Ricardo III (rei que 
existiu de fato, mas certamente sem
muitas das aberraes alegadas por Shakespeare)  identificado na pea 
como "monto
de dio", "massa ignbil e disforme", "to disforme de maneiras quanto de 
corpo",
"rochedo fatal e disforme" e "sapo".

Essa pea  iniciada com um monlogo muito revelador desse rei 
controvertido a respeito de cuja figura histrica surgem muitas dvidas:

-- "Mas eu, que no fui talhado para habilidades esportivas nem para 
cortejar um espelho amoroso; que, grosseiramente feito e sem a majestade 
do amor para pavonear-se
diante de uma ninfa de lascivos meneios; eu, privado dessa bela 
preparao, desprovido
de todo encanto pelaprfidanatureza; disforme, inacabado, enviado por ela 
antes do
tempo para este mundo dos vivos; terminado pela metade e isso to 
imperfeitamente e
fora de moda que os ces ladram para mim quando paro perto deles; pois 
bem, eu, neste
tempo de serena e amolecedora paz, no acho delcia em passar o tempo, 
exceto espiar
minha sombra no sol e dissertar sobre a minha deformidade" (Apud Miller e 
Davis).

--A superao de deficincias no sculo XVII: um exemplo

Por toda a histria do homem na Terra certamente que esforos individuais 
de naturezas as mais variadas foram desenvolvidos para a eliminao dos 
bloqueios
e das muitas dificuldades causados por limitaes fsicas e sensoriais. 
Bengalas ou bastes de apoio, calados especiais, muletas, coletes, 
prteses, macas e camas mveis, cadeiras especiais, carros adaptados, 
liteiras e muitas outras idias devem ter surgido em
muitas ocasies. No entanto, por milenios, essas adaptaes e criaes 
no causaram
maior impacto sobre os homens detentores do poder ou do dinheiro, uma vez 
que o problema sempre foi considerado como puramente individual e no dos 
governantes.

Conforme percebemos at este ponto da existncia do homem, diversos
casos de pessoas portadoras de deficincias foram at passados para a 
imortalidade da
Histria. Relembremos aqui os nomes de Homero, de Ddimo de Alexandria, 
dentre tantos. O primeiro, apesar de cego escreveu fabulosos poemas 
picos que integram at hoje
o acervo dos melhores trabalhos j produzidos pelo homem. E quanto a 
Ddimo, tambm foi um exemplo digno de nota, chegando o ilustre diretor 
da Escola de Alexandria - tambm cego--a utilizar-se de um recurso at 
hoje muito usado pelos cegos que
pretendem estudar ou manter-se atualizados: os ledores.

Pela metade do sculo XVII, na Europa, alguns homens notveis procuravam 
tambm solucionar problemas de ordem prtica para pessoas portadoras de 
deficincias fisicas srias, especialmente nos casos daquelas que tinham 
posses e podiam
pagar pela criatividade dos artesos. E um dos homens inventivos e de 
grande iniciativa
foi o alemo Stephen Farfler, que havia sido vitima de algum tipo de 
paralisia nas pernas.
Segundo nos conta Pecci, foi ele "o primeiro a se locomover numa cadeira 
de rodas. Paraplgico desde os trs anos, ele mesmo a idealizou e 
construiu quando tinha 22 anos,
em 1655. Era uma cadeira baixa, pequena, toda de madeira, com duas rodas 
atrs e
uma na frente. A da frente era acionada por duas manivelas giratrias. O 
prprio Stephen
a movimentava. Ele utilizava essa cadeira no apenas em casa, mas saia 
com ela, trabalhava e passeava. Usou-a at a sua morte, aos 56 anos, 
ocasio em que o veculo foi levado  Biblioteca Municipal de Nuremberg, 
onde ficou exposta at 1945, quando um bombardeio a destruiu" ("Minha 
Profisso  Andar", de Pecci).

Outros homens do sculo XVII superaram sua deficincia e deixaram legados 
brilhantes. Milton (1608 a 1674), um dos maiores poetas ingleses, ficou 
cego com
aproximadamente 45 anos de idade. Conseguiu ajuda e continuou suas obras, 
tendo escrito o monumental "Paraso Perdido" e outras obras mais, aps a 
instalao da cegueira.

--John Milton: o significado de sua cegueira

Alguns autores tm escrito sobre a cegueira desse grande escritor ingls 
e
tm arriscado um diagnstico da causa desse grave problema que mudou a 
vida de John
Milton. Dentre esses diagnsticos cumpre destacar os seguintes: castigo 
de Deus devido
 sua participao na revolta de Cromwell, catarata, glaucoma crnico, 
complicaes de
miopia, descolamento de retina, glaucoma agudo devido a crises 
emocionais, albinismo,
neuroretinite de origem sifiltica congnita, e tambm "fraqueza 
natural".

A fonte mais preciosa de informao quanto s reaes de Milton  perda
da viso  uma carta que ele mesmo escreveu a seu amigo Leonard Philaras. 
Dentre os
muitos angulos abordados pelo escritor cego, convm ressaltarmos as belas 
frases em que
mostra a forma como aceita sua cegueira.

Diz ele: " . . . minha escurido, por singular misericrdia de Deus, com 
a
ajuda de estudos, lazer e a bondosa conversaO de meus amigos,  muito 
menos opressiva do que a mortal escurido  qual se alude. Porque se, 
conforme est escrito, o homem no vive s de po, mas de cada palavra 
que vem da boca de Deus, por que um homem no pode realmente aceitar 
isso, pensando que s pode obter a luz de seus prprios
olhos, julgando-se, todavia, suficientemente iluminado pela orientao e 
providncia de
Deus? Portanto, j que Ele prev as coisas e me d cobertura, como faz, e 
me leva para
diante e para trs pela Sua mo, como se o fizesse pela vida toda, no 
poderei eu dar
uma folga a meus olhos, j que esse parece ser o Seu prazer?"

Na verdade, durante os 22 anos de sua cegueira, Milton tornou-se bem
mais ativo e sua atividade de trabalho cresceu como nunca antes ocorrera. 
Os primeiros
oito anos de sua vida como cego ele os dedicou a Cromwell, como 
Secretrio para Lnguas Estrangeiras. Traduzia cartas do latim para o 
ingls e vice-versa. Milton trabalhava
com a ajuda de secretrios e amanuenses.

Organizou um dicionrio de latim, preparou uma histria da Inglaterra
para publicao e chegou a publicar um estudo muito srio sobre a 
doutrina crist. Alm
disso, sempre manteve extensa correspondncia, como era costumeiro.

Conforme nos diz Snyder, o fato de Milton ser lembrado pelos seus 
escritos quase desconhecidos nos dias de hoje no  to significativo. O 
fundamental  nos
lembrarmos que suas lindas declaraes de f foram compostas por um homem 
que era
cego. Milton, que sempre se sentiu nas mos de Deus, conseguiu no seu 
mundo de escurido o que muito poucos homens que vivem na luz conseguiram 
sequer igualar.

John Milton casou-se trs vezes. Sua terceira esposa era uma mulher muito 
bela, mas dona de um temperamento difcil e muito violento. Dizem que 
quando o
Lord Buckingham comentou com ele que considerava que ele havia casado com 
uma verdadeira rosa, Milton respondeu: "No posso julgar pelas cores, 
Lord, mas sinto-o pelos
espinhos".

--So Vicente de Paulo: suas obras face s tendncias do sculo XVII

Nas muitas tentativas de atendimento  vasta populao mais pobre em
diversos pases da Europa, comearam a surgir novidades e alteraes 
significativas,
quando em 1634 apareceu um abnegado e obscuro sacerdote: Padre Vicente de 
Paulo
(1581 a 1660), nascido em Pouy, na Frana. Fundou instituies para 
crianas pobres
e abandonadas, doentes e defeituosas e que em muitos casos estavam sendo 
exploradas
para mendigar. Sua atuao levou  criao de congregaes religiosas que 
se destinaram
ao cuidado do doente pobre, como os Padres Lazaristas e as Irms de 
Caridade.

Assim como em outras reas do desenvolvimento humano e cientfico 
incrementado durante a Renascena, no sculo XVI I comeara a brilhar 
muito tenuemente um pouco de justia para pessoas fisicamente limitadas, 
bem como para toda a parcela
da humanidade que se encontrara at ento subjugada pela misria e pela 
doena, pois
durante quase toda a sua durao o mundo caminhou com firmeza para 
melhores condies de vida.
--A "Velha Lei dos Pobres" da Inglaterra

Conforme verificamos anteriormente, toda a legislao relacionada aos
pobres que "infestavam" a Inglaterra, desde o seu aparecimento, foi 
revista e re-editada
em 1601, sob a rainha Elizabeth I (1533 a 1603). Esse acervo de leis e de 
normas, que
levou muito em considerao os incapacitados devido a qualquer tipo de 
mal, foi de certa forma codificado no ano de 1623, tendo a partir da 
sido reconhecido como "A
Velha lei dos Pobres".

Nessa codificao nova, as parquias foram reconhecidas definitivamente
como unidades bsicas para sua administrao e coordenao. Essa funo 
adicional aos
trabalhos da Igreja coube a supervisores designados por juzes locais que 
tinham a funo de avaliar o montante de contribuio destinada a cada 
pobre e o volume de a juda
que cabia a cada cidado. Quando estabelecida e ratificada pelo juiz 
local, essa ajuda tornava-se obrigatria para a comunidade.

Pois bem, foi com esses fundos que os velhos e os deficientes foram 
atendidos e receberam abrigos em reas pouco povoadas; crianas pobres 
receberam treinamentos; os pobres sem deficiencia foram encaminhados para 
empregos.

O perodo de vigencia da "Lei dos Pobres" (Poor Law) que vai at o ano
de 1644 foi muito importante. Foi iniciado um sistema centralizado de 
cobrana de providncias a nvel local, pois era notrio o fato de que, 
mesmo onde no havia presso de
trabalho, onde esquemas assistenciais funcionavam bem, nas parquias 
muito distantes e
onde a superviso tornava-se impraticvel, muitas vezes os pobres eram 
assistidos sem
qualquer relao aos preceitos da lei que forava a isso.

Houve tambm uma chamada "lei de localizao e de remoo", de 1662,
definindo melhor o papel de cada parquia. As leis iniciais indicavam que 
o direito 
assistncia era local e da comunidade. Assim, as parquias tinham que se 
prevenir contra
a presena de estranhos ou de pessoas que poderiam se beneficiar de mais 
de um programa assistencial ou dispensarial. O prembulo dessa "lei de 
localizao e de remoo"
dizia que pessoas pobres no eram impedidas de se mudar de uma parquia 
para outra e
podiam assim estabelecer-se naquelas em que havia melhor estoque de 
matria prima
(para os trabalhos destinados aos pobres), os maiores terrenos para 
construir barracos e
o maior volume de madeira para queimar durante o inverno e tambm para 
outros usos.

Essa nova legislao dava s parquias at poder para remover pessoas
idosas, defeituosas e incapacitadas, com menos de tres anos de 
residncia.

Dessa maneira, nenhuma ajuda poderia ser dada aos pobres, aos aleijados
e aos mendigos quando fora de suas parquias, a menos que houvesse 
autorizao especial de um juiz. Os nomes desses pobres, seguidos de 
dados de identificao, eram lan
ados num livro especial que era revisto cuidadosamente uma vez por ano.

Ao final do sculo XVII, formalizou-se na Inglaterra a estigmatizao dos
pobres velhos, rfos, deficientes - pois aqueles que eram "autorizados" 
a receber
ajuda mensal das parquias, eram obrigados - a partir de 1697 - a usar em 
sua roupa
250

externa (casaco, capa, manta, abrigo) um grande "P" vermelho ou azul.

--O nascer da ortopedia como especialidade

Dentre os muitos progressos e melhoramentos ocorridos no sculo XVII,
 de se ressaltar o que sucedeu na rea da medicina, praticamente em 
conseqncia do
que vinha sendo feito desde vrios sculos antes. Na Frana, por exemplo, 
no ano de
1662, foi determinado pela coroa real que cada cidade deveria criar o seu 
prprio hospital. As especialidades mdicas comearam tambm a se 
definir, tendo a ortopedia sido,
sem qualquer dvida, a primeira a ser estabelecida como tal, apesar de 
no ter sido, de
inicio, reconhecida pela nomenclatura de "ortopedia". Dessa forma, foi 
durante a Renascena que ficou registrado um dos primeiros avanos muito 
srios na medicina, desde as remotas pocas clssicas greco-romanas.

Dentre os muitos motivos que podem ter levado  definio de uma 
especialidade mdica que cuidava dos problemas de ossos e de mutilaes, 
no se deve menosprezar o fato de a ortopedia ter se desenvolvido mais 
rapidamente devido  obrigao
de o Estado manter servios mdicos para seus soldados feridos ou 
amputados em batalha, desde tempos os mais remotos, conforme pudemos 
observar. A proteo a soldados
mutilados ou invlidos pelos azares das batalhas mereceu a ateno de 
toda a Europa
Renascentista, e de um modo especial da Frana que, por determinao do 
rei Lus XIV
(o Rei Sol), em ato assinado no dia 15 de abril de 1670, mandou construir 
um verdadeiro palcio (Htel, em francs) para alojamento e tratamento de 
seus oficiais e soldados
feridos e invlidos para o servio militar. Temos hoje, no centro de 
Paris, o famoso "Hotel
des Invalides", um monumento do passado que  ainda hoje um orgulho dos 
franceses.

Certamente dentro dessa linha de pensamentos e de preocupaes, e por
certo para no ficar numa posio de desequilbrio de prestgio com a 
Frana, o rei Carlos II, da Inglaterra (1630a 1685), fundou em Chelsea um 
lar para o que chamava, em
sua linguagem pitoresca, de "worthy old soldiers, broken in the wars" 
(velhos valorosos
soldados, batidos pelas guerras). Tratava-se do Hospital Real de Chelsea 
que teve suas
instalaes concludas em 1692. O imprevisvel Carlos II mandou abrir uma 
lista de
subscries para a construo, para a qual cedeu o terreno. Muitos 
contribuiram, inclusive Sir Stephen Fox, Diretor Geral das Finanas do 
Reino, que foi nomeado pelo rei
como administrador geral dos edifcios.

O arquiteto que planejou e construiu o Hospital Real de Chelsea no 
conseguiu disfarar a forte influncia das idias contidas no Htel des 
Invalides e no Hospital de Kilmainham, de Dublin, na Irlanda. Compe-se 
ele de dois edifcios principais,
podendo abrigar at seis companhias, num total de 558 pensionistas. Cada 
homem tinha
e tem at os dias de hoje um alojamento (quarto) prprio, pequeno mas 
totalmente individualizado. Os pensionistas enfermos eram alimentados e 
medicados na enfermaria
que foi completamente destruda durante um bombardeio alemo na Segunda 
Guerra
Mundial. Desde a sua criao at os dias de hoje os pensionistas devem 
ter mais de 55
anos de idade, ter uma deficincia fsica e ser auto-suficientes em seus 
cuidados pessoais.
O visitante desse antigo abrigo e hospital para 
soldadosportadoresdedeficiencias fisicas poder ainda hoje apreciar uma 
interessante coleo de quadros, de fotos,
de medalhas e de condecoraes, expostos no espaoso salo de entrada da 
organizao.
Trofus e bandeiras capturados durante as muitas batalhas em que 
pensionistas participaram no podem, entretanto, ser mais apreciados ali, 
uma vez que foram todos devolvidos s unidades de origem dos homens ali 
internados.

--Quatro cegos brilhantes: Saunderson, Metcalf, Euler e Blacklock

Nicolas Saunderson (1682 a 1739), apesar da cegueira, chegou a inventar 
uma prancheta
de calcular e publicou vrias obras, dentre as quais destacamos 
"Elementos de lgebra".
O primeiro volume desta obra expe um mtodo que ficou conhecido como 
"aritmtica
palpvel" e que permite ao usurio fazer todas as operaes de aritmtica 
com o uso do
tato. Saunderson tornou-se professor brilhante na Universidade de 
Cambridge e foi um
dos grandes expositores das teorias de Newton, dedicando-se de um modo 
todo especial
s teorias da luz e das cores.

John Metcalf (nascido em 1717) perdeu a viso aos 7 anos. Sempre foi 
muito hbil e de
quando em quando as pessoas desconfiavam que no era cego devido  sua 
extrema facilidade em se movimentar, cavalgar e em nadar. Sua genialidade 
levou-o a dedicar muito
de seu tempo  construo de pontes e de estradas. Foi conhecido nos 
meios oficiais ingleses como "Blind Jack". Sua competncia comprovada na 
remodelao de estradas em
pssimas condies e na construo de pontes tornou-o uma figura imortal 
na histria
das estradas em todo o mundo.

Leonhard Euler (1707 a 1783) foi um gemetra suoque perdeu a viso aos 
58 anos de
idade. Adaptou-se bem  nova situao e prosseguiu com extremo afinco em 
suas atividades cientificas. Escreveu "Elementos de lgebra" e tres 
volumes sobre diptrica, que
 a parte da fsica que estuda a luz de acordo com os elementos que 
atravessa. A Academia de Cincias de Paris chegou a premiar vrias de 
suas obras.

Thomas Blacklock (1721 a 1791) perdeu a viso aos 6 meses de idade devido 
ao sarampo. Desenvolveu muito bem seus estudos e chegou a se formar na 
Universidade de
Edinbourgh. Tornou-se ministro evanglico em 1759 e destacou-se nas 
letras como um
dos melhores poetas escoceses.  conhecido como "O Poeta Cego". Redigiu 
diversos
tratados de teologia e foi colaborador da Enciclopdia Britnica, 
escrevendo um artigo
sobre a cegueira. Escreveu tambm: "Consolaes Tiradas da Religio 
Natural e Revelada", o poema pico "Graham" e "Observaes sobre a 
Liberdade". Thomas Blacklock
deu tambm apoio a poetas mais jovens, sendo Robert Burns o exemplo mais 
marcante.

--Alexandre Pope: um poeta com deficincias fsicas

Alexandre nasceu em Londres no ano de ???168~, de pais catlicos e 
bastante idosos, tendo sido considerado por todos que o conheceram um 
poeta nato.

Alm de suas obras originais (as "Pastorais", a "Floresta de Windsor", o
"Tratado sobre a Critica", o "Tratado sobre o Homem" e vrias outras. 
Pope traduziu o
poema pico Ilada, de Homero, pelo que recebeu um total de ??? 5.000. 
Segundo diversos
crticos, foi a mais nobre verso de poesia pica que o mundo jamais 
apreciou. O sucesso
foi to grande que Pope traduziu tambm a Odissia, com o que ganhou mais 
???3-000.
Com isso, tornou-se financeiramente independente.

Ele foi o mais famoso poeta de seu tempo na Inglaterra, tendo mostrado
forte predileo pela critica mordaz, com a qual agredia seus desafetos, 
dando vazo 
sua agressividade.

No entanto, cabe notar que Alexandre era portador de srias limitaes
fsicas desde o nascimento. Existe a seguinte descrio de Pope, feita 
por um brilhante
pintor ingls, Sir Joshua Reynolds: "Ele tinha aproximadamente 4 ps e 6 
polegadas de
altura" (1,37 m), "muito corcunda e deformado. Usava um casaco preto e, 
de acordo
com a moda de ento, usava uma pequena espada. Tinha olhos grandes e 
bonitos, e um
nariz longo simptico; sua boca tinha aquelas marcas peculiares que 
sempre so encontradas nas bocas de pessoas falsas; e os msculos que lhe 
corriam pela face eram to fortemente marcados que pareciam pequenos 
cordis" (Apud MacNalty).

Sempre doentio, dizia que sua musa ajudava-o na sua longa doena, ou
seja, sua vida. Na infancia sofreu severamente com raquitismo e por causa 
desse mal ficou corcunda, com acentuada curvatura da espinha dorsal. A 
parte da frente da caixa
torxica tambm era deformada e um dos lados do corpo era afetado por uma 
forte
contrao.

Dizem seus bigrafos que a amargura de suas poesias e a agressividade de
muitos momentos seus so devidos a essas deformaes.

Adicionando aos seus problemas j to graves, Pope teve um dia os tendes 
de dois dedos da mo direita gravemente prejudicados durante um acidente.

Pope morreu em 1744, aps uma continua e herica luta contra doenas
e dificuldades causadas por suas deficincias fisicas. Sua vitria maior 
est retratada em
sua poesia. E foi exatamente esse produto de sua inteligncia, 
criatividade e sentimentos
que lhe garantiram um imorredouro lugar na literatura inglesa, sendo o 
representante
principal de seu classicismo.

--A reformulao hospitalar inglesa

Ainda no inicio do sculo XVIII, em conseqnciados atos que levaram
ao confisco e  destruio dos mosteiros e conventos e  expulso dos 
religiosos que estavam vinculados  Santa S, em Roma, atos esses 
iniciados aproximadamente nos anos
de 1536 a 1539, sob o reinado de Henrique VIII, poucos hospitais 
existiam. A maioria
deles encontrava-se localizada em Londres e quase todos dispunham de 
instalaes muito precrias. Nssa situao continuavam eles a receber 
doentes crnicos e pessoas seriamente incapacitadas por deficincias 
fsicas e por problemas mentais, uma vez que fora
de suas instalaes no conseguiriam sobreviver.

Pela metade do sculo XVIII, quando Londres contava apenas com 7 
hospitais gerais, alguns hospitais especializados foram construidos ou 
montados em instalaes adaptadas. Um deles passou a servir pessoas que 
at hoje so marginalizadas da sociedade maior, ou seja, as vitimas de 
problemas mentais graves. Tratava-se do Hospital
Saint Luke. Foi mais ou menos por essa poca que outras reas da medicina 
comearam
a melhor definir-se como especialidades mdicas tambm na Inglaterra, em 
adio quela que cuidava dos problemas dos ossos, das amputaes e dos 
males deformantes.

No atendimento  populao civil, surgiram algumas instituies em 
diversos pases europeus, seguindo exemplo na Inglaterra, financiadas 
pelo poder governamental, somando esforos com muitas contribuies 
obrigatrias, ou mesmo por doaes avulsas e eventuais de ricas familias 
ou nobres abastados, como sucedeu no caso do
Conde Baden, que no ano de 1722 criou um lar para invlidos em Pforzheim.

--A "Ortopedia" de Nicholas Andry

No ano de 1741 Nicholas Andry, um professor da Universidade de Paris,
adotou um neologismo para identificar a mais antiga das especialidades 
mdicas: "Ortopedia". Segundo seus esclarecimentos, essa nova e jamais 
anteriormente utilizada palavra
derivava de "orthos", que significa "direito" ou "reto", e "pais, 
paids", que corresponde a "criana", na lingua grega. Segundo o prprio 
Andry, tratava-se de uma nova "arte de prevenir e de melhorar nas 
crianas as deformidades do corpo". Outros autores e
mdicos que viveram muito mais tarde, verificando o alcance da 
especialidade e notando
que ela no se limitava a atender apenas crianaS mas a adultos tambm, 
de todas as idades, mantiveram a mesma designao para a especialidade 
mas questionaram a derivao proposta para composio daquele neologismo 
pelo seu criador. Achavam que a
raiz adequada no estava relacionada a "criana", mas a "educao" (da 
palavra "paidia", em grego).

O que nos resta como certo  que muitos sculos antes de surgir a palavra
"ortopedia", dentro da especialidade que recebia esse nome existiam j 
muitos de seus
diversos componentes, porque doenas e acidentes que deformam o homem e o 
desviam
de sua aparncia original sempre existiram e j tinham recebido muita 
ateno por parte
daqueles que se dedicavam  arte mdica desde os primeiros tempos da vida 
do homem
na Terra. Tanto isso  verdade que, segundo vimos em pocas anteriores ao 
sculo XVIII, as
noes fundamentais j eram encontradias em trabalhos egpcios, em 
tratados de Hipcrates, e nos muitos outros autores.

De sua parte, Nicholas Andry procurava sempre atender bem os seus
doentes, mas adicionava a essa atitude prevista no cdigo de tica mdica 
uma perfeita e
fortemente humana compreenso dos males que levavam a uma deformidade do 
corpo
humano, dedicando-se exclusivamente ao cuidado de crianas. Procurava 
pautar bem
suas atividades e restringi-las a problemas passveis de uma correo por 
meio de aparelhagem simples e de natureza prtica.

Quando, em 1781, Jean Andr Venel, um mdico de Genebra, fundou na
vila de Orbe-de-Vaux, na Suia, o primeiro centro especializado de 
atendimento ortop254

dico, lanou o marco mais importante no s para o desenvolvimento mais 
criterioso e
pormenorizado de tcnicas de aparelhagem e de correo, como tambm para 
o desenvolvimento mais aprimorado da cirurgia ortopdica, que tanto tem 
contribuido desde
aquela poca para a eliminao ou para a reduo de deficincias fisicas. 
A esse instituto
de tratamento ortopdico acorriam no apenas crianas mas adultos tambm, 
acometidos por males das mais variadas origens. A partir de ento a 
fabricao de prteses e de
aparelhos de suporte e outros mais alcanou o esplendor de seu 
desenvolvimento.

No entanto, cumpre ressaltar que todos esses progressos e indicativos de
aprimoramento tcnico e cientifico atingiam apenas a pessoas ricas ou 
quelas que dispunham de meios para cobrir as despesas enormes incidentes 
sobre os mesmos. A grande massa dos pobres continuava  parte e sem 
qualquer acesso a esses melhoramentos
ou beneficios.

Ainda no que diz respeito a deficincias fisicas vale a pena ressaltar 
que,
ao encerrar-se o sculo XVIII, dois irmos--os Hunter--muito contribuiram 
para o
desenvolvimento e para o aprimoramento da cirurgia ortopdica, com 
estudos especiais
a respeito da estrutura das juntas e do crescimento dos ossos.

--Maria Tereza von Paradis: pianista e compositora cega

Maria Tereza von Paradis (1759 a 1824) foi uma msica austriaca que
nasceu e morreu em Viena. Ficou cega aos 5 anos de idade. Tendo aprendido 
piano e se
transformado numa excelente concertista, percorreu toda a Europa e foi 
ouvida em diversas oportunidades pelo pblico de Paris.

Ao voltar a Viena dedicou-se  composio. Trs peras dessa compositora 
cega devem ser ressaltadas: "Ariane em Naxos", "Ariane e Baco" e "O 
Candidato Instrutor".

Maria Tereza conheceu Valentin Hay em Paris e manteve com ele slida
correspondencia a respeito dos problemas dos cegos.

--A assistncia aos cegos: final do sculo XVIII

Um opsculo interessante intitulado em sua verso original de "Lettre sur
les Aveugles  l'Usage de Ceux qui Voient" (Carta sobre os Cegos para Uso 
daqueles que
Enxergam) surgiu na Frana em 1749. Seu autor foi Diderot (1713 a 1784). 
Chegou a
ficar confinado na priso de Vincennes por trs meses devido a esse 
corajoso trabalho,
no qual enfatizava a dependncia do homem das impresses sensoriais e 
dava um audacioso passo na direo do ateismo. Diderot, filsofo e homem 
de letras, foi um dos mais
brilhantes pensadores de sua poca e foi o editor da "Enciclopdie", o 
mais importante
testamento da era do iluminismo. Sua famosa e discutida "Carta sobre os 
Cegos" foi
muito importante tambm devido  sua proposio para o ensino do cego a 
ler pelo uso
do tato.

No ano de 1751 publicou tambm uma carta a respeito dos surdos e dos
mudos, sem maiores repercusses. Diderot procurou mostrar em sua "Carta 
sobre os Cegos" que as idias dos cegos quanto a assuntos ou mesmo quanto 
a coisas de natureza
abstrata so diferentes daquelas dos videntes. Afirma, por exemplo, que 
essas idias a
respeito de religio e de Deus no so idnticas s das pessoas videntes, 
sugerindo da
que as idias religiosas daqueles que enxergam e no sentem a limitao 
causada pela
perda da viso so conseqentes s convenes estabelecidas pela 
sociedade.

Entretanto, o preocupado trabalho de Diderot no levou a nenhuma 
conseqncia prtica detectvel, a no ser talvez influenciar os 
pensamentos e as preocupaes de Valentin Hay, que viveu um pouco mais 
tarde e a respeito do qual falaremos
no tpico seguinte.

Em termos de trabalho prtico de assistencia mesmo que segregativa, ou
de ajuda mais concreta a cegos, devemos ressaltar que no ano de ???17~0 o 
famoso e antigo "Hospice des Quinze-vingts" foi transferido de sua 
localizao original no Faubourg
de Saint-Honor para instalaes mais amplas e melhores no Faubourg de 
Saint-Antoine,
em Paris, no prdio do Hospital dos Mosqueteiros Negros. Inicialmente 
dependente do
Ministrio do Interior, sobreviveu esta organizao at os dias de hoje, 
mantendo-se com
seus prprios recursos. Abriga aproximadamente 300 cegos--de acordo com 
seus objetivos originais--dos dois sexos, com mais de 40 anos de idade, 
que l vivem. Solteiros
ou casados ocupam instalaes separadas mas mobiliadas por eles mesmos. 
Alm desse
abrigo, o Hospice prov uma penso mensal a mais de 2.000 cegos franceses 
com pelo
menos 21 anos de idade. Foi em suas instalaes que em 1880 foi montada 
uma cliniCa nacional de oftalmologia (Apud "Larousse du XXe. Sicle").

No ano de 1784, setenta anos aps a rainha Ana, da Inglaterra, ter 
concedido uma patente a Henry Mill, engenheiro ingls, "por uma mquina 
ou mtodo artificial para a impresso ou transcrio de letras 
separadamente ou progressivamente, uma
aps a outra, como na escrita", foi inventada na Frana uma outra mquina 
para imprimir letras especialmente para cegos. Ressaltemos que muitas 
outras mquinas eram tambm destinadas a produzir cpias para que os 
cegos pudessem ter acesso  leitura pelo
tato (Apud "Encyclopaedia Britannica").

--Valentin Hay, "Pai e Apstolo dos Cegos"

Surgiram na mesma poca dos eventos citados acima os primeiros esforos 
sistemticos para a melhor educao dos cegos. Valentin Hay (1745 a 
1822), o
homem que mais tarde seria reconhecido como "Pai e Apstolo dos Cegos" 
teve sua
ateno atraida para as questes ligadas  educao dos deficientes 
visuais, no s graas
ao estudo das idias de Diderot. Um momento decisrio surgiu em sua vida 
quando, levado pelas circunstancias, fez uma comparao entre 
apresentaes musicais da pianista e grande concertista e compositora 
Maria Tereza von Paradis de um lado, e de outro,
os entristecedores e grotescos espetculos dados por alguns cegos, muito 
inadequados
em seu modo de trajar ou se comportar, tentando executar msica na rua 
para chamar a
ateno dos transeuntes e com isso angariar esmolas.

Hay, depois de estudar muito bem o problema, fundou em Paris uma
nova organizao que levou o nome de "Institute Nationale des Jeunes 
Aveugles" (Instituto Nacional dos Jovens Cegos), em 1784. Essa 
organizao provocou reaes muito
positivas e fez um grande sucesso desde o seu inicio.

A causa principal dessas reaes foi esta: o Instituto no asilava 
simplesmente o cego, mas procurava ensin-lo a ler, tendo a Academia de 
Cincias de Paris examinado e aprovado os tipos em relevo que o Instituto 
utilizava. Com o passar dos anos o
seu sucesso foi to grande que Hay acabou sendo convidado a comparecer  
corte de
Luiz XVI para fazer uma detalhada exposio quanto ao empreendimento, um 
pouco
antes da ecloso da Revoluo Francesa que desacelerou ou eliminou muito 
do que fizera antes a Frana com o apoio da nobreza.

Mas logo aps a regularizao da vida do pas novas escolas para cegos
foram abertas. E isso aconteceu tambm em diversos outros pases da 
Europa, quase todas elas seguindo o novo modelo apregoado por Hay. Os 
exemplos mais positivos dessas escolas foram as de Liverpool em 1791, de 
Londres no ano de 1799 e, j no sculo
XIX, de Viena em 1805 e de Berlim em 1806.

--Educao dos deficientes auditivos no sculo XVIII

De outra parte, envolvendo diferentes segmentos da sociedade mais 
esclarecida, notaremos a marcante evoluo dos sistemas montados para a 
educao dos deficientes auditivos em geral.

E no comeo do sculo XVIII encontraremos o nome de John Conrad
Amman (1699 a 1724) publicando sua "Dissertatio de Loquela", que recebeu 
em ingls
um titulo enorme: "Uma dissertao sobre a fala, na qual no s a voz 
humana e a arte
de falar so analisados desde a sua origem, mas so descritos os meios 
pelos quais aqueles que so surdos e mudos desde o nascimento podem 
conquistar a palavra, e aqueles
que falam imperfeitamente, podem aprender como corrigir suas 
dificuldades".

Foi por essa poca-- inicio do sculo XVIII--que os educadores concluiram 
que era necessrio um alfabeto manual para que o surdo pudesse melhor se 
comunicar e melhor entender o que precisava ser a ele repassado. Grande 
colaborao foi
dada para a definio do alfabeto manual por membros da familia Wren, da 
Inglaterra.

Fato importante na gradativa definio da realidade em que viviam os
surdos-mudos foi a publicao de Diderot intitulada "Carta sobre o Surdo 
e Mudo para
Uso daqueles que Ouvem e Falam".

Em 1755 o abade Charles Michel Epe (1712a 1789) reconhecia que a 
psicologia do surdo era diferente daquela da pessoa que ouvia. Fundou uma 
escola para educao dos surdos em Paris, aperfeioando a linguagem por 
sinais como meio para instruo e comunicao de seus alunos. Acreditava 
que era necessrio fazer entrar pelos olhos
dos surdos tudo o que o restante da sociedade absorvia por meio do som, 
pela audio.

O abade Sicard (1742 a 1822) ampliou as idias de Epe no trabalho 
intitulado "Relato sobre um Menino Nascido Surdo e Mudo".
--Os primeiros sinais de assistncia nas Amricas

Enquanto todos esses desenvolvimentos ocorriam na Europa, nas Amricas as 
mesmas tendncias eram reconheciveis com facilidade uma vez que todos os 
ncleos de colonizao recebiam direta influncia da respectiva Ptria-
Me.

- Na verdade, os hospitais haviam h tempos surgido nas Amricas. De 
fato, logo aps o descobrimento por Cristvo Colombo ocorreram diversos 
esforos para dar cobertura  populao colonizadora.

Os conquistadores espanhis procuraram,  natural, seguir mais ou menos 
os padres estabelecidos e encontradios na Europa, nos seus esforos de 
criao
de casas de tratamento e mesmo de hospitais. Esses recursos primitivos 
foram organizados pelos religiosos que haviam acorrido ao Novo Mundo (s 
ndias Ocidentais) para a
ingente tarefa de catequizao dos selvagens, com forte subsidio da coroa 
espanhola.

Assim  que j em 1524 havia surgido o Hospital Jesus de Nazar, a mais
antiga organizao de assistncia mdica do continente, no Mxico. O 
mesmo sucedeu nas
colnias mais tarde estabelecidas pelas coroas francesa, holandesa, 
inglesa e portuguesa.

Ressaltemos, entretanto, que s dois sculos aps  que podemos localizar 
nas Amricas um primeiro esforo de organizada assistncia mdica e 
hospitalar, com
sucesso absoluto. Tratava-se do hoje conhecido Hospital de Pennsylvania, 
na Philadelphia,
inaugurado no ano de 1751.

 bastante vlido chamar a ateno para o fato de que os descobridores e
colonizadores espanhis j encontraram verdadeiros hospitais em nosso 
continente. Segundo nos conta De La Vega, as expedies espanholas 
comandadas por Corts, conheceram hospitais mantidos pelos Aztecas nos 
locais conhecidos como Cholula, Tlescoco,
Tlaxcala e na sua mais importante cidade, Tenochtitln (hoje, Cidade do 
Mxico).

Falando sobre a mesma questo junto aos Incas, no Peru, Poma de Ayala,
citado por De La Vega, afirma: "Nas grandes cidades havia verdadeiros 
hospitais que
admitiam os anes, os corcundas e os individuos com lbios leporinos". 
Tinham eles
tambm hospitais destinados a doentes incurveis ou enfermos de aspecto 
repugnante,
segundo o mesmo autor. Ele acrescenta que,  mesma poca, os hospitais 
destinavam-se
tambm a peregrinos, loucos, velhos e desvalidos (Apud De La Vega).

Finalmente, ao terminar o sculo XVIII foi inaugurado o Hospital de
New York, mas relativamente poucos foram os hospitais criados na Amrica 
do Norte,
seja pelos ingleses, seja pelos franceses, antes do sculo XVIII, devido 
ao fato de haver
muito poucas comunidades de porte suficiente para mant-los com a 
indispensvel propriedade. Como sucedia na Europa, esses hospitais das 
colnias caminhavam para a implantao de especialidades mdicas e dentro 
de algumas delas ocorriam os atendimentos
s pessoas deficientes, como no poderia deixar de acontecer.

--O desencontro de atitudes na Europa
Durante o sculo XVIII atitudes as mais desencontradas so relatadas por
258

estudiosos do desenvolvimento hospitalar em alguns pases da Europa. No 
Hospital Real
de Bethlehem, de Londres, popularmente conhecido na poca pelo apelido de 
"Bedlam"
(que significa manicmio ou confuso) muitas pessoas de baixa cultura e 
possuidoras de
doentia curiosidade chegavam a pagar algumas moedas a vigias ou a 
atendentes do hospital para observar e para rir de certos doentes 
acorrentados, de seus gritos e dos seus
rostos desfigurados e contorcidos, especialmente quando apresentavam 
deformaes
srias ou deficincias fisicas e mentais, segundo nos relata 
Wolfensberger.

De um modo geral, todavia, a sociedade do sculo XVIII dos pases 
europeus, embora no homogeneamente, organizava-se para continuar a dar 
cobertura cada
vez melhor, pelo menos de abrigo e de alimentao mais humanos queles 
que no dispunham de meios para se manter vivos fora dos hospitais, e que 
no apresentavam mais
problemas de natureza mdica.

Abrigos e asilos mais modernos foram organizados, alguns j com os 
primeiros indcios de valorizao real do ser humano, a despeito das suas 
malformaes,
da sua aparncia ou das deficincias que apresentavam.

--Inovaes nas "Leis dos Pobres"

No ano de 1723, na Inglaterra, foram aprovadas algumas alteraes 
operacionais nas conhecidas "Leis dos Pobres". Foi autorizado, por 
exemplo, que cada parquia construisse e colocasse em funcionamento casas 
de trabalho ou oficinas ("workhouses") e que recusasse prestar ajuda aos 
pobres que dela no participavam. Dessa forma, a situao das pessoas 
portadoras de deficincias fsicas ou sensoriais deteriorou
muito. Passaram a ficar bloqueadas dessa participao atravs do 
trabalho, uma vez que
a prioridade para atuar nessas casas de trabalho recaia sobre os pobres 
com dificuldade
de obter trabalho, mas sem qualquer tipo de deficincia. A experincia 
foi um fracasso,
pois no eliminou nem a mendicancia nem a pobreza.

Apesar do objetivo original ter sido bom, ou seja, eliminar a inatividade 
e
dependncia da assistncia prestada pela comunidade, selecionar melhor os 
candidatos
ao recebimento de ajuda, abrigar as pessoas realmente enfermas, os velhos 
e as crianas,
e dar trabalho real aos fisicamente habilitados, essas oficinas 
degeneraram completamente e com grande rapidez, tornando-se verdadeiros 
depsitos de pessoas em situao de
miserabilidade.

Esse fragoroso insucesso no nos permite, porm, esquecer algumas 
tentativas vlidas para tornar as casas de trabalho um recurso til para 
o atendimento  pobreza
generajizada do sculo XVIII na Inglaterra. Seu eventual sucesso, 
entretanto, foi efmero e sem muito significado.

--Bloqueios ao sacerdcio para pessoas deficientes

Os bloqueios interpostos pela Igreja Catlica para pessoas deficientes se
tornarem sacerdotes continuavam inabalveis durante o sculo XVIII. 
Alguns exemplos
prticos nos so relatados por M.Andr, doutor em direito cannico e 
membro de diversas sociedades de sbios do final do sculo XIX, em adio 
 obra de Thomassin ("Ancienne & Nouvelle Discipline de l'glise") que 
fora escrita ao final do sculo XVII.

Alguns dos mais significativos, citados ao final do captulo sobre as 
irregularidades relacionadas aos defeitos de nascimento, so os 
seguintes:

-- No dia 20 de janeiro de 1789 a Sagrada Congregao recusou concordar 
com a ascenso s santas ordens de um clrigo "manco" da Diocese de 
Albenga, na Ligria;

-- O padre Franois Pujol, da Diocese de Vincennes, na Frana, tendo 
sofrido um acidente vascular cerebral, perdeu o uso do brao e da mo 
esquerdos; solicitou ao bispo
a dispensa da irregularidade para exercicio das funes sacerdotais e 
para celebrar a
missa numa capela privada. Embora seu bispo tenha apoiado sua consulta, a 
Sagrada
Congregao recusou o pedido no dia 19 de agosto de 1797;

-- O seminarista Ambroise Lamberti, da Diocese de Albenga, tinha um 
problema de movimentao da perna esquerda, de tal forma que precisava 
andar com o apoio continuo de uma bengala. O bispo da Diocese foi 
consultado a respeito e opinou que haveria graves inconvenientes em 
promov-lo s sagradas ordens, no que foi apoiado pela
Sagrada Congregao no dia 20 de janeiro de 1798;

-- O sacerdote Philippe Maggiorani, da Diocese de Borgo San-Sepolcro, na 
Toscana, teve
sua mo esquerda de tal forma mutilada pela acidental exploso de 
espingarda excessivamente carregada, durante uma caada, que foi 
necessrio amputar parte do brao
para evitar sua morte. Solicitou dispensa da irregularidade para 
prosseguimento de
seus trabalhos como sacerdote e esta lhe foi negada em 18 de junho de 
1785. No ano
de 1787 apresentou uma nova e humilde solicitao, acompanhada do parecer 
favorvel de seu bispo e do total apoio de seus paroquianos. No entanto, 
a Sagrada Congregao, depois de haver submetido o assunto  considerao 
pessoal do papa, manteve a recusa  dispensa de irregularidade por um 
decreto de 7 de julho de 1787.

Outros casos poderiam ser acrescentados, mas os citados acima mostram
a posio quase que inalterada da Igreja Catlica na aceitao de pessoas 
portadoras de
deficincia para o exercicio do sacerdcio at o sculo XVIII.

--Hospitais pblicos na Frana: final do sculo XVIII

Na segunda metade do sculo XVIII os hospitais pblicos da Frana haviam 
decaido tanto na qualidade de seus atendimentos que j estavam sendo 
abominados at pelos pobres.  Voltaire que comenta a respeito no ano de 
1768:

"Temos em Paris um Hospital ("Htel-Dieu") onde reina o perptuo 
contgio, onde invlidos pobres, amontoados uns sobre os outros, 
contagiam seus vizinhos com a praga e
com a morte".

O historiador francs Michelet tambm comenta a respeito do mesmo
problema, dizendo:

"Os doentes pobres e os prisioneiros ali confinados eram geralmente 
considerados como
condenados, atingidos pela mo de Deus, cujo primeiro dever era expiar 
seus pecados e
eram sujeitos a tratamentos cruis. Caridade desse tipo pavoroso faz-nos 
sentir horror.
No entanto, foi feita uma tentativa para eliminar a sensao de pavor dos 
hospitais: comearam a dar-lhes nomes sugestivos: Hotel de Deus, A 
Caridade, A Piedade, O Bom
Pastor, etc. Mas isso no convenceu os doentes e os invlidos pobres que 
se escondiam
em casa para morrer, to horrorizados estavam face  possibilidade de 
serem levados pela fora para esses lugares" (Apud "Encyclopedia of 
Religion and Ethics").

Foi nessa mesma poca que os doentes mentais eram acorrentados em
suas celas, pois acreditava-se que eram possuidos pelo demnio. O 
Dr.Philippe Pinel
(1745 a 1826) tomou uma iniciativa revolucionria entre os anos de 1792 e 
1826: quebrou as correntes que prendiam esses doentes s celas, 
substituindo o chocante tratamento anterior por um trabalho cientifico 
onde prevalecia uma enorme dose de bondade e de doura.

--Progressos no campo do atendimento  cegueira: sculo XIX

Em 1819 um oficial do exrcito francs de nome Charles Barbier procurou o 
Institute Nationale des Jeunes Aveugles, de Paris, com uma novidade que 
esperava
ser til aos seus professores e alunos. Barbier pretendia adaptar o que 
chamava de "sonografia" para o uso dos cegos. Era, na verdade, um 
processo de escrita codificada e
expressa por pontos salientes, chegando a ter representados os 36 sons 
bsicos da lingua francesa. Fora idealizado pelo oficial para ser usado 
na transmisso de mensagens
no campo de batalha  noite, sem chamar a ateno do inimigo pelo uso de 
qualquer
ponto de luz.

A idia interessou sobremaneira alguns professores do renomado Instituto 
de cegos e logo comeou a ser adaptada para uso dos alunos ali 
internados.

Em 1833 surgiu nos Estados Unidos da Amrica do Norte o primeiro livro 
para cegos de que se tem noticia. Adotava um alfabeto idealizado pelo 
educador
Frielander. De outra parte, na Inglaterra, havia informaes de que o 
primeiro livro para cegos surgira j em 1827, usando letras comuns em 
relevo, o que no era muito inovador. Desde o sculo XVIII havia mquinas 
de escrever em relevo essas mesmas letras
comuns.

Foi alguns anos mais tarde que um jovem professor cego do Institute 
Nationale des Jeunes Aveugles--Louis Braille (1809 a 1852)--baseado na 
idia de Charles
Barbier e na experincia acumulada com a utilizao diuturna daqueles 
pontinhos em
relevo, desenvolveu um sistema seu, j pelo ano de 1825, tambm de 
pontinhos em relevo, que podiam no apenas ser lidos como tambm 
produzidos com facilidade pelos cegos com instrumentos bastante simples. 
Na combinao de apenas seis pontinhos em
relevo, Louis Braille garantia noventa e seis simbolos para letras comuns 
e acentuadas,
nmeros, pontuao e outros mais. A adoo do novo sistema em toda a 
Frana s ocorreu em 1854, dois anos aps a morte de seu idealizador, 
Louis Braille.
261

--Ludwig van Beethoven: a trgica surdez

Em 1827 morria Ludwig van Beethoven, que nascera em 1770 e que se
transformara num dos maiores gnios da msica erudita, apesar de ter 
sofrido imensamente com a gradativa perda da audio, em seus ltimos 
anos de vida. A surdez o isolara do restante do mundo, mas no o impedira 
de continuar sua obra criadora.

A surdez de Beethoven comeara em seu ouvido esquerdo quando estava
com 27 anos de idade. Logo a perda se transformara numa dificuldade bi-
lateral de ouvir bem, principalmente os sons de alta freqncia. Usava o 
grande compositor o auxlio de trompas de ouvido e outras adaptaes 
prprias para seu trabalho quando ao piano.

Em algumas de suas cartas a amigos e confidentes, principalmente ao Dr.
Franz Gerhard Wegeler, nota-se sua aflio pelo mal que o atingia. Com 31 
anos de idade escrevia o seguinte: " . . . minha faculdade mais nobre, 
minha audio, tem piorado
muito . . . esse problema causa-me as dificuldades menos significativas 
ao tocar ou ao
compor e as maiores quando em contato com os outros" .."meus ouvidos 
assobiam e fazem barulho sempre, dia e noite. Em qualquer outra profisso 
isso poderia ser
mais tolervel, mas na minha, essa condio  verdadeiramente 
atemorizante. Posso lhe
dizer que vivo uma existncia miservel" (Apud Landon).

A surdez gradativa influenciou o prprio estilo de Beethoven. Com a plena 
conscincia de sua surdez total prxima, tornou-se fortemente deprimido. 
Parece
at ter pensado no suicidio. E aos 52 anos de idade estava surdo.

Foi na fase inicial de sua perda de audio que o grande mestre comps
suas obras mais romnticas e de melodia da mais alta suavidade: 
"Apassionata" e "Sonata ao Luar", em 1804; Sinfonias n.3 at 6, de 1804 
a 1808.

Contam seus bigrafos que ele foi o maestro honorrio na primeira 
apresentao de sua 9. Sinfonia, mantendo-se sentado ao lado do maestro 
regente. No
ouvia nada de toda a execuo da magnfica pea musical, mas seguia sua 
evoluo pela
partidura em suas mos. Prximo ao final estava alguns compassos atrasado 
e no notou
quando a orquestra terminara. Um dos solistas veio imediatamente at ele 
e virou-o para
a platia que aplaudia delirantemente a obra e seu compositor.

--Nelson, heri da Marinha Britanica

Nascido no ano de 1758, o Visconde Horcio Nelson tornou-se o mais famoso 
e talvez o mais querido dos heris ingleses. Ele era mais do que um 
brilhante dominador de tticas da guerra naval--era um lider sob todos os 
aspectos. H uma famosa
frase de Nelson que passou para a Histria da Inglaterra e que  a 
seguinte: "A Inglaterra
espera que cada homem cumpra o seu dever". Ela no foi dita por Nelson em 
reunies
ou em pronunciamentos a seus subalternos. Ela foi transmitida de seu 
navio capitania,
o "Victory", por sinais, a toda a frota que navegava para a grande 
batalha de Trafalgar.

A estratgia ttica que Nelson imprimiu na luta contra a esquadra 
dospoderosos navios das foras napolenicas (os franceses e os espanhis) 
consagrou-o para sempre.
Mas foi exatamente nessa batalha que Nelson foi atingido por um projtil 
que fraturou sua espinha dorsal. Sem recursos mdicos de grande monta que 
talvez
pudessem ter salvo pelo menos sua vida, o grande heri ingls faleceu no 
meio do fragor da batalha que se desenrolou no dia 21 de outubro de 1805. 
Segundo alguns autores,
se tivesse sobrevivido Nelson provavelmente teria sido vitima da 
paraplegia por seco
da medula.

--Os progressos nos Estados Unidos da Amrica do Norte

As primeiras providncias observadas nos Estados Unidos da Amrica do
Norte com relao  assistncia mais organizada aos soldados feridos ou 
mutilados parece terem acontecido em 1811, quando o Congresso autorizou o 
Secretrio da Marinha
a construir um lar permanente para seus oficiais. Esse novo recurso logo 
comeou a aceitar marinheiros e fuzileiros navais com problemas fsicos 
srios e outros problemas limitadores da independncia individual.

Foi construido na cidade de Philadelphia e s entrou em funcionamento
em 1831. E no ano de 1867 surgiu um outro recurso: o Lar Nacional para 
Soldados Voluntrios Deficientes, assim que terminou a Guerra Civil 
Americana, com o seu primeiro
ncleo na cidade de Togus, Me. (Apud "Encyclopaedia Britannica").

--Os sinais de melhor compreenso dos problemas dos deficientes

Foi no sculo XIX que a sociedade comeou a assumir a responsabilidade
sobejamente reconhecida para com as pessoas portadoras de deficincias. 
At o sculo
XVI, durante o fortalecimento da Renascena, os homens em geral ainda 
relacionavam
muito do que acontecia ao ser humano  fora das supersties, das 
diversas crendices
dominantes e do sobrenatural. Mas, do sculo XVI em diante, o mundo j se 
acostumara a examinar fatos em termos mais prticos e naturais.

Precedida pela Revoluo Industrial, a Revoluo Intelectual fez com que
a sociedade de muitos pases europeus pensasse um pouco nos seus grupos 
minoritrios
e marginalizados como uma de suas muitas responsabilidades e no apenas 
como objeto
de promoes caritativas e de carter voluntrio. Chegou-se  concluso 
de que a soluo
para esses problemas no era apenas uma questo de abrigo, de simples 
ateno e tratamento, de esmola ou de providncias paliativas similares, 
como sucedera at ento.

Ao se dar maior volume de ateno, por exemplo, aos cegos, aos velhos,
aos surdos, aos mutilados de guerra, aos doentes crnicos e aos 
deficientes de um modo
mais amplo, chegou-se a pensar que eles na verdade no precisavam tanto 
de hospitais
de caridade ou de casas de sade, mas de organizaes separadas, o que 
tornaria seu
cuidado e seu atendimento mais racional e menos dispendioso.

Foi em boa parte devido a esse tipo de raciocinio e  troca de 
experincias que a sociedade de alguns pases europeus, quase que 
exclusivamente por iniciativa
de particulares, fundou algumas entidades especializadas, sem lembrar 
talvez que Constantinopla havia acenado para essa posio desde o 
alvorecer do Cristianismo, ou seja,
h mais de 15 sculos . . .
Essas novas organizaes, todavia, no se destinavam apenas  assistncia 
e  proteo desses grupos marginalizados, mas tambm para estudo de seus 
problemas e dificuldades, para o estabelecimento de algumas alternativas 
de atendimento e
tambm para o tratamento de situaes concretas. Surgiram abrigos para 
crianas
(orfanatos, em geral) e para velhos (asilos), lares para as crianas com 
defeitos fsicos e
muitas outras organizaes separadas dos hospitais gerais oficiais ou 
particulares.

Embora no sculo XIX ainda no se pensasse na integrao do homem
deficiente  sociedade aberta ou mesmo  sua familia, ele passou a ser 
visto como ser humano (infeliz, desafortunado e coitado para aquela 
poca,  evidente) dono de seus sentimentos e capaz de viver ou de 
pretender levar uma vida decente, desde que fossem
garantidos meios para isso. Para um bom volume de casos a questo acabava 
restringindo-se  reduo de uma situao de miserabilidade a um minimo 
suportvel, dando ao
individuo atingido um restante de vida mais tranqilo, desde que 
possivel.

--Uma iniciativa de Napoleo Bonaparte

Pensando mais avanada e utilitariamente, o arguto Napoleo Bonaparte,
que nasceu em 1769 e morreu em 1821, exigia de seus generais que olhassem 
os seus
soldados feridos ou mutilados como elementos potencialmente teis, to 
logo tivessem
seus ferimentos curados. Os exrcitos franceses passaram, em muitas de 
suas unidades, a
utilizar esses soldados nos esforos de guerra de tal forma que 
conseguiam ainda tornar-se
produtivos e diretamente ligados s suas unidades.

Napoleo procurava utilizar seus esforos conforme as circunstancias o
permitiam. E foram usados em servios de manuteno montados na 
retaguarda, de
acordo com suas capacidades fisicas, conservando fardamentos, trabalhando 
em selaria,
cuidando dos equipamentos, de alimentao, de limpeza de animais e outras 
atividades.

--Madre Agostinha, fundadora das Irms Irlandesas da Caridade

Mary Aikenhead (1787 a 1858), por solicitao do bispo Murray, de
Dublin, na Irlanda, fundou a congregao religiosa conhecida como Irms 
Irlandesas da
Caridade. As irms religiosas no eram enclausuradas e visitavam famlias 
pobres em suas
prprias casas.

Devido s caracteristicas de desenvolvimento daquela poca, durante a
qual no havia a emancipao dos catlicos na Irlanda, Mary adotou o nome 
religioso
pelo qual ficou sendo conhecida (Madre Agostinha) apenas para contatos 
com outras religiosas, e o seu nome leigo para todos os demais contatos 
externos.

Um dos trabalhos mais notveis dessas religiosas ainda durante a vida de
Madre Agostinha ocorreu durante uma epidemia de clera.

Madre Agostinha ficou muito enferma em 1831 e impossibilitada de se
locomover at a sua morte, no ano de 1858. Dirigia sua comunidade mesmo 
com a desvantagem da deficincia que a bloqueava e impedia de uma 
participao maior e mais efetiva.
264

--Lord Byron, poeta e satirista ingls

George Gordon (1788 a 1824), baro e o sexto Lord Byron, teve uma vida 
que cativou a imaginao de toda a Europa. De um lado era profundamente 
melanclico e de outro era um homem repleto de aspiraes politicas.

Nasceu com um problema fisico (p torto) e sempre foi muito afetado
por essa deficincia. Tratado como "garoto aleijado" por uma linda jovem 
da qual estava enamorado, alimentou sua mgoa com poemas de profunda 
tristeza, muitas vezes relacionados a amores inatingiveis. Dedicou muito 
de seu tempo e fortuna  causa da libertao da Grcia e l morreu.

Foi considerado e at hoje muitos o consideram um"heri nacional grego".

--Antonio Feliciano de Castilho, um dos maiores literatos portugueses

Castilho (1800 a 1875) tem sido indicado como poeta, prosador, ensaista, 
escritor e pedagogo, mas , sem dvida, uma das mais importantes figuras 
literrias
nascidas em Portugal.

Perdeu a viso aos 6 anos de idade, mas seu denodado irmo Augusto,
percebendo sua incrivel memria, ajudou-o a estudar e a inteirar-se do 
mundo que o cercava. J prestes a finalizar seu curso em Coimbra, 
publicou em 1821 seu primeiro trabalho de verdadeira importncia: "Cartas 
de Eco e Narciso".

Com a publicao de seu livro de poesias "O Outono", aps uma viagem
ao Brasil e seus anos em Aores, despertou nos meios literrios lusitanos 
uma violenta
polmica que ficou conhecida como "Questo Coimbr". Nela estiveram 
envolvidos nomes famosos, como Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e 
outros.

A cegueira no impediu Antonio Feliciano de Castilho de se transformar
num dos mais respeitados nomes de toda a literatura portuguesa.

--Outros cegos do sculo XIX que ficaram famosos

Embora numa brevissima nota,  importante que nos lembremos de trs
cegos que ficaram famosos pela sua competncia em pleno sculo XIX:

Jacques Nicolas Augustin Thierry (1795 a 1856) um grande renovador da 
cincia histrica francesa e autor de "Narrativas dos Tempos 
Merovingios", "Consideraes sobre
a Histria da Frana" e "Ensaio sobre o Terceiro Estado".

Wiiliam Hickling Prescott (1796 a 1859), historiador 
ingls,autorde"Histriado Reino de Fernando e Isabel" e "Conquista do 
Mxico".

Henry Fawcett (1833a 1884), economista e politico ingls, autor de 
"Manual de Economia Poltica" e catedrtico na Universidade de Cambridge. 
Foi casado com a famosa
Millicent Garrett.
265

--A ortopedia do sculo XIX e as deficincias fisicas

J nos primeiros decnios do sculo XIX foi surgindo a prpria base da
reabilitao de pessoas portadoras de leses fisicas. Essa base, ainda 
no estabelecida,
defenderia a idia de que as pessoas que apresentavam deficincias 
fsicas deveriam receber, alm dos cuidados mdicos de que precisassem, 
servios especiais para poder continuar uma vida de acordo com suas 
aspiraes e a prpria dignidade do homem--conceito esse derivado da 
filosofia humanista somada s experincias prticas advindas do
forte progresso da cincia mdica.

Dentro dessa corrente de raciocnio, muito maior e melhor volume de
atendimento mdico-cirrgico e/ou ortopdico surgiu em poucos anos na 
Europa e em
diversas outras partes do mundo. Vejamos alguns progressos mais 
significativos:

1812-- Johann Georg von Heine criou um hospital s de atendimento 
ortopdico na
cidade de Wrzburg, na Prssia.

1817-- Foi criado na cidade de Birmingham, na Inglaterra, um hospital 
dedicado apenas a casos de ortopedia, ou seja, o chamado Orthopaedic 
Hospital.

-- Em Lbeck, Alemanha, foi tambm fundado um hospital destinado a 
pacientes
que apresentassem males ortopdicos, por influencia do mdico Lesthof.

1821 -- Foi fundado na cidade de Bar-le-Duc, na Frana, um hospital 
semelhante.

1826-- So construidos em Berlim, Alemanha, dois hospitais para 
ortopedia, enquanto
que no mesmo ano em Paris dois outros so tambm organizados.

1828-- Um hospital ortopdico  inaugurado na cidade de Montpellier, 
Frana.

1830-- Inaugurado na cidade alem de Hannover o famoso Stromeyer 
Hospital, destinado exclusivamente ao atendimento de casos de ortopedia.

Muitos outros evidentemente surgiram  mesma poca ou durante a segunda 
metade do sculo XIX, no s na Europa como nos Estados Unidos, e dentre 
eles
cumpre que destaquemos os de Haia, Londres, Copenhague, Praga, Florena, 
Petrogrado
e New York.

Este avano fulminante da ortopedia, aliada a outras reas do atendimento 
mdico, levou a uma ateno muito mais apropriada a males diretamente 
relacionados
a deficincias fisicas, conseqentes a fraturas, amputaes, deformaes 
e outros males
do esqueleto.

--Atendimento mais especializado aos cegos

Verifiquemos alguns desenvolvimentos adicionais ocorridos no sculo XIX 
no
campo da cegueira:

- Trs escolas destinadas ao atendimento especializado de cegos foram 
organizadas nos
Estados Unidos, sendo a mais famosa delas a New England Asylum for the 
Blind,
inaugurada no ano de 1832, hoje reconhecida no mundo todo com o famoso 
nome
de "Perkins School for the Blind". Est localizada em Boston, 
Masachussets. As
outras duas foram organizadas em 1832 e 1833, nas cidades de New York e 
Philadelphia respectivamente.

Em outros pases o atendimento mais especfico e mais cuidadoso de cegos 
gradativamente se implantava:

1863-- Em Lisboa, Portugal, no Castelo de Vide, foi iniciado o ensino 
profissionalizante para alunos cegos.

1866-- Na Cidade do Mxico foi criada e instalada a primeira escola para 
cegos mexicanos.

1876/1880-- Em Kyoto e em Tquio foram criadas duas modernas escolas para 
receber somente alunos cegos.

- Foi criada em Londres a Sociedade de Preveno da Cegueira--entidades 
semelhantes foram tambm organizadas em outros pases logo aps.

1888-- Criada em Buenos Aires, Argentina, a Escola para Cegos e para 
Surdos.

1890-- Em Santiago de Chile foi tambm criada uma escola para cegos.

De uma certa forma o Brasil foi pioneiro nas Amricas Central e do Sul,
com a criao do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, no ano de 1854,no 
Rio de Janeiro. Sobre essa experincia daremos pormenores no captulo 
seguinte.

Ainda no atendimento a cegos, dentro do Continente Asitico, ocorreu o
incio da primeira escola para cegos da China em 1876, por iniciativa do 
missionrio
William Hill Murray, da Sociedade Escocesa da Biblia. Murray dedicou-se 
muito a esse
empreendimento e chegou mesmo a inventar um sistema Braille para a lngua 
chinesa,
mais tarde substitudo pelo Braille Union Mandarin, aceito em todas as 
regies da vasta
China onde o Mandarin era falado.

Um pouco antes disso, no ano 1868, durante a restaurao Meiji, no
Japo, os privilgios especiais at ento dados aos cegos para se 
dedicarem com exclusividade  massagem e a certas reas da acupuntura 
foram suspensos. A tradio, porm,
manteve-se e at hoje o nmero de massagistas cegos  muito grande no 
Japo e em
muitas outras partes do mundo.

--A pessoa deficiente vista com potencial para o trabalho

A partir da segunda metade do sculo XIX houve um forte incremento s
atenes destinadas s pessoas portadoras de males limitadores de sua 
atuao, mais em
concordancia com as caractersticas individuais, tornando-se, portanto, 
mais humanas
no mundo todo mais atualizado. Em alguns pases nrdicos surgiram 
preocupaes muito srias quanto ao aspecto do potencial da pessoa 
deficiente para a produo de bens e
para desenvolvimento de servios, pelo menos para cobrir as prprias 
necessidades de
sobrevivncia.

Como resultado prtico dessa preocupao, no dia 1 de maio de 1863,
um grupo de pessoas influentes da sociedade novaiorquina criou a New York 
Society
for Relief of Ruptured and Crippled, em plena Segunda Avenida, no 
distrito de Manhattan. Hoje essa mesma sociedade foi transformada no New 
York Hospital for Special
Surgery, um dos melhores do mundo todo no atendimento a casos de 
deficincias fsicas das mais variadas ordens.

A Dinamarca tambm entrou na luta para um melhor aproveitamento da
mo-de-obra em potencial das pessoas deficientes, fundando uma 
organizao especial
para atendimento social e profissional, em 1872, ou seja, a Sociedade e 
Lar para Defeituosos (Society and Home for Cripples), seguindo 
praticamente exemplo sueco que,
segundo parece, havia sido divulgado alguns anos antes de seu 
estabelecimento.

Outro exemplo de tentativa para encontrar uma soluo de trabalho para 
pessoas portadoras de limitaes fsicas surgiu com a iniciativa do 
Pastor Hoppe, um
alemo que em 1885 organizou uma sala de aulas para ensino de um ofcio 
para crianas
deficientes. Sua iniciativa encontrou um sucesso muito grande, pois toda 
aquela escola
foi transformada num lar para pessoas com deficincias aprenderem 
profisses diversas.

--O problema dos surdos e dos surdos-mudos e suas solues

O atendimento aos surdos e aos surdos-mudos tambm progrediu muito
no sculo XIX. Exemplos desse progresso so os seguintes:

-- Na Inglaterra, ao final do sculo XVIII e incio do sculo XIX, o 
educador Thomas
Braidwood (1715 a 1806) organizou uma escola para surdos em Edinbourgh e 
logo
aps uma outra em Londres. Eram escolas particulares e a pagamento, que 
tiveram o
condo de despertar a ateno para o problema dos surdos e para as 
solues que se
apresentavam viveis. A primeira escola para surdos pobres havia j sido 
aberta em
1792, em Londres (Old Kent Road) mudando-se mais tarde para Margate.

Durante o sculo XIX muitas outras escolas para surdos foram organizadas 
na Inglaterra, tanto assim que em 1870 havia dez escolas residenciais 
dessa natureza. O governo ingls finalmente assumiu a responsabilidade 
pelo ensino oficial dos surdos e dos
cegos em 1893, tornando-se obrigatrio entre os 7 e 16 anos de idade, 
como parte
integrante do ensino oficial.

-- Na Alemanha, Moritz Hill (1805 a 1874) desenvolveu um mtodo prprio 
de educao para crianas surdas, usando a comunicao oral e seguindo 
exemplo do educador
alemo Samuel Heinicke (1727 a 1790). Hill sempre foi considerado um dos 
melhores educadores de surdos de todos os tempos.

- Nos Estados Unidos, em 1803, Francis Green de Boston j fizera 
juntamente com alguns religiosos protestantes, uma tentativa de 
recenseamento de surdos em todo o
Estado de Masachussets, encontrando 75 surdos. Supondo, pelo seu 
levantamento,
que no pas todo deveria haver bem mais do que 500 surdos, sugeriu a 
criao de escolas especiais.
No ano de 1815, em Hartford, Connecticut, foi organizada uma sociedade 
para a instruo de surdos que tomou a sbia iniciativa de levantar 
fundos para mandar o jovem professor Thomas Hopkins Gallaudet  Europa 
para aprender mtodos comprovados de ensino para surdos. Chegou a estudar 
o mtodo de sinais na escola do Abade
Sicard, em Paris, e em 1816 voltou aos Estados Unidos com um professor 
surdo:
Laurent Clerc.

No dia 15 de abril de 1817 foi aberta a Escola Hartford para Surdos que 
comeou a
utilizar tanto os sinais quanto o alfabeto normal e a prpria escrita.

Foi em 1818 que foi criada a New York Institution for the Deaf, graas  
influncia
marcante e ao interesse direto do Reverendo John Stafford.

O ano de 1867 viu surgirem duas escolas de importncia nesse campo: a 
Clarke School,
em Northampton, Masachussets e a Institution for the Impaired Instruction 
of the
Deaf, em New York, hoje chamada de Lexington School for the Deaf. Elas 
usavam
mtodos de comunicao oral em contraposio ao de comunicao por 
sinais, usado
nos primeiros cinqenta anos do sculo XIX.

--Proteo ao acidentado de trabalho por legislao recente

Otto von Bismark, Chanceler do Imprio Alemo, aprovou no ano de
1884 o que  considerado como a primeira lei do mundo que protegia o 
acidentado no
trabalho, no que foi imediatamente imitado por muitos outros pases 
europeus. Era uma
das primeiras providncias objetivas relacionadas a trabalhadores civis, 
levando gradativamente s programaes de recuperao fsica e de 
reabilitao, com tentativas de readaptao ao trabalho e 
reaproveitamento daquela mo-de-obra prejudicada.

Boa parte da presso por solues que visualizassem a volta ao trabalho
como um ideal a ser atingido partiu de companhias de seguros, envolvidas 
no processo
devido s determinaes legais de proteo ao trabalhador.

--A modernizao da cirurgia ortopdica e as pessoas deficientes

Ao se especular sobre cirurgia ortopdica e seu significado na 
eliminao,
na reduo ou na preveno de deformidades fsicas, na segunda metade do 
sculo XIX,
no se pode deixar de mencionar nomes como os de John Hilton, 
G.F.Stromeyer,
William J.Little, H.O Thomas, Sir Robert Jones e outros.

Como  sobejamente sabido, a cirurgia ortopdica pode ser preventiva
ou reconstrutiva. E apenas para que possamos ter uma idia do escopo 
amplo dessa especialidade mdica dentro da ortopedia, que tanto tem a ver 
com o mundo das pessoas deficientes, relembremos que as deformidades 
podem ser adquiridas ou congenitas.

Paremos por um instante apenas em nosso desenrolar histrico e meditemos 
sobre a importancia que teve e tem a cirurgia ortopdica em problemas 
relacionados
aos portadores de deficincias fisicas, e faamos justia aos mdicos que 
tm procurado
dedicar-se a essa especialidade.

Dentro do vasto campo para suas intervenes, lembremos as mais 
significativas: a cirurgia reconstrutiva da coluna vertebral e das 
extremidades  da mais real
importancia; fraturas mal solidificadas ou mal restauradas so tratadas 
por procedimentos cirrgicos dentro da cirurgia ortopdica; tendes podem 
ser reparados por transplantes e outros procedimentos especficos; 
diferenas nos tamanhos das pernas podem ser
acertadas; muitas doenas do esqueleto humano podem ser resolvidas pela 
cirurgia ortopdica; amputaes a niveis adequados e com tcnica 
cirrgica que permita o uso de
prteses so possiveis; a preveno de deformidades por procedimentos 
cirrgicos  tambm perfeitamente vivel. Essas so algumas das 
intervenes mais conhecidas da cirurgia ortopdica que avana 
continuamente para uma atuao cada vez mais primorosa.

Dentre os cirurgies ortopdicos mais famosos cumpre que separemos o
nome de Stromeyer, de Hannover, na Alemanha. Ele havia desenvolvido uma 
operao
conhecida por tenotomia (corte dos tendes), pela qual conseguia corrigir 
com menos
dificuldade alguns tipos de deformidades. Foi a ele que um novo pioneiro 
da cirurgia
ortopdica--William J. Little, da Inglaterra--recorreu no ano de 1836.

O Dr.Little havia nascido com uma paralisia no p, e com o tempo este
havia ficado deformado. Venceu barreiras, enfrentou ambientes e formou-se 
mdico.
Seus estudos sobre as causas do p torto e a introduo, na Inglaterra, 
da tenotomia,
sobre a qual tanto aprendera com Stromeyer antes, durante e depois de sua 
prpria
cirurgia foram DrovidnciAs muito siqnificativas para o desenvolvimento 
da cirurgia
ortopdica.

--Reabilitao desabrocha num centro de atendimento, em Cleveland

Os primeiros indcios de reabilitao aplicada como tal surgiram nos 
Estados Unidos no ano de 1889 com a criao de uma organizao especial 
para o atendimento de pessoas deficientes e que utilizou o nome de 
Cleveland Rehabilitation Center.

Um pouco depois, no ano de 1893, foi organizada na cidade de Boston
uma entidade chamada Boston Industrial School for the Crippled and 
Deformed, que
no s oferecia alguns treinamentos profissionalizantes mas tambm vrios 
outros servios que o individuo necessitasse.
e tambm o surgimento de outros grupos de profissionais mais voltados 
para problemas sociais ou para dificuldades individuais do ser humano num 
contexto familiar e comunitrio.

Algumas organizaes continuaram e continuam a manter uma tnica
custodial, assistencialista, caritativa e segregacionista. Mas o 
reconhecimento da pessoa
humana como um individuo de mritos prprios e de potencial a ser melhor 
aproveitado passava a ser irreversivel.

--Helen Keller, cega, surda e muda: um marco indelvel

Ao final do sculo XIX (1880) nascia Helen e com 19 meses ficou cega e
surda. Logo a seguir no conseguiu mais falar. Foi com 7 anos de idade 
que comeou a
receber a ajuda de Anne Sullivan, graas a uma sugesto de Alexander 
Graham Bell, consultado pelos Keller quanto a uma soluo para os 
problemas de Helen. A assistncia
a Helen Keller resultou de uma combinao de esforos de vrias 
organizaes que levaram a jovem a ler, escrever e at falar.

Em 1900 Helen entrou no Colgio Radeliffe, graduando-se em 1904
"cum laude". Desse ponto em diante sua vida foi marcada por uma plena 
dedicao 
causa de pessoas vitimas de mltiplas deficincias.

Ela foi um verdadeiro marco nos esforos para melhor compreenso das
potencialidades do ser humano para superar problemas considerados 
insuperveis.

Lutando com problemas semelhantes  mesma poca, mas vivendo situaes de 
vida bem diversas, poderemos citar alguns nomes que fortalecem a crena 
no
potencial do ser humano e na criatividade de muitos profissionais que 
levam a verdadeira cincia do atendimento para melhores e mais objetivos 
resultados:

Laura Bridgman (que s tinha o sentido do tato e que mesmo assim recebeu 
uma educao metdica) e Richard Clinton, ambosdos EUA; Marthe Obrecht, 
da Frana;
Inocncio Juncar y Reyes, da Espanha; Eugnio Malassi, da Itlia e Marie 
Heurtin,
da Frana--todos com deficincia visual e auditiva.

Marie Heurtin nasceu cega e surda e ao ser encaminhada a uma escola 
especial em Notre Dame de Larnay, perto de Poitiers, rolava na terra e 
grunhia como um pequeno
animal. Segundo Pierre Villey, autor cego dos mais categorizados, que 
escreveu sua
interessante obra "Le Monde des Aveugles" em 1914, Marie Heurtin " hoje 
uma jovem de 25 anos, cordata, ativa, alegre, que raciocina bem" . . . e. 
. . "Laura Bridgman,
que no tinha apenas a viso e a audio, mas tambm o paladar e o 
olfato, fornece a
prova irrefutvel que apenas as impresses do tato so suficientes para 
emancipar
uma alma e para liberar seu eco para os mais altos cimosque o espirito 
humano tem
explorado" ("Le Monde des Aveugles", de Villey).

CAPTULO QUINTO
A PESSOA DEFICIENTE NO BRASIL COLONIAL E IMPERIAL
Conforme tivemos oportunidade de verificar no rpido passar pelos muitos 
sculos da Histria do Homem, as doenas graves, os acontecimentos 
nefastos e os
muitos infortnios que sempre levaram s situaes de deficincias 
fsicas ou sensoriais
jamais deixaram de existir. Essa verdade sempre foi vlida em todos os 
quadrantes da
Terra, em qualquer poca. Ela  vlida tambm para todos os perodos da 
Histria do
Brasil, tanto para os nossos aborgenes ou para os negros escravos que 
para c foram trazidos como carga humana em navios infectos e 
superlotados, como tambm para os nossos muitas vezes bravos 
colonizadores provenientes de Portugal, da Frana, da Holanda e
da Espanha.

Se buscarmos nos arquivos de nossa Histria, poderemos surpreender-nos
com normas ou decretos que chegaram a abordar os problemas de pessoas com 
defeitos
fisicos. E se formos pesquisar as atividades de organizaes de pocas 
remotas em diferentes cidades (principalmente entre os sculos XVI e 
XVIII) certamente que acharemos
referncias vrias a "aleijados", "enjeitados", "mancos", "cegos", 
"surdos-mudos" e
outras mais.

No entanto, assim como na velha Europa, a quase totalidade das 
informaes sobre pessoas defeituosas est diluda em comentrios 
relacionados aos doentes e
aos pobres de um modo geral, como era usual em todas as demais partes do 
mundo. Na
verdade, tambm no Brasil a pessoa deficiente foi considerada por vrios 
sculos dentro
da categoria mais ampla dos "miserveis", talvez o mais pobre dos pobres.

Os mais afortunados que haviam nascido em "bero de ouro" ou pelo
menos remediado, certamente passaram o resto de seus dias atrs dos 
portes e das cercas vivas das suas grandes manses, ou ento, 
escondidos, voluntria ou involuntariamente, nas casas de campo ou nas 
fazendas de suas familias. Essas pessoas deficientes menos
pobres acabaram no significando nada em termos de vida social ou 
politica do Brasil,
permanecendo como um "peso" para suas respectivas familias.

Sempre que analisamos o problema das pessoas deficientes em pocas
passadas da Histria do Mundo, no podemos deixar de prestar a devida 
ateno  evoluo das cincias e de um modo todo especial  evoluo do 
atendimento mdico,  existncia de recursos de assistencia hospitalar 
das mais variadas naturezas e  manuteno,
pela sociedade ou pelos governantes, de entidades de beneficncia para 
pobres, pois as
pessoas deficientes sempre estiveram inseridas nesses reduzidos 
contextos.

 fcil depreender que no Brasil --uma mera colnia de Portugal--a 
situao no foi e nem poderia ter sido muito diferente. Assim,  muito 
importante que
tentemos encontrar meios para visualizar, durante os primeiros trs 
sculos de nossa Histria, os problemas das pessoas com males 
incapacitantes, em nossa realidade geral, sem
entretanto poder destac-los por quase absoluta falta de dados 
especficos.

- Os primeiros hospitais do Brasil Colonial

Comecemos por verificar como nossos ancestrais enfrentavam os proble274

mas de sade. E nesse sentido notaremos que no existe concordancia entre 
os autores
quanto  criao de uma primeira entidade hospitalar no Brasil. Seguindo 
modelo portugus, a tendncia foi criar as Casas de Misericrdia, com 
recursos provenientes da comunidade e com o fim especifico de atender aos 
doentes necessitados de assistncia mdica,
sem ter condies de pagar por esses servios especiais.

Alguns historiadores defendem como ano de fundao da primeira Casa
de Misericrdia o de 1545, enquanto que outros falam do ano de 1567. Ao 
que parece,
Estcio de S (1520 a 1567), terceiro Governador Geral do Brasil e 
sobrinho de Mem de
S, trouxera orientaes diretas do rei de Portugal, no s para expulsar 
os franceses de
Villegaignon, instalados na baia da Guanabara, mas de construir ali, 
prximo ao morro
conhecido com o nome de Po de Acar, uma cidade. Nela, dentre os 
recursos essenciais, o rei determinava a construo de uma casa para 
abrigar a Confraria da Misericrdia e seus servios. A cidade recebeu o 
nome de So Sebastio, em homenagem ao rei.

Mas Estcio de S no teve muito tempo para se dedicar  completa 
construo da nova cidade, pois no ano de 1567, com apenas 47 anos de 
idade, faleceu, vitima de uma flechada no rosto, aps ter passado semanas 
com alta febre e com serissima
infeco causada pelo ferimento. Anchieta, um dos maiores jesuitas que 
atuaram no
Brasil, esteve presente  sua morte.

Segundo vrios autores, s mesmo no dia 24 de maro de 1582  que foi
determinada a construo de diversas palhoas de pau-a-pique cobertas de 
sap, onde o
padre Jos de Anchieta instalou, na vila de So Sebastio do Rio de 
Janeiro, o que foi
depois conhecido como Santa Gsa de Misericrdia do Rio de Janeiro. A 
construo fora
acelerada para poder dar abrigo urgente  tripulao e aos soldados da 
esquadra de um
corajoso almirante espanhol, Dom Diogo Flores Valdez, todos atacados por 
escorbuto
e por febres malignas durante sua longa viagem da Espanha para o Estreito 
de Magalhes,
com 23 naus e 5.000 homens armados, a fim de l construir fortificaes e 
povoados. A
volumosa esquadra havia surgido na baia da Guanabara muito 
cautelosamente, com a temida cruz negra no alto dos mastros de todas as 
naus. Era o indicativo de peste a bordo.
E foi socorrida.

Alojados, ainda que precariamente, os soldados e marujos espanhis, 
Anchieta e os outros jesuitas auxiliados por colonos de boa vontade e por 
indios amigos,
prepararam pomadas e mezinhas todas elas extraidas de nossa muito rica 
flora.

H autores que discordam da data e do local de instalao do primeiro
hospital brasileiro. Sgundo Zarur, por exemplo, o Baro do Rio Branco 
afirmava ter
ocorrido no dia 24 de fevereiro de 1583 um violento combate entre dois 
galees ingleses
e trs espanhis em pleno porto de Santos, praticamente  frente de So 
Vicente. Devi
do a esse combate e aos seus desastrosos resultados em termos de 
destruio de casas e
ferimentos em muitos marujos e habitantes da vila, ali foi organizada, no 
mesmo ano, a
primeira Casa de Misericrdia do Brasil.

As informaes de Santos Filho do-nos, todavia, uma viso bem mais
ampla de todo o assunto. Segundo esse renomado professor de medicina, eis 
algumas datas de fundao de nossos hospitais de misericrdia no sculo 
XVI:

1543-- Data considerada incerta mas provvel para a criao da Casa de 
Misericrdia de
Santos.
1549-- Ano de criao da Casa de Misericrdia da Bahia.

1540-- Embora anterior a todas, a data  bastante incerta para a alegada 
criao da Casa de Misericrdia de Olinda.

1570-- Data das primeiras instalaes da Casa de Misericrdia do Rio de 
Janeiro, retomadas em 1582 com a construo de palhoas para a tripulao 
e soldados embarcados com Dom Valdez.

1590-- Instalao da Casa de Recife.

1595-- Instalada a do Espirito Santo.

Lembremo-nos que quase todas essas pobres Casas de Misericrdia mantinham 
a tristemente famosa Roda dos Expostos, na qual muitos recm-nascidos com 
deformaes foram colocados por mes desesperadas, tendo eles sido 
criados em orfanatos
ou nos conventos, como elementos  margem da sociedade.

--Anchieta e seu exemplo de assistncia aos doentes

Ressaltemos que bem antes dos empreendimentos acima indicados outras
iniciativas de assistencia a enfermos, a doentes crnicos e enjeitados 
vinham sendo leva
das a efeito. Isso ocorreu com a presena dos jesutas desde o comeo da 
fundao de
Sao Paulo. Nada melhor do que buscarmos as palavras de quem realmente 
esteve ali pre
sente, por aqueles agrestes e muito dificeis anos do inicio da maior 
metrpole brasileira,
ou seja, o padre Jos de Anchieta.

Em carta datada de 1554, enquanto ainda estava em Piratininga, ele narra
o seguinte: "De janeiro at o presente tempo, permanecemos algumas vezes 
mais de vinte em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de 
palhas, tendo catorze passos
de comprimento e apenas dez de largura, onde esto ao mesmo tempo a 
escola, a enfermaria, o dormitrio, o refeitrio, a cozinha e a dispensa" 
(Apud Rodrigues).

Doentes e acidentados acorriam a esse incipiente recurso polivalente 
surgido em So Paulo de Piratininga no prprio ano de sua fundao. Ao 
descer a serra para
So Vicente, ainda no ano de 1554, Anchieta escreveu uma carta especial 
para os seus irmos jesuitas doentes em Coimbra, afirmando: " . . . neste 
tempo que estive em Piratininga servi de mdico e de barbeiro, curando e 
sangrando a muitos daqueles indios dos
quais viveram alguns de que no se esperava vida, por serem mortos muitos 
daquelas
enfermidades" (Apud Rodrigues).

O termo "barbeiro" relaciona-se aqui  funo de cirurgio e no  de
cortador de cabelos e aparador de barbas, pois conforme verificamos 
anteriormente, durante vrios sculos as sangrias e certas intervenes 
hoje inseridas em cirurgia eram praticadas por esses profissionais.
Ao referir-se s atividades de Jos de Anchieta quando "sangrava" 
portugueses e ndios, o historiador Robert Southey (1779 a 1843) afirma: 
"suscitaram-se escrpulos a respeito desse ramo de sua profisso, pois 
que ao clero  proibido derramar
sangue; consultado Loyola, respondeu que a caridade se e~tendia a 
tudo/~("Histria do
Brasil", de Southey).

O mesmo autor afirma tambm que Anchieta dispunha apenas de um ca
nivete de afiar penas de escrita para realizar essas famosas sangrias.

No nos  dificil imaginar que Anchieta tenha lutado fortemente contra a
desabusada e muito aceita atuao de benzedores ou feiticeiros, uma vez 
que, de acordo
com seus prprios escritos, ele chegou a preparar mezinhas, operou, 
sangrou, fez partos,
exumou cadveres, curou feridas bravas, tratou de cancros, fez curativos, 
assistiu a
velhos, crianas, moribundos e loucos. Cuidou tambm de problemas 
decorrentes de flechadas, golpes de tacape, feridas de guerra; combateu 
pestes, infeces, febres e at suicidios; chegou at a descrever males 
desconhecidos  poca e diversos tipos de doentes.

--Males incapacitantes nos primeiros anos de Brasil

Falando sobre nossos indgenas, Santos Filho informa-nos incisivamente:
"Eram rarissimos os aleijados e as deformaes reconheciam origem 
traumtica". E cita-nos uma frase de Anchieta a esse respeito: "Achava-se 
raramente um cego, um surdo,
um mudo ou um coxo, nenhum nascido fora do tempo" (Apud Santos Filho).

Sobre os nossos ndios dos meados do sculo XVI Jean de Lry, que os
viu muito de perto e com os mesmos conviveu muito enquanto aguardava 
navio para voltar  Frana, afirma: "No so maiores nem mais gordos que 
os europeus; so, porm,
mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos 
sujeitos a
molstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes,aleijados ou 
doentios"
("Viagem  Terra do Brasil", de Lry).

Entre os portugueses, no entanto, a situao era outra e no era to 
serena. No inicio da colonizao brasileira, os colonos sofriam muito com 
a quantidade de
insetos nocivos  sua sade e bem-estar. Afetavam nos muito tambm os 
males prprios
dos trpicos e caracteristicos de uma terra nunca desbravada, alguns 
deles de natureza
muito grave e que acabavam levando a severas limitaes de natureza 
fsica ou sensorial.

Havia, por exemplo, um inseto chamado "chigua", citado por diversos
autores da poca. Era de propores reduzidissimas, muito encontradio 
nas primeiras
pousadas ou fazendas que se dedicavam  produo de cana de acar. 
Infestava tambm outras regies, evidentemente. Essa espcie de inseto 
plvora introduzia-se entre
as unhas e as carnes dos dedos das mos e dos ps. Chegava a afetar muito 
seriamente
algumas juntas do corpo.

Lry conta que, por maior cuidado que tivesse e por maior esmero que
procurasse empregar para deles se livrar, no conseguia. Segundo seu 
relato, chegaram a
extrair dele mais de vinte "chiguas" num s dia. E, de acordo com 
Southey, muita
gente chegou a perder os ps de uma forma pavorosa, por causa desse 
inseto.
Os nossos indios e nossos mamelucos sabiam de uma segura soluo para
o problema dos "chiguas", no sendo por eles muito molestados. Aos poucos 
foram os
europeus tambm seguindo seu exemplo. "Untavam as partes que mais 
expostas andavam a esta praga, com um azeite vermelho e espesso, 
espremido do "courouq", fruta que
em nos,sa terra  parecida com a castanha. Por felizes se deram os 
franceses quando souberam desse preservativo. Para feridas e contuses 
era o mesmo leo soberano ungen
to" ("Histria do Brasil, de Southey).

Santos Filho, analisando pecularidades do Brasil nesse incrivel e muito 
dificil sculo XVI, afirma que aps anos de colonizao "tal e qual como 
entre os demais
povos, e no mesmo grau de incidncia, o brasileiro exibiu casos de 
deformidades, congenitas ou adquiridas. Foram comuns os coxos, cegos, 
zambros, corcundas" ("Histria Geral da Medicina Brasileira", de Santos 
Filho).
--Cegueira noturna no Brasil dos sculos XVI e XVII

O naturalista holands Guilherme Pison viajou em companhia de outro
amigo das cincias, Margraff, ao Brasil no inicio do sculo XVII e 
escreveu sua principal
obra em 1648,  poca intitulada "Histria Naturalis Brasiliae". Nela ele 
nos fala de severos males dos olhos, mencionando-os como oftalmias de 
muita seriedade e muito comuns aos moradores de nossa Terra. E diz que 
"entre as calamidades do Brasil, no ocupam o ltimo lugar as doenas dos 
olhos, atacando mais que todos os soldados e os oprimidos pela misria".

Pison no coloca esses males como epidemias, mas culpa as pessoas 
vitimadas pelo mal devido  sua vida desregrada e corrupta. "Desses, uns 
perdem a vista
quando o sol se pe", diz ele, e "outros a perdem com o crepsculo 
matutino". Pison
chama o problema mdico de "gota-serena" e tambm de "amaurose", palavras 
que
at hoje correspondem a cegueira parcial ou total. E comenta que as 
vitimas tratavam-se com "guabiraba" ("Histria Natural do Brasil 
Ilustrada", de Pison).

Robert Southey, por sua vez, analisa o mesmo problema. O historiador
ingls parece ter-se baseado na opinio de Pison, pois a semelhana de 
seus comentrios
 bvia quando diz: "Molstias dos olhos eram to vulgares, mormente 
entre soldados
e pobres; a mais freqente era essa meia cegueira que os europeus 
freqentemente experimentam entre os trpicos; os remdios eram o fumo de 
tabaco, carvo de casca de guabiraba ou alvaiade em leite humano, ento 
muito empregada como medicinal" ("Histria do Brasil", de Southey).

A meia cegueira citada ("evening blindness", no original da obra), a
"amaurose" ou a "gota-serena" devem corresponder  xeroftalmia, a 
cegueira noturna
dos nossos dias, cuja causa bsica deve ter sido alimentao com 
perniciosa falta de vitamina A.

--Os problemas mdicos nos sculos XVI e XVII no Brasil

No resta dvida que a situao deve ter sido incrivelmente difcil e 
muito problemtica durante os sculos XVI e XVII, para casos de doenas 
mais srias, casos
de fraturas expostas ou complicadas, ou mesmo de deslocamentos e, ainda 
pior, casos
que provocavam leses permanentes e de natureza incapacitante.

Quando surgia uma epidemia nesses terriveis duzentos anos da Histria
do Brasil, era um verdadeiro "salve-se quem puder". Nessas horas s se 
apresentavam para dar algum atendimento  populao mais pobre os 
improvisadores e tambm os muito experimentados curadores. Pedro Calmon, 
em sua "Histria do Brasil", relata-nos a
epidemia da febre amarela, em pleno sculo XVII, da seguinte forma: "A 
"bicha" era
a febre amarela. Trouxera-a da llha de So Tom para o Recife um brigue 
negreiro.
Abertas duas barricas com carneS salgadas, logo morreram, como se 
vitimados pelo ar
empestado, dois maritimos; e o mal se espalhou pelo porto, pela vila de 
Olinda e seus
arredores, sem haver medicina que o atalhasse. Verificou-se na Bahia o 
primeiro caso de
doena em abril. A sordcie dos sobrados, cujos pores andavam cheios de 
escravos da
frica, o calor, as ruas sujas, a falta de higiene, agravada pelo nmero 
crescente de negros mercadejados nos bairros da praia, favoreceram a 
expanso da epidemia, "novo gnero de peste nunca visto nem atendido dos 
mdicos, de que j morreram dois", como
participou Vieira ao Conde de Castanheira em 1 de julho de 1686. Feria 
de preferncia os brancos, os menos adaptados ao clima. Dias houve em que 
morreram na cidade
duzentas pessoas" ... ... "Chegaram as ruas a estar despovoadas, no s 
morrendo de
vinte a trinta todos os dias, mas no havendo casa em que no houvesse 
muitos enfermos
e em algumas todos" ("Histria do Brasil", de Calmon).

Diante de situao de tal seriedade podemos imaginar o abandono a que
foram relegados os infelizes que padeciam de males crnicos ou que 
carregavam consigo
a dificuldade prpria de uma deficincia fisica ou sensorial.

--Mdico com deficincia fisica na Histria de Pernambuco

Joo Fernandes Vieira (1613 a 1681), heri da guerra contra os holandeses 
que haviam invadido o Brasil, durante muitos anos organizou planos para a 
libertao de toda a regio ocupada do Nordeste. Participou valentemente 
das duas batalhas de
Guararapes, tendo sido um forte aliado de Vidal de Negreiros, Camaro e 
Henrique Dias.

Tendo tomado posio em Covas com um improvisado exrcito mal treinado e 
sem qualquer disciplina, Joo Fernandes teve que se haver com 
descontentes e
traidores em potencial, utilizando-se de medidas bastante severas para 
cont-los.

No entanto, o problema da falta de assistncia mdica que afetava a to
dos, sem exceo, levou Joo Fernandes a mandar um pequeno grupo de 
soldados a
Santo Amaro, para dali raptar um mdico francs conhecido como Mestrola, 
homem
devotado ao seu mister, apesar de sria deficiencia fisica que o impedia 
de muita movimentao pelo local.

 Southey que nos conta: "Ao ver-se nas mos de tal gente clamou o
pobre cirurgio que era cristo catlico romano, e sempre curava os 
portugueses com o
maior cuidado e carinho; se aqueles fidalgos queriam lev-lo para as 
matas e l assassin-lo, suplicava-lhes a bondade de o matarem antes ali 
mesmo perto da igreja, onde
algum bom cristo o enterraria pelo amor de Deus. Mas se queriam que ele 
tratasse dos
portugueses feridos, lhe dessem um cavalo, que tinha ele a perna doente, 
com que no
podia andar" ("Histria do Brasil", de Southey).

O mdico com a sria deficincia na perna conseguiu o cavalo e no teve
outro remdio a no ser aderir ao pobre e valente exrcito de Joo 
Fernandes, ao qual
prestou bons servios.

--O probema das paralisias no Brasil do sculo XVII

Simo Pinheiro Moro foi um mdico portugus que viveu muitos anos
no Brasil em pleno sculo XVII, depois de ter passado srias frustraes 
em Portugal.
Ao final de sua permanncia no Nordeste Brasileiro, precisamente no ano 
de 1677, resolveu escrever aquilo que intitulou pouco sutilmente de 
"Queixas Repetidas em Ecos
dos Arrecifes de Pernambuco contra os Abusos Mdicos que nas suas 
Capitanias se
Observam Tanto em Dano das Vidas de seus Habitadores". O trabalho 
destinava-se principalmente s pessoas que improvisavam na rea da 
medicina.

Nesse extenso manuscrito que ficou perdido por sculos, ele arrola 
diversos males. Destaquemos aquilo que chama de "paralisia", mencionada 
inespecificamente, mas dando a entender tratar-se das seqelas de um 
acidente vascular cerebral ou de
alguns outros males que podem levar  perda eventual da sensibilidade.

Percebe-se nas entrelinhas a inexistncia de maiores preocupaes com o
problema familiar ou social causado pelo mal, limitando-se Moro a 
registrar o que pode
ser usado em determinadas circunstancias como medicamento.

" . . . se  paralisia sobrevier tremor no  ruim sinal, seno bom, 
assim
como tambm se acharrnos a parte ofendida com quentura, ou com calor, 
porque com
isso nos d esperana de melhoria; e muito melhor se  paralisia 
sobrevierfebre. E tambm podemos fazer ruim prognstico quando a parte 
ofendida se for secando, a que os
mdicos chamam atrofia".

Um pouco mais adiante Moro comea a desfiar idias suas e de outras 
autoridades mdicas daqueles tempos quanto  cura eventual da paralisia. 
Eis algumas delas:

"O mais eficaz remdio para este acidente de paralisia de que todos os
autores fazem particular meno, e a experiencia tem mostrado infinitas 
melhoras, 
o das caldas, aonde acodem todos os anos, nos meses destinados a isso, 
todos os enfermos desta enfermidade e de outras muitas igualmente 
rebeldes; donde os mais deles
saem com manifesta melhoria" . . .

Moro no entra, todavia, em muitos pormenores por julgar inoportuno
e devido ao fato de no Brasil --- colnia portuguesa--no existirem ento 
estaes de
guas termais. Mas a medicina, auxiliada por boticrios experientes, j 
demonstrava
sua criatividade e supria a falta das guas termais por "suores de 
salsaparrilha ou de
pau-da-china".

Aps esse tratamento inicial de "suores" abundantes, o paciente devia
continuar os cuidados intensivos, caso no ocorresse a melhora. E nesses 
casos, o que
devia fazer?

"Seja a primeira mezinha untarem a nuca e o espinhao todo com leos
seguintes. Tomem de leo de lirio e de arruda de cada um uma ona, de 
aguardente do
Reino meia ona com enxndias de ganso e uns ps de mostarda pisados se 
faa linimento, e com ele quente se untaro as partes ofendidas, fazendo-
lhe primeiro nelas uma
esfregao com pano quente perfumado com alfazema. E aqui se advirta, que 
as partes
paraliticas se no carreguem com coberturas".

O autor menciona outros tratamentos por meio do que chama de 
"rubificantes". Um dos tratamentos mencionados  defendido por outro 
mdico e cientista
portugus do sculo XVII, o Dr. Henrique de Quintal: " . . . tomar folhas 
de mostarda
bem pisadas, cozidas em urina fresca de meninos, at que tome forma de 
papas, e estas
moderadamente quentes se ponham nas partes paraliticas".

Havia variaes no uso de ervas, incluindo sempre a mostarda e muitas
vezes a salva, manjerona e arruda, misturadas e cozidas em leo para 
"untar as vrtebras
do espinhao".

Moro chega a discutir o problema da paralisia na eventual clientela 
pobre e que jamais poderia ter acesso a ingredientes dispendiosos como a 
salsaparrilha e o
pau-da-china pareciam ser. O substitutivo por ele indicado era a salsa-
da-praia, encontradia com maior facilidade.

As pormenorizadas informaes de Moro e de outros autores j citados
indicam-nos que sem a menor sombra de dvida alguns procedimentos 
indicados por
eles provocavam algumas curas, bastante melhora ou pelo menos algum 
alivio em pessoas que eram vitimas de algum tipo de paralisia nos 
primeiros sculos de Brasil.

--A medicina do sculo XVIII entre ns

As crendices passadas de gerao a gerao pelos escravos, indios e 
europeus predominavam no Brasil do sculo XVIII.

Embora toda a situao fosse muito primitiva e nosso pas no contasse
com recursos significativos, alguns mdicos procuraram documentar 
cientificamente o
problema. No ano de 1741 o mdico Joo Cardoso de Miranda escreveu um 
pequeno
tratado intitulado "Relao Cirrgica e Mdica", dando alguns pormenores 
quanto s
nossas doenas, nossas endemias, os contgios relacionados a males 
trazidos pelos negros
escravizados e infeces vrias. E no final do sculo XVIII, exatamente 
em 1796, o Dr
Jos Mariano Leal procurou organizar algumas aulas para demonstrao e 
para tratamen
to cirrgico, a fim de repassar a colegas seus as experiencias que 
conseguira acumular durante toda a sua vida de mdico. Em seus sonhos 
profissionais havia tambm a preocupao de combater mais 
sistematicamente a temida "lepra".
E tentativas para melhorar o padro de atendimento mdico e ampliar o
campo de conhecimentos da medicina ocorreram em vrios pontos do pas. 
Com esse
avano os charlates e os barbeiros foram sendo acuados para pontos menos 
desenvolvidos do Brasil.

No entanto, bloqueios muito srios ocorriam e a grande maioria deles
oriundos da Ptria-Me, Portugal. Em 1768, por exemplo, os vereadores de 
Sabar, na
Provincia de Minas Gerais, pediram ao rei de Portugal permisso para a 
fundao oficial
do que chamavam "Casa de Aulas", para ensinar anatomia e cirurgia, tanto 
na teoria
quanto na prtica. A resposta, vinda do reino depois de muito tramitar 
pelos corredores
da corte, foi lacnica e desagradvel ao extremo: "No convm" . . . O 
rei procurava preservar, custasSe o que custasse, a inquestionada 
liderana de Coimbra entre ns. De l
emanava todo o saber lusitano (Apud Calmon).

Aqui em nossa Terra havia reduzido nmero de formados em Coimbra e todos 
eles localizados nas melhores cidades. S atendiam  elite portuguesa ou 
aos homens
mais ricos daqueles tempos. Para o povo em geral e para os pobres 
prevalecia a experin
cia dos sangradores, dos utilizadores de ventosas e sanguessugas e dos 
charlates em geral. No licenciados para essas funes, na verdade 
tratava-se de padeiros, barbeiros, negros experimentados, homens 
supostamente bem informados, mulheres habilidosas e curiosas, alm dos 
sempre famosos curandeiros.

--Males limitadores que afetavam muito os negros escravos

Muitos dos africanos que foram trazidos  fora para o Brasil como 
escravos aqui sofreram muitos caStigos fsicos, chegando mesmo a terem o 
corpo marcado pelos maus tratos a eles infligidos.

Muitas vezes eram vitimas de raquitismo, de beribri, de escorbuto 
(tambm conhecido como "mal de Luanda"), ou seja, das sindromes mais 
srias denotadoras
de carncias alimentares.

"Foram portadores de defeitos fsicos provocados por castigos e desastres
nos engenhos" ("Histria Geral da Medicina Brasileira", de Santos Filho).

Falando sobre os efeitos da varola sobre os escravos negros, Sigaud nos
esclarece que "com o fito de provocar a erupo e de evitar tanto quanto 
possivel os
acidentes provocados pelo seu atraso, ou tambm pelo surgimento de 
pstulas nas mucosas e em alguns OUtros rgos (casos de cegueira foram 
muito comuns, especialmente
entre os negros), o Dr.Joo Alves de Moura, mdico do Rio de Janeiro, 
mandava fazer
frico na pele com certo leo extrado do corpo de lagartos brancos" 
("Du Climat et
des Maladies du Brsil", de Sigaud).

--Deficincias fisicas e sensoriais entre nossos ndios

Como resultado da proficua viagem de uma comisso cientifica ao Brasil
durante tres anos (1817 a 1820), Carl Friedrich von Martius (1794 a 1868) 
escreveu um
interessante trabalho: "Natureza, Doenas, Medicina e Remdios dos Indios 
Brasileiros".
282

Nessa obra do botanico alemo encontraremos algumas afirmaes 
interessantes quanto a deficiencias entre nossos ndios do norte do 
Brasil. Vejamos algumas
referncias do cientista:

"Escoliose, "pied-bot" e deformaes outras do esqueleto no observamos 
em parte alguma. Provavelmente, quando essas deformidades so 
hereditrias, o que  admissivel,
sacrificam as crianas aleijadas, ao nascer. Alm disto  singular, e se 
poder apresentar
como caracteristica da histria dos costumes daquela raa, que tantos 
enigmas nos oferece, que o ndio representa o curupira, produto de sua 
superstio, o assombro da mata, sempre mau e hostil ao homem, com "pied-
bot" ou p torto, voltado para trs, saindo do trax".

Em nota explicativa  informao de von Martius, o tradutor Piraj da
Silva acrescenta que o curupira " genio silvestre, o gnomo, ano de um 
p s, ou de
uma banda s. Cavalga, s vezes, um caitetu ou taitetu e transmite a 
desgraa a quem o
avista. Sacy-perer  outro gnio malfico".

Von Martius confirma ainda que "s vezes aparecem paraliticos e coxos;
sua deformidade  sempre de origem traumtica". Diz mais, quanto  
cegueira: "Por causas traumticas ficam muitas vezes cegos, porm a 
catarata s raramente os ataca" . . .

A respeito da surdez o botanico alemo afirma que "os autctones 
brasileiros sofrem mais dos ouvidos que dos olhos. Observamos muitos 
homens e mulheres
completamente surdos; mais numerosos ainda eram os casos de meia surdez" 
("Natureza, Doenas, Medicina e Remdios dos Indios Brasileiros", de von 
Martius).

--Antnio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho"

Um exemplo muito importante de trabalho de alta qualidade de uma pessoa 
portadora de deficincia fsica muito sria e progressiva aconteceu na 
metade do
sculo XVIII e alvorecer do sculo XIX.

Em 1800 Antnio Francisco Lisboa (1730a 1814),apelidadopelapopulao que 
o conhecia mais de perto e reconhecido por todos como o "Aleijadinho",
com setenta anos de idade acertava um contrato para a execuo em pedra 
dos doze
profetas no adro da igreja do Bom Jesus dos Matozinhos. Por essa poca j 
tinha que ser
carregado, provavelmente devido  tromboangeite obliterante, que em seu 
caso se caracterizava por ulceraes nas mos e nos ps.

Com alguns dedos das mos perdidos ou imobilizados, mandava que seus
auxiliares ou empregados amarrassem o martelo e o cinzel s suas mos.

Morreu aos oitenta e quatro anos de idade, sozinho e esquecido, meio 
paralisado e cego. Foi um homem competente em sua arte considerada hoje 
como genial.

O apelido de "Aleijadinho" provavelmente indica a comiserao de seus
contemporaneos, muitos dos quais reconheceram sua arte e seu valor por 
muitos anos.
--Uma primeira tentativa em projeto de lei: ajuda a cegos e a surdos

Desde 1835 surgira formalmente no Brasil a idia de se fazer algo srio
em favor dos cegos, o que na certa j ocorrera em anos anteriores por 
meio da iniciativa privada, tendo sido j tentado em alguns pontos mais 
civilizados de nossa jovem ptria. Infelizmente a idia no foi 
concretizada, mas o leitor interessado poder encontrar nos Anais da 
Camara de Deputados do Rio de Janeiro, um projeto de lei datado de
29 de agosto de 1835, que est assim redigido:

"Art. 1.-- Na Capital do Imprio, como nos principais lugares de cada 
Provincia,
ser criada uma classe para surdos-mudos e para cegos".

O Deputado Cornlio Ferreira Frana, seu autor, devido a motivos 
polticos no esclarecidos, nem chegou a ver seu projeto devidamente 
discutido em plenrio. Seu mrito, porm, e incontestvel. Apesar da 
restrita distribuio da noticia, chegou a chamar a ateno da sociedade 
para o assunto e despertar o interesse dos familiares das pessoas cegas, 
surdas e surdas-mudas.

--O problema das amputaes do sculo XVI ao XIX

Durante os primeiros quatro sculos de nossa Histria, as amputaes
foram a mais sria e a mais comum das cirurgias. Compreende-se, dessa 
forma, a conotao dada naqueles sculos  cirurgia como tcnica 
mutiladora. Naturalmente as amputaes ocorriam devido a acidentes, 
gangrena, tumores, golpes violentos, entre diversas
outras causas.

O que sucedia com os amputados, no entanto, no nos  relatado pelos
historiadores nem pelos cronistas.

Os nossos "fsicos", como eram conhecidos os mdicos, e os barbeiros
que tinham licena para ser cirurgies, dispunham de poucos e mal 
conservados instrumentos cirrgicos.

Santos Filho relata-nos ilustrativamente que o cirurgio-mor do Hospital
Militar de So Paulo, em 1804 dispunha para amputaes de uma nica serra 
de carpinteiro. Os demais ferros de cirurgia eram mal conservados e 
guardados em qualquer lugar.

Muitos morriam em conseqencia da cirurgia, em grande parte devido a
infeces ps-operatrias. No  de estranhar que isso acontecesse. Basta 
ler um pequeno trecho de Luccock, que em 1809 visitou um cirurgio alemo 
em So Pedro do Rio
Grande do Sul. Ele "praticava tanto a cirurgia como a medicina e de uma 
feita os instrumentos que usava cairam sob os meus olhos. Estavam na 
maior das desordens e absolutamente imprprios para a mais vulgar das 
intervenes. Tomando de uma serra enferrujada, perguntei-lhe se se 
atreveria a amputar um membro com semelhante instrumento. "Por que no?", 
replicou, " a melhor que possuo e ningum mais aqui  capaz
de realizar tal operao" ("Notas sobre o Rio de Janeiro e Partes 
Meridionais do Brasil",
de Luccock).
284

--A influncia europia no Brasil

No ano de 1841 Dom Pedro II mandou construir um hospital de misericrdia 
ligado  corte, a fim de substituir as superadissimas e sujas enfermarias 
da praia
de Santa Luzia. O estilo da nova construo adotava uma mistura do gtico 
com o
neoclssico. O edifcio era portentoso, digno de alguns pases europeus 
bem adiantados.
E com a presena da rica colnia portuguesa que aqui se radicara em 
definitivo, comeou tambm a surgir nas cidades mais importantes do 
Imprio as chamadas "Beneficncias Portuguesas", sustentadas por taxas 
diversas cognominadas de "impostos da vaidade".

O Imperador, com o propsito de incentivar essas iniciativas e tambm
aquelas que levavam  criao e  manuteno das Santas Casas de 
Misericrdia, honrava-as com ttulos e condecoraes.

De outra parte, com a prpria Independncia do Brasil j havia ocorrido
um inegvel bloqueio  influencia cientifica de Coimbra em nosso meio. 
Nossos estudiosos comearam a procurar as escolas e as universidades 
francesas, alems e austriacas. E
a civilizao francesa principalmente comeou a invadir o Brasil sedento 
de cultura e de
modernizao, chegando a dominar nossos usos e costumes por 
aproximadamente um
sculo todo. Alunos jovens de famlias ricas, bolsistas, ou estudantes 
das mais variadas
origens l iam estudar e, ao voltar, comeavam a criar o nosso prprio 
ensino e o nosso
prprio meio tcnico e cultural.

Foi o que ocorreu com a medicina entre os anos de 1824 e 1854. Foi
tambm o que sucedeu no campo de atendimento a pessoas com deficincias.

--Organizaes para pessoas deficientes criadas por Dom Pedro II

No campo da assistencia  populao prejudicada por alguma deficincia em 
pocas anteriores aos meados do sculo XIX, no encontramos nada de 
relevante.
A pessoa vitima de alguma paralisia, alguma deformao congnita, algum 
tipo de amputao ou em conseqncia de alguma doena mais grave, 
certamente acabava por se tornar responsabilidade de sua prpria familia. 
(*)

As condies delas no Brasil do sculo XIX no era outra. Ou antes, 
certamente que era outra e bem pior do que hoje--e as pessoas apelidadas 
de "aleijadas",
"manetas", "pernetas", "zambras", "cambaias", "mancas", "paralticas", 
"ceguinhas",
"loucas", "bobas" e defeituosas de um modo geral ficavam sendo problema 
de seu
grupo familiar e nunca do Estado ou da sociedade.

As tendncias europias que chegavam ao porto do Rio de Janeiro com
o atracar dos navios de passageiros, com a distribuio das revistas 
atrasadas, com os livros publicados meses antes nos pases mais 
adiantados e influentes e tambm com o

( *) Mesmo hoje, aqui no Brasil, o problema continua pouco alterado. 
Temos, entre ns, aproximadamente dez milhes de pessoas deficientes, mas 
no as vemos. Onde esto elas? Nos quartos
dos fundos da casa? Nos quintais cercados por altos muros? 
Institucionalizadas? Longe dos
olhos curiosos do povo? Essa populao "continua" sendo responsabllidade 
de suas famlias. . .
285

continuo retorno ao Brasil de homens inteligentes, estudiosos, bem 
preparados e interessados em sua Terra Natal, acabaram provocando o 
esperado avano brasileiro no sentido
da modernizao.

Foi por esses anos de renovao cultural e de nsia de modernizao que
foram criadas trs organizaes por iniciativa de Dom Pedro II, homem 
pblico que esteve sempre muito voltado para as conquistas da civilizao 
europia para a soluo de
problemas cruciais da populao. A elas nos limitaremos neste capitulo.

a) Imperial Instituto dos Meninos Cegos

Em termos de empreendimentos concretos, nada havia sido feito no Brasil 
Imperial em favor dos cegos at 1854, a no ser algumas iniciativas 
privadas de mero
alojamento, asilo ou segregao dos cegos em instituies mal 
organizadas. Mas no dia
17 de setembro de 1854 foi inaugurado por Dom Pedro II o primeiro recurso 
de iniciativa da coroa brasileira, ainda modesto mas bastante 
significativo: o Imperial Instituto
dos Meninos Cegos.

De onde surgira a idia? Por que a corte brasileira poderia estar 
interessada em manter uma organizao especialmente dedicada aos garotos 
deficientes da viso?
Por que o prprio Imperador havia se envolvido a ponto de dar o peso da 
autoridade do
governo a essa nova organizao?

Dentre os fatos mais relevantes que cercam a criao do Imperial 
Instituto dos Meninos Cegos cumpre que destaquemos que no ano de 1853 
desembarcara no
Rio de Janeiro, proveniente da Frana onde havia ido estudar no j famoso 
Institute des
Jeunes Aveugles de Paris, o jovem brasileiro .Jos lvares de Azevedo.

Muito animado com o progresso que sentira em sua prpria educao e
especialmente com as alteraes positivas verificadas em sua vida 
pessoal, esse jovem
pensara muito durante seus estudos e durante sua longa viagem de volta ao 
Brasil, e decidira, antes mesmo de pisar a terra natal e ser recebido 
pelos seus familiares, considerar
como sacerdcio, como misso de sua vida, comunicar a outros brasileiros 
tambm cegos
tudo o que havia aprendido.

E pouco tempo aps sua volta, em sua busca de autoridades brasileiras
que poderiam se interessar e apoiar o que considerava sua misso, ficou 
sabendo que o
Dr.Xavier Sigaud, mdico da famlia imperial, tinha uma filha cega. 
Animado e instigado por sua idia de organizar no Rio de Janeiro uma 
instituio semelhante quela que
lhe dera tanto durante anos em Paris e que pudesse ser realmente til aos 
cegos brasileiros, procurou a residencia do Dr.Sigaud e of ereceu seus 
servios para a educao especial
da jovem Adlia. A oferta, surpreendentemente generosa e interessante, 
foi aceita e aca
bou dando timos resultados em muito pouco tempo. Adlia Sigaud 
aproveitava ao mximo os ensinamentos prticos transmitidos pelo jovem 
Azevedo, deixando toda a familia muito contente.

O Dr.Xavier Sigaud comentou com a famlia imperial e com o prprio
286

Imperador sua felicidade, os trabalhos de ensino de sua filha e os 
evidentes e rpidos
progressos observados. Como era de se esperar, Dom Pedro II percebeu logo 
a importancia de um apoio oficial a essa causa e mandou organizar, ligada 
 corte brasileira, uma
instituio que seguia quase que at no prprio nome aquela onde Azevedo 
havia estudado, ou seja, o Institute des Jeunes Aveugles, de Paris. A 
nova organizao levou o nome
de Imperial Instituto dos Meninos Cegos.

As primeiras regletes, punes, chapas para escrita e os primeiros livros 
de
pontos combinados em relevo chamados de "escrita pelo mtodo 
Braille"foram encomendados e chegaram ao Brasil em 1856, tendo sido uma 
doao pessoal do Imperador
ao novo Instituto.

E vale a pena relembrar e enfatizar aqui que esse sistema de escrita em 
relevo recm-estabelecido e reconhecido na Frana apenas naqueles anos, 
dava, com essa
encomenda de Dom Pedro II, seu primeiro passo no sentido de sua 
internacionalizao.
O pedido brasileiro foi executado com esmero e foi o primeiro em uma 
lingua que no
a francesa.

O jovem idealizador no teve a ventura de ver o Instituto instalado e em
funcionamento, pois faleceu no dia 17 de maro de 1854, com apenas 17 
anos de idade.
Adlia, sua pupila aplicada e inteligente, embora por muito pouco tempo, 
foi professora
do Imperial Instituto dos Meninos Cegos e atuou no ensino de cegos at 
sua aposentadoria. Por sua vez, seu pai, o Dr.Xavier Sigaud, foi indicado 
para seu primeiro diretor pelo
Imperador Dom Pedro II.

Foi dezoito anos aps sua instalao que o Imperador fez a doao de um
vasto terreno ao Instituto,  avenida Pasteur, no Rio de Janeiro, onde 
at hoje encontram-se as portentosas e muito conhecidas instalaes do 
Instituto.

No entanto, segundo Silvado, durante muitos anos o Instituto s foi um
mero asilo e no passou disso, sempre sob a custdia imperial. "Em uma 
palavra: uma
escola que se limitava a preparar apenas seus prprios professores" ("Les 
Aveugles au
Brsil", de Silvado).

Muitos desses mestres chegaram a ser nomeados sem qualquer qualificao 
para sua misso. Os poucos casos de sucesso aconteceram mais devido aos 
esforos
pessoais de alunos mais aplicados e inteligentes do que ao sistema de 
ensino adotado.
Este era excessivamente tcnico e as oficinas ali montadas limitavam-se 
s de tipografia e de encadernao para rapazes, e de tric para as 
meninas. A afinao de pianos,
to comum como atividade profissional bem remunerada para cegos em muitos 
pases,
no foi levada muito a srio entre ns, nem o Imperial Instituto dos 
Meninos Cegos deu
a ela qualquer nfase.

Cludio Luiz da Costa foi o segundo diretor do Instituto. Este homem de
srios propsitos tinha uma filha que havia casado com um jovem professor 
de matemtica que lecionava no Instituto desde 1861: Benjamin Constant. 
Este sucedeu o sogro na
direo do Instituto, por indicao do Imperador, dirigindo-o por vinte 
anos seguidos.
Durante os anos que dedicou  direo do Instituto dos Meninos Cegos
participou ativamente e foi um dos lderes na preparao das idias para 
a Proclamao
da Repblica. Como diretor do Instituto procurou chamar a ateno das 
autoridades imperiais para o estado lamentvel em que o Instituto se 
encontrava, propondo diversas solues,sem ter obtido qualquer deciso. 
Com a Proclamao da Repblica parece que
conseguiu seu intento. Elevado ao poder na qualidade de Ministro de 
Estado, o ex-diretor do Instituto conseguiu rapidamente o decreto para 
sua reforma. A construo do
prdio definitivo, que comeara em 1872, foi concluida em parte e suas 
novas instalaes foram ocupadas apenas aps a Proclamao da Repblica, 
ou seja, no ano de 1890.

Foi no dia 17 de maio de 1890, pelo Decreto 408, assinado pelo Marechal 
Deodoro da Fonseca e por Benjamin Constant, que o Instituto mudou de nome 
e
teve seu regulamento aprovado. Diz o Decreto:

"O chefe do governo provisrio, constituido pelo Exrcito e pela Armada, 
em nome
da Nao, resolve aprovar o regulamento para o Instituto Nacional dos 
Cegos, que a
este acompanha, assinado pelo general de brigada Benjamin Constant 
Botelho de Magalhes, Ministro da Instruo Pblica, Correios e 
Telgrafos, que assim o faa executar. Palcio do Governo Provisrio da 
Repblica dos Estados Unidos do Brasil, 17 de
Maio de 1890--2da Repblica".

No entanto, Benjamin Constant faleceu logo a seguir, em 1891, e o governo 
republicano rebatizou o Instituto em sua homenagem com o seu nome atual: 
Instituto Benjamin Constant.

b) Instituto dos Surdos-Mudos

Existe tambm um relato publicado em 1887 por Tobias Leite, sobre o
Instituto dos Surdos-Mudos, hoje conhecido como o Instituto Nacional de 
Educao de
Surdos--INES. Era um centro vinculado  coroa brasileira, por Decreto de 
Dom Pedro II.

Tratava-se,  poca de sua criao, de uma organizao especial, tambm
criada e inaugurada por Dom Pedro II, e que se caracterizava como um 
estabelecimento
de educao que tinha como finalidade a educao literria e o ensino 
profissionalizante para garotos surdos-mudos.

Embora no houvesse o volume de conhecimentos relacionados  surdez
como ocorre hoje, j naqueles anos algumas preocupaes bsicas 
transparecem no relato indicado acima: "O ensino pela palavra articulada 
e leitura sobre os lbios, est a cargo de um professor expressamente 
habilitado na Europa, para d-lo aos surdos-mudos
nas condies de receb-lo".

Havia nesse Instituto ensino da linguagem escrita, para o qual o 
estabelecimento contava com colees europias de objetos, instrumentos, 
aparelhos e estampas
que enriqueciam seu museu escolar, colees essas bem completas que 
cobriam assuntos
relacionados a substancias alimentares, habitaes, instrumentos de caa 
e pesca, "meios
de locomoo terrestre desde o burro at o trem de caminho de ferro", 
meios de navegao, fios para roupas, ls, calados, utenslios para a 
vida nas cidades e nos campos, mveis, materiais para construo, globos 
e mapas geogrficos e outras mais.

A maior parte desse material fora trazido da Europa, como era costumeiro 
em quase todas as reas do ensino em todos os nveis.

A educao profissional mantida pelo Instituto dos Surdos-Mudos do Rio
de Janeiro era dada em oficinas de sapataria e de encadernao. (*) O 
rendimento pela
venda dos produtos era dividido em 2 (duas) partes: uma pagava o custo do 
produto e a
outra era recolhida  Caixa Econmica, j existente no final do sculo 
XIX, e era escriturada nas cadernetas individuais de cada aluno. Ao final 
do curso cada um retirava o capital somado aos juros.

Nesse Instituto eram admitidos alunos entre 7 e 14 anos de idade, apenas
do sexo masculino. Viviam em regime de internato, sem qualquer distino 
de tratamento ou de instalaes entre garotos ricos ou pobres. Nenhum 
deles pagava qualquer tipo
de contribuio para ali ser internado e educado.

Numa orientao aos pais e  sociedade em geral, o autor da obra aqui
analisada fazia algumas consideraes quanto  futura vida profissional 
do ex-aluno surdo-mudo. E dentre as orientaes mais interessantes cumpre 
destacar as seguintes:

- " inquestionavelmente de mxima importancia e convenincia que o 
surdo-mudo
tenha um ofcio, ou arte de que subsista".

- "Na escolha do ofcio ou arte a que o surdo-mudo deve aplicar-se, 
convm atender-se
 sua constituio fsica,  localidade em que tem de residir,  sua 
aptido e at  posio ou gnero de vida de seu pai".

- "Em geral, as artes e ofcios convm mais aos habitantes das cidades e 
a agricultura
aos dos campos".

- "Das artes e ofcios devem ser preferidos os que podem ser exercidos em 
qualquer
parte, cidade ou pequenos povoados. Sapateiro, alfaiate, correeiro, 
torneiro, oleiro,
chapeleiro, tintureiro, impressor e encadernador, so indstrias que 
muito lhe convm".

- "Os ofcios de carpinteiro, pedreiro e outros que exigem comunicaes 
simultaneas
com o trabalho, no lhe so to convenientes".

Principios bsicos da programao do Instituto j eram bem estabelecidos 
e de certa forma bem aplicveis para nossos dias, embora tivessem sido 
formulados
h cem anos atrs: . . . "os que no se deixam levar pelas exterioridades 
e encaram as
situaes pelo lado utilitrio entendem que o objetivo da educao dos 
surdos-mudos 
dar-lhes uma profisso de que subsistam nobremente, e habilit-los a 
comunicar-se com
os seus concidados pelo meio que lhes for mais fcil e mais cmodo" 
("Notcia do Instituto dos Surdos-Mudos no Rio de Janeiro", de Leite).

(*) Algumas instituies existentes ainda hoje lanam mo apenas dessas 
duas reas de treinamento.
c) Asilo dos Invlidos da Ptria

Outro relato de extrema importancia para anlise de atitudes 
predominantes no Brasil Imperial com relao a pessoas portadoras de 
deficincias diversas  o
que se relaciona com o "Asilo dos Invlidos da Ptria", de autoria de 
Manoel da Costa
Honorato e intitulado "Descripo Topogrphica e Histrica da ilha do Bom 
Jesus e do
Asylo dos Invlidos da Ptria", publicado no ano de 1869 pela Typographia 
Americana.

Esta organizao, destinada ao abrigo e  proteo dos soldados 
brasileiros mutilados em guerras ou em operaes militares, surgiu em 
nossa terra, no s devido a uma necessidade premente da segunda metade 
do sculo XIX, mas tambm, para a
grande maioria dos governantes e da populao, por uma questo de 
gratido e de justia para com os jovens soldados feridos ou 
"inutilizados" para a vida militar e talvez at
para a civil. No entanto, nota-se nas entrelinhas de crnicas da poca um 
outro motivo,
ou seja, o forte orgulho de uma jovem Nao do Novo Mundo que no 
pretendia ficar
muito atrs das naes civilizadas da Europa.

Orgulho, ufania, comiserao, caridade, emoo, interesse genuno, 
reconhecimento patritico a seus heris, alguns lances literrios e pouco 
prticos sobre integrao  familia e  sociedade, e muito mais, um 
leitor curioso poder encontrar nessa
interessante obra.  um relato bem elaborado, curioso, ao estilo da poca 
imperial, s
vezes emotivo, apresentando ambientes e circunstancias que cercaram a 
criao e principalmente a inaugurao de um abrigo oficial (esse o 
verdadeiro sentido da palavra "asilo") para os soldados que estavam 
lutando uma guerra sangrenta e muito difcil contra o
desafiador vizinho nosso que era o Paraguai, e que poderiam voltar para o 
Brasil doentes
ou incapacitados, tanto para o servio militar quanto para atividades da 
vida civil.

A idia da criao do Asilo dos Invlidos da Ptria encontra vrios 
similares na Europa do sculo XIX, dentre os quais o mais famoso do mundo 
todo era o "Htel des Invalides" (Palcio dos Invlidos) de Paris. Lus 
XIV mandara edificar esse monumental abrigo para soldados desde o sculo 
XVII, mas suas obras haviam sido concludas
pomposamente apenas no sculo XIX, um pouco antes do empreendimento 
brasileiro.

Havia outros exemplos, como o Chelsea Hospital, em Londres; o 
Invalidenhaus, em Berlim; as Soldier's Homes, nos Estados Unidos da 
Amrica do Norte em
vrias de suas unidades federadas. A Espanha mantinha o conhecido Cuartel 
de Invalidos, em Madri, junto  igreja de Atocha. Na Itlia existia o 
Ricovero dei Veterani, localizado em Milo, enquanto que na Turquia havia 
o Malja El-Kuah, em Constantinopla.
A Austria j organizara o Kund Iz Invalidenhaus, na cidade de Thyrnan que 
hoje fica na
Hungria. A Grcia tinha sua organizao com o nome de "Tephonomeisda" na 
cidade
de Atenas. Muito mais perto do Brasil, o Uruguay contava com o Asilo de 
Invalidos na
cidade de Tres Cruces e a Argentina com o Asilo de los Invalidos, na 
prpria capital
Buenos Aires.

Muito mais prximo  cultura brasileira havia tambm o exemplo dado
pelo reino de Portugal, que durante o governo de Dom Jos I (entre 1750 e 
1777) fundara o Asilo dos Invlidos Militares, tambm conhecido como 
Hospital de Runa, organizado e inaugurado pela princesa Dona Maria 
Francisca Benedicta. Trata-se de um
edifcio em um s andar, mas bastante imponente, que havia sido uma 
quinta e fora
adaptado para os fins acima. S a ttulo de curiosidade, o Asilo famoso 
tinha 99 metros
de frente, por 61 metros de fundo e era acabado em mrmore.

O nosso Asilo dos Invlidos da Ptria, entretanto, era composto de 
edifcios mais simples do que aqueles que Lus XIV mandara construir para 
seus soldados,
mas talvez correspondessem mais aos bons sentimentos daqueles que haviam 
patrocinado sua edificao. "O luxo foi inteiramente banido dos edifcios 
em que os bravos abrigam-se, pois, o luxo no  decncia", segundo 
Honorato.

Analisemos, porm, alguns pontos desse precioso documento para nele
buscarmos indicativos do modo de ver a pessoa deficiente e das atividades 
dominantes,
que muitas vezes transparecem no linguajar inflamado e colorido do autor, 
ou no contedo dos documentos e dados transcritos na mesma obra.

A idia da criao do Asilo no foi novidade no Brasil. J em 11 de maro 
de 1840 Dom Pedro II havia criado na corte brasileira e nas Provncias do 
Par, Rio
Grande do Sul e Mato Grosso, asilos para receberem soldados incapacitados 
para o servio militar, ou em vias de baixa da ativa, por doena, por 
deficincia ou por idade. Em
30 de novembro de 1841, tambm por Decreto Imperial, criara-se nas 
imediaes da corte brasileira um asilo de invlidos que, graas a uma 
Resoluo da Assemblia Geral, recebera um pormenorizado regulamento para 
seu funcionamento e para que um soldado
fosse ao mesmo admitido. Pelo que se pode deduzir, pouca gente era ali 
recolhida, pois
por um Decreto de 1843, Dom Pedro II mandou ali recolher tambm os 
marinheiros deficientes .

Todavia, apesar dos esforos e dos investimentos para garantir no Brasil
os indcios de civilizao no estilo europeu, e tambm por falta de 
experincia e de
conhecimento de causa, nenhuma dessas medidas havia sido implantada. Eram 
empreendimentos puramente militares e de questionvel qualidade. "Sem 
disciplina, ordem e
asseio, eram essas companhias mais centros de distrbios e focos de 
vcios do que asilos
protetores de mutilados da ptria", segundo Honorato.

No dia 25 de fevereiro de 1865, quando o Brasil se empolgava numa 
resposta efetiva a provocaes e a incurses paraguaias e marchava para a 
guerra, os filiados, diretores e membros mais proeminentes da Comisso da 
Praa do Comrcio do Rio
de Janeiro reuniram-se no Palcio Imperial e, ansiosos para colaborar de 
alguma forma
com os esforos do governo e dos homens que, deixando tudo, lutavam 
abertamente
contra o inimigo, resolveram defender a idia de angariar fundos e tomar 
providncias
para criar um "asilo para os que se invalidassem pela ptria" . . . "e em 
sesso solene desse mesmo dia 25 de fevereiro, foi aclamado seu 
presidente nato o nosso Augusto Monarca o Senhor Dom Pedro II".

O imperador deve ter apreciado muito a idia, que talvez tenha at 
brota291

do de seu esprito estudioso e interessado ou de algum colaborador recem-
chegado do
Velho Mundo e conhecedor das experincias ali mantidas. O fato  que 
louvou os planos
todos e nomeou um delegado seu para a misso, no se omitindo, porm, de 
seguir pessoalmente as providncias necessrias. "Escolheu o lugar que 
melhor lhe pareceu para
que os invlidos tivessem liberdade sem obstculos da massa popular e 
gozassem de
melhor clima, mandou fundar os edifcios e ativou aos trabalhadores, a 
fim de que no
houvesse retardamento, animando-os com sua presena quase diariamente".

O Asilo foi construdo numa pequena e muito aprazvel ilhota conhecida
como a ilha do Bom Jesus, em plena Baa da Guanabara. E Dom Pedro II, 
numa festa engalanada e completamente dedicada aos heris mutilados ou 
paralisados na guerra contra
o Paraguai, inaugurou o Asilo no dia 29 de julho de 1868, aniversrio de 
nascimento de
sua filha e herdeira do trono brasileiro, a Princesa Isabel.

Conta-nos Honorato que "s 9,30 horas era recebido Sua Majestade o 
Imperador ao som do Hino Nacional, que de todas as partes se ouvia, 
repiques de sinos e
salvas". Com ele estavam a Imperatriz Da.Thereza Christina, a Princesa 
Isabel e o Conde
d'Eu; tambm presentes estavam todos os seus ministros de estado, o corpo 
diplomtico
em peso, o corpo consular, as autoridades eclesisticas e tambm os 
oficiais de navios de
guerra americanos, ingleses, franceses e espanhis que com a sua presena 
demonstravam
apoio formal  causa brasileira; e, como no podia deixar de ser, havia 
muita gente representativa do comrcio, da indstria, das corporaes e 
muito povo.

A chegada do Corpo dos Invlidos, como era conhecido o grupo de oficiais 
e soldados mutilados, parece que foi muito comovente ao Imperador que 
tanto
havia acarinhado aquele projeto e que tanto apreciava o sacrificio feito 
pela Ptria Brasileira. E deve ter sido comovente tambm  famlia 
imperial; e certamente muita gente
vibrou com o foguetrio, com o repicar dos sinos, enfim, com a "pompa e 
circunstncia" toda que fora armada na ilha do Bom Jesus. O prprio 
Imperador, em seu traje de
gala, "com sua Imperial famlia e sua corte ps-se no lugar do 
desembarque a fim de
receber os infelizes que eram objeto da solenidade". Bandeiras tremulavam 
por todas as
partes, arcos triunfais estavam montados desde o cais at a capela onde 
seria cantado um
solene "Te Deum" e todos estavam colocados em alas para a passagem 
dos"mutilados
de guerra", sob salvas de palmas e vivas misturados a marchas militares, 
na manh ensolarada da baa da Guanabara.

Pela narrativa de Honorato, os heris assim recebidos, porm, "eram 
infelizes" e  Ptria restava amenizar seus dias para viverem em paz. 
Todos eles estavam
voltando da frente de batalha contra os paraguaios e recebiam--pelo menos 
naquele
dia--o carinho de seu Imperador e de toda a multido presente. " . . . 
Aqueles homens
foram os que inutilizaram-se pela Ptria, foram os bravos que regaram os 
campos de batalha com o sangue de suas veias, foram os que viram para 
sempre a estrela fagueira, que
lhes acenava para o futuro, desaparecer" . . .
O Corpo dos Invlidos era composto de oficiais, cadetes e soldados, quase
292

todos mutilados ou sem maiores possibilidades de atuar no servio militar 
ativo. E eram
todos pobres--segundo relato da poca--e no tinham qualquer chance de 
receber da
sociedade brasileira do final do sculo XIX muita coisa, a no ser talvez 
compaixo, como podemos notar nas entrelinhas de alguns documentos 
transcritos no livro de Honorato que aqui estamos analisando.

O Imperador brasileiro, ao notar a finalizao das manobras de atracao
do barco que trazia o Corpo dos Invlidos, quebrou o protocolo e dirigiu-
se  prancha
de desembarque. "Os raios do sol, a fadiga do cansao, a aglomerao do 
povo, a demora
do desembarque no o incomodaram; com o semblante risonho, a todos os que 
desembarcavam dava a mo, ajudava-os a subir a escada de desembarque e 
recomendava aos
demais que facilitassem-lhes a passagem, ajudando-os em seu caminho; e a 
Imperatriz
parecia atravessada por tantas setas quantos eram os mutilados que 
passavam" . . .

Esse corpo de soldados prejudicados por ferimentos graves, por amputaes 
ou por doenas srias, durante a guerra contra o Paraguai, havia sido 
provisoriamente instalado na Ponta da Armao, da Marinha Brasileira, e 
no dia da inaugurao do Asilo correspondiam a "29 oficiais, 67 
sargentos, 6 cornetas, 1 coronheiro, 7 msicos, 239
cabos e semelhantes, 1.010 soldados e 1 tambor". E, no mesmo lote de 
doentes e deficientes do exrcito brasileiro, "havia tambm 42 
prisioneiros paraguaios nas mesmas
condies fisicas".

Num comentrio empolgado Honorato analisa com enfase o sentimento
brasileiro naqueles exatos momentos: "Quando pensaram nossos antepassados 
que o
Brasil possuiria um estabelecimento to importante, que transmitir s 
geraes vindouras a idia do verdadeiro reconhecimento aos que por ela 
sacrificaram-se? Pois bem, o
Brasil j no deve estar to atrs da civilizao; o Brasil, rico em 
tudo, ser tambm nobre de sentimentos. Os invlidos so pobres,  
verdade; porm, so nobres; eles deram
em favor da ptria tudo quanto tinham, a vida, a sade, tudo eles 
expuseram; e por atos
de tanta generosidade so credores de tudo quanto em seu favor se possa 
fazer".

Mas vale a pena conhecer um pouco do cenrio da festa toda. O Asilo dos
Invlidos da Ptria estava localizado na ilha do Bom Jesus, e a descrio 
de Honorato 
esta: " . . . desde logo principia a ver os edificios que constituem a 
encantadora vista do
Asilo dos Invlidos; ve uns  beira da praia entre dois elevados morros, 
cercados todos da
bela verdura que orna esta aprazvel ilha, e com suas imponentes 
perspectivas atraindo a
ateno de quem para a se dirige".

Na realidade, a "aprazivel vista"--irreconhecvel no Rio de Janeiro do
sculo XX--referia-se a dois edifcios, um em cada lado do ancoradouro; o 
da direita
continha em seu andar trreo as oficinas destinadas s atividades dos 
asilados. Veja-se,
portanto, que j na fase de planejamento havia sido considerado, como em 
vrios projetos similares europeus, o fator ocupao e, quem sabe, a 
aquisio de conhecimentos
profissionais suficientes para o individuo poder deixar o Asilo, se 
quisesse integrar-se na
sua prpria comunidade, como era, alis, permitido pelo Regulamento.
293

O andar superior do primeiro prdio era destinado apenas a uma espcie
de museu militar, O outro edificio - o da esquerda do cais - era tambm 
de dois andares e servia para enfermaria e acomodao dos mais doentes no 
andar superior, enquanto
que no inferior residiam as irms de caridade que eram as responsveis 
pelos servios de
enfermagem da entidade.

Dos edificios localizados nas elevaes, um servia para cozinha e como
refeitrio, pois s no dia da inaugurao o Corpo dos Invlidos contava 
com aproximadamente 1.500 homens. O pavimento superior servia para 
recreao e lazer dos asilados.

Havia na ilha tambm um antigo convento franciscano que o Asilo utilizava 
como escola primria para os asilados, sob a responsabilidade do Capelo. 
Mais
para trs e para o interior da ilha, seguindo paralelo ao antigo 
convento, havia outro
prdio para abrigo de outras companhias de "invlidos". E, separado de 
todos, havia
tambm o local onde se abrigavam os prisioneiros paraguaios.

Terreno havia bastante na ilha para hortas e para diversos tipos de 
plantao mais extensa, nas quais os soldados ali recolhidos eram de 
certa forma "obrigados"
a atuar, de acordo com sua capacidade fsica. O prprio Regulamento do 
Asilo diz:
"Compete ao Comandante do Asilo: ..6 Obrigar os invlidos a que 
trabalhem na
horta, nas oficinas, conforme suas aptides e foras fsicas". Cremos no 
ser muito de
espantar essa autoridade para obrigar os soldados a fazer isto ou aquilo, 
uma vez que o
Artigo 8 das Instrues para o Asilo diz muito claramente: "O Asilo fica 
sujeito ao regime e disciplina militar".

Havia, pelo Regulamento j indicado, obrigatoriedade de participao e
de colaborao tambm nos aspectos financeiros. Na verdade, cada soldado 
ou oficial ali
recolhido por invalidez ou doena deveria contribuir para as despesas do 
estabelecimento com as penses que recebiam do Tesouro Nacional; os que 
no recebiam penses, por
serem idosos, por exemplo, deviam contribuir com a metade do soldo de sua 
reforma.
No entanto, cumpre destacar que no era vedado ao internado trabalhar no 
prprio Asilo e ganhar algum dinheiro extra. Pelo Artigo 19, por exemplo, 
fica bem claro que tanto
os oficiais quanto os praas considerados como invlidos poderiam exercer 
no Asilo os
empregos que seriam compativeis com suas foras fsicas--e eram 
remunerados pela
atividade .

E havia mais--alguns dos que eram casados poderiam viver com suas 
mulheres e filhos, em quartos prprios, sendo at possivel s mulheres 
trabalhar no prprio
Asilo com as irms de caridade.

Quanto aos produtos, tanto de horta quanto de oficinas, o Regulamento
estabelecia que eram todos destinados ao proveito do estabelecimento, no 
que se referia
aos da horta. Quanto aos da oficina, dois teros destinavam-se aos 
individuos que os haviam produzido e uma tera parte era creditada em 
favor do Asilo.

Do esmerado sermo proferido na cerimnia religiosa de 29 de julho de
1868 pelo Cnego Joaquim Jos da Fonseca Lima, com a presena de Dom 
Pedro II, de
-- Ento, ests com medo de marchar para
a guerra? Deixa-te de sustos! L nem todos morrem . . no ests vendo que 
estou eu de volta? . . .

A Guerra do Paraguai vista com ceticismo e sutil critica pela imprensa 
paulistana da poca ("O Cabrio"
-- Ano 1, n. 31 - 5 de maio de 1867, So Paulo)
tantas autoridades e dos beneficirios do novo Asilo, encontramos 
palavras que representam vislumbres de total compreenso daquilo que  
integrao social, idias que j
brotavam naquelas pocas em ambientes mais cultos e seletos--h mais de 
um sculo
atrs: "O invlido da ptria que aqui vier descansar  sombra de seus 
louros, ter ainda
o honroso direito de tomar parte na vida ativa da sociedade: o seu 
trabalho continuar
a enobrecer sua existencia" . . .

Jos Joaquim de Lima e Silva, Presidente da Comisso Central da Praa
do Comrcio do Rio de Janeiro, em seu relatrio datado de 31 de agosto de 
1869, um
ano aps a inaugurao do Asilo, afirma textualmente:

" hoje na velha Europa questo duvidosa a eficcia dos asilos para os 
invlidos, embora
ali se veja obras soberbas para esse fim, como o dos Campos Elseos em 
Paris e do Greenwich em Inglaterra; sustentando muitos a preferncia de 
se deixar o invlido livre na
escolha de sua moradia e trabalho, recebendo do estado a penso e socorro 
que as leis
crearam ou crearem".

E continua o interessante relatrio:

"Que o invlido deve ser livre em recolher-se ou no ao asilo  questo 
que nos parece
liqida e jamais pensamos que, criando o asilo, se faa dele uma morada 
forada para o
invlido e principalmente quando atendendo para o carter dos nossos 
homens vemos
que eles so essencialmente e em grande nmero, amigos da vida social ou 
da famlia, e
que assim preferiro a mais humilde choupana ao mais deslumbrante 
palcio, contanto
que ali encontrem o prazer da familia que aqui no podem ter. Essa 
liberdade de vida e
esse amor da famlia no dispensa a criao do asilo, que ser sem dvida 
procurado por
muitos que nele acharam os cmodos que no podem encontrar em outra parte 
e para
quem o sentimento ou o amor da familia no e dominante" . . .

Mas, o sonho no durou muito tempo, no. Terminada a guerra contra
os paraguaios e os envolvimentos brasileiros em aes armadas, terminou 
tambm a
euforia e o projeto caiu no rpido esquecimento do governo e do povo. 
Logo aps a
proclamao de nossa Repblica, a situao na ilha do Bom Jesus j estava 
pssima.
No ano de 1899, ou seja, dez anos de Repblica, um jornalista resolveu 
tirar tudo a
limpo e foi  ilha famosa. Era Ernesto Senna.

Seu relato, em cores muito vivas e realistas, deixa-nos a sensao de um
sonho desmoronado --talvez bem pior do que isso. Nem o Imprio soubera 
manter o
Asilo dos Invlidos da Ptria, nem a nova Repblica por ele se 
interessara. A burocracia
ministerial acabara deformando o empreendimento.

Algumas frases do jornalista sero suficientes para que compreendamos a
fraqueza da organizao e a debilidade do interesse. A sorte dos 
mutilados de guerra passara a ser problema deles mesmos.

. . . "Repetidas queixas chegaram  redao do Jornal do Comrcio sobre o 
estado de
abandono em que se achava o Asilo. Tantas foram elas que h tempos 
enviamos  ilha
296

do Bom Jesus um nosso representante para "de visu" conhecer a realidade 
das queixas.
Efetivamente eram justas e mereciam ser de pronto sanadas. Repugnava-nos, 
ento, dar
publicidade minuciosa do estado do Asilo, contando com as providncias 
que se esperavam fossem tomadas pelo Quartel Mestre General, Senhor 
General Santiago, que havia
visitado o estabelecimento e que mostrava-se interessado em melhorar a 
situao dos invlidos ali recolhidos. Como, porm, fossem improficuas as 
medidas tomadas, a julgar
pelo estado cada vez mais deplorvel em que se acham aqueles servidores 
da ptria, resolvemos hoje publicar as notas que colhemos em uma recente 
visita, depois de uns ligeiros
reparos que foram feitos no edificio."

. . . "dos 46 prdios que existiam em 1869, todos pertencentes ao Estado, 
apenas existe
uma meia dzia em ruinas, graas ao abandono e  indiferena. Os 
invlidos construiram
 sua custa, por toda a ilha, 36 casinhas (ranchos), onde habitam com 
suas famlias, j
por falta de acomodaes no Asilo, j para evitar a morada em velhos 
pardieiros, que
ameaam ruinas" . . .

. . . "Logo ao desembarcar na ilha notamos o abandono em que est a 
instituio acober
tada com o pomposo ttulo de Asilo dos Invlidos da Ptria. O capim 
cresce com abun
dancia e o local que se prestava para um belo e formoso jardim apenas 
ostenta vistosas
palmeiras enfileiradas em frente do edifcio enegrecido pela ao do 
tempo, pela falta
de pinturas e de consertos externos e internos" . . .

. . . "Mas quem transpuser a entrada principal de uma ou outra ala do 
edificio, sente cer
ta opresso ao reparar nas escadas velhas, imundas, deixando  mostra os 
montantes laterais do estuque sem reboco e os ferros azebrados pela 
umidade que Se escoa pelas paredes e onde existem faltas de tboas. 
Galqando a escada da ala direita, no segundo pavimento, o visitante sente 
as exalaes das imundas latrinas sem gua, sem portas, sem
tampas e sem a menor ateno aos preceitos de higiene.  nesta ala do 
edificio que se
acham os quartos reservados aos oficiais" . . .

. . . "Velhas camas de ferro enferrujado, com as molas partidas e sem 
tboas e sobre elas
colches imundos e travesseiros que reclamam de muito um lugar na ilha da 
Sapucaia". . .

. . . "O estabelecimento no fornece ao oficial nem um acessrio de cama 
ou de quarto,
de maneira que para lavar o prprio rosto  preciso que comprem bacia" . 
. .

. . . "Latrinas foram colocadas nos alojamentos unicamente por luxo, pois 
que no existe encanamento para o servio das mesmas. No tem o Asilo 
mesas dignas de figurarem
no refeitrio, porque as duas que vimos, apesar de serem de mrmore, 
precisam de guarnies e de pronta pintura". . .

. . . "As praas no tm um banheiro e o fogo para as que tem familia  
comum, pois,
est no pavimento trreo do alojamento dos casados e consta de um grosso 
paredo de
tijolos com 36 bocas, e isto mesmo em pssimas condies" . . .

O artigo de Ernesto Senna entra em pormenores suficientemente claros
quanto ao estado de coisas, apenas 30 anos aps a festiva inaugurao do 
Asilo dos Invlidos da Ptria, orgulho de um Brasil progressista.
297

No entanto, o que escapou ao arguto jornalista  que o Ministrio da
Guerra j iniciara providncias muito srias para a devida recuperao do 
Asilo. Tanto 
verdade que o Governo Republicano com ele se preocupava, que os heris 
mutilados ou
gravemente enfermos vindos da Guerra de Canudos para l foram 
encaminhados no ano
de 1897/98.

Reformas muito srias foram empreendidas e alguns dos edifcios em piores 
condies foram demolidos e substituidos.

Se o leitor desejar conhecer algumas das instalaes do Asilo dos 
Invlidos da Ptria, precisar saber o seguinte:

A ilha do Bom Jesus no existe mais. Ela foi inserida nos imensos 
trabalhos de aterro
da ilha da Cidade Universitria, que eliminou algumas ilhas e as uniu num 
bloco s.
No entanto, as pontas e contornos das ilhas do Fundo e do Bom Jesus 
permaneceram
inalterados, embora ligados  ilha principal da Cidade Universitria. A 
antiga ilha do
Bom Jesus fica ao sul, apos os prdios relacionados  agronomia. Sua rea 
original,
pertencente ao Exrcito Brasileiro,  ocupada pela Cia. de Comando da 
Primeira
Regio Militar, alm de residncias de militares e funcionrios civis do 
Ministrio
do Exrcito.

Existem alguns prdios originalmente inaugurados por Dom Pedro II, 
ocupados pelo
Comando da Companhia ali sediada. A igreja tambm est intacta, no alto 
de uma
elevao. L dentro esto enterrados os restos mortais do Marechal 
Osrio.

H alguns descendentes dos "invlidos" nela instalados no final do sculo 
passado, e
de vrios outros soldados que ficaram mutilados em operaes militares 
mais recentes.

E se o leitor chegar at l, ver que se trata de uma "ilha" de contornos
agradveis, sem alteraes em sua forma original. E ter a surpresa de 
encontrar quase
que exatamente o que  descrito por Honorato em 1869 quando diz:

"Collocado em frente ao desembarque o visitante v dous edifcios, no 
to elegantes, quanto foro aquelles que o faustoso Luiz XIV fez edificar 
para os seos soldados,
mas to singelos quanto podem ser os bons sentimentos daqueles que os 
fizeram fundar".

De fato, os dois edificios so vistosos, ao estilo da poca, e muito 
slidos.
Esto atualmente muito bem conservados, pintados e limpos, aps 
restaurao bastante
significativa.

. . . "Sobe-se por uma espaosa escada com os corrimos e balastres 
envernisados, no patamar da qual, fronteira  porta, v-se gravada em uma 
pedra mrmore
a seguinte legenda: .No reinado do Sr.D.Pedro II, sendo ministro da 
guerra o conselheiro
Joo Lustosa da Cunha Paranagu, erigio-se este edificio em 1868.--Dahi 
partem duas
escadas em sentido inverso  primeira, uma para o lado direito e outra 
para o esquerdo" . . . E  exatamente isso que o visitante interessado l 
ir encontrar.

. . . "Passmos agora  igreja. A igreja do Bom Jesus, fundada em 1705,
como diremos, no alto deste mrro no podia ser edificada em melhor 
posio. Elevada a uma altura proporcional, com uma escadaria de sete 
degros de pedra, tem na frente tres arcadas, sobre as quaes v-se outras 
tantas janellas que fico no cro da mesma
igreja, e uma porta que d entrada para o interior" . . .

A linda igreja do Bom Jesus l est, no alto de um pequeno morro, olhando 
a baa da Guanabara h mais de dois sculos.

No entanto, o visitante dever ficar atento para o fato de que o Asilo 
dos
Invlidos da Ptria no funciona mais. Segundo informaes obtidas no 
prprio local,
foi desativado no ano de 1976, 107 anos, portanto, aps sua festiva 
inaugurao por
nom Pedro II.


CAPITULO SEXTO
O SCULO XX E OS CAMINHOS DA REABILITAO NO MUNDO
301

Como em quase todas as reas de atendimento  populao mais pobre,
houve um incremento substancial de assistncia a pessoas portadoras de 
deficincias no
mundo todo, durante todos os anos at agora vividos do sculo XX. Esse 
incremento no
ocorreu apenas em razo de uma filosofia social mais voltada para a 
valorizao do homem em alguns pases mais proeminentes, mas tambm 
devido ao engajamento de muitos setores da sociedade no bem-estar comum--
e por que no o dizer, em conseqncia
dos evidentes progressos das cincias e suas aplicaes prticas, em 
todos os campos.

Mesmo nos pases sub-desenvolvidos, muitas reas receberam o impulso
no sentido da modernizao e do avano tcnico. Alm de se beneficiar 
dessa tendncia
geral, a medicina progrediu muito tambm em todos os seus setores 
especializados, tais
como na cirurgia ortopdica, na ortopedia e na traumatologia--reas que 
mais nos tocam neste estudo--devido a muitos fatores, mas em especial 
devido a duas guerras mundiais e vrias outras de ambitos mais restritos 
que assolaram o mundo.

Os problemas mltiplos de grandes contingentes populacionais desabrigados 
ou simplesmente desalojados pelas aes destruidoras da guerra, as 
imensas dificuldades encontradas pelos refugiados, pelos doentes e pelos 
mutilados nos conflitos, a
orfandade e o abandono quase que generalizados, levaram a grandes 
programas assistenciaiS de carater internacional. Alm disso, o contato 
direto com elevados contingentes de
populao que apresentavam problemas especiais teve como conseqencia 
melhores e
mais precisas providncias de ordem pratica para o encontro de solues 
que incluiam a
completa reintegrao dos mesmos  vida normal, numa sociedade produtiva 
devidamente reconstruida. Esforos especiais foram criados para lutar 
pela normalizao da vida
desses grupos populacionais vitimas das atividades de guerra.

Antes dos conflitos armados, porm, no que concerne s medidas 
relacionadas diretamente aos portadores de deficincias de pases mais 
evoluidos, a ateno
para com as crianas portadoras de deficincias fisicas foi se 
concentrando efetivamente em seu melhor cuidado e em sua educao 
especial, desde a primeira dcada do sculo. Principios j defendidos h 
sculos na Europa, desde a poca da Renascena, para o
atendimento de rfos e de crianas carentes e deficientes, foram 
efetivamente melhor
definidos e postos em prtica no inicio deste sculo.

Alm da simples proteo, da assistncia para prevenir o abandono e a
criminalidade, e da educao, algum treinamento profissionalizante, 
atravs do qual a
criana ao chegar  idade adulta poderia obter meios para sobreviver, 
comeou a ser
de fato implantado em diversas entidades.

O humanismo filosfico, em constante ascenso, sem dvida que ajudou na 
nfase a ser dada a esse grupo marginalizado, e ao seguir os seus 
principios fundamentais, a medicina mais especializada encontrou o 
caminho ideal para um completo
engajamento. E com ela vieram outras cincias e outros grupos de 
profissionais ou de
voluntrios interessados e muito vinculados a uma populao de classe 
mdia politizada e mais consciente da necessidade de beneficiar a todos 
os que precisavam de ajuda.
A crescente migrao de segmentos populacionais deslocados ou tangidos 
pelo sofrimento das guerras e suas conseqncias amedrontadoras, 
procurando resolver os seus problemas bsicos de vida, e a troca mais 
fcil de experincias devido aos
meios de comunicao mais penetrantes e convincentes, levou a todos os 
quadrantes do
mundo novas tecnologias e novos sistemas para anlise e tratamento dos 
problemas sociais.

Em vrias das naes mais civilizadas do mundo ocorreram nesses periodos 
de ps-guerra melhorias considerveis nos sistemas de bem-estar social, 
chegando
ao seguro social,  assistncia pblica,  promoo social e tambem, de 
um modo todo
especial, s atividades totalmente voltadas para a sade publica.

Os avanos cada vez mais acelerados da medicina comearam a surtir 
efeitos surpreendentes, aumentando a expectativa de vida, reduzindo o 
nmero de mortes
por acidentes ou por doenas, diminuindo a taxa de mortalidade e 
morbidade infantil
e quase extinguindo as epidemias avassaladoras. Esses resultados no 
teriam sido viabilizados se, por outro lado, os servios pblicos, mais 
conscientes de seu papel na garantia
do bem-estar de todos, no tivessem atuado com eficiencia na implantao 
de melhores
sistemas de tratamento de gua, de fiscalizao de alimentos, de 
tratamento de esgotos,
de vacinao contra males contagiosos e muitos mais. O mundo comercial e 
industrial
muito colaborou tambm para definies mais precisas daquilo que era 
preocupao de
todos, ou seja, a garantia de certa dose de qualidade de vida, a fim de 
dar condies
essenciais para o homem progredir.

Profisses voltadas para o atendimento aos problemas de pessoas em 
dificuldades foram surgindo e se fortificando, algumas delas como 
verdadeiro desdobramento da medicina, enquanto que outras, especialmente 
nos campos da educao, em razo
da inegavel valorizao do ser humano. Mas a medicina sem dvida que 
antecedeu no
atendimento ao portador de problemas incapacitantes ou de leses 
conseqentes a doenas graves, chegando ao ponto de assegurar a vida aos 
casos antigamente considerados
como fatais, e aumentando a expectativa de vida ao homem idoso. O 
Dr.Bernard Baruch,
com carradas de razo j afirmara certa vez que "a medicina adicionou 
alguns anos  vida do homem, e agora depende da educao adicionar vida a 
esses anos" . . .

Nesse contexto  interessante ressaltar o delineamento de profisses como 
a do servio social (que muita gente at hoje chama de "assistencia 
social"), que
desde seus primrdios tem procurado levar para uma atuao de cunho 
tcnico velhos e
superados conceitos muito diluidos e por vezes at desacreditados de toda 
a rea correspondente ao bem-estar social--situao que mesmo ao final do 
sculo XX persiste em
muitos pases do mundo em desenvolvimento.

Vejamos alguns dos pontos mais relevantes dessa evoluo toda nos 
programas de assistncia s pessoas deficientes, dentro do sculo XX.

--O panorama europeu da assistencia a deficientes no inicio do sculo

Entre os anos de 1902 e 1912, na Europa, mais de 20 instituies 
destinadas ao exclusivo atendimento de pessoas que apresentavam problemas 
de deficincias
fsicas j existiam, levantando fundos e fazendo campanhas para garantir 
sua manuteno e para incrementar sua causa, em acrscimo s campanhas e 
aos levantamentos de
dinheiro que j vinham ocorrendo para causas anteriormente absorvidas 
pela sociedade,
como as de ajuda aos pobres, de proteo aos velhos, de assistncia  
criana desamparada, entre muitas.

De outra parte, a ajuda a pessoas deficientes--no s as provenientes das
fileiras militares, como das atividades civis--comeou a se firmar em 
bases novas, mais
modernas. Esse novo tipo de nfase no atendimento, que brotara nos 
Estados Unidos,
causou na Europa um movimento bastante dinamico e coerente, incorporando-
se a vrios empreendimentos vindos do sculo XIX, ou mesmo dos primeiros 
anos do sculo
XX. Por exemplo, em 1904 ocorrera j a organizao da Primeira 
Conferncia sobre
Crianas Invlidas, em Londres. No ano de 1909, seguindo a mesma 
tendncia de dar
cada vez maior ateno aos portadores de deficincias, um primeiro censo 
de pessoas deficientes foi levado a efeito na Alemanha, por iniciativa de 
Bielaski, que tentava com
isso aquilatar a extenso do problema. No mesmo ano, nos Estados Unidos, 
havia tambm sido organizada a Primeira Conferencia da Casa Branca sobre 
os Cuidados de Crianas Deficientes, que havia aprovado uma resoluo 
incentivando programas de preparo
das crianas institucionalizadas para sua futura integrao na sociedade 
(Apud Agero).

--EUA: um primeiro congresso mundial de deficientes auditivos

No ano de 1904, na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, foi 
organizado um primeiro congresso destinado a estudar todos os problemas 
das pessoas surdas--era o Congresso Mundial dos Surdos. Nesse conclave, o 
mtodo oral de comunicao foi combatido pelos seguidores do mtodo de 
comunicao por sinais. No entanto,
o chamado "oralismo" foi seguido por escolas particulares e por semi-
internatos, combinando sua tcnica com a dos sinais. Foi exatamente por 
essa poca que Helen Keller recebia suas primeiras lies de linguagem 
falada, por meio de professores da Escola de
Horace Mann.

--A gradativa implantao da reabilitao

O desenvolvimento de atividades coordenadas que chegariam a ser 
genericamente reconhecidas como "reabilitao" (e no apenas um nome de 
centro, como o
de Cleveland  poca de sua fundao . . . ), aconteceu lentamente e sua 
implantao
foi um tanto indecisa, quase que conseqente  impotncia dos mdicos 
Face  multiplicidade de problemas que afetavam diretamente as pessoas 
mutiladas ou portadoras de
outros tipos de deficincias. E isso ocorreu logo aps a Primeira Guerra 
Mundial. J fazendo parte de um programa de assistncia ampla a pessoas 
deficientes e que logo se
transformaria num esquema de reabilitao, o primeiro Estado norte-
americano a fazer
uma proviSo especfica para tal fim foi o Estado de Minesotaque em 1897 
j havia feito uma dotao para assistencia a "crianas defeituosas" e 
com necessidade de tratamento mdico.
Mas as primeiras organizaes norte-americanas a estudar o problema geral 
das pessoas com deficincias e desse ponto partir para programas 
destinados  melhoria de sua condio fsica e social foram a Fundao 
Russel Sage e o Bureau do Deficiente da Sociedade Organizao de 
Caridade, da cidade de New York, no ano de 1908

--As tentativas iniciais para a soluo do problema de trabalho

Em 1907 surgia na cidade de Boston a Goodwill Industries, at hoje 
mundialmente famosa. No se dedicava ao problema geral das pessoas 
deficientes nem se
preocupava com problemas de ordem mdica ou social que elas pudessem 
apresentar.
Dedicava-se intencionalmente aos aspectos de envolvimento da pessoa 
deficiente em atividades de trabalho remunerado -- mesmo que separado, 
isolado das outras empresas,
institucionalizado ou "protegido", como viria a ser conhecido. Essa 
organizao foi uma
iniciativa da Igreja Metodista, tornando-se posteriormente dela 
desvinculada e sem qualquer cor religiosa. O plano original era dar s 
pessoas deficientes sem emprego ou sem
qualquer rendimento, uma oportunidade de ganhar a vida pelo 
recondicionamento de
roupas, sapatos, mveis descartados como velhos e outros artigos, 
cuidando a Goodwill
I ndustries de vender todos esses artigos por preos muito mdicos  
populao mais pobre.

Focalizando o angulo de treinamento para o trabalho melhor definido e
qualificado, surgiu no ano de 1906, no Estado de Pennsylvania, a Widener 
Memorial
Training School for Crippled Children, uma das mais importantes do gnero 
durante
muitos anoS.

--Implantao de servios de naturezas diversas

Foi tambm no ano de 1906 que, na pequena cidade de Kallitha, na
Grcia, surgiu uma primeira escola para cegos, baseada na experiencia 
localmente acumulada por pessoas interessadas no problema. Essa velha 
escola  hoje conhecida como
Centro de Educao e Reabilitao.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, criava-se a Primeira Comisso Estadual 
para o Cego, no Estado de Masachussets, destinada a implementar programas 
pela
primeira vez financiados pelo governo federal.

No campo da assistncia a deficientes mentais, os Estados Unidos, a par
com muitos esforos do continente europeu, haviam tambm dado passos 
importantes
ao finalizar o sculo XIX e iniciar o sculo XX, com as iniciativas de 
Horace Mann e
Samuel Howe, criando organizaes de atendimento a deficientes mentais. 
Programas
equivalentes para surdos e tambm para cegos espalharam-se pelo pas 
todo, e pelo ano
de 1914 classes especiais com pessoal especificamente preparado existiam 
nas escolas
pblicas de Baltimore, Detroit, New York e tambm em Philadelphia.

Como conseqncia da guerra que eclodira no continente europeu, no
ano de 1915, em Londres, o Saint Dunstan's Hostel for the War Blinded foi 
organizado e
iniciou seus valiosos servios, atendendo os soldados cegos provenientes 
dos campos de
batalha. Soldados de Colonias de toda a Comunidade Britnica tambm eram 
atendidos.
--Os esforos de ps-guerra

Aps o ano de 1918, apesar de todas as dificuldades econmicas e sociais 
causadas pela guerra que assolara o mundo, com o volume de pessoas 
mutiladas,
acidentadas, deslocadas ou refugiadas bem  mostra, os pases mais 
evoludos aumentaram substancialmente seus esforos para a sua ajuda, no 
s na rea militar mas tambm
na civil.

Impulso dos mais significativos foi dado  reabilitao de pessoas 
deficientes na Inglaterra, assim que terminou a Primeira Guerra Mundial, 
pois muitos esforos foram surgindo para a elas dar todo o atendimento 
requerido, bem melhor e mais
completo do que por meio das tentativas anteriormente adotadas. Devido ao 
quase que
continuo envolvimento da Inglaterra em guerras nas mais diversas partes 
do mundo, os
problemas das deficincias eram to generalizadamente conhecidos que 
muitos esforos
isoladOs existiam, mas que requeriam uma certa coordenao. Criou-se 
ento a Comisso
Central da Gr-Bretanha para o Cuidado do Deficiente.

Tambm devido aos seus muitos envolvimentos em guerras, surgiu nos
Estados Unidos, na cidade de New York, no ano de 1917, uma entidade que 
desempenharia no futuro da reabilitao um dos papis mais marcantes: a 
chamada Red Cross
Institute for the Crippled and Disabled Men, mais tarde redenominada de 
Institute for
the Crippled and Disabled, j atendendo a civis. Hoje  conhecida essa 
organizao como
ICD Rehabilitation and Research Center.

E como no poderia deixar de ser, de muita influncia para definio dos
programas de reabilitao foram os esquemas montados para dar assistencia 
completa a
soldados que voltavam mutilados de guerras em diversos pases do mundo. 
Exemplo interessante disso foi o que sucedeu na Frana, onde, por lei 
assinada em 2/1/1918, todo
militar ferido na guerra ou portador de uma deficincia devido s suas 
atividades de soldado e que se tornasse incapacitado para o trabalho 
civil ou militar, tinha o direito de
inscrever-se gratuitamente numa escola profissionalizante, tendo em vista 
a necessidade
de sua readaptao para o trabalho e sua colocao no mercado 
competitivo. A prioridade para obteno de empregos na rea civil, de 
cuidados mdicos, de aparelhos ortopdicos e de cadeiras de rodas 
gratuitas, fazia e faz at hoje parte desse direito. Uma lei de
30 de janeiro de 1923 deu aos mutilados de guerra e tambm s conhecidas 
como vivas de guerra, direito de preferncia para certas funes no 
Estado, funes essas que, se
fossem ocupadas, no poderiam ser extintas pelo Governo.

--Surge a "Easter Seal Society"

Enquanto essas necessidades comeavam a ser cobertas em vrios pases,
era criada nos Estados Unidos uma associao j de carter nacional que, 
graas  cooperao de diversas outras organizaes, passaria a ser de 
importancia fundamental no desenvolvimento de uma reabilitao muito mais 
tcnica, precisa e objetiva, ou seja, a Associao Nacional para Crianas 
e Adultos Deficientes--muito mais conhecida como a
"Easter Seal Society". Essa entidade de carter nacional, que foi criada 
em 1919, existe
at os dias de hoje e tem um relevante papel na manuteno de programas 
os mais variados.
--O Cdigo de Direito Cannico e os bloqueios a homens deficientes

O Cdigo de Direito Cannico continuou mantendo seus bloqueios a 
candidatos ao sacerdcio catlico que apresentassem defeitos. O Capitulo 
Segundo do Cdigo versa sobre as chamadas Irregularidades em Particular e 
analisa em pormenores o assunto. Seu Artigo Primeiro fala sobre as 
Irregularidades por Defeito e indica que existem
oito espcies de defeito que podem tornar um candidato impedido de chegar 
at o sacerdcio:
1--Por defeito de espirito

2--Por defeito de corpo

3--Por defeito dos pais

4--Por defeito de idade

5--Por defeito de liberdade

6- Por defeito de sacramento

7 --Por defeito de mansido

8--Por defeito de fama.

Vamos nos limitar, todavia, a uma pequena anlise dos chamados "defeitos 
corporais" e seu relacionamento  irregularidade ou impedimento cannico 
que torne ilcita a recepo do sacramento da Ordem, de um modo direto, 
ou o exercicio das
funes sacerdotais, de um modo indireto. Segundo a disciplina da Igreja 
Catlica, a
irregularidade no  um castigo, mas um dos meios encontrados atravs dos 
sculos para preservar a dignidade do estado sacerdotal e para a excluso 
daqueles que no tem
capacidade ou aptido para o mesmo. Enquanto a irregularidade  
permanente, o impedimento  transitrio.

Dentro dos regulamentos e normas vigentes na Igreja, so considerados
como irregulares, alm dos casos citados mais acima, os "corporalmente 
defeituosos que
por fraqueza no podem exercer as funes do altar com segurana ou que 
por deformidade no o puderem fazer com dignidade. Quem se torna 
defeituoso depois de legitimamente ordenado, s pode ser impedido no 
exerccio de suas funes se o defeito for
notvel. No se probem, porm, atos que, apesar dos defeitos, puderem 
ser exercidos
convenientemente" ("Compndio de Moral Catlica", de Jone-Fox).

Os mesmos autores enumeram com exemplos pormenorizados os defeitos que 
tornam um candidato ao sacerdcio "irregular", da mesma forma que o faz o
Padre Joo Pedro Gury em sua memorvel obra "Compndio de Teologia 
Moral", ao
analisar o Cdigo de Direito Cannico e jurisprudncia encontrada. 
Segundo eles, so
"irregulares" aqueles que no tm um dedo polegar ou um indicador, ou 
ambos; que
usam uma perna mecanica ou que esto impossibilitados de usar as mos; 
aqueles que
tremem tanto que poderiam "derramar o preciosssimo Sangue"; os cegos ou 
que
tenham deficincia visual to grave que no conseguem ler o contedo do 
missal; os casos de surdez que no consigam ouvir a voz do ajudante de um 
ato litrgico; os que gaguejam de tal maneira que provoquem riso e 
desprezo; os que so vtimas de paralisias
ou deformaes que causem o andar tipico de um "coxo", e que no 
conseguem ficar
no altar sem bengala ou muleta; os que esto desfigurados por mutilaes 
ou por outra
causa (por agenesias de qualquer natureza ou por defeitos causados por 
males degenerativos); os que tm corcunda muito grande que provoque riso 
ou que os impea de se
colocar em posio ereta.

As normas relacionadas a defeitos corporais entram em pormenores
quanto a problemas de viso. Assim, a falta da vista esquerda no 
caracteriza casos de
irregularidade, se o defeito for disfarado por uma prtese ocular. O 
olho esquerdo,
considerado como o Olho do Canon,  necessrio para o sacerdote ler o 
Canon da Missa;
se o sacerdote conseguir faz-lo sem maiores problemas, a irregularidade 
poder ser dispensada. Quem se torna surdo "depois da recepo das 
ordens", no fica proibido de
celebrar os atos litrgicos.

Ainda para casos de ocorrncia de uma deficincia aps a ordenao as
normas so bastante condescendentes. Vejamos alguns casos:

-- Quem estiver quase cego, segundo Jone-Fox, poder obter do Papa 
dispensa para celebrar a chamada missa "de Beata", ou a missa cotidiana 
dos defuntos. Se um sacerdote ficar completamente cego, s poder rezar a 
missa com a assistncia de outro
sacerdote .

-- O sacerdote que no consegue ficar de p junto ao altar, ou que puder 
assim permanecer apenas com o uso de muletas ou apoio especial, s poder 
celebrar missa privadamente e nunca em pblico. Isso tambm  verdadeiro 
para o sacerdote que sofrer
de hansenase ou doena grave.

-- Nos casos de epilepsia e de psicopatias ocorre tambm a 
irregularidade, dependendo
do bispo local ou das autoridades eclesisticas constitudas a permisso 
do exerccio
de suas funes sacerdotais, depois de curados ou de terem o mal sob 
controle.

 evidente que existe nesses regulamentos da Igreja Catlica grande 
preocupao pela aparncia fsica de seus ministros, mas muito mais do 
que isso, o firme propsito de no levar os fiis a se distrair ou a 
desconsiderar seus servios, sua palavra e os
atos litrgicos.

Em diversas cerimnias litrgicas da Igreja Catlica  fundamental no
sacerdote poder ajoelhar-se e levantar-se diversas vezes, em atos de 
adorao;  bsico
tambm que tenha a mo direita para distribuir a comunho ou para dar a 
bno. ( *)
(* Quando em meus dez ou doze anos fui "coroinha" de um sacerdote que 
pessoalmente considero um mrtir do cancer: Pe. Luiz Alvqs de Siqueira. 
Lembro-me perfeitamente bem quando chegou de volta a parquia sem o brao 
esquerdo, amputado por um tumor maligno. Celebrava
missa, desenvolvia todos os atos requeridos--e ???fota disso tudo, ainda 
guiava automvel por algumas ruas do bairro. Colocadoobrao artificial, 
continuou da mesma forma atuante, usando o
brao mecanico para segurar o ???cibbrio na distribuio da comunho a 
seus paroquianos . . .

308
Reconhecimento das verdadeiras necessidades das pessoas deficientes

Uma centena de leis que reconheciam os direitos e favoreciam s crianas 
portadoras de deficincias surgiu em diversos pases, e de um modo todo 
especial nos
Estados Unidos da Amrica do Norte, durante os primeiros trinta anos 
deste sculo. A
maioria dessas leis referia-se a cuidados mdicos e a programas 
educacionais.

Graas a programas parecidos desenvolvidos nos Estados de New York e
de Ohio, e iniciados no ano de 1917 com a colaborao de comisses locais 
com a ajuda
dos governos estaduais, houve progressos bastante significativos no 
cuidado  pessoa deficiente porque mostraram que a soluo de seus 
problemas no dependia apenas de providncias na rea mdica nem de 
esquemas educacionais mantidos em hospitais, asilos ou
instituies de diversas naturezas. Ficou muito claro que o que era 
necessrio compreender era que tanto crianas quanto adultos com 
deficincias necessitavam no s dos cuidados que instituies especiais 
pudessem lhes prover, mas tambm de ateno pessoal,
de carinho, de relacionamento familiar e de um ambiente que 
possibilitasse alguma participao na vida comunitria, como qualquer 
outra pessoa.

--A previdencia social e os acidentes de trabalho

As primeiras leis de compensao a trabalhadores que se acidentavam nas
atividades industriais aconteceram a partir do ano de 1911 nos Estados 
Unidos, seguindo
um exemplo de legislao que vinha sendo promulgada na Europa, desde o 
final do sculo XIX. Na verdade essa legislao acabou significando um 
passo  frente na fixao da
responsabilidade que o governo deve assumir face ao problema de 
deficientes provenientes da indstria.

Ao se findar a Primeira Guerra Mundial, a legislao de aposentadoria ou
de compensao financeira para os acidentados no trabalho civil foi sendo 
introduzida
com mais regularidade e foi se tornando cada vez mais comum no mundo 
ocidental.
Acabou por se transformar em um dos mais srios fatores que chegaram a 
levar muitas
naes a aprovar extensos programas de volta das pessoas aposentadas  
vida de trabalho, o que de fato acabou se definindo como programa de 
reabilitao profissional.
E nesse movimento todo, a experincia acumulada por centenas de 
empreendimentos
de assistencia financeira, de abrigo ou de compensao por danos sofridos 
pelos soldados nas fronteiras em litigio aberto ou nos conflitos armados, 
foi de alto significado.
Benefcios acarretados aos trabalhadores foram, de inicio, muito bem 
recebidos, mas
esses programas provaram logo no ser muito eficientes, especialmente 
quando mantidos por companhias de seguro e outras organizaes privadas, 
e em muitos casos, mesmo pelo sistema oficial de seguro social.

O atendimento s vezes no era nem completo nem adequado, ou apresentava-
se como de carter paliativo e muito superficial, vendo-se as pessoas 
foradas a
comparecer s atividades programadas para poder receber os proventos a 
que tinham
direito.
Esses programas iniciais limitavam-se aos acidentados no trabalho, como
309

hoje est ocorrendo com rgos ligados ao nosso sistema nacional de 
previdncia social e vrios de seus programas, ressaltando-se o programa 
de reabilitao profissional
mantido pelo Instituto Nacional da Previdencia Social. As pessoas que, j 
na dcada
de vinte, eram vitimas de acidentes domsticos, de transito e de outras 
naturezas, ou
eram atingidas por alguma enfermidade grave ou malformao congnita, no 
podiam
ser atendidas em sua reabilitao--como acontece na dcada de oitenta em 
nosso Brasil.

-- A reabilitao de jovens veteranos da Marinha e do Exrcito

O ano de 1918 foi aquele que viu aprovada a lei conhecida nos Estados
Unidos da Amrica do Norte como Vocational Rehabilitation Act. Essa lei 
dava condies de reabilitao para o trabalho a veteranos portadores de 
deficincias, vindos
quer das fileiras da Marinha, quer do Exrcito. Em 1920 o chamado Fess-
Kenyon Civilian Vocational Rehabilitation Act autorizou o atendimento de 
civis com deficincias
fisicas. Esta legislao procurou enfatizar solues de trabalho e 
descuidou-se excessivamente dos aspectos de recuperao ou de restaurao 
fsica, como parte do programa.
No entanto, foi uma grande colaborao aos programas de reabilitao, 
pois abriu uma
grande avenida para a compreenso da problemtica global das pessoas 
deficientes e
reconhecimento da necessidade de se implantar programas mais abrangentes.

--A retrao dos anos trinta e as pessoas deficientes nos EUA

A dcada de trinta constituiu-se num periodo dos mais obscuros para
pessoas deficientes, devido especialmente  retrao econmica que varreu 
o pas
norte-americano. Todos os progressoS at ento feitos para empregar 
adequadamente
as pessoas deficientes acabaram caindo a quase zero. A enorme avalanche 
de desempregados que no tinham qualquer deficiencia, cujas necessidades 
de emprego pareciam 
primeira vista mais urgentes do que aquelas das pessoas deficientes que 
sempre haviam
sido consideradas como objeto de caridade e comiserao e no tanto como 
potencial
humano srio a ser considerado para o mercado de trabalho, fez com que o 
valor de seu
trabalho fosse subestimado.

Apesar da depresso econmica, muito se aprendeu quanto ao atendimento 
social das pessoas deficientes atravs de servio social bem orientado. 
Mas a herana deixada pelo colapso economico norte-americano foi muito 
amarga, e uma dessas
heranas foi a criao das chamadas agencias de bem-estar social, nas 
quais havia atendimento individualizado, com aconselhamento para o 
trabalho, orientao para treinamento profissionalizante, servios 
globais de sade, assistncia psicolgica e por vezes
psiquitrica, conforme o caso.

--A influncia da Segunda Guerra Mundial na reabilitao

Quando a Segunda Guerra Mundial foi deflagrada, o problema dos soldados 
vtimas de deficincias causadas pela guerra atraiu novamente a ateno 
do mundo.
Mas a situao era bem diferente daquela deixada pela Primeira Guerra 
Mundial, pois logo ao terminar o segundo conflito, j existiam servios 
de reabilitao tanto para civis
310

como para militares. Para atender a esses problemas de deficincias, 
funcionavam agncias que j haviam trabalhado por anos a fio com esse 
assunto. O que contribuiu grandemente para obter melhores condies para 
o desenvolvimento de reabilitao mais completa, nos EUA, foi a presena 
de Franklyn Delano Roosevelt, um paraplgico por poliomielite, na 
Presidncia do pas, eleito em 1932. Ficou evidente que uma pessoa 
deficiente poderia realizar perfeitamente bem at uma funo de natureza 
executiva de alto nivel, sustentando sua prpria vida atravs de um 
emprego remunerado.

Durante a Guerra, graas  escassez de braos e  premncia de 
desenvolver os esforos de guerra, tanto as mulheres quanto os portadores 
de deficincias foram
aproveitados aos milhares nas indstrias, nas vagas daqueles que haviam 
sido incorporados s foras armadas.

Um dos grandes resultados da atuao de profissionais que cuidavam dos
problemas de deficincias foi o avano incontestvel da Medicina Fsica e 
da Terapia
Ocupacional. Alm disso, foi sendo reforada a impresso que havia de que 
a pessoa deficiente no precisa nem ser carga pblica nem dependente; que 
a pessoa deficiente pode
ser til, contribuinte  economia geral de um pais, participante na 
formao da riqueza
nacional.

Dessa poca de anos dificeis do ps-guerra  que foram se definindo 
preocupaes cada vez mais marcantes como o ajustamento psico-social das 
pessoas portadoras de deficiencias.

--A criao de sociedades internacionais privadas

Quase sempre servios de assistncia a grupos minoritrios so 
organizados e desenvolvidos por entidades da rea privada. Cada esforo 
novo tem sido sempre
inspirado em sucessos de esforos semelhantes ocorridos em pases ou 
cidades vizinhas.
Essa tendencia  encontradia em reabilitao e em esquemas de 
assistncia a pessoas deficientes em todas as partes do mundo.

Estudiosos do assunto "reabilitao" acabaram provocando no inicio do
sculo o intercambio de informaes e de sugestes entre todos os que se 
interessavam
pelo problema, estabelecendo uma espcie de organizao internacional de 
carter informal. No entanto, havia claramente a necessidade de existir 
organizaes do tipo no-governamental, mas de carter internacional, 
voltadas para toda essa imensa problemtica
legada pela Primeira Guerra Mundial.

A mais antiga dessas sociedades internacionais surgiu na Escandinvia, no
incio do sculo. Foi a Sociedade Escandinava de Ajuda a Deficientes 
congregando entidades que atendiam pessoas deficientes na Sucia, Noruega 
e Dinamarca, desde o sculo XIX.

A sociedade internacional que hoje  conhecida mundialmente como a
Rehabilitation International surgiu como uma das primeiras e mais 
importantes organizaes voluntrias interessadas no angulo internacional 
do problema, com o objetivo
principal de manter contato com o progresso mundial na ajuda a pessoas 
deficientes.
Ela foi fundada em 1922 com o nome inicial de Sociedade Internacional 
para a Criana
Deficiente, graas a alguns interessados pertencentes ao Rotary 
International que, ao
observar movimentos semelhantes aos que eram organizados nos EUA para 
crianas deficientes, compararam-nos a outros movimentos em outras partes 
do mundo. O Rotary
International acabou patrocinando a idia de formar uma federao para 
coordenar e
estimular atividades destinadas a pessoas deficientes.

O primeiro Congresso Mundial dessa sociedade internacional que j adotara 
o nome de Sociedade Internacional para o Bem-Estar dos Aleijados 
(International
Society for the Welfare of the Cripples) foi na cidade de Genebra, na 
Sua, no ano de
1929, graas a interessados no problema que participavam de uma reunio 
do Rotary
International.

Existem verses diferentes para a criao da Sociedade Internacional
para o Bem-Estar dos Aleijados. Segundo uma delas, no ano de 1919, na 
cidade de
Elyria (Estado de Ohio -- EUA), foi fundada a International Society for 
Crippled
Children, mas no ano de 1922 ela foi dividida em duas outras organizaes 
internacionais, ou seja, a "Easter Seal Society for Domestic Action" e a 
"International Society
for the Welfare of Cripples".

Tendo seu nome sido alterado para "International Society for 
Rehabilitation of the Disabled", na dcada de cinqenta, ela  hoje 
conhecida como "Rehabilitation International", conta com 115 organizaes 
do mundo todo a ela filiadas, incluindo nisso 64 pases de todos os 
continentes.

Evidentemente que existem hoje diversas organizaes conhecidas como
"no-governamentais", que tm caracteristicas internacionais, que se 
dedicam aos problemas de pessoas deficientes. Dentre elas cumpre destacar 
as seguintes:

-- Federao Mundial dos Veteranos

--Sociedade Internacional de Medicina Fsica

- Federao Mundial de Terapeutas Ocupacionais

- Confederao Mundial de Fisioterapia

--Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos

Todo o esforo de muitas das organizaes no-governamentais  atualmente 
coordenado pela Conferencia de Organizaes Mundiais, Interessadas na 
Pessoa
Deficiente.

--O envolvimento das organizaes inter-governamentais

Desde o final da segunda guerra que assolou o mundo no sculo XX, ou
seja, desde o ano de 1945, expandira-se muito a compreenso daquilo que 
vinha insistentemente sendo chamado de "reabilitao". E com essa 
compreenso, muitas sociedades caminhavam para a plena conscientizao 
quanto  sua necessidade, havendo muito
pouca gente que duvidava que problemas srios das pessoas deficientes s 
poderiam ser
cobertos com sua aplicao. Programas muito mais amplos precisavam ser 
garantido
para dar assistncia no s aos deficientes do aparelho locomotor, mas 
tambm que
apresentavam dificuldades sensoriais e mentais.

Um dos fatores mais significativos na divulgao dessa nova tcnica de
trabalho foi, sem dvida, o envolvimento das organizaes internacionais 
de carter
inter-governamental, comandadas pela Organizao das Naes Unidas, 
incluindo nessa
verdadeira famlia de organizaes o Fundo de Emergncia das Naes 
Unidas para as
Crianas (UNICEF), a Organizao Internacional do Trabalho (OIT), a 
Organizao
Mundial de Sade (OMS), a Organizao das Naes Unidas para Refugiados e 
a Organizao das Naes Unidas para Educao, Cincia e Cultura 
(UNESCO). O verdadeiro
envolvimento dessas organizaes internacionais iniciara-se mesmo antes 
da prpria criao da ONU, quando o organismo de congregao das naes 
do mundo era ainda a Liga
das Naes, com sua sede em Genebra.

Um exemplo desse envolvimento est no documento intitulado"Report
on the Welfare of the Blind in Various Countries" (Relatrio a respeito 
do Bem-Estar
dos Cegos em Vrios Pases), datado de 1929 e publicado sob a 
responsabilidade da
Liga das Naes. Esse documento apresentou um resumo analitico da 
evoluo dos servios de proteo e de assistencia aos cegos, na Europa e 
na Amrica do Norte.

No entanto, um passo decisivo para um maior envolvimento da ONU e de
suas Agncias Especializadas ocorreu quando, no ms de dezembro de 1946, 
sua Assemblia Geral adotou uma resoluo que estabelecia o primeiro 
passo para um programa de
consultoria em diversas reas do bem-estar social, nele incluindo a 
reabilitao das pessoas deficientes, como uma das principais reas com 
possibilidades de captar recursos
financeiros para assistncia tcnica a ser colocada  disposio dos 
pases sub-desenvolvidos e interessados no assunto. Foi montado o Bureau 
of Social Affairs, dentro do Secretariado da ONU, que iniciou seu 
funcionamento quando a ONU ainda trabalhava em
Lake Sucess, nos arredores de New York. Dentro da estrutura do Bureau foi 
inserida
uma Unidade de Reabilitao de Pessoas Deficientes.

Enquanto isso comeava a acontecer a nvel da nova Organizao das Naes 
Unidas, os programas da j antiga Organizao Internacional 
doTrabalhocontinuavam, pois j haviam sido montados h alguns anos. Logo 
envolveram-se as outras organizaes e devido ao volume surpreendente de 
atividades e ao estabelecimento de reas especficas de atuao para cada 
uma delas, gradativamente surgiu a necessidade de um sistema de 
coordenao internacional, envolvendo no s as organizaes inter-
governamentais, mas tambm as organizaes mundiais de carter no-
governamental que iam
proliferando em diversos campos.

Durante o Seminrio Internacional sobre Administrao de Programas e
de Centrosde Reabilitao nos Pases em Desenvolvimento, organizado pela 
ONU e pelo
Governo da Dinamarca, em Copenhague, de 18 de julho a 5 de agosto de 
1966, e do
qual participamos como Secretrio-Tcnico, tivemos oportunidade de 
analisar a questo
da coordenao em lum painel de especialistas, sendo nossa misso 
apresentar pontos
relevantes que justificavam a necessidade de coordenao a nivel 
internacional. Fizemo-lo
em nome da Unidade de Reabilitao de Pessoas Deficientes do Bureau de 
Assuntos Sociais, da qual ramos funcionrio tcnico. O trabalho escrito, 
apresentado na ocasio,
aplicvel quase que "in totum"  realidade de hoje,  relevante no 
contexto deste capitulo,face  importancia que a ONU e suas Agncias 
Especializadas tm tido no desenvolvimento da reabilitao no mundo de 
hoje. Alguns trechos parecem-nos relevantes:

. . . "A preveno das deficincias e a reabilitao de pessoas 
deficientes so problemas
nos quais a ONU e um certo nmero de Agencias Especializadas tm 
demonstrado grande interesse muito antes de 1950. Nesse ano, tendo em 
mira obter uma atuao bem
coordenada nesse campo, o Conselho Econmico e Social da ONU solicitou ao 
Secretrio-Geral para planejar, "inter-alia", juntamente com as Agncias 
Especializadas e em
consultoria com as organizaes no-governamentais interessadas, um bem 
coordenado
programa internacional para a reabilitao das pessoas fisicamente 
deficientes. Planos
para esse programa foram inicialmente discutidos por um grupo tcnico de 
trabalho
composto de especialistas indicados pela ONU, pela Organizao 
Internacional do Trabalho, pela UNESCO, pela Organizao Mundial de 
Sade, pela Organizao Internacional dos Refugiados e pelo Fundo de 
Emergncia das Naes Unidas para as Crianas.
O grupo reuniu-se em Lake Success e em Genebra, e o novo programa 
internacional, dinamico em sua forma e baseado em princpios slidos, 
comeou a existir."

Coordenao prtica dessas atividades--o tpico principal das primeiras 
reunies--continuou a constituir-se no foco de discusso atravs dos 
anos. Em tese parecia haver uma
clara diviso de responsabilidades, mas na prtica havia diversas reas 
nas quais a sobreposio de responsabilidades persistia. Os problemas 
colocados por essas reas "cinzas",
poderiam ser resolvidos apenas por meio de uma eficiente coordenao que, 
em contrapartida, dependeria de uma precisa definio de 
responsabilidades. Depois de muita discusso, planejamento e reviso, a 
seguinte alocao de responsabilidades foi aceita:

a) A Unidade de Reabilitao de Pessoas Deficientes das Naes Unidas 
ficou encarregada de aspectos de Planejamento, Administrao, Legislao, 
Aspectos Sociais, Aspectos Psicolgicos e Prteses. Alm disso, a Unidade 
de Reabilitao ficou responsvel por manter um controle sobre todas as 
providncias tomadas com relao a projetos prticos, e por garantir, 
tanto quanto possvel, que as Agncias Especializadas se
mantivessem em dia e estivessem perfeitamente informadas das atividades 
umas das
outras .

b) A responsabilidade da Organizao Internacional do Trabalho cobria 
todos os aspectos
profissionais da reabilitao, tais como treinamento de re-
condicionamento, de avaliao e de atividades pr-profissionais (como 
eram conhecidas quela poca); emprego
protegido e organizao de oficinas protegidas; medidas especiais para 
garantia de emprego para a pessoa deficiente; e centros de reabilitao 
industrial. Deve-se notar aqui
que os principios gerais da reabilitao profissional sempre estiveram 
baseados na Recomendao n 99 da OIT, aprovada pela Conferncia 
Internacional do Trabalho, em
junho de 1955.
c) A competncia tcnica da UNESCO no campo da reabilitao cobre o que  
conhecido por todos ns como educao especial. A UNESCO inclui, nesse 
sentido, alguns
programas para cegos, para surdos e em geral para os deficientes fsicos 
e mentais.
Uma Resoluo sobre educao especial foi adotada pela Conferncia da 
UNESCO de
1964, e espera-se que atividades de assistncia tcnica dessa Agncia 
Especializada,
em educao especial, aumente durante os anos futuros.

d) A responsabilidade da Organizao Mundial de Sade em geral  promover 
a sade de
todas as pessoas. Quanto a atividades de reabilitao, seu papel  
prevenir, sempre
que possivel, males incapacitantes, e desenvolver programas em cirurgia 
ortopdica e
prottica; em medicina fsica; em fisioterapia; em enfermagem 
especializada; em prteses e rteses na prtica mdica.

e) O papel do UNICEF em reabilitao, bem como em outros campos de 
assistncia,
prover equipan ento e transporte. O UNICEF normalmente coordena seus 
prprios
planos com os planos da ONU e de suas Agncias Especializadas e somente 
d assistencia a projetos que tenham a aprovao tcnica da relevante 
Agncia das Naes
Unidas". (Isto era verdade  poca em que o documento foi apresentado e 
discutido--hoje em dia o UNICEF mantm seus prprios programas e suas 
prprias consultorias, contratando eventualmente a assessoria de 
especialistas mundialmente renomados ou de organizaes no-
governamentais especializadas).

O trabalho em pauta, que foi devidamente liberado pela ONU antes de
sua apresentao quanto ao seu contedo e anlise das atuaes das 
Agncias citadas em
seu corpo, continua, estudando os fatores comuns encontradios em seu 
trabalho, e que
caracterizavam as organizaes inter-governamentais. S para informao 
do leitor, esses pontos comuns eram os seguintes:

a) todas as organizaes internacionais de carter inter-governamental, 
inseridas na familia de Agencias das Naes Unidas, estavam e esto 
preparadas para prestar assistncia tcnica, mas apenas quando fossem 
apresentadas solicitaes pelos governos;

b) essa assistncia tcnica tanto poderia ser dirigida a rgos ou 
programas oficiais,
quanto queles da rea privada;

c) todas elas praticamente prestam servios de consultoria de tcnicos 
especializados ou
provm bolsas de estudos para o treinamento de pessoal local, sendo que 
uma boa
parte delas ainda prepara literatura bsica (monografias, estudos, 
pesquisas e outras
publicaes);

d) elas organizam seminrios inter-regionais ou internacionais, cursos 
intensivos e viagens de estudos, conforme programao aprovada com 
antecipao e notificao aos
governos;

e) elas de um modo geral procuram envolver outras agncias internacionais 
nos programas desenvolvidos em determinado pas.
Para obter a almejada coordenao, at hoje cabe  ONU uma srie de
providncias prticas, tais como a organizao peridica de Reunies 
Inter-Agencias, a
freqente troca de informaes e tambm as publicaes conhecidas como 
"Summary
of Information on Projects and Activities in the Field of Rehabilitation 
of the Disabled
Throughout the World" (Sumrio de Informaes sobre Projetos e Atividades 
no Campo
da Reabilitao do Deficiente atravs do Mundo). Pessoalmente vivenciamos 
no s a
preparao dessas publicaes mas tambm seu significado para as 
organizaes Inter-Governamentais e as No-Governamentais envolvidas, uma 
vez que foi nossa responsabilidade direta sua elaborao do volume V 
(relacionado a atividades de 1963) at o volume IX (sobre atividades de 
1967), correspondendo exatamente aos cinco anos de traba lho nosso na Un 
idade de Reabilitao das Pessoas Deficientes da O N U, em New York.

O chamado "programa internacional coordenado" que havia sido recomendado 
pela Assemblia Geral da ONU ao seu Secretrio-Geral, sempre foi levado a
efeito por meio de um trabalho burocrtico silencioso e persistente (e 
por que no o dizer, paciente) do qual percebiamos os resultados por 
vezes promissores, por vezes extremamente desoladores. Personalidades 
envolvidas dificultavam muitas vezes o andamento usual de processos; 
atitudes de cime de antigos funcionrios internacionais barravam o 
dinamismo de pessoal mais novo; surgiam pruridos por "avanos" 
milimtricos
nas conhecidas e muito disputadas "reas cinzentas"; ocorriam bloqueios 
velados a projetos--mesmo que de boa qualidade--elaborados por alguma 
cabea de origem "ocidental" quando a cabea "oriental" estava no poder, 
e vice-versa . . . e tantos problemas
mais! Olhando daquele prisma que costumvamos olhar (ou seja, de dentro 
da ONU para fora), considervamos um verdadeiro prodigio ningum de fora 
perceber o drama que
significava lutar sob a gide da bandeira azul e branca da ONU, na 
qualidade de funcionrio pblico internacional, procurando dar ao barco 
de tantas velas desencontradas um
rumo que era de fato esperado por todos os que se envolviam em 
reabilitao. Foram
anos muito dificeis, e no trabalho que citamos h um desabafo velado nas 
entrelinhas,
nos dois ltimos pargrafos que dizem o seguinte:

"Por todos esses meios e outros que podem surgir no correr do tempo, e
tambm por meio da experincia acumulada, espera-se continuamente que a 
plena coordenao torna-se- til na manuteno de um programa 
internacional de reabilitao para todos os tipos de pessoas deficientes, 
com a eliminao de toda a duplicao desnecessria, sobreposies ou 
antagonismos, que normalmente surgem devido  ignorancia
quanto s atribuies e s atividades dos outros".

"Certamente que muitos anos devero passar antes que tal programa--e
outros que possam ser organizados no futuro--traga completo alivio para a 
pessoa deficiente no mundo todo. Cada ano esperamos ver grandes 
progressos na direo de nosso
objetivo ltimo em reabilitao, de um plano claro e objetivo que possa 
ser seguido desde agora".

Muita gente que se diz conhecedora da Organizao das Naes Unidas
faz dela a idia de um rgo politico, no qual se ressaltam dois 
constantemente citados
setores: a Assemblia Geral e o Conselho de Segurana. No entanto, a ONU 
mantm,
atravs de seu Executivo, que  o Secretariado (funciona no prdio que 
todos conhecem,
localizado em New York, s margens do East River, e que  todo 
envidraado em todos
os seus 38 andares) uma incrivel programao em continua expanso, que 
levou a uma
descentralizao inicial, dentro da prpria cidade de New York. Toda a 
rea de Desenvolvimento Social, Defesa Social, Reabilitao da Pessoa 
Deficiente e outras, foi transferida para alguns andares do Chrysler 
Building. Anos aps, num audacioso momento
de deciso do Secretrio Geral Kurt Waldheim, esses assuntos todos 
passaram para o
Centre for Social Development and Humanitarian Affairs (Centro para 
Desenvolvimento Social e Assuntos Humanitrios), em Viena, na Austria, 
onde se localiza hoje.

Muitos, dessa forma, no tem a minima idia do montante de atividades
que so programadas e desenvolvidas para o beneficio da humanidade que 
vive nos pases em desenvolvimento.

Gostariamos de documentar a pujana das programaes e o seu 
inquestionvel alcance, no campo da reabilitao apenas, durante um curto 
periodo de tempo,
j pertencente ao passado, mas muito ilustrativo. Responsabilizamo-nos 
pessoalmente
pela informao, pois delas participamos num trabalho diuturno.

Periodo de 1964 a 1966 apenas:

Tcnicos-
Vinte e oito tcnicos em reabilitao em diversos aspectos foram enviados 
pelas Naes
Unidas para misses em vinte e dois pases em desenvolvimento. A grande 
maioria dessas
misses internacionais foram de curta durao e destinadas a pesquisas 
iniciais para que
o governo pudesse tomar uma posio face  problemtica das pessoas 
deficientes. No
entanto, algumas dessas misses, especialmente nos campos de fisioterapia 
e de prteses,
duraram mais de um ano.

Bolsas de treinamento-
A ONU concedeu 45 bolsas de treinamento para estudos de diferentes 
aspectos de reabilitao. Os bolsistas eram oriundos de 17 pases e 
tiveram uma durao entre 3 e 14
meses seus respectivos treinamentos.

Foram tambm concedidas 96 bolsas de treinamento para a participao de 
profissionais
de alto nivel em seminrios internacionais ou viagem de estudo, 
organizados pela ONU
ou contando com sua colaborao, no campo da reabilitao. Com essas 
bolsas de curta
durao, 45 pases em desenvolvimento foram beneficiados.

Seminrios internacionais-
???l~ Seminrio Internacional das Naes Unidas sobre Prteses para 
Pessoas Deficientes - Este Seminrio foi organizado pelas Naes Unidas 
com a cooperao da Sociedade e Lar para Aleijados na Dinamarca (Society 
and Home for Cripples in Denmark)
e do Comit Internacional de Prteses e rteses da Sociedade 
Internacional para Reabilitao do Deficiente (hoje Rehabilitation 
International). Foi realizado em Copenhague, de 5 de julho a 15 de agosto 
de 1964 (um curso intensivo, portanto), com
a presena de 32 participantes de 26 pases em desenvolvimento na Amrica 
Latina,
Africa, sia, Oriente Mdio e Europa. Os participantes foram selecionados 
entre candidatos designados pelos governos e, em sua grande maioria, eram 
diretores ou gerentes de importantes oficinas de prteses em seus pases. 
Do Brasil tivemos dois participantes de So Paulo, ligados a projeto do 
Centro de Demonstrao a que nos referimos um pouco mais adiante, neste 
mesmo capitulo. Participamos na qualidade de
Diretor, em nome das Naes Unidas.

Durante este Seminrio--organizado como um curso intensivo e com firmes 
propsitos de elevar os conhecimentos dos participantes--foram dados 
certificados de sua
concluso apenas para aqueles que tivessem passado nos exames finais. Ao 
encerrar-se
o Seminrio, diversas recomendaes foram aprovadas. E a mais relevante 
foi, sem
dvida, aquela que indicava a necessidade de se organizar outro Seminrio 
da ONU
para o estabelecimento de padres mnimos para treinamento de pessoal. A 
recomendao foi aprovada logo em seguida pela Comisso Social do 
Conselho Econmico e
Social da ONU, e incluida no programa de trabalho da Unidade de 
Reabilitao
para 1968.

b) Viagem de Estudos das Naes Unidas para Recursos de Reabilitao na 
Polnia e na
Rssia, organizada pela ONU em estreita colaborao com os pases 
visitados. Foi
realizada em setembro de 1965, com 34 participantes de 24 pases em 
desenvolvimento, incluindo pessoal de alto nivel em seus respectivos 
pases, mas envolvidos em
reabilitao. Tiveram oportunidades de observar as vrias modalidades de 
programas
para resolver os problemas dos deficientes, todos eles baseados em vastos 
programas
de seguro social. Enquanto a viagem era realizada, permanecemos em New 
York na
direo da Unidade de Reabilitao. Brasil com dois participantes.

c) Seminrio Internacional das Naes Unidas sobre Administrao de 
programas e de importantes Servios de Reabilitao em Pases em 
Desenvolvimento. Foi realizado em
Copenhague, sob a gide da ONU, com o patrocinio do Governo da Dinamarca, 
de
18 de julho a 5 de agosto de 1966. Foram 31 participantes de 26 pases em 
desenvolvimento, tendo o Brasil participado com dois profissionais, sendo 
um da Coordenao da Reabilitao Profissional do INPS e o outro, o 
Diretor de um Centro de Reabilitao da Bahia. Tambm na forma de um 
curso intensivo, foi um Seminrio bem
agradvel aos participantes, pois incluiu viagem a vrias cidades 
dinamarquesas e  bonita cidade de Oslo, na Noruega, mas com compromissos 
de aulas e conferncias em
todas elas. Os assuntos tratados cobriram aspectos mdicos, sociais, 
psicolgicos e
profissionais da reabilitao e suas tendncias mais atualizadas. 
Participamos deste Seminrio na qualidade de Secretrio Tcnico, em nome 
da ONU.

 evidente que muitos outros Seminrios Internacionais, cursos ou viagens 
de estudos--empreendimentos que envolvem grupos--foram patrocinados ou 
organizados tanto pela ONU quanto pelas agncias de sua famlia 
organizacional, no campo da reabilitao, com resultados que s podero 
ser dimensionados com o tempo. Se
formos analisar os resultados dos Seminrios aqui indicados, com 
informaes eventuais
que temos recebido, poderemos afirmar sem susto que para 50% dos 
participantes eles
devem ter significado apenas uma viagem s custas das Naes Unidas e seu 
Programa
Ampliado de Assistncia Tcnica, de um pas sub-desenvolvido para os 
extraordinariamente belos pases escandinavos. Aprenderam muita coisa,  
bvio, pois a freqncia s
atividades dos mesmos era obrigatria e eventuais distraes ou 
atividades sociais ocorriam apenas aos sbados ou domingos. Esses 
Seminrios caracterizavam-se por atividades muito bem programadas pela 
manh e  tarde--e s vezes  noite. E o local de concentrao, 
conferncias, trabalhos em grupo, refeies e alojamento para dormir no 
era
perto de Copenhague. Mas sempre era a Dinamarca, a Sucia, a Noruega e 
aquele povo
por vezes indiferente, por vezes formal, por vezes gentil e correto, mas 
quase sempre
bem diferente das realidades encontradias nos pases africanos, 
asiticos ou latino-americanos . . . Para esses 50% certamente que os 
melhores momentos estiveram ligados a
recordaes que nada tm a ver com os Seminrios em si: Tivoli, 
"smorebrods", gramados e jardins floridos, a sereiazinha triste, 
restaurantes, bicicletas, bandeiras, muita gente loira, uma lingua 
impossivel, planuras imensas com plantaes de cereais quase sem
fim, nenhum rio, nenhuma montanha, ferryboats e as gaivotas em seu 
encalo, palcios
reais, museus--enfim, a Dinamarca propriamente dita.

Mas houve o restante dos participantes--os 50%, que devem ter aproveitado 
e muito, ouvindo, discutindo, estudando, escrevendo. E para esses o 
programa de reabilitao deve ter aproveitado muito. Saldo positivo deve 
haver, sem a menor sombra
de dvida!

O que nos fica muito patente  que assegurar resultados imediatos no
est nem poderia estar relacionado ao contedo desses eventos, mas aos 
tipos de participantes que nem sempre foram (ou so) os mais indicados ou 
os mais competentes para
tirar o devido proveito de encontros to cuidadosamente preparados.

Uma boa porcentagem das atividades destinadas  transferncia de 
tecnologia de reabilitao dos pases mais evoluidos para aqueles em 
estgio menos avanado
de desenvolvimento, na ONU e em suas Agncias Especializadas, sempre se 
concentrou
na preparao e na distribuio de bibliografia relevante. No so apenas 
relatrios de
misses de consultores em reas pouco evoluidas do mundo, ou misses de 
carter regional e inter-regional, que s dezenas enriquecem o acervo de 
informaes relacionadas ao
desenvolvimento da reabilitao no mundo, mas tambm estudos especiais. A 
maioria
das publicaes da ONU e de suas Agncias Especializadas leva em 
considerao as discrepancias culturais e sociais do mundo, e respeitam 
os processos implantados nos seus
diversos Estados-Membros.

Preocupao das mais relevantes ocorreu na dcada de sessenta, quando a
Unidade de Reabilitao de Pessoas Deficientes da ONU iniciou uma srie 
muito interessante intitulada: "Servios e Material Bsicos para os 
Centros de Reabilitao". Visava a
srie transmitir idias, programas, exemplos dos servios bsicos 
existentes em centros de
reabilitao, com o propsito de chegar aos diretores de programas, de 
atingir os profissionais, de alertar os governos. A srie chegou a 
incluir nmeros sobre fisioterapia, terapia ocupacional, servio social, 
psicologia, prteses em geral, prteses para hansenianos. E
seu grande alcance levou a Organizao das Naes Unidas a traduzir cada 
volume (de
aproximadamente oitenta pginas cada, em vrias lnguas. Essa srie 
chegou a contar
com suas publicaes em ingls, espanhol, francs, russo e rabe.

Na relao bibliogrfica deste volume o leitor poder ter uma diminuta
idia de publicaes da ONU sobre reabilitao. Muitos outros trabalhos 
foram publicados,  evidente, sendo impossvel a apresentao de uma 
relao completa.

A mesma observao relacionada a publicaes  aplicvel  Organizao
Internacional do Trabalho, e em menor escala  Organizao Mundial de 
Sade e UNESco nos assuntos de reabilitao.

Outros esforos muito srios foram desenvolvidos pela famlia de 
Organizaes das Naes Unidas para divulgar, implantar ou fortificar 
programas de reabilitao em todas as partes do mundo. Um deles, quase 
esquecido entre ns,  o Centro de
Demonstrao de Reabilitao, a respeito do qual algumas explicaes 
precisaro ser
feitas, a fim de que seja feita justia--tanto  ONU, OIT e OMS, quanto 
queles que a
esse plano dedicaram seus esforos, suas inteligncias, seu gabarito 
tcnico, em quatro
Dontos diferentes do mundo.

- Centros de demonstrao de tcnicas de reabilitao

No incio da Dcada de Cinqenta a ONU, em decorrncia de uma deliberao 
de carter inter-organizacional da qual participaram os seus 
representantes e
aqueles da OIT, OMS e UNESCO, resolveu adotar uma estratgia mais efetiva 
para a im
plantao de projetos de reabilitao nos quatro continentes: provocar a 
organizao de
centros de Demonstrao de Tcnicas de Reabilitao, que acumulassem a 
responsabilidade de no s dar atendimento qualificado, mas tambm de 
desenvolver cursos para a
formao de pessoal bsico nessas mesmas tcnicas.

O plano contava com o apoio das organizaes envolvidas, mas de um
modo todo especial da prpria Organizao das Naes Unidas, da 
Organizao Internacional do Trabalho e da Organizao Mundial de Sade. 
As trs organizaes haviam estabelecido prioridade em programaes de 
assistncia tcnica, dentro de certas condies, e haviam igualmente 
combinado as condies fundamentais para montagem de
centros dessa natureza.

Alm de ser necessrio manter um em cada continente, seus especialistas
internacionais levaram a campo e indicaram aos governos visitados os 
critrios para escolha dos pases, estados e cidades onde esses novos 
recursos poderiam ser instalados.
Esses critrios resumiam-se nos seguintes:

A existncia de uma realidade universitria pujante que desse cobertura  
formao
de pessoal destinado aos programas do centro, ou seja, mdicos, 
assistentes sociais,
enfermeiros e psiclogos. Essa mesma realidade universitria deveria 
estar apta a, com
esforo adicional, cobrir ainda a necessidade de formao de 
profissionais faltantes
numa equipe de reabilitao (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, 
tcnicos em
320

prteses e rteses e conselheiros de reabilitao), com a montagem de 
cursos ainda
no existentes no pas, mas bsicos para programas reabilitacionais.

b. Existncia de uma realidade industrial, comercial e de servios em 
franca expanso,
devido ao seu significado na montagem de programas de aconselhamento e de 
colocao da mo-de-obra das pessoas deficientes adultas em programas de 
reabilitao.

c. Disponibilizao de instalaes, se possvel nas proximidades de um 
complexo hospitalar que contasse com servios de ortopedia e neurologia, 
suficientes para localizao de todos os servios e espao para 
internamento de adultos de ambos os sexos.

d. Preferncia seria dada a pas que j contasse com alguns profissionais 
que tivessem experincia no campo da reabilitao, e com recursos 
institucionais j instalados de treinamento profissional.

e. O compromisso formal e o interesse direto do governo federal e do 
local (estadual)
para a organizao do centro de reabilitao e para sua manuteno como 
projeto de
demonstrao de tecnologia e de aproveitamento dos novos profissionais em 
formao.

f. O compromisso adicional do governo central de dar prioridade aos 
pedidos de assistencia tcnica  familia de organizaes da ONU, no s 
pedindo especialistas nas
reas necessitadas de cobertura, mas tambm bolsas de estudos para a 
preparao
adicional dos profissionais que trabalhassem como assistentes dos 
consultores das
Agncias Internacionais, se de todo necessrio.

Aps exaustivos estudos e muitas consultas, os quatro pontos foram 
escolhidos de comum acordo com os governos interessados. Os Centros de 
Demonstrao de
Tcnicas de Reabilitao foram instalados na lugoslvia (Skopje), Egito 
(Alexandria),
ndia (Bombaim) e . . . Brasil (So Paulo). Criava-se em nossa Ptria um 
recurso altamente promissor que deveria ser o elemento cataltico do 
desenvolvimento da reabilitao em
nosso meio: o Instituto Nacional de Reabilitao (INAR) da Universidade 
de So Paulo!

--O Instituto de Reabilitao: vida e morte

Analisemos, pelo menos superficialmente, o esquema de assistncia tcnica 
montado em termos de So Paulo para a implantaSo de um centro de 
reabilitao de
natureza demonstrativa, padro de atendimento, voltado para a formao de 
pessoal
especializado.

No ano de 1956 o Governador Janio Quadros assinava decreto criando
na USP, o Instituto Nacional de Reabilitao, algum tempo depois 
transformado em Instituto de Reabilitao. Foi instalado na Clnica 
Ortopdica do Hospital das Clnicas
(1 Andar), sob a direSo forte do Professor Doutor Francisco Egydio 
Godoy Moreira.
Conforme instalado, j contando com alguns profissionais que haviam se 
beneficiado de
bolsas de estudos nos Estados Unidos, tornou-se o Instituto, o primeiro 
centro de reabilitao global do Brasil, um verdadeiro modelo para 
futuros empreendimentos. Havia
outros esforos no Brasil,no se pode negar, como aquele desenvolvido por 
um grupo dedicado e aprimorado de mdicos e assistentes sociais do antigo 
Instituto de Aposentadoria
e Penses dos Comercirios; havia tambm as tentativas de um grupo do 
Instituto de
Aposentadoria e Penses dos Industririos. Outros nomes de organizaes 
daquela poca
podem ser relembrados pelos imensos esforos feitos, sem contar com as 
vantagens de
assessoria de tcnicos internacionais, como a Associao Brasileira 
Beneficente de Reabilitao, o Instituto Baiano de Reabilitao, o 
Hospital Arapiara, a Associao de Assistncia  Criana Defeituosa, o 
Lar-Escola So Francisco, o Servio de Reabilitao do
SESI e outros mais. E j em 1958/59 a nascente Braslia, to nova e to 
surpreendente,
contava com um singular e modernssimo prdio muito bem instalado e 
equipado--mas
sem clientes--que era o Centro de Reabilitao Sarah Kubitschek.

Os tcnicos especializados da ONU, indicados para o projeto do Instituto
de Reabilitao da USP, enfatizavam continuamente em seus relatrios 
confidenciais s
suas organizaes de origem que aquele novo centro piloto de reabilitao 
deveria ser
um paradigma para toda a Amrica Latina--pretenso extremamente alta, 
tanto para as
Organizaes Internacionais que demonstravam pouco conhecer a realidade 
latino-americana, quanto para o prprio Brasil e em especial So Paulo, 
pois todas as autoridades
envolvidas haviam se embalado naquela suave e hipnotizante melodia e na 
utpica vanglria de estar montando um recurso para todo um continente, 
esquecendo-se de se voltar para uma realidade bem prpria e bem nossa--
nada, ou quase nada, estava sendo
feito em reabilitao pelos milhes de deficientes brasileiros.

Conforme foram chegando, os especialistas internacionais foram cobrindo 
as reas de consultoria geral e administrao de reabilitao, aspectos 
especiais de
reabilitao de cegos, aspectos profissionais de reabilitao, fabricao 
de prteses e treinamento de seu pessoal, organizao dos departamentos 
de fisioterapia e terapia ocupacional e montagem dos cursos especficos. 
Bolsas de estudos foram concedidas em nmero bem reduzido nas reas de 
enfermagem, medicina fsica, administrao de centros
e aspectos profissionais de reabilitao. Uma bolsa especial foi 
concedida na rea de locomoo de cegos, um dos aspectos enfatizados 
pelos consultores da OIT.

Aps diversos anos de funcionamento, contava o Instituto de Reabilitao 
com uma equipe especializada, tinha um bom nmero de leitos para casos 
que precisavam de internao, atendia um bom volume de clientela e dava 
cursos de preparao
dos tcnicos em fisioterapia, em terapia ocupacional e no campo de 
prteses e rteses.
Alm disso, o Instituto aceitava profissionais formados ou alunos dos 
ltimos anos para
estgios de especializao, organizava congressos, seminrios e dava uma 
expressiva cota
de contribuio ao desenvolvimento dos ideais da reabilitao em nosso 
meio. Os problemas internos, seja de ordem financeiro-administrativa, 
seja de ordem tcnica, eram discutidos, e os caminhos eram encontrados. 
Tratava-se de um centro de reabilitao que
era o real detentor de um papel de alta relevancia.

O sucesso dos centros da lugoslvia, do Egito e da India poder, sem
qualquer sombra de dvida, ser medido pelos frutos gerados nesses pases. 
Entre ns, porm, o final dessa promissora tentativa foi no mnimo 
lacnica: o Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo, 
apesar de contar com bons profissionais e de ter potencial para 
atendimento de clientela adulta diversificada, acabou fechando suas 
portas
ao final da dcada de sessenta, devido a problemas muito srios. Seus 
cursos de Terapia
Ocupacional e de Fisioterapia, acrescidos de um curso de Fonoaudiologia, 
foram absorvidos pela Faculdade de Medicina da USP. As instalaes 
ocupadas foram devolvidas integralmente ao Instituto de Ortopedia e 
Traumatologia do Hospital das Clnicasda Faculdade de Medicina da USP. 
Seus profissionais, por anos a fio sem ter clientela para
atender, sem verbas para atuar, dispersaram para outros servios do 
Hospital das Clnicas
ou pediram demisso.

E, o mais terrvel desse desfecho todo, as pessoas deficientes adultas 
ficaram sem um importante centro de reabilitao que procurava oferecer 
servios globais--alis,  poca de seu fechamento, era o nico centro 
fora da Previdncia Social
que atendia a adultos em So Paulo--lacuna essa at hoje no preenchida 
condignamente.

--A evoluo mais recente da reabilitao

Houve um incremento to grande a programas de reabilitao de pessoas
deficientes que seria tarefa impraticvel tentar relatar a histria da 
evoluo mais atualizada dessa tcnica no mundo todo ou mesmo entre ns. 
Injustias muito flagrantes poderiam ser cometidas com a citao de 
alguns nomes e a onnisso de outros. S na capital
paulista esto cadastradas hoje mais de setenta entidades privadas que 
trabalham em prol
das pessoas deficientes, seja em termos de abrigo, seja em termos de 
tratamento, seja
em termos de reabilitao.

Procuramos, atravs do reconhecimento das muitas atuaes das 
organizaes inter-governamentais filiadas ao Sistema Naes Unidas, 
compensar por essa lacuna. Faamos justia  Organizao das Naes 
Unidas,  incansvel Organizao Internacional do Trabalho,  inovadora 
Organizao Mundial de Sade,  batalhadora Organizao das Naes Unidas 
para Educao, Cincia e Cultura-UNESCO, e tambm ao to
prestigiada UNICEF em sua contnua luta pela infancia carente do mundo 
atribulado de
hoje. Essas organizaes desenvolvem um trabalho silencioso e continuo, e 
sempre annimo, que se tem mantido na sua meta original, ou seja, fazer 
com que a reabilitao e
servios afins cheguem a todos os recantos do mundo.

Mas faamos tambm justia quelas organizaes que no esto na familia 
organizacional da ONU, ou seja, as No-Governamentais voltadas para os 
problemas
dos cegos, dos veteranos, dos surdos, das pessoas deficientes de um modo 
geral. E no
nos esqueamos daquelas que, apesar de no serem destinadas 
especificamente a esses
propsitos, desenvolvem atividades que beneficiam as pessoas deficientes. 
E mais uma
vez para no fazer qualquer injustia, sem mencionar qualquer nome em 
especial, limitando-nos a prestar nossas homenagens  Conferencia das 
Organizaes Mundiais Interessadas nas Pessoas Deficientes, que as 
congrega desde o final da dcada de cinqenta.

Essas organizaes todas, sejam elas Inter-Governamentais ou No-
Governamentais, continuam seus trabalhos cada vez com maior nfase e grau 
mais elevado de
especializao, face a uma problemtica que agora todo o mundo 
desenvolvido ou em
desenvolvimento conhece, ou seja, a dos quase quinhentos milhes de 
pessoas portadoras de deficincias, das quais apenas menos de um tero 
tem possibilidade de receber
algum tipo de servio. Esse novo despertar para um problema to grave 
aconteceu tambm por iniciativa da Organizao das Naes Unidas, com o 
mais completo apoio das
entidades no-governamentais, atravs do Ano Internacional das Pessoas 
Deficientes.

CAPTULO STIMO
1981--ANO INTERNACIONAL DAS PESSOAS DEFICIENTES
327

Desde os primeiros dias do estabelecimento da Organizao das Naes
Unidas tem havido uma nfase especial a programas destinados a encontrar 
solues para toda a gama de problemas sociais srios causados pela 
guerra e pelo sub-desenvolvimento, conforme vimos anteriormente. E, como 
analisamos no captulo anterior, o problema de deficincias ocasionadas 
pelas atividades de guerra era to significativo que demandou a 
concentrao de esforos em programas de reabilitao das pessoas 
deficientes, quer tivessem elas sido envolvidas na guerra como 
integrantes das foras em conflito, quer como vtimas civis.

No entanto, os esforos internacionais dirigidos para esse objetivo 
acabaram sendo muito pouco eficazes devido  sua falta de coordenao--na 
verdade no
havia um plano mundial para dar cobertura a toda a magnitude de 
dificuldades. E descobriu-se rapidamente que, devido  dispersa--apesar 
de grande--quantidade de esforos na tentativa de remediar problemas de 
deficincias instaladas, pouca ateno estava
sendo devotada  preveno de outras deficincias--situao que perdurou 
por vrios
anos do ps-guerra.

Assim, hoje em dia no  muito de espantar que o mundo tenha um total
de aproximadamente 500 milhes de pessoas que sofrem com algum tipo de 
restrio sria  sua atuao, devido a deficincias de naturezas 
variadas. Percebemos hoje que as
guerras, apesar de serem uma das causadoras mais srias de deficincias, 
certamente que
no so nem jamais foram as nicas. As sociedades continuam, talvez por 
falta de ateno ou por mera negligncia, a produzir as pessoas com 
deficincias fsicas e mentais, e
aquelas que sofrem com os bloqueios de problemas sensoriais, organicos, 
comportamentais e sociais dos mais srios.

Aes preventivas so imperativamente importantes--talvez sejam mesmo to 
importantes quanto a prpria reabilitao. E uma importante razo para 
dar
nfase  preveno de males  evitar o desperdcio de recursos humanos, 
que so um
componente bsico de qualquer processo de desenvolvimento, somados que 
devem ser
aos recursos naturais e financeiros.

--As declaraes de direitos e sua importancia

Com esse tipo de raciocnio dominante, a Assemblia Geral da ONU tem
mantido muitos esforos para dar cobertura a esse problema social de alto 
significado,
tendo sempre sua ateno voltada para a grande variedade dos demais 
problemas de desenvolvimento. Assim  que no ano de 1971 a Assemblia 
Geral proclamou a aprovao
de uma resoluo de alto significado a respeito das pessoas deficientes: 
a Declarao dos
Direitos das Pessoas com Retardo Mental. No ano de 1975, por sua vez, 
aprovou a Declarao dos Direitos das Pessoas Deficientes.

Este documento internacional  fundamental e o leitor no poder em
absoluto deixar de conhec-lo pelo menos em seus postulados principais 
que so os
seguintes:
O termo pessoas deficientes refere-se a qualquer pessoa incapaz de 
assegurar por
si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual 
ou social
normal, em decorrncia de uma deficiencia, congnita ou no, em suas 
capacidades fsicas ou mentais.

1. As pessoas deficientes gozaro de todos os direitos estabelecidos a 
seguir nesta Declarao. Estes direitos sero garantidos a todas as 
pessoas deficientes sem nenhuma
exceo e sem qualquer distino ou discriminao com base em raa, cor, 
sexo, lingua, religio, opinies polticas ou outras, origem social ou 
nacional, estado de sade, nascimento ou qualquer outra situao que diga 
respeito ao prprio deficiente
ou e sua famlia.

2. As pessoas deficientes tm o direito inerente ao respeito por sua 
dignidade humana.

3. As pessoas deficientes, qualquer que seja a origem, natureza e 
gravidade de suas deficiencias, tm os mesmos direitos fundamentais que 
seus concidados da mesma
idade, o que implica antes de tudo, no direito de desfrutar de uma vida 
decente, to
normal e plena quanto possvel.

4. As pessoas deficientes tm os mesmos direitos civis e politicos que 
outros seres humanos: o pargrafo stimo da Declarao de Direitos das 
Pessoas com Retardo Mental aplica-se a qualquer possvel limitao ou 
supresso desses direitos para as pessoas mentalmente deficientes.

5. As pessoas deficientes tm direito a medidas que visem capacit-las a 
tornarem-se
to auto-confiantes quanto possivel.

6. As pessoas deficientes tm direito a tratamento mdico, psicolgico e 
funcional, incluindo-se neles os aparelhos de prteses e rteses, a 
reabilitao mdica e social,
educao, treinamento profissional e reabilitao, assistncia, 
aconselhamento, servios de colocao e outros servios que lhes 
possibilitem o mximo desenvolvimento de sua capacidade e habilidades e 
que acelerem o processo de sua integrao ou
reintegrao social.

7. As pessoas deficientes tm direito  segurana econmica e social e a 
um nvel de
vida decente e, de acordo com suas capacidades, a obter e manter um 
emprego ou
a desenvolver atividades teis, produtivas e remuneradas, e a participar 
de sindicatos.

8. As pessoas deficientes tm direito de ter suas necessidades especiais 
levadas em considerao em todos os estgios de planejamento econmico e 
social.

9. As pessoas deficientes tm direito de viver com suas famlias ou com 
pais adotivos e
de participar de todas as atividades sociais, criativas e recreativas. 
Nenhuma pessoa
deficiente ser submetida em sua residncia, a tratamento diferencial, 
alm daquele
requerido por sua condio ou por sua necessidade de recuperao. Se a 
permanncia de uma pessoa deficiente em um estabelecimento especializado 
for indispensvel, o ambiente e as condies de vida nesse local devem 
ser, tanto quanto possivel,
prximos da vida normal de pessoas da sua idade.
10. As pessoas deficientes devero ser protegidas contra toda explorao, 
todos os regulamentos e tratamento de natureza discriminatria, abusiva 
ou degradante.

11. As pessoas deficientes devero poder valer-se de assistncia legal 
qualificada quando
tal assistncia for indispensvel para a proteo de suas pessoas e 
propriedade. Se forem instituidas medidas judiciais contra elas, o 
procedimento legal aplicado dever
levar em considerao sua condio fsica e mental.

12. As organizaes de pessoas deficientes podero ser consultadas com 
vantagem em
todos os assuntos referentes aos direitos de pessoas deficientes.

13. As pessoas deficientes, suas familias e comunidades devero ser 
plenamente informadas por todos os meios apropriados sobre os direitos 
contidos nesta Declarao.

Esta Resoluo foi aprovada pela Assemblia Geral da ONU, em sua 
trigsima sesso, no dia 9 de dezembro de 1975, levando o nmero 
XXX/3447.

--O significado de um "Ano Internacional"

Um ano depois, no dia 16 de dezembro de 1976, foi aprovada a Resoluo n 
31/123, proclamando o ano de 1981 como o Ano Internacional para as 
Pessoas
Deficientes (International Year for Disabled Persons). Estava muito claro 
o propsito
dessa ltima declarao universalmente conhecida: dar condies para a 
implementao
das resolues anteriores, atravs da conscientizao do mundo todo 
quanto  problemtica das pessoas portadoras de deficincias.

Muita gente que ouve falar de Anos Internacionais, questiona-os sob um
angulo apenas: fala-se muito daquele assunto durante um ano todo e depois 
tudo cai no
esquecimento e quase nada de concreto  feito. Ser, entretanto, justo 
lembrarmo-nos
que os princpios que lastreiam os chamados "Anos Internacionais" podem 
ser resumidos num nico: Que a comunidade internacional tome conhecimento 
da existncia de
um certo problema que afeta segmentos da populao, procurando solues 
atravs de
consultas internacionais, ao conjunta e cooperao. Neste caso 
particular do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, existe, de fato, 
um problema srio para a comunidade das naes concentrar toda a ateno 
de que puder dispor, dando-lhe a possivel prioridade durante um ano todo. 
E o problema que estamos analisando , de fato, o intolervel problema de 
"meio bilho de pessoas" --sim, estamos falando de "meio bilho
de pessoas"--que se v  margem de tudo e no desfruta de seus direitos.

Caso, atravs de um Ano Internacional, a ONU consiga obter um nvel de
conscientizao internacional bom, haver pelo menos o inicio de uma 
mudana gradativa nas condies de vida dessas pessoas marginalizadas 
devido  deficincia. As necessidades so to grandes e to 
desproporcionais aos recursos disponveis que a mudana jamais poderia 
ocorrer com a mera soma de esforos individualizados de cada pas, ou das
instituies oficiais ou privadas. Essa mudana requerer a interao de 
todos esses esforSos, privados e oficiais, nacionais e internacionais. 
Apenas uma ao de carter nacional e internacional, regional e mesmo 
local, bem coordenada, poder garantir qualquer
sucesso aos ideais do Ano Internacional das Pessoas Deficientes.
--O Ano Internacional das Pessoas Deficientes: trabalhos iniciais

Aprovada a idia do Ano Internacional, era necessrio que a prpria ONU
preparasse um plano de ao mundial de atuao. Para tanto, um Comit 
Consultivo foi
criado pela Assemblia Geral, composto de representantes de vinte e trs 
pases, dentre
os quais o Brasil no estava includo.

As primeiras demonstraes de apoio  proposio do Ano Internacional
das Pessoas Deficientes comearam logo a chegar  ONU, como nos  
relatado pelo Boletim n 1/79 sobre o assunto. Uma das primeiras veio da 
Organizao de Unidade Africana que j aprovara uma resoluo de apoio ao 
Ano Internacional, em fevereiro de 1978,
indicando a possibilidade de organizar um Seminrio a nivel regional para 
encontrar
meios destinados a implementar os objetivos do Ano. O Centro Europeu para 
o Treinamento e para a Pesquisa em Bem-Estar Social, a Organizao 
Internacional de Padronizao, o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos 
Cegos e a Federao Mundial dos Veteranos indicaram seu apoio irrestrito.

O Comit Consultivo apresentou seu relatrio ao Terceiro Comit da 
Assemblia Geral da ONU em 1979 (34 Sesso). Acabou tendo a satisfao 
de ver o substancioso documento inserido no prprio Relatrio do 
Secretrio-Geral da Organizao.

--O contedo bsico das idias consensuais para um plano de ao mundial

Desse relatrio decisivo do senhor Secretrio-Geral Kurt Waldheim  que
muito daquilo que tem sido citado como bsico, seja verbalmente seja por 
escrito, a respeito do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, est 
inserido. E a maioria de seu
contedo  de fato consideravelmente importante. Vejamos alguns trechos:

"16. Diversos membros do Comit enfatizaram a necessidade de levar em 
conta as necessidades e os problemas das pessoas deficientes no processo 
de planejamento do desenvolvimento nacional, Pessoas deficientes devem 
ter o mesmo direito que todos os
outros cidados de se beneficiar dos servios postos  disposio pelo 
Estado e pela
sociedade em geral a seus cidados. Pessoas deficientes devem ser 
consideradas como cidados comuns com problemas especiais em vez de uma 
categoria especial de pessoas
com necessidades diferentes daquelas de outros cidados. Participao 
plena deve ser
entendida como participao em todos os aspectos da vida comunitria: nas 
atividades
polticas, econmicas, sociais, culturais e esportivas. Medidas que forem 
necessrias para tornar essa participao possivel devem ser adotadas e 
colocadas em prtica. Foi reconhecido que os obstculos mais 
significativos  participao plena eram as barreiras
fsicas, os preconceitos e as atitudes discriminatrias, e que devem ser 
desenvolvidas
atividades para remover essas barreiras. Foi tambm reconhecido que a 
sociedade, ao
desenvolver seus ambientes modernos, tendia a criar barreiras novas e 
adicionais, a menos que as necessidades de pessoas deficientes fossem 
levadas em considerao nos estgios de planejamento.
17. Alguns membros afirmaram que estava ocorrendo uma dramtica mudana 
nas atitudes das prprias pessoas deficientes. Elas estavam assumindo 
cada vez mais o papel de um grupo consumidor que tinha seus prprios 
pontos de vista quanto  forma como as melhorias de suas condies de 
vida deveria ser efetivada e desejavam que esses
pontos de vista fossem conhecidos daqueles que tomavam decises. Alguns 
membros
sugeriram que essa tendncia deveria ser encorajada, e que os 
representantes de pessoas
deficientes deveriam desfrutar de plena participao no apenas no 
planejamento de
programas a elas relacionados, mas tambm no planejamento do 
desenvolvimento social e econmico da sociedade em geral. Foi tambm 
sugerido que as organizaes internacionais deveriam dar exemplo nesse 
sentido".

"22.Com relao ao programa de ao a longo prazo, alguns representantes 
enfatizaram
que o Ano deveria marcar o inicio de um esforo internacional nesse campo 
e que o
programa deveria ser preparado pelo Comit baseado nas sugestes dos 
pases-membros,
das agencias especializadas da ONU e das organizaes no-governamentais 
prprias, no
curso de 1980 e 1981. Poucos problemas poderiam vir a ser resolvidos 
durante o Ano e
era tambm necessrio considerar medidas baseadas em prazos mais longos 
de tempo, para
assegurar ao mximo possvel a concretizao dos objetivos do Ano em 
todos os pases".

O relatrio do Comit Consultivo, aprovado pela Assemblia Geral ao ser 
apresentado como parte integrante do prprio relatrio do Secretrio-
Geral da ONU, prossegue
enfatizando a necessidade de medidas preventivas de males incapacitantes, 
bem como de
envolvimento das prprias pessoas deficientes para a garantia de seus 
direitos. Havia, no
entanto, membros desse mesmo Comit que queriam saber de resultados 
prticos, de programas objetivos e de medidas exequveis."

"24. Diversos membros expressaram sua preferncia por programas prticos 
para o Ano
Internacional, que devero incluir o uso de tecnologia apropriada para a 
reabilitao
do deficiente, a concesso de bolsas de estudos para especializao, o 
desenvolvimento
de um banco de equipamentos e outros programas que possam trazer 
beneficios diretos
para as pessoas deficientes e assim tornar a observancia do Ano mais 
significativa.

25. Alguns membros indicaram que pessoas deficientes, de fato, formavam 
um grupo
bastante variado, dentro do qual havia pessoas com deficincias 
diferentes e que havia, em conseqncia, grandes diferenas nas 
necessidades e nos requisitos para servios.
Foi sugerido que o programa para o Ano dever levar em conta diferentes 
deficincias e
prover meios para assegurar a implantao dos objetivos do Ano para todas 
as pessoas
deficientes".

"29. O representante da Organizao Mundial de Sade referiu-se 
particularmente a certos levantamentos recentes indicadores de que, 
presentemente, apenas uma pequena
porcentagem de pessoas deficientes nos pases em desenvolvimento recebiam 
os servios
de que necessitavam; o sucesso dos esforos para melhorar as condies de 
vida da maioria das pessoas deficientes da zona rural dos pases em 
desenvolvimento depende da descoberta de novos meios para estender a 
prestao de servios bsicos necessrios, a nivel
de comunidade, meios esses que devem estar em consonancia com os recursos 
j colocados  disposio para tal finalidade nos pases em 
desenvolvimento, ou que podem ser
disponibilizados para tanto".

--As recomendaes para atividades a nivel nacional

Depois de discutir assuntos relacionados  cobertura de secretariado para
o Ano Internacional, e de analisar algumas proposies que no chegaram a 
ser aprovadas,
o documento apresenta suas Recomendaes que, devido  sua relevancia, 
transcrevemos.

"III. RECOMENDAES
A--Introduo--Princpios bsicos adotados para as recomendaes

57. A finalidade do Ano Internacional das Pessoas Deficientes  promover 
a concretizao de objetivos de "participao plena" de pessoas 
portadoras de deficincias na vida social e no desenvolvimento das 
sociedades nas quais vivem, "igualdade" significando
condies de vida iguais quelas de outros cidados na sua sociedade e 
uma participao
igual na melhoria das condies de vida que resultam do desenvolvimento 
social e econmico. Esses conceitos so aplicveis da mesma maneira e com 
a mesma urgencia em todos os pases, independentemente de seu nivel de 
desenvolvimento.

58. Problemas de pessoas portadoras de deficiencias devero ser 
apreendidos em sua totalidade e levados em considerao em todos os 
aspectos de desenvolvimento. Todavia, deve-se notar que, em vista dos 
muitos problemas de alta prioridade e de meios e recursos insuficientes, 
os pases em desenvolvimento tm-se visto impossibilitados de alocar
os necessrios recursos para resolver os problemas de pessoas 
deficientes".

"B--Atividades a nivel nacional

68. A Comisso Consultiva recomenda que os Estados-Membros sejam 
convidados, em
conformidade com seus direitos e responsabilidades, a determinar com 
plena liberdade seus objetivos de desenvolvimento e prioridades, e,  luz 
de suas prprias circunstancias, considerar a adoo das seguintes 
medidas para a implementao e verificao
dos objetivos do Ano Internacional, conforme estabelecido pela Assemblia 
Geral em
sua resoluo n .31/123. Os Estados-Membros so convidados a:

a) Fazer uma proclamao no inicio do ano (1981 ) contendo as medidas 
prioritrias a
serem implantadas para a plena participao de pessoas portadoras de 
deficincias na
sociedade.

b) Estabelecer como medida preparatria, Comisses Nacionais ou Grupos 
semelhantes
para o Ano, cujo nivel de representao dever ser de tal natureza que 
possa assegurar
a implementao de suas metas, com a finalidade de planejar, coordenar e 
executar,
ou encorajar a execuo de atividades de apoio aos objetivos do Ano 
Internacional a
nvel local e nacional; dentre os que participam de Comisses devero 
estar includos
representantes de Ministrios, organizaes governamentais e organizaes 
no-governamentais e grupos voluntrios, inclusive aqueles que 
representam a juventude e a comunidade econmica. A participao de 
representante de organizaes de ou para
pessoas portadoras de deficincias em tais Comisses dever ser 
considerada como
prioritria .

c) Preparar, ao final de 1981, planos nacionais para o prosseguimento dos 
objetivos do
Ano, tendo em vista a reviso e a avaliao de resultados do ano, 
previstos para 1991.

d) Promover campanhas de divulgao para disseminar informaes sobre os 
objetivos
do Ano Internacional e esclarecer o pblico, aumentando seu conhecimento 
quanto
aos direitos das pessoas deficientes de participar e de construir para a 
vida econmica,
social e politica de sua sociedade, elevando tambm a consciencia da 
comunidade para o potencial das pessoas portadoras de deficincias de 
assim o fazer.

e) Integrar os servios destinados a pessoas portadoras de deficiencias 
nos programas de
desenvolvimento geral da comunidade e adotar o conceito de reabilitao 
integral em
todos os servios de sade, de educao e de servios sociais.

f) Treinar pessoal profissional e tcnico nos nmeros e nos niveis que 
garantam a implementao de programas nacionais relacionados a todos os 
aspectos da reabilitao integral, atravs, por exemplo, da incluso no 
curriculo das escolas, universidades e
outras instituies educacionais, do conceito de reabilitao integral.

g) Prestar ateno especial  coordenao e fornecimento de servios 
governamentais no
que diz respeito a pessoas portadoras de deficincias, particularmente 
nas reas de
preveno, cuidados de sade, educao, habilitao e reabilitao social 
e profissional.

h) Estabelecer mecanismos apropriados governamentais para coordenao de 
toda a poltica relativa s pessoas portadoras de deficiencias, 
particularmente nas reas de preveno, de cuidados com a sade, de 
educao, de habilitao e de reabilitao social
e profissional.

i) Rever a legislao existente para eliminar possiveis prticas 
discriminatrias com relao  educao e ao emprego de pessoas 
deficientes.

k) Tornar o planejamento para desenvolvimento e programao de preveno 
e servios
de reabilitao uma parte integrante no processo de planejamento 
nacional.

l) Concretizar programas existentes relativos a medidas profilticas de 
molstias, como
importante passo na preveno de deficiencias.

m) Desenvolver todo o esforo para analisar com seriedade a incidncia de 
deficiencias,
por exemplo, por pesquisas preliminares em residncias, a fim de 
capacitar as organizaes que determinam a politica de atuao a conhecer 
a natureza e a extenso das
necessidades que os servios devem atender. Os rgos de planejamento 
economico
e social devero estar envolvidos num nivel mais elevado em questes 
relacionadas a
deficincias, prestao de servios de reabilitao, e a estimulao do 
treinamento de
especialistas de planejamento neste campo.

m) Rever seus servios e beneficios para assegurar que ajudem e encorajem 
as pessoas
portadoras de deficincias a permanecer e/ou a tornar-se uma parte 
integrante da sociedade onde vivem, em vez de provocar segregaao e 
isolamento.

n) Quando do estabelecimento de politica para as pessoas portadoras de 
deficincias, dar
nfase ao desenvolvimento de suas habilidades e promover informao para 
o deficiente a respeito de servios e beneficios que esto ao seu dispor.

o) Iniciar investigaes quanto a restries discriminatrias que limitam 
a liberdade da
pessoa deficiente em participar plenamente da sociedade, e tomar as 
medidas que forem necessrias para remediar a situao.

p) Promover condies adequadas, inclusive acesso sem obstculos a 
instalaes, para a
plena participao de pessoas portadoras de problemas fsicos em 
educao, trabalho,
esportes e outras formas de recreao.

q) Manter-se alerta para a necessidade de introduzir legislao que 
assegure que todos os
edificios novos e edificios nos quais adaptaes de grande monta estejam 
sendo iniciadas, garantam acesso pleno para pessoas com deficincia, e 
reconhecer formalmente que pessoas deficientes tenham o mesmo direito de 
acesso a todos os prdios pblicos e sociais das demais pessoas. Isso 
deveria incluir tambm medidas para criar e
aumentar o acesso  informao pblica para pessoas surdas e aquelas que 
tm deficincia auditiva e visual, atravs, por exemplo, do aumento de 
literatura gravada em
cassetes ou transcrio em braille e com a proviso de equipamentos 
auxiliares de
audio em edificios pblicos e servios de intrpretes para surdos.

r) Com relao  habitao para as pessoas portadoras de deficincias, 
evitar programas
de reabilitao segregados que provocam um ambiente semelhante ao da vida 
institucionalizada e, em pases onde instituies esto sendo reduzidas, 
transferir recursos
de cuidados institucionais para cuidados relativos  integrao e 
assegurar apoio adequado para pessoas portadoras de deficiencias, em casa 
e junto  famlia.

s) Rever e quando necessrio revitalizar, programas destinados a prevenir 
a ocorrncia
de deficincias.

t) Promover a sade no contexto de "cuidados bsicos com sade" para a 
preveno de
deficiencias, particularmente aquelas que so de origem pr-natal e 
natal, ou que
ocorrem na primeira infancia, pela adoo de atividades destinadas a 
melhorar os programas de reabilitao, nutrio, servios de sade 
maternal e infantil, assistncia adequada durante a gestao e durante o 
parto, controle da doena microbacteriana e o
controle de doenas crnicas, tanto transmissiveis como no-
transmissiveis.

u) Dar nfase s normas de segurana no trabalho como medida preventiva, 
e adaptar
sua aplicao  pessoa portadora de deficincia no trabalho s 
necessidades individuais.
v) Tornar o ambiente de trabalho acessivel  pessoa com mobilidade 
restrita, quelas
com problema de orientao e quelas com problemas alrgicos. Ateno 
devida dever tambm ser dada a fatores psicolgicos no ambiente de 
trabalho e  influncia
das condies de trabalho sobre a sade mental da pessoa.

w) Possibilitar a iseno de taxas alfandegrias e de taxas sobre 
equipamentos, maquinaria, adaptao e outros materiais usados por e para 
benefcio de pessoas deficientes,
devido s suas incapacidades, e prover tambm a necessria licena de 
importao e
alocaes de cambio para moeda estrangeira, quando aplicveis.

x) Assegurar, conforme for recomendvel, que organizaes no-
governamentais estejam
adequadamente envolvidas napreparao e implantao de programas 
nacionais no
campo de servios sociais para pessoas deficientes.

y) Dar alta prioridade s atividades iniciadas por pessoas deficientes e 
encorajar o estabelecimento de organizaes de pessoas deficientes.

z) Indicar, se possivel, representantes de pessoas com deficincia, para 
delegaoes que
participem de encontros internacionais, particularmente quando os 
assuntos se relacionem a elas e ao Ano Internacional.
aa) Proclamar o Dia Nacional das Pessoas Deficientes".

(Extraido do Documento n. A/34/158, de 13 de junho de 1979 
"International Year
for Disabled Persons--Report of the Secretary-General"--United Nations, 
New York).
--O Ano Internacional das Pessoas Deficintes a nivel de Brasil

Foi atravs de uma carta datada de 25 de outubro de 1979 que Esko 
Kosunen, Oficial Encarregado do Ano Internacional para as Pessoas 
Deficientes e Chefe da
Unidade de Reabilitao da ONU, remeteu-nos longos comentrios e material 
farto e relevante quanto a 1981, at ento conhecido como o Ano 
Internacional para as Pessoas
Deficientes. Trabalhramos um ano e meio juntos na ONU, em New York, no 
final de
nosso periodo de cinco anos de atuao na Organizao, e sabamos muito 
bem que a
preocupao dele era que algum, fora de ambito oficial federal, pudesse 
dar um primeiro impulso a nivel de Brasil, para que o evento 
internacional surtisse efeitos em nosso
meio. Por remessa postal separada, enviou-nos tambm o seguinte material 
inicial, depois
complementado por outros mais atualizados:

-- Resoluo da Assemblia Geral da ONU, n 31/123, sobre o Ano 
Internacional para
as Pessoas Deficientes, datada de 2 de fevereiro de 1977;

-- Relatrio do Secretrio-Geral da ONU, datado de 11 de novembro de 
1977, sobre o
Ano Internacional;

-- Resoluo da Assemblia Geral da ONU, n. 32/133, de 28 de fevereiro 
de 1978, tambm sobre o Ano Internacional;

Relatrio evolutivo do Secretrio-Geral da ONU sobre Preveno de 
Deficincias e
Reabilitao do Deficiente, datado de 19 de fevereiro de 1978;
-- Relatrio do Secretrio-Geral da ONU juntando a minuta do Programa 
Internacional
para os anos de 1980/81, para considerao da Assemblia Geral;

-- Anexo II do Relatrio sobre a Situao Social do Mundo, contendo 
medidas relacionadas  Implementao dos Direitos das Pessoas 
Deficientes;

-- Circular n. 3/79, de comunicao sobre o ano Internacional das 
Pessoas Deficientes

-- Relatrio do Secretrio-Geral da ONU  Assemblia Geral, adotando o 
relatrio da
Comisso Consultiva, e apresentando-o na ntegra para aprovao contendo 
todas as
proposies sobre o Ano Internacional das Pessoas Deficientes 
(transcritas em parte
neste capitulo).

De posse dessa documentao, tomamos providncias pessoais para traduo 
dos trechos mais relevantes para o portugus, com o intuito de iniciar 
uma serie
de discusses sobre seu contedo, e de chegar ao final do ano de 1980 com 
algumas
idias bem estabelecidas.

A primeira oportunidade surgiu em maio de 1980 quando um incipiente 
movimento de o Paulo, at ento conhecido como "Coalizo de Pessoas 
Deficientes" e hoje conhecido como "Movimento pelos Direitos das Pessoas 
Deficientes" reuniu-se numa manh de sbado e discutiu as "proposies a 
nivel nacional", contidas no
documento. Os quase trinta participantes da reunio distribuiram-se em 
quatro grupos
de trabalho e discutiram as vinte e sete proposies, elaborando 
propostas novas para
aplicao local daquilo que, no documento original, parecia mais uma 
colcha de retalhos
de idias.

A segunda oportunidade para estudar essas proposies surgiu durante o
Segundo Congresso Brasileiro de Reintegrao Social, organizado em o 
Paulo, no ms
de julho de 1980. O tema "Ano Internacional das Pessoas Deficientes" foi 
incluido no
programa para debates durante uma tarde toda de trabalhos. O congresso 
aprovou uma
srie de concluses dos grupos de trabalho, bem mais profundas e mais 
incisivas do que
as primeiras, devido  heterogeneidade dos grupos,  diversidade de sua 
composio, ao
acervo de experincias de seus debatedores e tambm devido ao fato de 
estar contando
com os resultados das primeiras discusses durante o ms de maio, o que 
muito ajudou
os membros integrantes dos grupos de trabalho.

Tambm no inicio do ms de julho de 1980 surgiu em o Paulo um grupo 
conhecido como "de apoio e estimulo ao Ano Internacional das Pessoas 
Deficientes". Logo aps sua primeira reunio, convocada por Dona Dorina 
de Gouva Nowill,
foi tomada a deliberao de remeter ao Senhor Presidente da Repblica 
ofcio co-assinado por entidades participantes, para que ele desse ao Ano 
Internacional o nome correto,
ao assinar o decreto criando a Comisso Nacional ao mesmo destinada. 
Ouvia-se falar de
tradues inaceitveis, tais como "Ano Internacional do Incapacitado", 
"Ano Internacional do Excepcional" e outros nomes que estavam sendo 
fortemente tentados. A mensagem, juntamente com outras de locais e 
iniciativas diferentes, parece que chegou ao
destino, pois em 16 de julho de 1980 o Presidente da Repblica assinava 
decreto criando a Comisso Nacional do Ano Internacional das Pessoas 
Deficientes, vinculando-a ao
Ministrio da Educao e Cultura. Seus membros foram nomeados por 
Portarias do
Senhor Ministro da Educao em 28 de agosto e 17 de setembro de 1980.

--A Comisso do Estado de o Paulo e seu relatrio

A Comisso Estadual de o Paulo foi criada apenas no dia 5 de maro de
1981, uma vez que a Secretaria de Estado da Casa Civil do Governador 
ficara aguardando orientaes da Comisso Nacional at ento. Foi criada 
com o nome de Comisso Estadual de Apoio e Estimulo ao Desenvolvimento do 
Ano Internacional das Pessoas Deficientes, por meio de um decreto datado 
de 5 de maro de 1981 e teve em sua presidncia o prprio Secretrio-
Chefe da Casa Civil do Governador. Recebeu o prazo de sessenta dias para 
apresentar seu relatrio final. Prazo cumprido, o relatrio foi impresso 
e
amplamente distribuido para informao de todos os interessados no 
assunto, alm de
servir de base para discusso de seus temas nos mais variados niveis.

Trata-se de um documento "que representa um consenso de opinies de
todos os seus componentes, analisa em cores adequadas a extenso dos 
problemas das
deficincias entre ns e apresenta sugestes de naturezas varias, no s 
para 1981, mas
para toda a Dcada de Oitenta, conforme indicado em suas consideraes", 
segundo
nota introdutria do documento em questo.

- As propostas para ao em o Paulo

A Comisso Estadual de Apoio e Estmulo ao Desenvolvimento do Ano
Internacional das Pessoas Deficientes inseriu em seu relatorio uma srie 
de propostas para ao, a curto, mdio e longo prazos. A primeira dessas 
proposies dirige-se ao Governo Estadual e a todos os Governos 
Municipais do Estado, indicando pontos bsicos para o estabelecimento de 
uma politica de ao para toda a Dcada de Oitenta. Assim, o
relatrio sugere medidas quanto  preveno de males incapacitantes e  
reduo das
conseqencias das deficincias j instaladas; sistemas municipais simples 
para a deteco
precoce das deficincias, com o propsito de atender, tratar e 
reabilitar, levantando dados e adequando programas e aes futuras; 
acesso de pessoas deficientes de todas as
idades  educao e  profissionalizao; pesquisas das mais variadas 
naturezas nessas
reas; reviso de normas e padres de funcionamento das entidades de 
atendimento; reviso tanto do Cdigo de Obras quanto daquele relacionado 
a Normas Tcnicas, e muitos outros pontos de relevancia.

Nesse importante documento a Comisso Estadual defende tambm a
criaao de um rgo de coordenao, a fim de verificar que a politica de 
ao seja efetivada, assumindo a responsabilidade de planejar, 
incrementar e coordenar as atividades
de atendimento s pessoas deficientes e seus familiares. Segundo os 
postulados da Comisso Estadual, esse rgo dever ser de carter inter-
secretarial, contando com representaao no s das Secretarias de Estado 
envolvidas, mas tambm de entidades de/para
pessoas deficientes.
Indica tambm a Comisso Estadual a necessidade da criao de um Fundo 
Especial de Desenvolvimento, com dotao oramentria prpria para 
subsidiar programas reabilitacionais. Esse Fundo, considerado um programa 
coordenado, s poder
ser gerido pelo rgo de Coordenao j indicado.

Logo a seguir a Comisso Estadual entra em pormenores quanto a outros
objetivos, tais como Educao, Preveno, Reabilitao Global, Trabalho, 
Conscientizao, Acesso e Eliminao de Barreiras, Materiais e 
Equipamentos, e Legislao.

Documento indito em termos de Brasil, o relatrio da Comisso Estadual 
de o Paulo foi amplamente distribuido para todas as Comisses 
Estaduais/Territoriais ainda em setembro de 1981, com o intuito de dar 
subsdios e de ajudar na discusso dos problemas.

--As realizaes da Secretaria Executiva da Comisso Estadual

A Comisso Estadual para o Ano Internacional das Pessoas Deficientes
que foi organizada em o Paulo entregou seu relatrio dentro do prazo 
estabelecido, e
no ato de sua entrega ela encerrou as suas atividades. Decidiu, 
entretanto, seu Presidente, manter em atuao sua Secretaria Executiva, 
cabendo a ela prosseguir os entendimentos at ento mantidos e assumir a 
responsabilidade de continuar todos os esforos viveis para o objetivo 
fundamental de levar a uma conscientizao mais completa possvel
quanto  problemtica das pessoas deficientes.

Do ms de julho at setembro foram distribudas mais de quinze mil c
pias do Relatrio da Comisso Estadual, tendo cada Comisso Estadual ou 
Territorial
recebido cinqenta cpias para seu uso e como subsdio da Comisso 
Paulista aos esforos que estavam sendo feitos a nivel de cada Unidade 
Federada.

Alm disso, dentro do mesmo periodo de tempo, foram remetidas cpias
para vrios organismos internacionais, tais como a ONU e seu escritrio 
central para o
A.I.P.D., em Viena, a Organizao Mundial de Sade, a Organizao 
Internacional do
Trabalho, a Organizao Pan-Americana de Sade, a UNESCO, o UNICEF, a 
Rehabilitation International, o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos 
Cegos, a Federao Mundial dos Veteranos e diversas outras organizaes 
no-governamentais de carter internacional, envolvidas no assunto.

Reaes as mais diversas ocorreram a esse documento bsico, trabalhado
por So Paulo. A Organizao das Naes Unidas solicitou cpias 
adicionais, pois pretendia estudar seu contedo com cuidado. A 
Rehabilitation International, por meio de
uma correspondencia atenciosa, chegou a se expressar da seguinte forma, 
por meio de
seu Secretrio-Geral, Norman Acton:

"Prezado Otto,

Com a maior sinceridade quero que me desculpe porque at agora no me foi 
possvel responder pessoalmente  sua carta de 11 de agosto e todas as 
informaes que mandou
com ela. Este foi um exemplo extremamente interessante dos tipos de 
coisas positivas
que aconteceram durante o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, e eu 
sei que voc
deve ter uma sensao de grande satisfao porque a atuao de vocs, em 
o Paulo, foi
muito maior e mais efetiva do que foi o caso ao redor da maior parte do 
mundo".

--Dois Encontros Regionais discutem as propostas da Comisso Estadual

O Relatrio da Comisso Estadual foi discutido em dois Encontros 
Regionais organizados especificamente para esse fim:

I Seminrio Regional de Habilitao e Reabilitao das Pessoas 
Deficientes, organizado
pela Comisso Municipal de Ourinhos com a estreita colaborao da 
Comisso Estadual;

Encontro Regional sobre Integrao das Pessoas Deficientes, organizado 
pela Comisso
Municipal de Bauru em colaborao com a Comisso Estadual.

De ambos os Encontros concluses interessantes foram encaminhadas 
Secretaria Executiva da Comisso Estadual, contendo no s uma anlise do 
relatrio
em discusso, mas tambm proposies para sua implementao a nvel local 
e/ou regional .

- Conscientizao: a meta para 1981

Mantendo-se na linha de garantir como prioridade para o Ano Internacional 
das Pessoas Deficientes o objetivo de conscientizao, a Secretaria 
Executiva traduziu e conseguiu que fossem impressas 50.000 cpias da 
"Carta para a Dcada de Oitenta--Declarao", das quais 40.000 foram 
distribudas at dezembro de 1981, tanto para Comisses Estaduais e 
Territoriais,  base de 500 cpias cada, como tambm para
entidades que congregam pessoas deficientes, seminrios, palestras, 
faculdades e outros
pontos. Um volume de 500 cpias foi tambm remetido para o Secretariado 
Nacional de
Reabilitao de Portugal.

A Secretaria Executiva da Comisso Estadual tambm coordenou a gravao 
de quinze mesas redondas na Rdio Cultura de o Paulo, para transmisso 
em ondas curtas e longas, com a ampla participao de pessoas deficientes 
discutindo informalmente temas de alta relevancia, como a necessidade de 
conscientizao, a realidade de
trabalho, a vida afetiva, as barreiras atitudinais e arquitetnicas e 
vrios outros. Recebido o conjunto de gravaes, providenciou tambm a 
Secretaria Executiva sua transcrio para o papel, com o intuito de 
futuramente preparar documento para impresso e
distribuio. Esses conjuntos de gravaes tm sido usados em Centros de 
Reabilitao
e tm sido muito importanteS para a discusso dos problemas de pessoas 
deficientes nos
mais variados ambientes.

Alm disso, manteve tambm a Secretaria Executiva compromissos de
palestras e conferncias sobre o Ano Internacional em vrios pontos do 
territrio nacional .

Atuao das mais marcantes, entretanto, foi a pormenorizao do projeto 
de rgo de coordenao para sua apresentao aos rgos competentes, e o 
trabalho
de elaborao dos projetos de reabilitao a nvel comunitrio, com o uso 
de tecnologia
apropriada, e de cooperao e assistncia tcnica em reabilitao. Ambos 
os projetos foram preparados para serem colocados em prtica to logo o 
governo paulista se definisse
quanto ao rgo coordenador, sem o qual pouca coisa poderia ser feita 
ordenadamente.

Assim, muito embora sem qualquer divulgao externa, a Secretaria 
Executiva da Comisso Estadual do A.I.P.D. em o Paulo demonstrou que 
muito pode ser
feito sem alarde, com o lanamento de sementes que so de fundamental 
importancia no
futuro desenvolvimento de programas de reabilitao no Brasil.

--O apagar das luzes para o Ano Internacional

Embora alguns artigos de jornal ou revista procurassem martelar uma certa 
sensao de vazio quanto a realizaes concretas do Ano Internacional das 
Pessoas
Deficientes, o Encontro Nacional das Comisses Estaduais para o A.I.P.D. 
parece que
demonstrou com clareza que ela no se justifica, a menos que se 
procurasse chegar apenas a realizaes concretas.

Na verdade, ningum em s consciencia poderia esperar que sculos - 
milnios, para ser mais preciso--de esquecimentos e de desvalorizao 
pudessem ser suplantados em um ano apenas, com realizaes marcantes, 
mudanSas de atitudes, elevaso de prioridades governamentais, construo 
de centros, adaptao de meios de transporte, rebaixamentos de guias e 
eliminao de barreiras.

Poucas foram as realizaes concretas. A totalidade das Comisses 
Estaduais e da prpria Comisso Nacional para o A.I.P.D. tiveram o bom 
senso de trabalhar
com o objetivo de "conscientizar" o mais possivel a sociedade quanto ao 
problema e
quanto  necessidade de todos nos voltarmos para essas pessoas 
marginalizadas que
aspiram uma participao adequada, em condies de igualdade de direitos 
e deveres.

O Encontro Nacional realizado na cidade de Contagem - ao lado de Belo
Horizonte--avaliou as atividades desenvolvidas e aprovou algumas 
recomendaes fundamentais para toda a Dcada de Oitenta, relacionadas 
que devem estar a projetos a
curto, mdio e longo prazos.

E finalizamos este trabalho com sua transcrio, esperando que no 
tenhamos todos ns passado por um Ano Internacional das Pessoas 
Deficientes sem dele termos sado convencidos de que precisamos 
interiorizar a extenso e a gravidade desses
problemas todos que afligem gente semelhante a cada um de ns, e que 
precisam de uma
soluo agora, hoje - e no no sculo XXI, quando o nosso Pas estiver 
melhor desenvolvido e houver recursos especficos para atender a todos os 
males.

--Recomendaes finais de todas as Comisses: um desafio para o futuro

"Irmanados na luta em prol da melhoria de condies de vida das pessoas
deficientes, a Comisso Nacional do Ano Internacional das Pessoas 
Deficientes, os representantes das Comisses Estaduais/Territoriais e do 
Distrito Federal, de Entidades no-governamentais de assistncia s 
pessoas deficientes e de organismos que congregam essas
pessoas, reuniram-se em Contagem, Minas Gerais, de 23 a 26 de marSo de 
1982.
341

Este Encontro chegou a algumas concluses fundamentais para o 
prosseguimento dos trabalhos ao longo da dcada, a partir das seguintes 
consideraes:

1 ) As resolues aprovadas pela Assemblia Geral da ONU, concretizadas 
na Carta para
os Anos Oitenta, enfatizam sobretudo o esforo conjunto para a consecuo 
dos
ideais de Igualdade e Participao Plena;

2) H necessidade de mudana de atitudes visando a eliminar os 
esteretipos e preconceitos que impedem a consecuo dos ideais acima 
mencionados, o que foi amplamente evidenciado neste Encontro;

3) O trabalho, a educao e a sade so direitos inalienveis de todo ser 
humano e que
tantas vezes so negados s pessoas portadoras de deficincias, pela 
insistncia de
muitos em conceitos obsoletos, ultrapassados e claramente 
preconceituosos;

4) Torna-se premente a cooperao tcnica internacional no sentido de 
intensificar e divulgar estudos e pesquisas nas diferentes reas do 
conhecimento humano com o intuito de prevenir deficiencias ou reabilitar 
pessoas tornadas deficientes;

5) Os ideais visados pela ONU realmente se efetivaro quando todo aquele 
que sofrer de
limitaes de ordem fsica, sensorial e mental, tiver acesso, em sua 
conotao mais
ampla, a um ambiente livre de barreiras de qualquer natureza;

6) Os legisladores devem estar atentos para que as pessoas ditas 
deficientes usufruam dos
mesmos direitos assegurados aos demais cidados;

7) O A.I.P.D. no teve a finalidade e nem a pretenso de solucionar a 
problemtica em
que se debate a pessoa dita deficiente, mas objetivou sobretudo ser um 
grito de alerta
para a conscincia de todos ns.

Com base nas premissas acima enunciadas, recomenda-se:

1. A utilizao sistemtica e continua dos veiculos de comunicao de 
massa para disseminar e realizar o intercambio de idias e temas 
relativos as pessoas ditas deficientes,
promovendo, assim, tanto uma sensibilizao cada vez mais crescente de 
todas as camadas da populao como uma mobilizao das pessoas ditas 
deficientes e suas familias;

2. A intensificao das medidas de imunizao, diagnstico e tratamento 
precoce, de
atendimento materno-infantil, bem como programas de preveno de 
acidentes e de
proteo ao meio-ambiente;

3. A implantao gradativa, na medida do possvel, de Centros de 
Reabilitao, para
aprofundamento e intercambio de tecnologia especfica e treinamento de 
pessoal, ao
lado de Centros Regionais de Reabilitao e dinamizao de programas de 
reabilitao a nvel comunitario com utilizao de tecnologia 
simplificada e aproveitamento
de recursos locais;

4. A crescente ampliao do atendimento em educao especial a crianas, 
adolescentes
e adultos, portadores de qualquer tipo de deficincia, bem como um maior 
incremento  capacitao de recursos humanos;
O desenvolvimento de esforos para a adequao dos cursos 
profissionalizantes existentes e a criao de outros, ao mesmo tempo em 
que se intensifiquem no s a conscientizao do empresariado como tambm 
trabalhos integrados para o encaminhamento a empregos condizentes, as 
pessoas portadoras dos vrios tipos de deficincias;

Maior estmulo a projetos de pesquisa e construo e medidas prticas 
visando a melhoria de acesso daspessoasditas deficientes a edificios 
pblicos e sistemas de transporte;

Gesto junto ao poder legislativo para a elaborao de novos projetos de 
lei visando
eliminar a discriminao de que ainda so vtimas as pessoas ditas 
deficientes;

Para que essas recomendaes se efetivem ao longo da dcada, constatou-
se, neste Encontro, a necessidade da criao de um Orgo Nacional para 
dar continuidade  coordenao desenvolvida pela Comisso Nacional 
durante o A.I.P.D. Esta
medida vir responder ao anseio das Unidades federadas que, atravs de 
rgos j criados para os fins propostos ou em vias de criao, 
prosseguirem, a nvel estadual, os esforSos em prol das pessoas ditas 
deficientes, iniciados durante o Ano Internacional das
Pessoas Deficientes que ora se encerra".


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S E G U N D A P A R T E

INTRODUO


A INTEGRAO DAS PESSOAS DEFICIENTES NA SOCIEDADE-O DESAFIO DE NOSSOS 
Dias
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Aqueles que se defrontaram com a problemtica das pessoas portadoras
de algum tipo de deficincias pela primeira vez durante o ano de 1981 --
por ter sido o
Ano Internacional das Pessoas Deficientes - talve~ no tenham tido 
oportunidade alguma de parar um pouco em sua prpria vida el pensar sobre 
o assunto. Mas todos aqueles
que tm algum tipo de problema limitador que pode levar em muitos casos  
deficincia,
seus familiares e todos os que de alguma forma trabalham ou se dedicam ao 
seu atendimento e  sua assistncia sabem muito bem que tem havido uma 
inacreditvel lentido
da sociedade e do governo em aceitar as reais dimensoes do complexo de 
situaes enfeixadas nas deficiencias frsicas, sensoriais, organicas e 
mentais.

Podemos imaginar que essa atitude quase de imobilidade prevalea devido
 inexistencia de dados entre ns. Nossos recenseamentos nacionais no 
tm inserido estudos dessa natureza em seus questionrios. Diga-se de 
passagem que desde o ano de
1959, quando o General Lott ocupava provisoriamente a Presidncia do 
Brasil, gestes
tem sido feitas para tal fim, mas sem o menor vislumbre de sucesso.

De outra parte, estimativas mundiais s comearam a ser profusamente
divulgadas durante o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, que foi 
expressamente
criado pela Organizao das Naes Unidas para alertar o mundo todo a 
respeito da
existncia de um certo percentual de pessoas marginalizadas por problemas 
f(sicos ou
sensoriais, seus direitos, deveres e aspiraes.

Mas no  somente por falta de dados que a sociedade em geral e nossos
governantes tem se omitido. Existe uma certa dose oculta de rejeio, 
consciente ou
no, que  muito pondervel nesse panorama todo que envolve pessoas com 
deficincias
no mundo de hoje.

Face a esses fatores  muito importante chamarmos a ateno para o fato
de que, exatamente por haver desconhecimento quanto s verdadeiras 
dimenses dos
problemas relacionados a deficincias entre ns, e por ocorrer uma 
evidente rejeio das
pessoas que so diferentes devido a uma anomalia fsica ou mental, a 
maneira como o
Brasil est encaminhando programas e atividades voltadas para pessoas 
deficientes--salvo raras e mui distintas excees--tem sido na melhor das 
hipteses limitada. Na pior,
poder ser inadequada, talvez incua, irrelevante e mal fundamentada, 
quando no
contra-producente.

As conseqencias da falta de conhecimento e de convico quanto  
gravidade da situao e  dimenso do problema, mesmo por pessoas 
altamente envolvidas,
levar fatalmente nossos planejadores de governo, nossas organizaes 
privadas, nossas
reparties pblicas e nossa populao em geral a no dar ateno 
prpria, a eliminar
possibilidades de estabelecimento de qualquer nvel de prioridade, a 
preterir a adequada
assistncia a pessoas deficientes por outros programas e a no apoiar 
qualquer tipo de
nfase nesse campo.
Acresce a tudo isso que, por estarem mal informados ou desinformados
por completo sobre a verdadeira natureza do problema, todos aqueles que 
no esto diretamente envolvidos tentam ignor-lo, evit-lo ou 
simplesmente pretender que ele n~o
existe. Quase toda a responsabilidade pelo atendimento dos casos 
concretos tem ficado
nas mos de algumas entidades privadas, bem ou mal preparadas para a 
tarefa, ou de orgos governamentais, lamentando-se de quando em quando, 
ao se deparar com situaes
mais chocantes, a inviabilidade de melhor ajudar a famrlia que 
literalmente vive a dificuldade permanente.

Temos visto e ouvido muito em nosso meio que as famlias "atingidas"
acabam sentindo o problema como exclusivamente seu.

Muitas delas procuram esconder seu membro deficiente, a fim de evitar
tambm situaes sociais embaraosas, tais como contrnuas interpretaes 
quanto  natureza e gravidade do mal, esclarecimentos quanto a 
providncias j tomadas, elucidaes quanto a este ou quele mdico 
especializado que resolveu casos semelhantes e tantas mais.

Os documentos das organizaes internacionais mais categorizadas indicam-
nos que pelo menos 10'7,, da populao de qualquer pars do mundo em 
tempos de
paz sofrem as conseqncias de algum tipo de problema frsico ou mental ou 
da combinao de males, de tal maneira que precisam de servios especiais 
de alguma natureza.
No entanto, se fizermos uma superficial analise da distribuio 
geogrfica das populacoes no mundo e dos recursos disponiveis para ajudar 
as pessoas portadoras de deficincias, verificaremos que a maioria delas, 
por estarem localizadas em parses sub-desenvolvidos, no teve, no tem e 
no ter qualquer oportunidade de acesso aos mesmos.

A Rehabilitation International, em sua farta documentao para o Ano
Internacional das Pessoas Deficientes e tambm para a Dcada de Oitenta, 
afirma categoricamente que as modernas e por vezes palacianas instalaes 
que costumamos chamar
de "centros de reabilitao" ficam to distanciadas de suas vidas quanto 
um carro de luxo de ltimo tipo. E um dos motivos  que a maioria das 
deficincias ocorre nas reas
mais pobres com muita probabilidade de complicaes adicionais devido  
falta de assistncia. Nessas realidades o que conta  a sobrevivncia, o 
pao, o teto e no as aspiraes
"mais altas". Como pensar em reabilitao quando no h dinheiro para a 
alimentao
ou vesturiot

As dimenses verdadeiras e realistas das deficiencias no Brasil no podem
ser estabelecidas apenas por nmeros de pessoas atingidas, conforme 
indicamos anteriormente .

O claro estabelecimento da verdadeira extenso desses problemas dever
levar em conta os efeitos das deficincias sobre a vida das pessoas, 
tanto a vida daqueles
que so diretamente atingidos, quanto a de alguns dos membros de seu 
grupo familiar,
do povo, da comunidade e da sociedade em geral.

Por estudos realizados em pases mais avanados que o nosso, sabemos
que por causa da deficincia frsica ou mental, 1/4 da populao de uma 
nao poder estar, de uma maneira ou de outra, limitada ou bloqueada 
quanto  plena utilizao de
suas capacidades e de seu potencial.

 evidente que existe o reverso da situao. A sociedade, a comunidade,
os ~c~rculos de vizinhana ou de amizade, o grupo de referncia familiar, 
tm uma reconhecida influencia no eventual agravamento da situao, ou 
seja, na transformao daquilo que  um "impedimento" frsico, sensorial, 
organico ou mental numa "deficincia".
E isso ocorre devido a atitudes, receios, estigmas, comportamentos, 
preconceitos e tambm  discriminao, que so mantidos consciente ou 
incoscientemente para com pessoas que apresentam essas limitaes. As 
dificuldades que cada um de ns individualmente cria para a sua educao, 
participao na vida social ou colocaao em empregos,
adicionais que sempre so s barreiras de acesso a edifcios, ao 
transporte, aos recursos
relacionados  recreao e ao lazer, geram problemas que tornam sua 
soluo cada vez
mais dificil.

Ressaltemos, a bem da verdade, que no so poucos os segmentos da 
sociedade diretamente atingidos por deficincias fisicas ou mentais. 
Adicione-se que h
outros que saro responsveis pelas conseqncias negativas das limitaes 
acima referidas.

Uma reduo objetiva dessas conseqncias poder ser garantida por uma
ao conjunta, dirigida a cada uma de suas origens. Como exemplo vale 
lembrar um
maior provimento de servios adequados de reabilitao para pessoas 
deficientes, inrlllinr~n nPIPc CPr~lirnC rnm tecnoloqia mais simplificada 
ou servios baseados em recursos
centagem da populao, em vez de estar trabalhando em produo de 
alimentos, volta-se
para ocupaes no qualificadas do meio urbano, tangida pela ambio de 
obter melhores condies de vida. A tudo isso acrescentemos o imenso 
abismo, em continua expanso, quel existe entre a nossa populaao 
quelpossui bens daquela popula30 que no os
possui. Procuremos, deste ponto em diante, analisar a situao das 
pessoas chamadas deficientes, dentro do final do sculo XX e dentro de 
nossa realidade brasileira. Tentaremos iniciar discusses quanto aos 
motivos que podero levar pessoas portadoras de deficincias a uma 
situao de marginalidade.

Elaboraremos tambm um pouco quanto ao verdadeiro significado e s
implicaes daquilo que  verbalizado muito facilmente como "integrao 
social das pessoas deficientes".

O que  que significam essas palavras bonitas em termos prticos7

Como  que podemos traduzi-las para o nosso dia-a-dia?

Analisaremos a importancia do ajustamento do indiv(duo portador de 
deficiencia como pessoa, pois  a adequao pessoal o objetivo ltimo do 
processo reabilitacional.  por meio dela que a pessoa poder ter 
condies suficientes para sair de uma
situao de dependncia e marginalidade para uma outra de auto-
suficincia na sociedade em que vive.

Focalizaremos tambm um pouco mais pormenorizadamente os componentes do 
ajustamento  vida de trabalho, ou seja, a adequao da pessoa portadora 
de
deficincia a uma situao concreta de produo de bens e servios.

Por no podermos de forma alguma desconsiderar a importancia de uma
consagrada ao que, sem a menor sombra de dvida, desde os seus 
primrdios se caracterizou como um trabalho multi-profissional que 
extrapola em muito s atuaes de um s
profissional, teren os um captulo especial de discusso quanto s 
caractersticas e as dificuldades do trabalho de equipe nos programas 
reabilitacionais de hoje. e finalmente
iniciaremos pontos de discusso com o objetivo de dar uma viso de como 
poder ser
vivel a avaliao e o controle das atividades de nossos centros e de 
nossos programas de
reabilitao, considerados to dispendiosos para nossa sociedade, to 
aparentemente fora de nossa realidade, mas to fundamentais para aqueles 
que precisam de servios especiais para terem condies m(nimas a fim de 
tentar a grande aventura da integrao completa na sociedade, pois tm o 
direito de desfrutar de tudo aquilo que est impl ~cito nos
temas bsicos do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, ou seja, 
"participao plena e igualdade".
CAPITULO PRIMEIRO

AS CAUSAS DA MARGINALIDADE DAS PESSOAS DEFICIENTES
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A ignorada epopia de parcelas da populao mundial, atravs dos muitos
sculos da Histria do Homem sobre a Terra, mostra-nos com muita clareza 
que a sociedade dos homens, em todas as partes do mundo e em todas as 
pocas, sem qualquer exceo praticamente, colocou e continuar colocando 
por muito tempo mais  margem
de sua correnteza principal certos tipos de indiv(duos que dela poderiam 
fazer parte.

- A nossa sociedade, em seus mltiplos segmentos, no se apresenta como
exceo, apesar de ser notria a pretenso que tem de muito aberta  
integrao de todos, sem adotar qualquer medida preconceituosa. A verdade 
dos fatos  outra, porm: as
atitudes discriminatrias existem entre ns e com elas suas conseqncias 
mais lamentveis, que so as situaes reais de marginalidade social.

Na tentativa de analisar com cuidado este tema, uma das primeiras e 
cruciais dvidas aflora: quais os motivos que levam as pessoas ou os 
grupos a tomar uma atitude discriminatria e muitas vezes repleta de 
idias~pr-concebidas, em detrimento de
outros indiv(duos?

Que tipo de racioc(nio ocorre para algum, sem muito pensar, simplesmente 
eliminar de sua vida e de seu meio uma pessoa por apresentar um tipo 
qualquer
de anomalia?

Embora muitos pontos possam ser colocados  considerao do estudioso
do assunto, um dos mais srios e significativos mostra-nos que a 
sociedade marginaliza-ou seja, retira da correnteza principal -- alguns 
indiv(duos devido a motivos vrios e definidos, mas cumpre que coloquemos 
em relevo aqueles que se relacionam  apresentao
visual, ou aqueles que esto diretamente relacionados ao comportamento 
face ao grupo.
Com isso ela demonstra que existem alguns padres de aceitabilidade.

Essa verdade  aplicvel a vrias situaes, mas de um modo todo especial
ela  quase universal com relao s caracteristicas fsicas e/ou mentais 
dos indivduos.

Preconceitos e medidas discriminatrias existem concretamente contra
quase todos os tipos de "anormalidades" ou de "anomalias", muito embora 
essas atitudes apresentem tonalidades de nfase diferente, pois "a 
maioria das pessoas no tem
contra os deficientes a mesma espcie de preconceitos, que alimenta 
contra certos grupos religiosos, raciais ou desfavorecidos" ("O Indiv(duo 
Excepcional", de Telford e
Sawrey ~ .

Para todo aquele que procura melhor compreender as origens deste problema 
de pondervel complexidade, ser de grande valia conscientizar-se das 
caracter(sticas aproximadas da normalidade, em seu sentido sociolgico, 
procurando especular um
pouco quanto s caracter(sticas que o ser humano precisa apresentar para 
ser considerado como "normal", em nossos grupos sociais.  importante 
compreender com alguma
segurana quais os fatores que determinam ser o indiv(duo assimilvel, ou 
ento, pouco
aceitvel.

Essa preocupao levar-nos-, sem dvida, a lembrar primeiramente que
no existe um indiv(duo sequer que seja idntico a outro. Na verdade, ser 
diferente 
364

bem prprio da natureza humana e as diferenas so de carter universal. 
No entanto, h~
vagos limites de tolerancia para essas diferenas individuais entre os 
homens, a tal ponto
e de tal maneira que o grupo social poder chegar mesmo a bloquear aquele 
seu membro
"excessivamente diferente", colocando-o de lado.

Para todos os efeitos, "ser diferente"  ser "colocado de lado", o que em
linguagem de relaces inter-pessoais, pode significar rejeio.

. . . "Muitos escritoresltm tambm atribu(do a rejeio de uma pessoa 
deficiente ao fato dela ser diferente. O "ningum quer ser diferente"  
aceito como uma lei bvia do homem" ("Physical Disability--A 
Psychological Approach" de B. Wright).

Tudo aquilo que  muito diferente, que no  nada igual ao costumeiro,
que foge  normalidade, que  raro, chama a ateno. A diferena e a 
"excepcionalidade" podem existir tanto para melhor quanto para pior. 
Quando elas ocorrem para o lado
positivo, como nos casos de beleza excepcional, da forma f(sica perfeita, 
da inteligncia
fora do comum, elas causam deleite queles que com elas se defrontam.

 a excepcionalidade positiva que estimula o homem a se aproximar ou a
almejar o ideal perfeito, sempre sonhado e nunca atingido.

No entanto, todos sabemos muito bem que ha excees que nos levam
para o lado negativo e so essas as que mais causam dificuldades. 
Acontecimentos excepcionais catastrficos, grandes desastres coletivos, 
guerras ou revolues como soluo
de disputas so acontecimentOs que polarizam a ateno. Da mesma forma 
chamam a
ateno os comportamentos irracionais e os padres de desenvolvimento 
fisico ou de
aparncia anormal do ser humano.

Essas anomalias ou excees preocupam as pessoas atingidas, as fam(lias
envolvidas, as comunidades s quais pertencem, os poderes constitu~dos e 
a prpria estruturao da sociedade. E chamam a ateno porque, para a 
grande maioria dos membros ativos ou passivos de nossa sociedade, num 
certo sentido no s desagradam, como
tambm ameaam a tranqilidade, o bem-estar, o sentido de esttica, a 
harmonia, a segurana pessoal e a familiar, criando eventuais 
dificuldades para a posio social das pessoas afetadas, alm das 
respectivas famlias ou grupos de relacionamento, quando no da
sociedade maior.

Quando ocorrem catstrofes naturais ou situaes anormais de carter 
geral a sociedade mobiliza-se, pois ela sabe muito bem que esses eventos 
ou situaes precisam ser contornados ou resolvidos--e mesmo eliminados--
sempre que possvel com
a colaborao dos mais diversos setores da comunidade. Com essas 
providncias ela se
desenvolve cada vez mais e procura garantir melhores condies de vida e 
maior (ndice
de segurana para o povo. As condies de divergncia do usual atingem o 
homem como
indiv(duo e como membro de um grupo. Nesses casos a sociedade mais 
consciente, por
meio de grupos os mais diversificados, procura tambm tomar sua posio. 
Assim como
no primeiro exemplo, neste tambm ela se sente ameaada.
Dependendo de valores culturais predominantes, suas necessidades globais, 
sua composio, sua realidade pol(tica, seu grau e capacidade de 
desenvolvimento,
seu modo de ver o indiv(duo, seu n(vel de conscientizao, e outros 
fatores, ela age atravs de atividades assistenciais que podem levar  
compreenso do problema,  preveno
de males, eventualmente ao controle das pessoas afetadas por esses males 
e aos programas que levem  sua reabilitao global. Com isso ela 
"extermina" o mal, "elimina" a
excepcionalidade, separa o contigente atingido, assiste-o 
financeiramente, abriga-o ou segrega-o do restante da sociedade, ou parte 
para sua completa integrao em bases equanimes.

--Normal ou ~normal: eis o problema

Ser muito dif(cil para um estudioso afirmar com segurana que consegue
indicar tudo aquilo que  "normal" ou "anormal" num ser humano, em dada 
realidade,
seja em termos de desenvolvimento pessoal, seja em termos de 
comportamento. Ningum sabe, na verdade, at que ponto uma diferena dos 
padres da aceita "normalidade" poder ser assimilada sem maiores 
dificuldades pela sociedade onde ocorre. O nico
ponto de conhecimento generalizado e que todos sabemos que existe um 
limite indefinido para as diferenas do "normal" serem assimiladas pelo 
grupo social. Segundo cada
realidade social e cada cultura podem ocorrer claras delineaes quanto 
aos desvios da
normalidade que so ou no aceitveis, que podem at ser considerados 
como vantajosos, dependendo sempre dos resultados prticos provocados 
pela "anormalidade" e do
papel que os indiv(duos afetados possam ter na sociedade.

Vejamos um exemplo prtico:

Na poca em que atuamos na Unidade de Reabilitao do Deficiente-
Departamento de Desenvolvimento Comunitrio e Bem-Estar Social da 
Organizao das
Naes Unidas--tivemos um dia a oportunidade de entrar em contato com uma 
situao "sui-generis", que estava embaraando um consultor geral de 
reabilitao, em programa de assistncia tcnica num pa(s africano de 
antiga vinculao com a Inglaterra.
O governo federal dessa nao mantinha uma equipe volante de bem-estar 
social que passava parte do mes em viagens pelas aldeias da regio norte 
do pa(s. Rodava milhares de
quilometros para garantir o desenvolvimento cont(nuo de programas e para 
fazer os indispensveis contatos oficiais.

Um dos objetivos desse programa volante era tambm entrevistar pessoas
deficientes e seus familiares para estabelecer um bom clima de 
relacionamento com os
mesmos e com isso gradativamente encoraj-las a participar de um programa 
de capacitao para o trabalho rural. O relacionamento com o chefe da 
aldeia era fundamental sempre. No caso em pauta o objetivo principal era 
garantir o encaminhamento de pessoas
adultas cegas para um centro de reabilitao dos arredores da capital, 
que mantinha programaes prticas para nativos que quisessem se dedicar 
a atividades pr6prias da aldeia.

O Centro em si era muito simples e adaptado  realidade do pa(s e todo o
treinamento era custeado por verbas federais. Quase sempre a equipe 
volante retornava 
base com alguns cegos dispostos a residir por alguns meses nas 
instalaes do centro e l~
aprender naio s habilidades da vida de todo dia, mas tambm aquelas 
relacionadas ao
cultivo do milho, da mandioca, do caf, de legumes e de hortalias, alm 
dos cuidados
com animais domsticos.

Numa certa aldeia localizada s margens de um sereno lago, entretanto,
um velho e indecifrvel chefe de aldeia protelava indefinidamente a 
viagem de trs cegos.
Aparentemente no havia motivo algum. O chefe no dizia um "no" 
categrico e os cegos, apoiados em seus bastes, sorriam e no diziam 
nada. Na comunidade em si ningum apresentava qualquer expticao.

Numa das ltimas viagens empreendidas pelo especialista da ONU com a
equipe de campo, foi feita uma visita especial  aldeia em questo. Como 
sempre, todos
foram recebidos muito bem e aps os cumprimentos sorridentes sentaram-se 
ao redor do
chefe-ancio. No grupo de negros de caracter(sticas muito puras, a tez 
clara do estrangeiro sobressara. E foi ele quem fez a pergunta direta que 
nenhum outro havia feito antes,
seja por respeito s decises do chefe, seja em conseqncia de um 
posio cultural:
"Por que esses tres jovens, que so cegos, no viajam para nosso centro 
para ali poderem
aprender a ser independentes, a cuidar de si mesmos, a ter suas plantas, 
suas cabras e sua
prpria cabana?"

A resposta veio clara, embora repleta de cautela. Segundo os ancestrais
daquela tribo, toda aldeia poderia ter motivos para ser valente e muito 
aguerrida. Mas s
aquela que tivesse motivos para ajudar seus prprios membros  que 
poderia ser uma
aldeia feliz. Ora, os cegos, os velhos, as mulheres sem seus maridos 
significavam uma
bno dos deuses e dos ancestrais, pois todos eram muito bem cuidados 
por todas as famrlias que repartiam entre si a responabilidade pela sua 
alimentao, vesturio e abrigo.
Se eles fossem levados a um centro para voltarem independentes, cuidando 
por si mesmos de suas plantas e seus animais, o que restaria quela 
aldeia fazer para merecer a felicidade que s a caridade trazi. . .

--As "diferenr;as" assimilveis ou inaceitveis

Situaes que fogem aos padres normais existem no mundo inteiro,
mas as caracterrsticas prprias dos tipos de preconceitos e das diversas 
formas de discriminao a elas relacionadas dependem diretamente dos 
padres culturais de cada povo.
Tem elas significado bastante varivel de povo para povo e s podero ser 
bem compreendidas no contexto social onde ocorrem.

Numa cultura primitiva, por exemplo, na qual a qualidade de vida, o
bem-estar geral e o relativo conforto podem depender em grande parte dos 
resultados da
caa, as aptides individuais correspondentes a um fsico gil e forte 
so as mais relevantes para o grupo social. Nele, a deficincia frsica, a 
debilitao geral, a velhice, as demonstraoes de medo, o excessivo 
cuidado com a segurana do corpo so graves desvantagens. Nessa mesma 
sociedade primitiva a inabilidade para falar desembaraadamente,
ou para fazer clculos, a incapacidade para ler e para escrever, a falta 
de condies para
o desenvolvimento de atividades artrsticas so muito pouco relevantes.
Numa outra realidade hipottica, escassamente habitada e de 
caracteristicas agro-pastoris, o indivduo mentalmente retardado ou 
aquele socialmente desajustado
no of erece preocupaes relevantes para o grupo maior. A crianca de uma 
regio dessa
natureza, que  incapaz de ler ou de escrever, sempre poder ser muito 
til para o desempenho de diversas tarefas, podendo constituir-se num 
membro bastante produtivo da

~famrlia ou do grupo social, enquanto que num ambiente mais competitivo e 
desafiador,
como o de cidades, a situao seria bem diversa.

As diferenas individuais e que caracterizam cada um dos seres humanos
sero encontradas sempre. Ser o grupo social, todavia, que ir 
estabelecer quais as divergncias que podero ser consideradas como 
prejudiciais ou como vantajosas e quais as
que provocaro depreciaes ou valorizaes do ser humano.

Analisemos um outro exemplo concreto:

Numa ilha do Oceano Pacifico, sempre cercada por cardumes de vorazes
tubares, a atividade de pesca, muito mais do que a atividade agr(cola ou 
pastoril,  a
fonte principal de alimentos de toda a populao. Devido s 
circunstancias prprias, apesar de atividade vital,  sempre muito 
perigosa. Ocorrem de quando em quando acidentes com os pequenos barcos de 
pesca que atiram s guas seus ocupantes. E muitas vezes
eles so quase que imediatamente atacados por tubares. Dessas vitimas 
poucas so as que
sobrevivem. Nessa perdida ilha o fato de um adulto no ter um brao ou 
uma perna no
leva a depreciao alguma. Muito pelo contrrio, a deficincia 
corresponde  garantia de
uma inquestionvel posio de prest~gio na comunidade, pois todos sabem 
que aquele
homem enfrentou o inimigo mortal durante a luta pela sobrevivncia do 
grupo. O homem amputado  ali olhado com respeito e admirao.

-- A questo em termos de Brasil

Qual a situao que encontramos no Brasil de nossos dias a esse respeito7
Todos sabemos muito bem que existem no Brasil situaes as mais dtspares 
e costumes
os mais estranhos, pois temos uma sociedade que no geral fala a mesma 
lingua, distribuindo-se por um territrio de tamanho continental, com 
realidades bem evoluidas de
um lado, enquanto que em regies mais pobres e menos desenvolvidas h 
camadas da populao que ainda no chegaram a entrar em contato direto 
com o mundo moderno.

Nessa realidade vastrssima, to cheia de contrastes, observa-se tambm
que em geral as pessoas com menor capacidade fisica e mental, com menor e 
menos
atualizado conhecimento das implicaes da vida moderna, vo sendo 
gradativamente
marginalizadas. Com o desenrolar do tempo e com a real impossibilidade 
desses individuos conseguirem superar os problemas que os atiram  margem 
da sociedade atuante,
acabam caindo, quer a contragosto, quer de bom grado, na dependncia de 
membros
mais ativos e produtivos. E h o contingente populacional de tamanho 
significativo que
acaba como beneficirio dos bem ou mal definidos programas assistenciais 
mantidos pela
Entre n6s, como em muitas outras sociedades do mundo moderno, exi~tem 
diferenas que via de regra levam as pessoas a depreciar o indivrduo, 
quando ess
diferenas so muito evidentes. E nas eventualidades dessas diferenas 
consideradas desagradveis no serem pelo menos disfaradas, escondidas 
ou reduzidas, acabam provocando reaes que determinam providencias 
especiais para que o indivrduo seja separado,
seja tratado ou seJa simplesmente mantido longe.

--A visibilidade da deficincia

A visibilidade de uma diferena frsica menos agradvel sempre dificulta
tentativas de integrao da pessoa humana atingida ao seu grupo, 
principalmente devido
s dvidas e  ~nsiedade que ela provoca.

H receios ocultos quanto s provveis conseqencias das vinculaes ou
da convivncia com o ser humano deficiente. A maioria das pessoas ditas 
normais no se
sente  vontade na presena de pessoas gravemente deficientes que passam 
a ser tratadas
como gente estranha e numa razovel distancia social.

As amputaes de membros superiores (e em alguns casos as de membro
inferior tambm), a paraplegia, a hemiplegia, a paralisia cerebral, as 
deformaes congenitas em geral, todas tem grande visibilidade, enquanto 
que os males organicos, alguns
sensoriais, os desvios psicolgicos e sociais chamam muito menos a 
ateno e levam a
menos significativas reaes. Provocam em contrapartida menor rndice de 
boa vontade
por parte do pblico em termos de causas, de programas ou de campanhas.

A visibilidade das alteraes do padro mdio de normalidade frsica, s
vezes precisa ser muito bem ponderada e cuidadosamente considerada por 
pais e educadores quando formulam planos educacionais para uma criana. E 
wma das perguntas
mais cruciais e esta: "At que ponto poder uma criana diferente--
portadora de algum
tipo de deficincia mais facilmente perceptrvel--beneficiar-se de uma 
escola segregada
ou de uma escola integrada"?

--O problema do "comum" e do "normal"

Conforme analisado, aparentemente um dos motivos mais ponderveis
para que se desencadeie um processo marginalizante  um certo desvio dos 
padres da
normalidade aceita pelo grupo. Embora seja muito importante a compreenso 
exata das
implicaes da "normalidade", a sociedade em geral confunde aquilo que  
"normal"
com aquilo que  "comum". Sob o angulo prtico de anlise dos termos, 
"comum" 
aqulo que  encontradio, enquanto que "normal"  o desejvel. O comum 
em termos
de Brasil, por exemplo, pode ser um no Estado do Amazonas e outro bem 
diverso no
Rio Grande do Sul--e ambos diferentes do que  encontradio e considerado 
comum
no Nordeste. Em algumas regies brasileiras  comum vermos o homem 
analfabeto vinculado a situaes quase que escravizadoras de trabalho.  
comum a subnutrio,
a ausncia de recursos para ensino ou sade. o situaes comuns, mas 
no so normais, aceitveis, dignas do homem. No entanto, essas situaes 
anmalas sao tantas vezes
tomadas como naturais, corriqueiras, usuais e sem maior importancia, que 
ficam sendo
consideradas como normais--e no o so!

Nessa mesma linha de exemplificao prtica de raciocrnio, o "normal"
 e sempre ser o desejvel e aquilo que est em plena concordancia com a 
natureza humana e com a dignidade do homem. Em qualquer sociedade do 
mundo civilizado de hoje, no qual no existem mais barreiras de 
comunicao, a palavra "normal" deveria estar
sempre incluindo todas as condies conseqentes aos direitos bsicos 
previstos na Declarao Universal dos Direitos do Homem.

 muito difrcil eliminarmos qualquer um dos direitos previstos nessa 
Declarao, pois cada um deles focaliza aspectos de inquestionvel 
importancia na vida do
homem sobre a Terra. Entretanto,  nesse mesmo mundo de hoje,~ que aceita 
tranqilamente uma Declarao Universal dos Direitos do Homem, 
adicionando a ela declaraes subsidirias relacionadas  mulher, s 
pessoas com retardo mental, s pessoas deficientes, que vemos de quando 
em quando situaes realmente desumanas de natureza
muito comum que acabam sendo assimiladas e aceitas por grupos da 
sociedade, inclusive
pela nossa prpria. Isso jamais poder significar que elas possam ou 
devam ser aceitas ou
consideradas como "normais".

- A grande variedade de condies marginalizantes

Esse angulo da questo leva-nos, sem duvida, a alarmantes concluses
quanto  situao da maioria dos parses do mundo--inclusive do Brasil--
pois se formos levar at as ltimas conseqncias a considerao do 
problema das deficincias, sob
esse prisma, deveremos considerar como indivrduos colocados  margem da 
correnteza
principal da sociedade todos aqueles que:

recebem salrios injustos e insuficientes para seu sustento e para 
manuteno de seu grupo familiar;

-- no tm acesso aos benefrcios da previdencia social estabelecida;
-- so impedidos, na prtica, de receber instruo bsica;

- passam fome ou alimentam-se inadequadamente por no terem condies 
financeiras para adquirir alimentos;

-- habitam de forma infra-humana;

-- no conseguem livrar-se dessas situaes apesar de tentarem.

--Como classificar as condies marginalizantes

Mas estamos aqui procurando analisar somente o problema das pessoas
que sofrem o estigma das deficincias frsicas, mentais, sensoriais, 
organicas, ou conseqentes a doenas mentais ou  idade. Para podermos 
dimensionar e avaliar concretamente o desafio apresentado por esse 
estigmatizado segmento da sociedade, procuremos
uma forma de classificar as diferenas dos padres de normalidade 
considerados usuais e
por ela ideali~ados. Poderemos ter dessa maneira, uma idia mais clara da 
verdadeira extenso dos problemas daqueles que so muitas vezes 
conhecidos como "deficientes",
"excepcionais", "incapacitados" - e que passaremos a chamar de "pessoas 
deficientes"
--e do seu desafio para programas que pretendem ter como meta a sua 
integrao plena
na sociedade.

Na bibliografia existente encontraremos vrios tipos de classificao 
dessas
diferenas ou situaes de excepcionalidade. Uma das mais claras e mais 
felizes  aquela
que analisa o problema sob o angulo do desvio bsico dos padres de 
normalidade, adotada tambm por Telford e Sawrey. Limitemo-
nos,entretanto,adiscutir os desvios de
normalidade de natureza mais agravante, conforme referido acima, que 
podem levar o
individuo a um tipo de marginalidade mais difrcil de ser superada sem o 
concurso de servios especialmente organizados.

Mantenhamos em mente que para nossa cultura o indivrduo normal  o
que tem um corpo praticamente perfeito e sem aberraes, aquele que tem 
os rgos e
os sentidos funcionando bem, com uma inteligncia pelo menos em nvel 
adequado, dono de um acervo de hbitos e de comportamentos que no chegam 
a causar preocupaes e dentro de uma faixa etria considerada como 
produtiva e no muito avanada.
Quase tudo que escapa desses padroes passa a ser visto com certa 
dificuldade e poder levar o indivrduo a situaes de certa 
marginalidade.

 nesse sentido que poderemos citar os desvios intelectuais, os 
sensoriais,
os motores, os funcionais e os orgnicos; alm disso incluiremos os 
problemas de personalidade e os sociais mais srios; e no deixaremos de 
lado as dificuldades encontradas
por pessoas de idade avanada.

Procuremos analisar um a um, em poucas palavras, esses diversos tipos de
desvios de que falamos acima.

--Desvios intelectuais

Existem estudos muito interessantes a respeito de problemas intelectuais
que levam a certos desvios, tanto para o lado positivo quanto para o 
negativo, partindo
sempre de um ponto mdio. A preocupao bsica de nossa sociedade, 
entretanto, tem-se centra I izado nos desvios para menos, ou seja, nos 
casos de deficiencias mentais de vr ios graus, incluindo os limrtrofes, 
os educveis, os treinveis e todos aqueles que no
conseguem ser absorvidos pela sociedade devido a um rebaixamento 
intelectual.

--Desvios motores

Agrupados sob este tipo de desvio de normalidade encontraremos todos
os casos de amputaes, as malformaes motoras congnitas ou adquiridas, 
os problemas ortopdicos de gravidade e provocadores de seqelas 
incapacitantes, os males neurolgicos com os mesmos tipos de 
conseqncias, dentre os muitos que poderiam ser aqui
inseridos. Na verdade so os problemas que mais chamam a ateno quando 
se fala em
reabilitao ou quando se menciona o problema das deficincias de um modo 
genrico.
- Desvios sensoriais

Sendo normal o uso de todos os sentidos, o ser humano que se v privado
de um s deles pode facilmente ser vrtima de sria marginalizaao se no 
souber como
superar o problema vivido. Assim  que, dentre os casos msis notrios, 
temos os cegos
ou deficientes visuais, os surdos e casos afins, conhecidos como 
deficientes auditivos,
com diminuiao ou gradativa perda do sentido da audiao. A perda ou 
reduo de outros sentidos como o olfato, o paladar e o tato no Q comum 
nem causadora de srias
dificuldades sociais, apesar de poderem ser arroladas as muitas exceces 
que acabaro
por confirmar a regra.

--Desvios funcionais

Certas funes do organismo, quando prejudicadas por um defeito, por
uma doenca ou por um acidente podero trazer srios problemas para o 
indivrduo.
Assim temos o caso dos afsicos ou daqueles que tm dificuldades de 
comunicao que
 o tipo mais facilmente encontradio neste grupo.

-- Desvios organicos

Dentre os desvios organicos que mais trazem problemas ao homem esto
aqueles ocasionados por vrios tipos de cardiopatias srias e por males 
da respirao, incluindo-se nos mesmos os casos de tuberculose, dentre 
muitos outros.

--Desvios de personalidade

Este tipo de dificuldade esti diretamente ligado a problemas emocionais
ou distrbios mais graves como as neuroses e as psicoses. Vrios males 
relacionados 
sade mental podem tambm levar as pessoas a situaes de marginalizao.

--Desvios sociais

Os delinqentes juvenis, os criminosos adultos, certos tipos de 
contestadores, os viciados em drogas, os alcolatras, os frmaco-
dependentes so alguns tipos
que ilustram o chamado desvio social. Muitos deles no tm absolutamente 
nada em
comum e os programas montados para sua assistencia so muitas vezes 
totalmente separados ou alheios uns aos outros.

-- Problemas de idade avanada

Os problemas ocasionados pela velhicel so muito prprios e 
caracterrsticos. Apesar de em outros tipos de situaes encontrarmos 
eventualmente certas superposies sempre agravantes, na velhice e que 
sempre encontramos a maior incidncia dessas
superposies que tornam a assistncia a idosos muito difrcil. o os 
casos de velhos cardiopatas, cegos, surdos e outros tipos.

--Outras condies que levam  marginalidade
Cada um desses problemas mencionados separadamente poder levar uma
pessoa menos preparada ou menos protegida a certo grau de marginalizao, 
ou pelo menos a uma srie de dificuldades para garantir uma completa 
integrao ao seu grupo. Nos
casos de desvio motor, sensorial, organico, intelectual, de personalidade 
e de idade avanada, no entanto, verificamos muitas vezes que, alm de 
ocorrer uma eventual superposio de dificuldades, existe tambm com 
muita freqencia a ocorrncia de hbitos, de
atitudes e de comportamentos inaceitveis ou inadequados, provocando 
situaes muito
mais srias do que o prprio desvio em si mesmo.

o tambm muito ponderveis os problemas causados por certos tipos
de rtulos estigmatizadores aplicados a indivrduos ou a populaes que 
vivem em condies diferentes daquelas consideradas como aceitveis, ou 
seja os "favelados", os "aleijados", os "paral ~ticos", os "loucos" e 
tantos mais.

As dificuldades, entretanto, no se limitam a essa questes ou a esses 
ngulos, pois aos problemas ocasionados pela existncia de uma 
deficincia qualquer ou
pela ocorrncia de estigmas rotuladores, eventualmente deve-se tambm 
adicionar uma
srie de situaes causadas por fatores pessoais ou sociais. Dentre os 
fatores pessoais
convm que no nos esqueamos dos males provocados pelo analfabetismo, 
pelas crendices e supersties, pela ignorancia generalizada, pela 
inabilidade de resolver problemas e
pela misria material.

Dos fatores sociais rnais significativos causadores eventuais de 
situaes
de marginalizao cumpre que destaquemos o crescimento vertiginoso e 
desordenado de
nossas grandes cidades, a falta ou a inoperancia dos recursos humanos ou 
dos equipamentos sociais da comunidade, o evidente descompasso existente 
entre a educao e o
desenvolvimento tecnolgico, alm dos preconceitos e das atitudes 
discriminatrias.

--Deficincia e incapacidade: distino importante

Segundo consenso internacionalmente existente, quando, em conseqencia de 
algum mal, o ser humano e vitima de um certo impedimento de ordem fisica, 
por
exemplo, temos a instalao de uma deficiencia. Essa deficincia poder 
levar ou no a
uma incapacidade, ou seja, a uma situao de desvantagem, de 
inferioridade. Claro que
um impedimento sempre poder causar uma deficiencia incua, pouco 
significativa e
sem maiores conseqncias para o indivrduo afetado. Por exemplo, no caso 
de um auxiliar de caminho perder o dedo mnimo da mo esquerda. Esse 
mesmo impedimento, fisicamente observado e diagnosticado, trar 
conseqncias marcantes para um pianista,
para urn datilgrafo, para um clarinetista profissional

O que sucede  que quando essa deficincia  tomada como uma desvantagem 
significativa para com os demais, ou quando ela  rejeitada sem que o 
indiv~duo
atente para suas conseqncias prticas, em geral a pessoa portadora da 
deficincia comea a agir e a desenvolver hbitos e atitudes tais que o 
grupo social se v forado a deix-la de lado e cada vez mais  sua 
margem.

Consideradas as circunstancias em que acontecem e muitas vezes as pessoas 
que atingem, certas deficincias no podem nem devem ser tidas como 
"incapacida373

des", pois estac saio realmente problemticas e est30 presentes sempre 
que ocorrer a somatria de tres tipos de limtaes:

- a limitao objetiva, imposta pelo impedimento ou desvio (por exemplo, 
um paraplegico n30 consegue mais andar e tomar uma conduo pblica sem a 
ajuda de muletas
ou de uma cadeira de rodas; um cego no poder ler instruces em 
planilhas de trabalho; um amputadol de m30, por mais hbil que procure 
ser, no poder ser um violinist;

-- a limitao estabelecida por segmentos da sociedade com os quais o 
indiv(duo se relaciona (por exemplo, clubes no aceitam pessoas com 
deficincias fsicas, a sociedade
evita contatos pr6ximos com v~timas de paralisia cerebral, ou procura 
manter os hansenianos fora de seu alcance);

- a limitao que o prprio indivrduo atingido estabelece (por exemplo, o 
paraplgico
que acha estar liqidado para a vida de trabalho ou a vida social; o cego 
que no se
dispe a aprender o Braille ou a andar sem a ajuda dos outros por medo de 
no o conseguir) .

Conforme foi j comentado anteriormente, os objetivos da vida de cada
um de ns  que acabam por determinar se uma deficincia pode ser 
desvantajosa, tornando-se uma incapacidade, ou no. Como indicamos, para 
um violinista profissional as
conseqncias da perda do dedo mnimo da mo esquerda so muito mais 
contundentes
do que para um ajudante de caminho. Uma datilgrafalpoder ter uma feia 
cicatriz no
rosto, mas no uma recepcionista.

Em srntese, a marginalidade existe entre ns, como existe em todos os
pases do mundo moderno. Ao analisarmos a histria da humanidade 
descobrimos que o
indivrduo deficiente quase sempre foi relegado a segundo plano, quando 
no apenas tolerado ou exterminado.

Verificamos, no entanto, que segmentos mais esclarecidos e politizados
de nossa sociedade, bem como parcelas significativas de nossos programas 
oficiais de
assistncia  populao, preocupam-se e armam-se para dar cobertura 
queles que sofrem
as conseqncias da marginalizao. Todos sabemos que essas providncias 
no so fceis, nem baratas, o que tambm nos leva a raciocinar em termos 
do desafio que significam atividades s vezes conhecidas como programas 
de reabilitao, programas de reinsero social ou de integrao social, 
sem que haja plena conscincia de seu escopo e do
seu valor.

Fica conosco a dvida: "Por que existem esses programas"7

Em que tipo de raciocinio prtico ou de princpios filosoficos, ou mesmo
de racionalismos baseamo-nos para dedicarmos tempo e dinheiro destinados 
ao atendimento a portadores de deficincias? Qual  o verdadeiro 
significado da integrao social
das pessoas deficientes?
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CAPTULO SEGUNDO

O SIGNIFICADO DA INTEGRAO SOCIAL DAS PESSOAS DEFICIENTES

Para muitos de ns o problema de integrao de uma pessoa deficiente na
sociedade  apenas questo de acomodao adequada, de equipamentos 
especiais, de
arranjos prticos, de tratamento fsico eficiente e muito pouca coisa 
mais. Acreditam
muitos que a "integrao" acontece naturalmente se a pessoa simplesmente 
voltar ao seu
ambiente original com o auxlio dos recursos que a medicina coloca  sua 
disposio e
com~ a remoo de alyuns obstculos f rsicos.

Claro que esses fatores todos so importantes. No entanto, a desejada 
integraao no acontece naturalmente; ela  resultante de um complexo 
processo cuja necessidade e significado pretendemos aqui estudar e 
discutir - ou seja, ela no ~ uma
"volta", pura e simples.

Antes de mais nada cumpre que notemos o seguinte: h pessoas que hoje
tm uma deficincia e que por causa dela sentem-se marginalizadas, quando 
na verdade
podem ter vivido e trabalhado em sua comunidade--antes da deficincia - 
sem ter estado realmente integradas nela. Viviam independentemente 
fazendo o que bem entendiam, sem se importar com o mundo ao seu redor. 
Quando uma pessoa desse tipo torna-se deficiente, percebe que n30 era to 
integrada  sociedade quanto pensava. O contato restrito com os demais 
(que a pessoa nota pela primeira vez quando adoece ou
quando se torna deficiente~ acaba associando-se com a presenca da 
deficincia.

Se desejarmos trabalhar pela integrao de pessoas deficientes na 
sociedade maior,  muito importante perceber que uma simples tentativa de 
faz-la "voltar" 
situao anterior  deficincia muitas vezes no  suficiente.

Outro fator muito importante a ser lembrado  que a personalidade de
uma pessoa deficiente no  a mesma antes e depois da deficincia surgir 
em sua vida.
Se atuamos no sentido de colaborar para que a pessoa portadora de uma 
deficincia atinja o grau melhor possrvel de integrao na sociedade, 
devemos estar preparados para ajud-la a compreender-se melhor e a 
entender sua nova viso de vida, com a existncia das
limitaes impostas pela deficincia. E isto  especialmente verdadeiro 
com aquelas pessoas deficientes que, antes de se tornarem deficientes, 
jamais se haviam preocupado com
opes, com o significado de um bom ajustamento pessoal, e de repente 
notam a importancia de tomar uma sria deciso face a esses requisitos 
invisrveis mas muito concretos
e inseridos na vida social e familiar. Assim o processo de integrao que 
a pessoa marginalizada por uma deficiencia vive jamais poder ser 
estacionrio, pois move-se continuamente numa direo ou noutra: seja na 
direo de uma boa integrao, seja na direo
da segregao e do isolamento cada vez maiores. E todos os que trabalham 
em reabilitao ou que mantm contatos com pessoas deficientes 
influenciam esse processo, quer o
queiram, quer no.

O processo de integrao no acontece de repente ou s porque a pessoa
deficiente de um lado, e o grupo social de outro, assim o decidem; ele 
demanda tempo
para atingir sua plenitude e a plena conscincia de todas as suas 
implicaes.

Em todas as comunidades e em todos os tempos encontramos pessoas
378

que por alguma razo so segregadas, individualmente ou em grupos. Talvez 
elas mesmas
tenham procurado o isolamento, mas em muitos casos elas so simplesmente 
exclurdas
da sociedade. Algumas resignam-se  situao, outras protestam contra 
isso. H alguns
anos atrs o indiv(duo prtador de uma limitao frsica ou sensorial 
cedia  evidncia de
fa2er parte de um grupo marginalizado e marcado. Hoje a situao est 
ficando cada ve7
mais diferente entre n6s, seguindo as tendncias mundiais. As pessoas 
deficientes protestam e com muito boas razes. Elas demandam participao 
total em igualdade de condies; de sua parte a sociedade exige a 
contrapartida, ou seja, competncia pessoal e profissional, independncia 
de atuao, comunicao adequada, comportamento social aceitvel e um 
papel definido.

Nesse processo todo  muito importante que haja muita compreenso de
todos os lados, pois a integrao verdadeira s poder ocorrer como 
resultado de cooperao entre duas partes.

Por essa razo resolver os problemas apenas em parte ou s de um lado
no solucionar a questo. No  s a pessoa deficiente que deve ser 
trabalhada, mas
tambm a realidade social na qual a integrao  pretendida, para que 
todos entendam
os problemas em sua complexidade e ajudem na busca de suas solues.

Embora muitos peam ou exijam mesmo a integrao em bases equanimes, essa 
integrao  um sonho impossrvel. A sociedade no poder jamais integrar 
uma
pessoa sequer. Ela poder apenas of erecer as possibilidades de 
integrao e ficar dispontvel para tanto. O trabalho de chegar a essa 
situao integrada depender da propria pessoa deficiente.

Muitas pessoas que so marginalizadas procuram escapar a essa faceta do
processo, esquecendo-se que apenas elas podero atingir esse objetivo, 
responsabilidade
da qual jamais podero escapar.

Os progressos da medicina, os recursos tcnicos e a organizao de 
servios de reabilitao global podero tornar o processo de integrao 
bem menos difcil.

--A complexidade do desafio

Por mais paradoxal e estranho que possa parecer, certos segmentos da
sociedade em que vivemos colocam de lado o homem indesejvel e que 
consideram fora
dos padres de aceitabilidade, enquanto que, ao mesmo tempo e muitas 
vezes dentro de
uma identica rea geogrfica restrita, outros setores da mesma sociedade 
procuram montar programas de assistncia e proteo a esse mesmo homem. 
Dependendo muito do
grau de desenvolvimento da rea em que as situaes concretas acontecem 
esses pretendidos programas de atendimento podem chegar a ser bastante 
diversificados, indo desde
a mera assistencia segregativa e estigmatizadora, at modernos e 
sofisticados centros de
reabilitao ou servios de integrao social.

Que motivos poderiam ser to fortes e to ponderveis para levar uma 
sociedade toda, ou alguns de seus setores, a canalizar esforos, recursos 
financeiros, volun379

tariado e outrs programas das mais variadas naturezas para o 
desenvolvimento dessas
atividades? Que tipo de raciocrnio lyico poderia ser to convincente 
para levar autoridades a dar prioridade a programas to complexos e de 
to difcil concretizao? Estaria
a sociedade apenas investindo em reabilitao devido  sua preocupao 
com a solidariedade para com seus membros mais fracos? Estaria ela 
preocupada com a magnanimidade
qu'e precisa demonstrar para com os mais fracos?

As injustias que assolam nossa sociedade e a ameaa que elas representam 
levaram o Papa Joo Paulo ll a assim se expressar em o Paulo no seu 
famoso encontro com os operrios: "O bem comum da sociedade requer, como 
exigncia fundamental, que a sociedade seja justa.! A persistncia da 
injustia, a falta de justia, ameaa
a existncia da sociedade de dentro para fora, da mesma maneira que tudo 
quanto atenta contra a soberania ou procura impor-lhe ideologias e 
modelos, toda chantagem econmica e polrtica, toda fora das armas pode 
amea-la de fora para dentro. Esta ameaa a
partir do interior existe realmente quando, no domnio da distribuio de 
bens, se confia unicamente nas leis econmicas do crescimento e do maior 
lucro; quando os resultados do progresso tocam apenas marginalmente, ou 
no tocam em absoluto, as vastas camadas da populao; ela existe tambm, 
enquanto persiste um abismo profundo entre
uma minoria muito grande de ricos de um ado, e a maioria dos que vivem 
na necessidade e na miseria, de outro lado .

Todo aquele que trabalha em programas de promoo humana ou desenvolve 
atividades de atendimento--profissionais ou voluntrias--a grupos 
marginalizados, e basicamente todos aqueles que vivem uma situao 
concreta de marginalidade,
prefeririam que a sociedade se envolvesse nessas atividades 
principalmente devido ao reconhecimento quanto ao valor do homem--mas 
isso nem sempre ocorre, uma vez que a
sociedade dos homens mobiliza-se apenas de acordo com as circunstancias, 
os interesses
de grupos e as presses que sobre ela so feitas.

A sociedade mobiliza-se, por exemplo, diante de grandes desastres, de
acontecimentos especiais ou anormais, de catastrofes, porque esses 
esventos provocam
mal-estar generalizado, trazem desconforto, ameaam a estabilidade da 
famlia e da sociedade, pondo em risco a propriedade.

As sociedades mais evolurdas tm demonstrado uma crescente preocupao 
n30 apenas com seus membros mais problemticos ou anormais, mas tambm 
com
grupos minoritrios que acabam sendo prejudicados por atitudes 
preconceituosas. A despeito dessa preocupao crescerlte, nossa 
civilizao tem dado mostras de suas fraquezas
e de suas inconseqncias. Todos ns estamo$ acostumados e mesmo cansados 
de ouvir
palavras ponderadas e altamente recomendveis, ou ler estudos muito bem 
elaboraclos e
louvveis quanto ao valor do homem, em contraposio a atuaes de 
carter aviltante e
desumano. Tem-se a n~tida impresso de que o indivrduo  visto por 
prismas que provocam espectros distorcidos, irreconhec~veis e que no 
correspondem a um m(nimo desejvel e mesmo esperado.
380

"Talvez uma das mais evidentes debilidades da civilizao atual esteja na
inadequada visao do homem. A nossa poca , sem dvida, aquela em que 
mais se escreveu e falou sobre o homem, a poca dos humanismos e do 
antropocentrismo. Entretanto, paradoxalmente,  tambm a poca das mais 
profundas angstias do homem com respeito  sua identidade e destino, do 
rebaixamento do homem a nveis antes insuspeitados, poca de valores 
humanos espezinhados como jamais o foram antes" (Joo Paulo ll
--no Encontro com os Construtores da Sociedade Pluralista, em Salvador, 
no dia 7 de
julhode 1980).

Os programas destinados  adequada assistncia ao homem marginalizado
ou em franco processo de marginalizao, e  sua integrao  correnteza 
principal da sociedade, muito embora dispendiosos e de difcil 
concretizao, sempre foram verdadeiras e inquestionveis!demonstraes 
da existncia de uma sociedade voltada para os valores do ser humano e 
tambm da objetividade de seus propsitos. Segundo alguns autores, mede-
se o nvel de desenvolvimento e o grau de cultura de um povo pelo tipo e 
pela
qualidade de preocupao que demonstra para com os seus grupos 
minoritrios e marginalizados, ou para com os pobres.

Mas por que falarmos em "integrao social" que  to complexa e 
problemtica? No seria suficiente para a sociedade falar apenas em 
"assistncia social", em
"abrigo", em "institucionalizao"7 Por que no a separao pura e 
simples desses marginalizados ou marginalizveis, como se faz, 
institucionalmente, com todos os elementos
que podem causar perigo ou preocupao sria  sociedade7 Talvez a 
sociedade tivesse
muito mais tranqilidade se pudesse colocar, internar, segregar em 
organizaes especiais
aqueles que so rotulados como "dbeis mentais", "leprosos", 
"tuberculosos", "cancerosos", "paral ~ticos", "cegos", "surdos" e ainda 
os "maloqueiros", "favelados", "pedintes", "trombadinhas", "viciados em 
drogas" e outros mais que, sob os olhos dessa sociedade comodista 
constituem a legio dos miserveis, ou dos assim chamados "carenciados", 
"excepcionais", dos dias em que vivemos.

--A integrao social e seus porqus

Motivos para qualquer sociedade do mundo moderno e progressista valorizar 
o ser humano existem do sobejo. Muitos desses motivos, j estudados e 
arrolados,
fazem parte quase que obrigatria das Declaraes Universais de Direitos 
do Homem, da
Criana e da Mulher. Mais recentemente a Organizao das Naes Unidas, 
por meio de
sua Assemblia Geral, aprovou Declaraes dos Direitos da Pessoa com 
Retardo Mental,
da Pessoa Deficiente e outras mais. Ao que nos parece, os motivos de que 
estamos falando so mais do que suficientes para o surgimento de 
programas destinados  assistncia
adequada e  integrao social de todos os grupos existentes na 
sociedade, mesmo que
marginalizados. No h, na verdade, necessidade de mais Declaraes de 
Direitos. H,
sim, necessidade de coloc-las em prtica, em todos os quadrantes de 
qualquer nao,
pois estamos falando do homem, a respeito do qual j se falou e escreveu 
tanto e to
bem, e pelo qual to pouco tem sido feito de concreto,
Existem alguns tipos de considera*es bastante convincentes que t~m sido 
decisivas para o estabelecimento de programas objetivos das mais diversas 
naturezas,
especialmente os destinados  integrao de grupos humanos colocados  
margem da sociedade.

No entanto, para no dispersarmos muito e entrarmos em divagaes
quanto  mir~ade de facetas existentes nos grupos especiais at aqui 
indicados, limitemo-nos a considerar o problema de uma significativa 
parcela dessa populao: os chamados
"def icientes" .

Por "pessoas deficientes" entendemos todas aquelas que esto abaixo dos
padres estabelecidos pela sociedade como de "normalidade", por motivos 
f(sicos, sensoriais, organicos ou mentais, e em conseqncia dos quais 
veem-se impedidas de viver
plenamente.

Dentre as consideraes mais relevantes e que tm sido utilizadas em 
muitas partes do mundo para o estabelecimento de adequados niveis de 
prioridade e para a
montagem de programas, podemos destacar as seguintes:

al O elevado nmero de pes~oas consideradas como "deficientes"

Segundo estimativas da Organizao das Naes Unidas e de suas Agncias 
Especializadas, o problema  dos mais graves, pois, "pelo menos 10% da 
popula~ro
de qualquer pars do mundo sofre de algum tipo de incapacidade f(sica ou 
mental, sendo
das formas mais prevalescentes a limitao f(sica, a doena crnica, o 
retardo mental e as
incapacidades sensoriais".

"H mais de 400 milhes de pessoas deficientes no mundo" ("Rehabilitation 
of the Disabled--The Social and Economic Implications of Investments for 
this
Purpose", United Nations).

Infelizmente a dimenso desse problema no est vivamente impressa e
muitas das autoridades brasileiras o ignoram. A Fundao Instituto 
Brasileiro de Geografia e Estatrstica, que ao final de 1980 realizou 
nosso recenseamento geral, no incluiu
nos dados pesquisados qualquer meno ao problema discutido aqui, de 
forma que precisamos continuar a utilizar as estimativas internacionais.

Dessa forma, j que temos uma populao de mais de 120 milhes de 
pessoas, temos mais de doze milhes delas com problemas limitadores e que 
as bloqueiam
de uma plena participao na sociedade. Segundo depoimento de Norman 
Acton, Secretrio Geral rla Rehabilitation International, orgo 
consultivo da ONU, atravs de seu
Conselho Econmico e Social, "desconhecendo as reais dimenses da 
deficincia e suas
muitas conseqncias, nossos planejadores, nossas instituies e nossos 
yovernos, com
poucas excees, no tem dado ateno, prioridade ou apoio adequados a 
programas
nesse campo. Desinformados quanto  real natureza do problema, nossos 
cidados tentam ignor-lo ou evit-lo, deixando a responsabilidade nas 
mos das profisses e das instituies especializadas. Por vezes sem 
conta nossas comunidades lidam com esses pro382

blemas, escondendo as pessoas seriamente deficientes atrs do5 muro5 de 
suas casas, oU
ento, nas reas residenciais mais sofisticadas, por detr5 das cercas-
vivas dos jardins b
rosas. A idia de que nossos modernos conceitos de direitos humanos se 
estendam ~
portadores de deficiencias frsicas e mentais  hoje mais revolucionria 
do que a prprta
doutrina de Karl Marx" ("The Global Dimensions of Disability", de N. 
Acton).

Conforme indicamos no capttulo anterior, o volume de pessoas deficientes 
j  muito grande na forma como  considerado pelos rgos 
internacionais. Se adi
cionarmos a ele os grupos de pessoas que so vrtimas de outros males de 
natureza repulsiva ou de desvios de conduta, e ainda por cima somarmos 
aqueles indiv(duos que ganham insuficientemente para viver e sustentar a 
prpria famrlia, os que habitam sub-normalmente, os desajustados 
tecnolgicos, os que so privados da assistncia mdica,
os que passam fome crnica, os que no tem acesso  educao e  
previdencia social-e tambm aqueles que no conseguem livrar-se dessas 
situaes, ou seja, os deficientes
sociais, certamente que formaremos uma viso desalentadora.

b) O valor prprio do ser humano

A idia de se colocar o ser humano  margem da sociedade, sem que se 
estabelea ou sem que se possibilite um caminho de retorno, naio  
aceitvel, pois o homem tem o direito de fazer parte da correnteza 
principal da sociedade que gera e que
consome bens, pelo simples fato de ser um individuo dono de um valor 
intrinseco prprio e inalienvel.

S mesmo a ignorncia maliciosa e o barbarismo primitivo ou ultra-moderno 
de atitudes chegam a negar a importancia que o homem tem como componente
da sociedade e como ser individualizado. O ser humano pode, de fato, 
chegar a situaes
de marginalidade tal que s com um preparo extraordinrio passar a ter 
condies de
ser assimilado pela sociedade. Ningum pode se esquecer de que uma das 
caracteristicas
principais do homem  a sua perfectibilidade, ou seja, sua capacidade de 
melhorar sempre e de se superar. Alm disso, nenhum grupo social pode se 
arrogar o direito de impedir um de seus membros de atingir o mximo do 
seu potencial latente, pois o direito 
realizao pessoal  muito prprio do homem, independemente das 
diferenas individuais
de cor, sexo, idade, credo, atividades politicas ou profissionais, ou das 
prioridades governamentais.

A sociedade que assume as atitudes que so demonstrativas de sua posio 
de comiserao, de caridade piegas, de assistencialismo, monta seu 
prprio estilo de
ajuda a grupos marginalizados que  muito caracterrstico, pois apresenta 
quase que exclusivamente programas de natureza segregativa e 
assistencialista. o os orfanatos, os
asilos, os lares, as colnias especiais que se localizam longe dos 
ncleos populacionais, os
internatos das mais variadas naturezas, as casas especiais e muitos 
outros "recursos" da
comunidade.

No entanto, na medida em que a sociedade se conscientiza e raciocina
concretamente quanto ao valor do ser humano, ela tende a se aparelhar 
para atende-lo
383

adequadamente e passa a demonstrar essa preocupao pelo desenvolvimento 
de programas muito mais destinados  promoao humana,  libertao do 
homem da depend~ncia
odiosa, e  sua integrao ao grupo social,

Embora todos acreditemos no valor prprio do ser humano,  necessrio
que ~e faa uma sria parada para um exame crrtico, a fim de que passemos 
todos de
uma cmoda posio terica, muitas vezes bem verbalizada, para uma 
atuao concreta,
com o estabelecimento de programas obJetivos de valorizao do homem.

c) O valor econmieo da mo-de-obra no utilizada

Em qualquer realidade existe elevado percentual de elementos considerados 
naturalmente como no-produtivos, ou seja, crianas e pessoas em idade 
avancada
principalmente. Esse volume  aumentado por pessoas enfermas, por pessoas 
aposentadas precocemente e por contingentes populacionais marginalizados 
da fora produtiva
por muitos motivos e pretextos. As pessoas portadoras de deficiencias f 
rsicas, sensoriais,
organicas, funcionais e mentais encontram-se nessa situao, com a 
agravante de no s
deixarem de produzir, como tambm de, apesar de terem potencial para o 
trabalho, serem onus para a sociedade.

No entanto, segundo Ballester Hoys, "nenhum pars pode considerar-se
hoje suficientemente rico para desprezar a mo-de-obra do 
incapacitado"(Apud Gonalves). E, de fato, se raciocinarmos um pouco, 
verificaremos que, se dos 10~0 da populao que  vrtima de males 
incapacitantes, pelo menos 25~ estivessem de alguma forma
engajados na produo de bens e servios, no estariam apenas consumindo 
e dependendo de elementos mais produtivos, recebendo por vezes a 
contragosto auxrlios dos cofres pblicos ou da previdncia social. Em 
termos de realidade brasileira, essa mo-de-obra em potencial poderia 
chegar a mais de 3 milhes de pessoas com algum tipo de deficiencia, em 
idade adulta, cujo objetivo principal de vida  trabalhar e sair da 
desagradvel situao de dependncia e de contrnua frustrao.

O desemprego, a dependncia econmica, o sub-emprego desumanamente
remunerado e atividades muito pouco rentveis so fantasmas que rondam 
significativa
parcela da populao em nossa sociedade repleta de contrastes e 
injustias. No entanto,
quando o emprego mal remunerado, o sub-emprego ou o desemprego ocorrem 
pura e
simplesmente devido  existencia de uma deficincia ou incapacidade de 
natureza frsica
ou sensorial, ou de limitaes orgnicas e mentais, eles passam a se 
tornar muito mais injustos e inaceitveis, por melhores explicaes que 
possam ser dadas ou encontradas para
sua existncia.

Uma das principais tnicas de programas de bem-estar social com 
populaces carenciadas e/ou marginalizadas deve ser a preocupao com o 
trabalho, ao qual
elas tem direito. Os nossos governos--a nvel federal, estadual e 
municipal--tm papel
relevante nessa grande batalha de assimilao de mo-de-obra 
potencialmente produtiva,
estando nela tambm engajados, alm do poder pblico, o comrcio, a 
indstria, o mundo dos servios.
Existem especialistas no assunto que se opem  assimilaao da m30~e-obra 
das pessos deficientes em detrimento daquelas pessoas|no-deficientes 
desempregadas, como se as pessoas deficientes fossem meros cidados de 
segunda classe, com direito  sobrevivncia aps garantida a vida das 
pessoas consideradas como "normais".
Esses argumentos so, no m(nimo, "parvos", excessivamente pequenos para 
poderem ser
levados em considera30. Cremos que talvez a colocao do argumento no 
sentido inverso poderia ser menos injusta, ou seja, aproveitamento da 
mo-de-obra das pessoas deficientes prioritariamente.

--Os principios bsicos da reabilitao

Essas poderiam ser as trs pilastras bsicas para garantir o 
desenvolvimento de programaes destinadas a minorar toda essa gama de 
dificuldades, atravs da integrao social. Se realmente pensamos em 
integrar socialmente o homem marginalizado e
prejudicado por certos tipos de deficincias, temos a obrigao de nos 
inteirar de como
iremos conseguir essa integrao. Se as estimativas das organizaes 
internacionais de inquestionvel credibilidade so vlidas para a nossa 
realidade--e por que no o seriam?
--precisamos analisar com muito cuidado em que ponto estamos na 
assistncia adequada a esses grupos especiais de seres humanos que se 
veem prejudicados em todos os seus
direitos, inclusive no direito de participar.

Muito embora possamos relacionar diversos pontos de partida para o des
Ianche de programas tendentes a resolver os problemas que levam as 
pessoas portadoras
de deficincias  maryinalidade social (como, por exemplo, o 
estabelecimento de priori
dades govbrnamentais nesse campo, incluindo aes de preveno de 
impedimentos, atividades de deteco precoce das deficincias e seu 
atendimento, financiamento de pro
gramas de atendimento especializado, garantia da formao de pessoal para 
essa atuao especial, ~organizao de esquemas que garantam a 
profissionalizao de pessoas deficientes, programas educacionais 
prprios, reviso da Consolidao das Leis do Trabalho, regulamentao da 
Emenda  Constituio Federal de n. 12/78 e muitos outros),
no h dvida que o desafio maior estar sempre na interiorizao 
individual e na aplicaao de tudo aquilo que pode ser chamado de credo no 
homem:

-- O ser humano, mesmo portador de deficincia e marginalizado, tem um 
valor prprio, intrrnseco e inalienvel. Tem, portanto, direito a todo o 
respeito devido a qualquer indivrduo.

-- A dignidade do homem independe de sua inteligncia, raa, credo, 
idade, sexo, ideo
logia e integridade fsica.

-- Ele  nico, complexo e diferente|de todos os seus semelhantes; ele s 
poder ser
considerado globalmente e nunca em partes estanques.

-- O indiv~duo, mesmo que marginalizado, tem um potencial que dever ser 
enfatizado,
apoiado e fomentado, pois todo homem  perfect~vel e tem condies de se 
superar.

-- Todo ser humano faz parte de uma sociedade na qual dever ter seu 
papel; o indiv~duo
tem tambm seu valor econmico como colaborador em potencial no processo 
de
produo de bens e de servios.

- O despreparo nos programas reabilitacionais

Os problemas fsicos, psicolgicos, sociais, educacionais e de natureza
profissi~onal so aqueles que marcam a grande maioria dos casos de 
marginalizaao devido a deficiencias diversas, demandando soluoes que 
jamais podero olvidar o homem
como um todo. Ao trabalhar com a problemtica das pessoas deficientes, 
porm, a maioria de nossas organizaes, de orientao simplista ou 
puramente tecnicista (pseudo-tcnica), consideram que a grande questo 
est relacionada apenas  eliminao ou reduo quando no,  camuflagem 
--da deficiencia. Esquecem-se que o indiv~duo sem
uma perna ou sem um brao, que no pode fazer uso da viso ou da audio, 
estigmatizado por algum mal ou incapacidade, faz parte (ou deveria fazer 
parte) de grupos e deseja legitimamente seu lugar na sociedade, sentindo 
que tudo isso est fora de foco e ameaado. Esquecem-se essas entidades--
e os profissionais nelas inseridos--que esse mesmo
indiv~duo, j frustrado e magoado, pode ter desenvolvido e adotado 
hbitos inadequados, apresentando um comportamento inaceitvel.

Mais do que tudo isso, esquecem-se que esse indiv~duo deficiente poder
ter algo a dizer e a contribuir quanto  evoluo de seus problemas e das 
perspectivas para sua soluo.

Nessa infeliz somatria de atitudes de esquecimentos, de no-lembrancas, 
de estar-fazendo-um-grande-favor, de a-gente-j-faz-muito-por-voc-que--
um-coitado-e-no-reconhece - intencional ou no--percebemos uma velada e 
latente descrena no homem diminuido, feito escravo das situaes e das 
pessoas, que no tem importancia em termos sociais, cujos direitos so 
analisados e avaliados s muito contingencialmente.

As organizaes a respeito das quais comentamos acabam se esquecendo
de que a marginalidade do indiv~duo ocorre por uma srie de motivos e no 
apenas devido  existencia de uma anomalia, de uma deficiencia fsica ou 
sensorial, por exemplo.
Na verdade, a marginalidade surge no momento em que, alm da deficiencia 
apresentada, ocorrem limitaes de graus e naturezas os mais variados 
quanto  estabilidade junto
ao grupo e, de um modo todo especial, quanto 3 desvantagem sentida, 
pesada pelo prprio individuo, que  vrtima do mal, da falta, da 
carencia, da anomalia e de suas conseqencias.

--A complexidade do trabalho de equipe em reabilitaao

Conseqentemente, para a integrao social de um indiv~duo que j est
colocado  margem dos grupos principais da sociedade, a questo no se 
limita e jamais
poderia se limitar  mera soluo de um problema fsico, como no poderia 
se limitar 
simples obteno de um emprego remunerado. A integrao social ocorrer, 
de fato, desde que se obtenha o pleno envolvimento do indiv~duo atingido, 
e mais, se desenvolva
com ele um trabalho de reaquisio de valores perdidos, de sua dignidade, 
de seu amor
prprio, de seu real sentido de homem.

Trabalho de tal natureza s poder ser desenvolvido em condies 
especiais, incluindo obrigatoriamente atividades que levam  valorizao 
pessoal. Alm disso,
por menos agradvel que possa parecer,  bom tambm que essas atividades 
mostrem ao
indiv~duo a importancia que pode ter em sua vida a criao ou a mudanca 
de hbitos e
de |atitudes, o desenvolvimento de comportamento que a sociedade aceite, 
por estar de
acordo com aquilo que ela espera de cada um daqueles que dela pretende 
participar e nela ter um papel definido e digno.

Estamos caracterizando, dessa forma, um trabalho que jamais poderia ser
responsabilidade de uma pessoa s, requerendo uma atuao integrada e uma 
ampla e
permanente colaborao da comunidade. Na verdade,  somatria de esforcos 
nos quais
do-se as mos diversos profissionais, tais como mdicos, enfermeiros, 
assistentes sociais,
fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psiclogos, fonoaudilogos, 
alm de educadores e conselheiros diversos, para ajudar cada individuo a 
se definir quanto aos seus objetivos de vida, numa situao de plena 
participao na vida da comunidade.

--Os programas necessrios em nosso meio

Trabalho dessa natureza e qualidade poder ser desenvolvido em 
organizaes especificamente criadas para esse fim, ou seja, em centros 
de reabilitao, cuja organizao e manuteno no so de natureza nem 
fcil nem barata. Programas de integrao a nvel de comunidade, com o 
uso de uma tecnologia menos dispendiosa so tambm recomendados, face ao 
nosso nivel de desenvolvimento, tendo sido uma preocupao continua da 
Organizao Mundial de Sade desde os meados da dcada de setenta.

Tanto centros de reabilitao quanto programas que utilizam tecnologia
mais simples e menos cara requerem profissionais muito bem preparados 
que, alm de
seus cursos bsicos, dominam tambm uma srie de conhecimentbs adicionais 
relativos
aos procedimentos e ao embasamento filosfico do processo de reabilitao 
e da prpria
integrao social. Essa qualificao adicional e indispensvel dever ser 
sempre informada e alimentada por atitudes positivas quanto ao trabalho 
multiprofissional, sem as quais
nenhum programa poder ser produtivo e til para quem dele necessita e 
muito mais do
que isso, por atitudes de verdadeira e genuina crena no ser humano, em 
sua dignidade,
em sua perfectibilidade, e de respeito ao individuo como ele  e onde ele 
est ou pretende ficar.
CAPITULO TERCEIRO

ADEQUAAO PESSOAL--O OBJETIVO ULTIMO DA REABILITAAO
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389

Analisamos anteriormente algumas idias quanto s dificuldades que podem 
levar indiv~duos a situaes srias de marginali2ao; formulamos alguns 
princpios
bsicos sobre os quais proyramas de assistencia a esses mesmos ind~viduos 
podem basear-se; delineamos as condies fundamentais para um 
envolvimento da sociedade face a
essa problemtica; e chegamos  concluso que os servios destinados a 
dar apoio e cobertu~a de natureza integral a pessoas que vivem em 
situaes dessa natureza no podem
deixar de cobrir as necessidades essenciais do ser humano, em todos os 
sentidos.

Verificamos tambm, que praticamente todos os desvios da normalidade
podem ser considerados negativamente pelo grupo social e muitas vezes 
pela prpria pessoa atingida, especialmente quando a anomalia provocadora 
do desvio no  bem aceita
ou bem compreendida. Para especialistas em reabilitao, essa anomalia 
poder chegar a
significar uma perda, uma restrio ou um bloqueio a atividades usuais 
tais como
andar, escrever, olhar, contar e outras--ou seja, uma deficiencia; poder 
tambm significar uma desvantagem --isto , uma incapacidade.

--I mpedimento, deficincia e incapacidade

Nunca ser demais repetirmos um pouco o raciocnio a respeito dessa
questo, uma vez que no estamos aqui discutindo apenas angulos de 
sinnimos, pontos
de semantica, mas de conceituaes que so fundamentais para quem 
pretende compreender esses problemas e suas solues. Assim  que, 
verificada a anomalia, o defeito flsico ou mental, a falta de um membro 
(e tudo isso  reconhecido no Brasil
como impedimento ), temos instalado algum grau de deficincia, ou seja, o 
indiv~duo
no ouve, no fala, no v, no anda; ouve mal, fala mal, enxerga mal, 
anda mal; no leva a mo  boca, no tem controle de esfincteres. o 
conseqncias diretas da anomalia
no funcionamento da pessoa. Portanto, a pessoa deficiente  aquela que 
vive em situaes de bloqueios eventuais ou permanentes, em conseqncia 
de um mal, perda ou restrio.

Incapacidade j e algo diferente. Na verdade,  o resultado da 
deficiencia somado s conseqencias pessoais e sociais, com evidente 
prejulzo para o ser humano.

No sentido de caminhar para uma uniformidade de conceitos, muitos
profissionais tm adotado uma nomenclatura prxima quela publicada pela 
Organizao Mundial de Sade e que fni inserida num importante documento 
da Rehabilitation
International,emcooperaocomoUNICEF, ou seja, A Deficincia Infantil: 
Sua Preveno e Reabilitao .

A guisa de esclarecimento: essa nomenclatura ou classificao 
terminol6gica  aqui transcrita:

Impedimento: um dano psicolgico, fisiolgico ou anatmico, permanente ou 
transitrio, ou uma anormalidade de estrutura ou funaio .

Deficincia: qualquer restrio ou preveno na execuo de uma 
atividade, resultante de um impedimento, na forma ou dentro dos limites 
considerados como
normais para o ser humano .
Incapacidade: uma deficincia que constitui uma desvantagem para
uma determinada pessoa, porque limita ou impede o desempenho de um funo 
que 
considerada normal, dependendo da idade, sexo, fatores sociais e 
culturais, para aquel8
pessoa

O documento prossegue com esclarecimentos que sao relevantes para a
diferenciao desses conceitos, ao afirmar:

a) Um impedimento pode ser uma parte do corpo, ausente ou defeituosa; uma 
perna
amputada, uma paralisia ps-poliomielite, diminuio da capacidade 
pulmonar, diabetes, miopia, retardo mental, diminuio da capacidade 
auditiva, deformao da face,
ou outra condio anormal .

b) Deficincia como resultado de um impedimento pode consistir de 
dificuldade de
marcha, viso, fala, audiaio, escrita, de contar, de levantar-se ou de 
interessar-se em
fazer contato com o meio-ambiente .

c) A deficincia pode tornar-se uma incapacidade quando interfere com a 
execuo do
que seria normal em determinada poca de uma vida. Crianas com 
deficiencias podem tornar-se incapacitadas para cuidar de si prprias, 
relacionar-se socialmente com
outras criancas e adultos, manifestar seus pensamentos e preocupaes, 
aprender na
escola e fora delae desenvolver a capacidade para atividade economica 
independente

( A Deficincia Infantil: Sua Preveno e Reabilitao, da Rl/UNICEF). 
Pormenorizando um pouco e referindo-nos ao que foi expresso no Captulo 
Oitavo, a incapacidade ( o handicap dos ingleses e norte-americanos) 
ocorre quando existe a desvantagem --e esta acontece sempre que exista a 
somatria de trs tipos de bloqueios
ou de limitaes: os impostos pelo prprio impedimento, objetivamente 
falando; os
estabelecidos pelo grupo, ou grupos sociais, ou pela comunidade da qual a 
pessoa deficiente  oriunda; e aqueles que o prprio indiv(duo 
estabelece.

s vezes uma deficincia quase imperceptrvel pode ser transformada em

incapacidade devido basicamente as expectativas relacionadas aos 
propsitos, aos
objetivos de vida da pessoa deficiente. Um nariz extremamente 
desproporcional poder
ser uma grande vantagem a um comediante, enquanto que uma pequena 
cicatriz no rosto poder determinar o fim de carreira de uma estrela de 
cinema.
--Programas de reabilitaao global

Muitas deficincias, quando transformadas em incapacidades, levam as
pessoas atingidas  marginalidade de algum tipo, provocando muitas vezes 
situaes de
tal natureza e complexidade que apenas servios especializados podero 
possibilitar sua
reintegrao na sociedade. Tais problemas ocorrem principalmente nos 
casos de desvios
mais evidentes ou limitadores, como os desvios motores, sensoriais e 
organlcos, e muitos
de natureza neuro-psiquitrica grave.,Para situaes dessa natureza 
criou-se aquilo que
 convencionalmente conhecido como programa de reabilitao.
Esse programa destina-se a prover servios especiais e especializados 
para
possibilitar  pessoa deficiente superar dificuldades de ordem f(sica, 
psicolgica, social
e profissional, sempre atravs da prestao de servicos de uma forma 
integrada por meio
de equipes multidisciplinares. O objetivo desse trabalho  levar a pessoa 
deficiente a uma
participao mais completa em todos os aspectos de sua vida. O objetivo 
ltimo da reabili~ao  a independncia dos indivtduos, como membros da 
sociedade e no como
meros recebedores de servios, em dbito com ela, considerados sempre 
seus direitos,
seus deveres e sua dignidade.

A soluo global  necessria, pois o indivtduo, ser complexo e 
potencialmente considervel, repleto de respeitabilidade e de valor, no 
pode deixar de ser considerado quanto s suas necessidades de ajustamento 
ffsico, psicolgico, social e profissional. E todos os servios de 
reabilitao precisam invariavelmente envolver a pessoa deficiente nos 
programas de tomada de deciso que ocorrem, pois ela  o agente principal 
de
sua integrao social.

Embora seja possvel encontrarmos situaes especiais, nas quais, 
conforme o tipo de problema frsico ou mental apresentado, a tnica do 
recurso em discusso
possa ser ligeiramente alterada, basicamente o que se deve pretender em 
reabilitao 
uma adequao pessoal que poder ser obtida com o concurso de trs reas 
principais
de atuao tcnica, que podem ser identificadas como:

-- condicionamento fsico
-- ajustamento psico-social
- ajustamento  vida de trabalho

--Condicionamento f sico em reabil ita30

Qualquer recurso que seja destinado  reabilitao integral das pessoas 
deficientes, quer do frsico, quer do sensorial ou do organico, e em 
muitos casos at das vrtimas de problemas mentais e sociais, deve 
pretender levar o indiv~duo  otimizao de
seu potencial frsico. As pessoas deficientes podero ter ou no 
capacidade para se locomover para superar as dificuldades materiais de 
seu meio-ambiente, mas em um centro
de reabilitao toda a equipe de profissionais dever estar voltada para 
situaes mais
complexas e desafiadoras, pensando em termos do indivrduo lanado num 
ambiente
absolutamente hostil e competitivo onde apenas o aspecto mobilidade no 
chega a ser
satisfatrio. Deve-se pensar e programar em termos de uma movimentao 
diuturna de
casa para o trabalho, com qualquer tipo de tempo e condu io, na 
deambulao e movimentao dentro do trabalho, na volta para casa e todas 
as demais circunstancias previsrveis ou no, mas que o indivrduo 
precisar superar.

Um programa reabilitacional precisar, portanto, manter servios que
possam orientar a pessoa deficiente a superar essas dificuldades de ordem 
frsica. Conforme situaes individualmente consideradas, poderemos ter 
problemas com um ou dois
membros inferiores amputados, com membros inferiores paralisados, com 
fraqueza generalizada, com vrcios de postura, com rigidez muscular e 
muitas outras, para no citar
392

problemas e~peciais com pessoas que so cegas ou surdas, por exemplo. 
Alm disso, poderemos encontrar situaces que requeiram assistncia 
especial para membros superiores,
como nos casos de amputaes, paralisias, malformaes e outras.

Um recurso destinado 3 reabilitao dever contar com alguns 
profissionais especialmente preparados para levar a pessoa deficiente a 
superar dificuldades frsicas, ou seja, mdicos versados, experimentados 
ou formados em fisiatria,enfermeiras especializadas em reabilitao, 
fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e tcnicos em prteses e 
aparelhos ortopdicos. Conforme o tipo de pessoas atendidas no centro de 
reabilitao, poder ser indispensvel a presena de t~cnicos em 
aparelhos ortopdicos ou talvez a especialidade mdica requerida no seja 
a fisiatria, mas a relacionada a problemas
de viso ou de audio. No entanto, teremoslsempreapresena de um grupo 
de profissionais voltados para o melhor condicionamento frsico possrvel 
das pessoas em atendimento e sua independncia pessoal, pois, conforme 
foi j explicado, todo o potencial frsico da pessoa deficiente dever ser 
melhorado em muito para que ela possa enfrentar a
vida em competio que a espera fora do recurso de reabilitao.

Um centro de reabilitao cuja clientela tenha problemas de ordem frsica
dever manter seus servios de medicina frsica, de i atividades da vida 
diria, de terapia ocupacional, de fisioterapia, conforme as necessidades 
apresentadas pelas pessoas
que se submetem ao programa. As dificuldades mais srias que encontramos 
neste aspecto dos centros de reabilitao no esto tanto na 
disponibilidade de pessoal, mas
num correto conhecimento do contedo de cada rea e na sua respectiva 
coordenao.
~3ificuldades sem conta tm surgido em programas de reabilitao graas 
ao eventual despreparo dos profissionais envolvidos--e isso  aplicvel 
no s em condicionamento frsico mas em todas as reas--e o problema 
torna-se muito srio em condicionamento frsico quando vemos mdicos, 
fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais degladiando entre
si. Problemas surgem tambm quanto s responsabilidades face  
programao usualmente reconhecida como de atividades da vida diria, na 
qual por vezes chocam-se enfermeiras, fisioterapeutas e terapeutas 
ocupacionais.

--O ajustamento psico-social no processo de reabilitao

Uma das reas de reabilitao que luta com grandes dificuldades  aquela
que tem sob sua responsabilidade o desenvolvimento de atividades 
destinadas a levar a
pessoa deficiente a um bom ajustamento social e psicolgico. Envolvem-se 
aqui alguns
profissionais que atuam com uma forte interdependncia com as reas de 
condicionamento frsico e ajustamento profissional. Psiclogos, 
assistentes sociais e educadores,
principalmente, desenvolvem as suas atividades procurando dar  pessoa 
deficiente condies de iniciar seu processo reabilitacional pela exata 
compreenso de seu problema e
pela assimilao do significado que ele pode ter em sua vida; desse ponto 
o processo poder ter condies para uma evoluo satisfatria e 
equilibrada, tanto nos aspectos fsicos quanto pessoais ou profissionais.

Dentre as funes existentes num centro de reabilitao aquela assumida
pr assistentes sociais, desde que considerada com profundiciade e na sua 
globalidade, 
das mais diftceis. Cabe a esses profissionais uma atuao que no s 
elimine os eventuais
bloqueios  participao da pessoa deficiente em 
seu~programadereabilitao,mastambm que as ajude no necessrio 
ajustamento  vida em geral,  situao familiar e ao seu
grupo de referncia.

Distores na organizaao de muitos centros de reabilitaao limitam a
atuaao de assistentes sociais apenas e tao somente para resolver 
problemas que nunca
saem das dificuldades financeiras, questes ligadas a problemas de acesso 
ao centro, ou
listas de clientes que so oriundos de organizaes financiadoras ou 
conveniadas. Nesses
centros todos os problemas prticos ou que possam dificultar a pessoa 
deficiente e sua
famtlia so encaminhados s cegas ao servio social. Contatos mais 
profundos da pessoa
deficiente com o assitente social para discusso de problemas individuais 
relacionados s
dificuldades de aceitao ou de assimilao do processo nunca ocorrem e 
ficam parecendo esdrxulos. Em centros nos quais assistentes sociais 
limitam seus papis a essas funes simples e de meros providenciamentos, 
h um permanente corre-corre e os profissionais ou seus auxiliares 
envolvidos trabalham suas seis ou oito horas dirias duramente,
mas no atingem o amago de sua funo precpua. Na verdade, no chegam 
nem a arranhar a problemtica que  a prpria causa de sua insero num 
centro de reabilitao.

De um modo geral assistentes sociais envolvem-se numa avaliao social
de triagem da clientela do centro de reabilitao. Essa avaliao em 
geral contm estudo
e relato objetivo da situao familiar, do posicionamento da pessoa 
deficiente nela, da
pessoa que busca reabilitao como integrante de uma vizinhana ou de um 
crrculo de
pessoas com as quais se vincula de alguma forma, do regime de sua vida 
familiar e seu
ajustamento ao mesmo, das dificuldades e das barreiras que demonstra como 
um ser social, de sua vida extra-familiar, seja escolar, seja de ordem 
cultural.

Alm disso, assistentes sociais podem ter um papel muito relevante na 
interpretao do programa do centro de reabilitao, procurando, ao lado 
de outros profissionais, e com eles entrosados, levar a pessoa deficiente 
ao aproveitamento mximo da
oportunidade que tem, procurando afastar eventuais obstrues ao seu 
progresso, quer
elas partam do prprio cliente, quer partam de seus amigos e colegas, 
quer partam de algum profissional da equipe.

Quanto ao psiclogo, teremos uma atuao muito significativa no processo 
de triagem, pois uma avaliao psicolgica  fundamental a fim de que a 
equipe atue
com propriedade em cada caso. O valor de uma adequada avaliao 
psicolgica no pode
ser minimizado, pois  atravs dela que a equipe do centro de 
reabilitao ter condies
de no s selecionar bem os casos, como tambm de trabalhar bem com eles. 
A avaliao
preparada pelo psiclogo,d~vidament~ complementada efeita pormdicos e 
assistentes sociais, ajudar o programa de condicionamento fsico, o de 
avaliao e ajustamento ao
trabalho, o de treinamento profissional, os vrios aspectos e momentos de 
aconselhamento no centro e fora dele, e facilitar a compreenso do 
cliente e a adequao do programa conforme suas caracter~sticas e 
necessidades. Uma boa avaliao psicolgica dever conter tudo aquilo que 
pode ser conhecido comol atividadeintelectual ,anlisede
personalidade e seus traos principais, anlise dos interesses e aptides 
e a opinio do
profissional quanto a recomendaes e contra-indicaes. No pode nem 
deve ser um
mero relatrio de alta sofisticao a ser inserido no pronturio do 
cliente, mas um instrumento de utilizao prtica para toda a equlpe. 
Deve ser claro e objetivo, com indicativos seguros quanto s aspiraes 
do cliente e quanto s condies psicolgicas de natureza positiva ou 
negativa, e da orientaojdoque ele necessita para melhorar.

Durante o processo de reabilitao, o psiclogo poder estabelecer um
programa de assistncia psicolgica regular para casos que considerar 
oportunos face a
dados em seu poder desde o processo inicial de triagem, ou para casos nos 
quais pode
ocorrer uma solicitao da prpria equipe do centro de reabilitao.

Nem o assistente social nem o psiclogo podem atuar isoladamente em
seus papis na realidade de um centro de reabilitao. Hoje em dia, em 
centros de reabilitao de orientao mais moderna e objetiva, existe uma 
pequena equipe de ajustamento psico-social que trabalha com o propsito 
de colaborar com a pessoa deficiente
para que ela consiga se posicionar face s exigncias da vida em 
competio e consiga
assumir as responsabilidades correspondentes  vida independente. Essa 
atuao de alta
necessidade inclui, em diversos casos, educadores que desenvolvem 
programas de treinamento mental para tomadas de deciso ou atividades 
prticas destinadas a levar a pessoa
deficiente a um bom ajustamento pessoal, por meio da educao de base, em 
estreita
colaborao com a programao especfica do servio social e da 
psicologia.

--Ajustamento  vida de trabalho

O trabalho muito contribui para a auto-estima e confiana e para 
determinar o status da pessoa adulta. Seu papel  de fundamental 
importncia para o indivrduo obter um meio de vida satisfatrio e 
produtivo. Pode-se perceber, com muita clareza, a extenso com a qual o 
trabalho contribui para o bem-estar do ser humano, pelo
grau de ajustamento emocional, frsiw e intelectual que pode provocar, 
desde que o trabalhador esteja nele bem ajustado.

Esta observao  de um modo todo especial verdadeira com indiv~duos
portadores de deficincias frsicas ou mentais de alguma severidade, para 
os quais obstculos para uma vida til e feliz no trabalho e na vida 
social assumem proporces bem
maiores do que para outras pessoas que no tm problemas da mesma 
natureza.

Estes pontos de reflexo nos chamam a ateno para a necessidade de um
programa que nunca poder deixar de ser completo, global, onde todos os 
aspectos da
vida do ser humano precisam entrar em considerao. E em tudo aquilo que 
se relacionar, direta ou indiretamente,  vida de trabalho, a adequao 
da pessoa deficiente s exigncias de uma atuao produtiva requer um 
cuidado todo especial.

Dentre os mltiplos requisitos para um programa dessa natureza,  
fundamental que haja um aconselhamento prtico que ajude a pessoa 
deficiente a raciocinar
395

com segurana quanto s perspectivas reais do mercado de trabalho e das 
possibilidades
dela ser por ele absorvida;  necessrio que o centro de reabi litao 
estabelea u m mtodo
prprio destinado  avaliao do potencial da pessoa deficiente para a 
vida de trabalho,
avaliao essa que dever ser capaz de indicar um trabalho especfico que 
seja adequado
no s a,o f (sico prejudicado, mas s aspiraes do indivrduo. Alm 
disso, torna-se necessrio desenvolver programas de ajustamento a 
situaes de trabalho, de treinamento profissional para dar  pessoa 
deficiente armas bastante poderosas para poder enfrentar o
mundo competitivo do trabalho, e de colocao e seguimento dos casos 
colocados, para
garantia de seu sucesso.

As dificuldades usuais que um pessoa deficiente que tenha enfrentado o
processo de reabilitao poderia encontrar para se integrar na sociedade 
produtiva, deve-se acrescentar problemas relacionados a atitudes muito 
pouco adequadas que ela vai encontrar por parte de segmentos da 
sociedade. Devido a esses tipos de atitudes a reabilitao no pode 
deixar de trabalhar com o indivrduo para que ele domine quase 
perfeitamente as condies que podero facilitar sua aceitao como um 
ser normal.

Os aspectos especrficos do processo de reabilitao que se relacionam ao
ajustamento profissional esto normalmente divididos em atividades que 
so variveis,
dependendo do tipo de centro e da orientao seguida; mas de um modo 
geral essas atividades englobam:

-- avaliao e ajustamento ao trabalho
-- treinamento profissional
-- colocao e seguimento dos casos

Para muitos centros de reabilitao essas atividades podem se confundir
numa s, enquanto que certos recursos levam sua programao da rea de 
ajustamento
profissional apenas at os aspectos de avaliao e ajustamento ao 
trabalho, deixando aos
prprios reabilitandos a responsabilidade de obter e manter sua 
colocao. Teremos
oportunidade de melhor analisar estes assuntos no captulo 
especificamente dedicado a
eles.

--Hbitos, atitudes e comportamentos

Como em diversos outros tipos de empreendimentos, as tonalidades da
programao de um centro de reabilitao tambm podem divergir e acabam 
dependendo no apenas da orientao de seu elemento diretivo, mas tambm 
do tipo, da adequacidade e da profundidade de preparo de componentes de 
sua equipe de reabilitao.

Por que existem os Centros de Reabilitao~ Paralprover um programa
centralizado e individualizado para pessoas portadoras de deficincias 
que vivem em situao de marginalizao e que no conseguem sair dessa 
situao por seus prprios
meios, procurando cobrir suas necessidades bsicas em todos os sentidos, 
para com isso
lev-las a um nvel mais adequado possrvel de atuao individual e 
social.

No entanto, um centro de reabilitao s poder atingir esses prophsitos
com um trabalho muito srio e voltado para a imperiosa necessidade de 
fazer com qua pessoa deficiente seja integrvel na sociedade. Para tanto, 
 bsico que trabalhe nlto
s com o frsico ou com a preocupao de encontrar uma colocaao ou re-
colocaao em
trabalho competitivo, imas com a eventual alterao de hbitos, atitudes 
e comportamentos do indivrduo face  sua deficincia, face  famlia,i 
comunidade,ao mundoquenos
cerca em todos os momentos de nossa vida.

Assim, a questo no  apenas dar emprego a um portador de deficincia
fsica que vive da caridade pblica, mas lev-lo a lembrar valores mdios 
e aceitos pela
sociedade  qual pertence (ou pretende pertencer), que talvez ele tenha 
esquecido, perdido ou posto de lado face s circunstancias e  
necessidade de sobreviver. O sentido de
dignidade e o amor prprio devem tamb~m ser trazidos  tona por meio de 
atividades
prprias reforadas pela atuao de toda a equipe de reabilitaao. Essas 
atividades especrficas precisam ser criadas, pois elas favorecero o 
ressurgimento ou a criaao de hbitos, de atitudes e de comportamentos 
que a sociedade pode esperar de cada um daqueles
que dela pretendem fazer parte. Em poucas palavras: A pessoa deficiente 
precisa ter
meios para tornar-se competente para enfrentar as situaes que esperam 
todos aqueles que so integrados a uma vida social.

No  repetio desnecessria voltarmos a lembrar os princrpios 
fundamentais da reabilitao, pois se considerarmos, de fato, que lidamos 
com pessoas que-apesar da deficincia--tm dignidade, valor, potencial e 
direitos inalienveis,  necessrio que verifiquemos com critrio se o 
centro ou programa de reabilitao do qual participamos no s mantm 
programao que esteja de acordo com esses princpios, mas
tambm se essa programao funciona concretamente. Precisamos manter-nos 
alertas para o fato de que a reabilitao, ou o processo de integrao 
social que todos defendemos, no  apenas o resultado de um processo 
tecnolgico ou do surgimento de grupos
profissionais novos no cerlrio das profisses. Onde quer que esse 
programa se desenvolva com pujana ele  conseqncia de uma linha de 
pensamento humanista predominante, passado para a prtica. O humanismo 
prtico depende muito da atitude mental de cada um de ns em dar 
importancia ao homem, s suas faculdades, ao seu potencial,  sua
individualidade,  sua liberdade e ao seu bem-estar.

Onde quer que essa tecnologia moderna surja s como conseqncia do
progresso tcnico, da mera importao de conhecimentos sem a 
indispensvel depurao, ou do interesse puramente econmico de alguns 
profissionais, ela vacila e se descaracteriza no correr de sua 
implantao.

Ha um certo ceticismo a respeito de alguns tcnicos inseridos em 
reabilitao (sejam eles mdicos, psiclogos, enfermeiros, assistentes 
sociais, fisioterapeutas,
terapeutas ocupacionais, fonoaudilogos, conselheiros de reabilitao -- 
no importa)
que no atentam para a necessidade de se conscientizar e de assumir uma 
linha de pensamentos bsicos quanto ao homem que procuram atender e que 
nela permanecem apenas
pela remunerao ou pela inexistncia de opo para outras reas. Existe 
tambm uma
atitude de reserva para com pessoas que apenas visam rentabilidade 
econmica, nmeros, estat~sticas, grandes e modernas construes e que se 
esquecem do homem portador
de deficincia para o qual foi criado o processo de reabilita30.

Considerada a expectativa que as pessoas deficientes tm quanto  atuaao 
de profissionais que se dedicam  reabilitao--sejam eles bem preparados 
ou no-a programaao de um centro de reabilitao, completamente voltada 
para o ser humano
com deficincia, dever estabelecer como sua meta ltima a integrao 
social do indiv~duo, mas esta s poder ocorrer bem se a sociedade 
estiver conscientizada e se o homem
que nela pretende se integrar estiver bem consigo mesmo e se considerar 
como um membro til de um grupo familiar e social.

--A adequao pessoal e seu significado

Todo ser humano tem necessidades que precisam ser satisfeitas, objetivos
a serem atingidos, sonhos a serem colocados em prtica, qualquer que seja 
seu nvel intelectual, seu tipo de personalidade, seu grau de cultura. E 
todo ser humano sente necessidade de eliminar ou de minimizar 
desconfortos e dificuldades, como a fome, o cansao,
o sono, o fracasso, a insegurana, a raiva, a pobreza, a carencia. 
Precisa tambm satisfazer sua necessidade de sucesso, de afeto, de 
segurana, de repouso, de status e outras
mais.

Muitos de ns atingimos esses objetivos sern dificuldades maiores e 
sempre que isso ocorre existe uma automtica retomada de equil~brio que 
estava provisoriamente suspenso pela presena do problema. O processo de 
ajustamento ou de satisfao
de uma necessidade, no entanto, nem sempre ocorre na hora certa, 
desejada, ou desejvel; ou na forma planejada, pretendida ou sonhada. 
Surgem barreiras diversas que podem
impedir - e impedem mesmo--o indiv~duo de eliminar o problema ou de 
satisfazer a
necessidade sentida, em todo ou em parte. O que sucede, ento~ O ser 
humano utiliza-se
de vrios meios e de situaes para superar essas dificuldades e no  
sempre que os
meios empregados so os mais recomendveis ou aceit~veis. E neste ponto 
do processo
surge uma situao de bvio desequilrbrio, de desajustamento, de quebra 
de princ(pios
ticos, de infrao a normas estabelecidas.  evidente que quando os 
objetivos so atingidos por meios normalmente aceitveis a pessoa sente 
aquela esperada sensao de realizao, de al~vio, eliminando 
completamente ou reduzindo o volume de atividades destinadas a contornar 
o problema e a atingir o alvo em mira.

Psiquiatras e psicologos tm estudado abundantemente as causas que do
origem a necessidades e a frustraes para o homem em geral. Aqui estamos 
interessados
apenas e to somente naquelas advindas de motivos mais significativos que 
podem levar
uma pessoa a um programa de reabilitao: uma deficiencia frsica, 
sensorial, mental ou
organica e todos oslestigmas sociais criados contra ela.

As deficincias podem trazer ao indiv~duo tenses emocionais mltiplas,
pois so fonte constante de frustraes as mais variadas, dentro dos 
diferentes nveis de
atuaao do ser humano integrante de uma sociedade como a nossa. Todos 
ns--pessoas
com ou sem deficiencias--tomamos todos os dias diversas providncias ou 
adotamos as
398

mais variadas atitudes para satisfazer necessidades obstaculizadas por 
problemas varios
que se interpem entre nossos desejos ou necessidades e o bem almejado. 
Isso acontece
atravs daqullo que os psiquiatras e psic610gos chamam de mecanismo de 
ajustamento

a situaes. Em qualquer compendio de psicologia encontraremos 
explicaes suficientemente claras a respeito e que nos mostram que 
mecanismos de ajustamento podem ser
evidenciados por compensaes, projees, sublimaes, racionalizaes e 
diversos outros tipos de comportamentos. Esses mecanismos, que podem ser 
de fuga, de defesa, de
ansiedade, dentre muitos outros, acabam levando o indiv~duo a criar 
hbitos por vezes
inadequados, pouco aceitveis ou combatidos pelo meio em que vive ou do 
qual faz parte.

 teoricamente admissvel o enquadramento do homem a uma situao
concreta, com comportamentos considerados normais, mesmo que ele traga 
dentro de si
motivos de sobejo para lanar mo de mecanismos de ajustamento os mais 
variados. Em
reabilitao, todavia, a pessoa deficiente revela s vezes comportamentos 
inadequados,
com hbitos e atitudes quase sempre rejeitados pela sociedade.

Ao trabalhar com pessoas deficientes, voluntrios e mesmo profissionais
razoavelmente bem preparados acham que a soluao dos problemas da 
clientela de reabilitao poder encontrar-se na eliminao, na 
diminuiao ou na camuflagem pura e simples de uma deficiencia. H outros 
que consideram estar a dificuldade resolvida com a
soluo do problema do trabalho remunerado. Entretanto muitos sao os 
profissionais de
reabilitao melhor conscientizados da profundidade dos problemas que 
atingem a pessoa deficiente e que acabam se preocupando com o ser humano 
como um todo, que percebem ter o problema facetas vrias e que  
fundamental envolver o cliente para fazer
com que ele assuma a responsabilidade de fazer tudo para super-lo.

Considerando que, alm das dificuldades ocasionadas por certos tipos de
desvios ou de impedimentos, so os comportamentos inadequados e a 
manifesta incompetncia pessoal e social que levam as pessoas a situaes 
de marginalidade, a reduo do
impedimento j considerado,~ a el iminao consciente de comportamentos 
menos aceitveis e a conquista de um certo grau de competencia pessoal, 
familiar e social tendero a
gradativamente levar o individuo s faixas de normalidade.

No  sem motivo, portanto, que na programao de um centro de 
reabilitao, o enfoque deve ser sempre globalizante, apesar de se notar 
que, conforme o caso, o processo de ajustamento pessoal poder ser 
desenvolvido com diferentes enfases e
isso ningu~m pode condenar. Em um centro de reabilitaao para o trabalho, 
por exemplo, o ponto principal de concentrao de esforos poder estar 
voltado, e com muita razo, para hbitos e atitudes no ambiente de 
trabalho.
CAPTULO TERCEIRO

--Adequao pessoal--fator decisrio na integrao social

Adequao pessoal  um objetivo e  conseqente a um processo sistemtico 
de tratamento e de treinamento em reabilitao que utiliza vrios 
profissionais voltados todos para um trabalho individualizado ou em 
grupo, com o intuito de propiciar
399

s pessoas deficientes condies de compreender o completo significado da 
vida familiar
e social, o valor de seu prprio envolvimento e as exigncias da 
sociedade em termos de
vida familiar, social e profissional.

Dentro desse tipo de nfase o processo reabilitacional procurar garantir
condies para ajudar a pessoa deficiente a alterar, se necessrio, e a 
desenvolver atitudes
e comportamentos mais prprios  sua realidade e a manter uma atuao 
aceitvel nessa
rnesma realidade.

Para que a equipe que trabalha em reabilitao possa, ao desenvolver suas
atividades especficas, atingir esse objetivo,  preciso que auxilie, 
treine e ensine as pessoas deficientes a desenvolver por si mesmas:

- conhecimentos maisclarosdo processo reabilitacional e de sua 
import3ncia para atingimento do objetivo de integrao social;

-- melhor aproveitamento do tempo de que dispem no centro;

- o melhor condicionamento frsico que puderem atingir;

- niveis aceitveis de estabilidade emocional;

- habilidades sociais mnimas de acordo com seus objetivos de vida;

- confiana em seu pontencial e aspiraes realistas;

- estabelecimento ou reaquisio de valores pessoais;

- hbitos normais de trabalho, tais como comparecimento pontual e 
constante, envolvimento em todas as etapas do dia de trabalho, higiene 
pessoal e apresentao adequada ao ambiente, nvel correto de 
relacionamento no trabalho e fora dele, perseverana no trabalho em todas 
as suas fases;

- resistncia  fadiga e toler3ncia s rotinas da vida de trabalho;

- habilidade de ouvir cr~ticas consideradas menos justas, e de analis-
las sem reaes
imprprias;

-- atuao de trabalho sem atitudes e comportamentos tendentes a 
interromp-la;

- capacidade de resolver problemas por seus prprios recursos;

-- equilrbrio no reconhecimento de suas limitaes e na busca de ajuda.

Os componentes indispensveis de um programa de adequao pessoal 
desenvolvido num centro de reabilitao global, por sua equipe 
multidisciplinar de trabalho, so vrios.

Em primeiro lugar devemos procurar garantir a todos os membros da
equipe a possibilidade da observao direta para a identificao de 
problemas ocasionados por certos hbitos e atitudes das pessoas 
deficientes e o estabelecimento dos objetivos a serem perseguidos com a 
sua ampla participao. Concomitantemente a isso, 
fundamental que se trabalhe com a pessoa deficiente e sua famrlia, por 
meio de entrevistas ou de atividades de grupo, na identificao dos 
problemas mais significativos de
sua vida familiar e social. ~ muito importante tambm que seja feita uma 
clara anlis~
dos problemas que podem causar dificuldades comportamentais e uma 
definio operacional do programa destinado  sua eliminao, com a 
integral colabora30 do cliente.

Assim sendo,| bsico que todos os tcnicos disponham-se a fazer 
anotaes e observaes`sistemticas, relatando-as com objetividade.

Dentre vrios tipos de material que podero ser teis na elaboraao de
um programa dessa natureza, a equipe poder tomar como parametros 
orientadores para
tal fim, um indicativo para identificao de problemas de comportamento, 
que cada centro deve manter, com o devido critrio, para avaliao e para 
controle IV. anexos I e ll).

Um programa de adequao pessoal da pessoa deficiente, como aqui 
pretendido,  possvel com a aliana das atividades prprias de cada 
setor do centro de reabilitao com as atividades destinadas 
especificamente  melhoria dos hbitos, atitudes
e comportamentos dos clientes.

Dever tal programa ser objeto de constantes estudos por parte da equipe
que o adotar, podendo a parte relacionada  adequao pessoal ser 
aplicada e desenvolvida atravs de entrevistas, de atividades de grupo, 
de terapia de apoio e de programaes
especiais de educao de base.

A preocupao com a eventual mudana de hbitos e comportamentos
das pessoas deficientes em programas de reabilitao nunca poder ser 
isolada a de um
s profissional, ou meramente individual. Toda a equipe, durante todo o 
programa, dever voltar-se para ela.

Caber ao setor de ajustamento psico-social do centro de reabilitaaio a
coordenao de programaes dessa natureza.
Anexq I

INDICATIVO PARA IDENTIFICAO DE COMPORTAMENTOS

Nome do cliente:
Treinamento na rea de: . _
Data do inlcio: / Encaminhado por: 

Observaes deste Indicativo vlidas no dia _de de
Levantamento feito por: ,

 CONCEITOS: A = Otimo, sem problemas B = Deve ser melhorado
 C = Deve ser modif icado D = I naceitvel

CATEGOR I AS
1 Aparncia pessoal

2 Hbitos irritantes

3 Dificuldades de comunicao

4 Assiduidade s atividades

-
5 Pontualidade em geral

6 Capacidade de resolver problemas

7 Queixas pessoais

8 Vital idade nas at ividades

9 Resistencia  fadilla

10 ~Persistencia na atividade

11 Capacidade de seyui
 regu!amentos

12 Distrao durante
at!vidade

13 Reaes  mudana de
tarafas

14 Reaces a monotonia

Habilidade social com
colegas

16 Requer supervisao apos
tarefa nova

.
17 Aceitao da superviso

18 Tenso devido  proxim!dade da supervisao

19 Necessidade de ajuda da
superviso

20 Reao  crrtic ou presso da superviso

21 OrganizaO com equip
mentos e materiais

22 Comportamentos estranhos

Comentrios adicionais no verso

COMPORTAMENTO OBSERVADO
CONCEITO
Anexo ll
LISTA DE COMORTAMENTOS OU HBITOS INADEQUADOS
CATEGORIA 1. Aparncia pessoal

costuma comparecer com a pele ou cabelos sujos
tem mau hlito
excesso de gordura
mantm cabelos mal penteados
tem barba mal cuidada, para os que a usam crescida
barba mal feita ou por fazer, para os que se barbeiam
no usa desodorante quando deveria usar, devido ao odor
veste roupas manchadas
veste roupas amassadas
usa roupas rasgadas
veste roupas de tamanhos errados
veste roupas inadequadas (formais ou ao contrrio)
veste roupas necessitando de reviso ou conserto
usa roupas soltas que podem causar acidentes
usa sapatos muito largos, soltos e desamarrados
usa sapatos sujos, no-engraxados ou de m aparencia
descuidado com vesturios, com ziper aberto, bolso cheio
usa cosmticos inadequadamente
tem posturas inadequadas
mantm dentes sujos, que necessitam ser escovados
tem caspa e no cuida do assunto
tem odor caracteristico da falta de asseio corporal
costuma ter olhos sujos
mantm unhas compridas, mal cuidadas e sujas
costuma ter mos sujas
costuma ter nariz sujo

CATEGORIA 2: Hbitos irritantes

assobia sem parar ou com muita persistncia
cantarola sempre
canta continuadamente
mantm riso constante
tosse em excesso e sem necessidade
tem respirao funda e sonora
funga sempre, aparentemente, sem necessidade
Iimpa a garganta com freqncia excessiva e desagradavelmente
cospe sempre que limpa a garganta
tamborila os dedos incessantemente
tamborila sempre com ferramentas, lpis, ps, dedos e outros objetos
mastiga goma de modo desagradvel
chupa ar pelos dentes
morde a dentadura de modo muito visrvel
balana o corpo enquanto trabalha ou estuda
cost~ma coar o nariz ou o rosto
coa a barba ou o cabelo com freqncia
coa partes do corpo com freqncia e ruidosamente
vive pregando peas nos outros
chupa ar barulhentamente pelo nariz
estala os dedos com freqencia
encara as pessoas distraidamente
roe as unhas
costuma virar os olhos quando conversa
faz caretas ou palhaadas constantes e em momentos inadequados

CATEGORIA 3. Dificuldades de comunicao

gesticula demais ao falar
fala demais, sem dar chance aos outros
tem fala inaud~vel
fala fanhosamente
fala excessivamente rpido
gagueja sempre ou ocasionalmente
fala alto demais
mantm tons de voz guturais
usa palavras de baixo calao
usa grria em excesso
deixa de fazer perguntas na hora certa
vocabulrio limitado, no dando nomes certos s coisas ou pessoas
fala em linguagem extremamente errada

CATEGORIA 4. Assiduidade s atividades

falta  atividade vrias vezes sem dar a mnima justificativa
fica ausente da atividade diversos dias consecutivos
fica ausente da atividade diversos dias alternados
deixa a rea de atividade por meia hora, pedindo a colega para 
j~stificar-se diante do
supervisor ou tcnico
fica freqentemente ausente devido a motivos particulares
fica ausente duas horas para uma entrevista de meia hora
inventa pretextos para se ausentar ou manter-se ausente
falta  atividade por motivos triviais
inventa motivos graves para faltar, mentindo ao supervisor
CATEGORIA 5. Pontualidade em geral

esquece-se de marcar o carto do ponto
comea a atividade apenas depois dos outros terem comeado
conversa com os colegas cinco minutos antes de comear
habitualmente atrasado nas atividades
gasta muito tempo nos intervalos para descanso
chega atrasado aps o intervalo do almoo ou do lanche
 o ltimo a chegar aps o intervalo
demora-se muito para cbmear nova tarefa
sempre atrasado para entrevistas com pessoal de superviso
no aceita que o relgio do ponto esteja certo
procura chamar a ateno pelos constantes atrasos.

CATEGORIA 6. Capacidade de resolver problemas

indiferente a problemas que ocorrem por perto
interrompe sua atividade e espera ajuda nos mnimos problemas
grita pelo tcnico ou supervisor quando encontra dificuldades
acusa os colegas de causadores de seus problemas
persiste por mais de uma hora tentando resolver problemas sem pedir 
ajuda, qua
ajuda  indispensavel
pede ajuda imediatamente, sem experimentar resolver o problema por sua 
prpria iniciativa
fica apertando e torcendo as mos ou fica tremulo quando solicitado a 
desenvolver
trabalho de cooperao com colegas
bate com ferramentas e materiais na bancada para obter ajuda

CATEGORIA 7. Queixas pessoais

expresses de doena ou de mal-estar
queixas de dor de cabeSa
queixa-se constantemente de dores de estmago, em vrias partes do corpo, 
musculares e outras--hipocondriaco
queixa-se de caimbras, calafrios, cansao generalizado e sono
indicativos de dores frsicas, de depresso, de desconforto: franze a 
testa, manca, suspira alto, geme, tem respirao rpida, boceja
declaraes evidentes de desagrado pelas atividades que desenvolve
queixa-se do ambiente onde desenvolve suas atividades: temperatura, 
iluminao,
equipamentos, bancadas, assentos, ferramentas, barulho
verbalizaces negativas ou depreciativas por outras pessoas, tais como 
colegas, tcnicos, supervisores e outros
expresses de inconformismo ou de remorso por causa de certos 
infortnios, tais
como doenas, mortes de membros da famllia, problemas financeiros, falta 
de amigos, inadequacidade pessoal
CATEGORIA 8. Vitalidade nas atividades

move-se com lentidao e produz abaixo da mdia de produo na parte ds 
manha
 lento em atividades ou tarefas que deve desenvolver parado, numa 
bancada, mostrando maior vitalidade em trabalhos movimentados
trabalha vagarosamente quando sozinho, mas recobra velocidade quando 
colegas e supervi~ores estao envolvidos
mostra-se cansado durante todo o dia de trabalho
 contantemente aptico e indiferente ao trabalho
atua com ansiedade e grande agitao

CATEGORIA 9. Resistncia !fadiga

trabalha com maior lentido no periodo da tarde do que da manha
queixa-se de tarefas pesadas e puramente braais
produtividade evidentemente reduzida durante a sexta-feira
mostra sinais de fadiga no final do dia de atividades
pede para repousar duas ou tres vezes por dia
descansa a cabea na bancada em intervalos freqentes
sente falta de ar e reclama quando colocado em rea de trabalho mais 
pesado
mantm postura inadequada na bancada de trabalho

CATEGORIA 10.Persistncia na atividade

faz quatro ou mais intervalos por hora para fumar ou relaxar
vagueia longe da area de trabalho
fica olhando para o vazio durante o dia vrias vezes
encontra diversas desculpas para interromper o trabalho, perguntando 
coisas irrelevantes ao supervisor
Ieva duas vezes mais o tempo em tarefas que no aprecia
gasta uma boa parte de seu tempo de trabalho arrumando e re-arrumando 
materiais e
ferramentas de trabalho
tem manifestaces repentinas de velocidade por menos de meia hora e ento 
reduz a
produtividade para quase zero ao final da hora
comea novas tarefas antes de terminar as iniciadas

CATEGORIA 11.Capacidade de seguir regulamentos

tenta ou arrisca-se a operar equipamento ou 
mquinalpotencialmenteperigosos,sem
permisso e sem superviso
fuma em reas proibidas
deixa ferramentas, materiais, mquinas ou equipamentos em corredores, no 
cho ou
em locais inadequados
deixa de colocar em boa ordem reas de trabalho e no devolve aos 
respectivos lugares ferramentas e equipamentos utilizados
distrai outrosqueestotrabalhandocom o 
usodeequipamentopotencialmenteperigoso
deixa de se proteger e de vestir aventais de segurana, sapatos, culos 
de proteo e
outros
faz brincadeiras de mau gosto com colegas, pondo em perigo a si prprio e 
aos outros
por no escolher local ou momento adequado
mantm atitudes viscosas, face ao regulamento em vigor

CATEGORIA 12.Distraco durante a atividade

interrompe seu trabalho diversas vezes numa hora
olha peia janela a cada dois minutos
cumprimenta cada pessoa que passa pela sua bancada, mesmo que j o tenha 
feito
antes

~, . Ievanta os olhos do trabalho cada vez que um rudo mais alto do que 
um sussurro
ouvido
Iana olhares distraidos pela of icina ou ambiente a intervalos regulares
Ieva mais de cinco minutos para retomar uma tarefa interrompida por 
qualquer motivo
no consegue concentrar-se quando por perto haja algum do sexo oposto

CATEGO R IA 13. Reaes  mudana de tarefas

aceita com m vontade sua indicao para qualquer tipo de nova tarefa
rejeita sua indicao para alguns trabalhos mas no para outros
aceita alteraes nas tarefas, mas  necessrio uma grande quantidade de 
apoio e de
encorajamento
aceita alteraes de m vontade, mas tornar sua atuao mais lenta ou 
sabotar n
trabalho propositadamente, fazendo-o incorretamente
adapta-se com dificuldade  maior parte das alteraoes em suas tarefas
fica confuso com as rpidas e freqentes alteraes nas tarefas
mostra-se inconformado com mudanas de tarefas

CATEGORIA 14. Reaes  monotonia

recusa-se a realizar a tarefa
reluta, exigindo encorajamento ou presso da superviso
reduz significativamente a velocidade ou qualidade de trabalho
h aumento de distrao ou de falta de ateno
reclama constantemente com os colegas
h aumento de reclamaes por motivos frsicos
interrompe seu relacionamento com colegas
boceja ruidosamente e sem necessidade

CATEGORIA 15.Habilidade social com colegas
d as costas ou vai embora quando um colega se aproxima
demonstra indiferena quanto ao progresso social dos colegas (por 
exemplo, deixa de
responder a cumprimentos, deixa de responder adequadamente a perguntas 
que lhe
so dirigidas)
esquiva-se de qualquer tipo de contato social com pessoas do sexo oposto
foge de todo contato social, exceto com um ou dois indiv~duos
comporta-se de maneira exagerada ou e dado ao flerte indiscriminado com 
pessoas do
sexo oposto
nunca inicia saudaes ou conversas

. .,faz tentativas exageradas para fazer amigos ao ponto de o indiv~duo 
passar a ser considerado uma praga pelos demais
interrompe conversa dos colegas para poder juntar-se ao grupo
domina as conversas dos colegas ao ponto deles deixarem o grupo
fica freqentemente irritado com seus colegas
tenta freqentemente incitar discusses, por puro antagonismo
estimula rivalidades entre colegas atravs de mentiras ou de mexericos
ridiculariza os problemas f ~sicos dos outros
mantm uma interao com colegas muito variada devido ao prprio humor
faz constantes mexericos e  dado s fofocas

CATEGORIA 16.Superviso aps tarefa nova

dispensa a superviso de imediato aps as primeiras orientaes quanto a 
novas tarefas
precisa de considervel apoio e encorajamento para poder produzir a nvel 
aceitvel
solicita superviso e orientao de colegas para novas tarefas
necessita de repetidas explicaes com freqencia
gasta considervel tempo do supervisor na identificao de falhas
tende a ser descuidado quando trabalha com ferramentas ou com mquinas 
eltricas
chama constantemente o supervisor aps receber tarefas novas

CATEGORIA 17.Aceitao da supervisao

relaciona-se inadequadamente com todos os supervisores
trata supervisores como amigos, esperando ser tratado diferentemente dos 
demais colegas de trabalho
d a impressao de reconhecer a autoridade do supervisor, mas faz seu 
trabalho  sua
prpria maneira quando ele se ausenta
reconhece a autoridade de todos os supervisores, mas d a impresso de 
trabalhar melhor sob supervisao mais permissiva
recusa-se a aceitar superviso, exceto que venha de certo indiv~duo ou de 
certo tipo
de supervisor (por exemplo: que seja homem, ou que seja mulher, que d 
apoio, etc.)
recusa-se ruidosamente a aceitar a superviso e mantm atitudes de quem 
sabe e pode
fazer como quiser

(~ATEGORIA 18.Tenso devido  proximidade da superviso

aumenta a velocidade da atividade com preju~zo de sua qualidade
melhora a qualidade, mas diminui a velocidade
fica desajeitado, derruba materiais, aumenta volume de erros
agita-se, tremem suas mos, transpira fortemente, ruboriza-se
408

parece perder o fio da meada, esquece-se de fases do trabalho, deixa de 
seguir instru- j
es
no muda visivelmente com a proximidade da superviso, mas fica em tenso 
que poder vir a ser prejudicial
interrompe completamente a atividade quando o supervisor est prximo

CATEGORIA 19.Necessidade de ajuda da supervisao

. pede freqentemente e exageradamente a ajuda do supervisor a fim de 
obter sua
aten o
continua trabalhando em vez de pedir ajuda quando incerto se o trabalho 
est sendo
feito corretamente
chama o supervisor aos gritos, de modo a chamar sua ateno
pede ajuda aos colegas por receio de parecer pouco inteligente aos olhos 
do supervisor
interrompe o supervisor quando ele est ocupado ou conversando com algum

CATEGORIA 20. Reaeao  crtiea ou pressao da supervisao

. mostra sinais de ansiedades ou de temor, incluindo gagueira, 
transpiraao, choro,
mos tremulas
fica desajeitado, derrubando ferramentas ou materiais
demonstra resistncia ao supervisor, inclusive discutindo, queixando-se 
de problemas
fisicos, responsabilizando os colegas, as ferramentas ou o prprio local 
de trabalho,
pedindo para ser tranferido para trabalho diferente, com mau humor e 
recusando-se
a continuar no trabalho
h um decrscimo imediato na velocidade, acompanhado de aumento no nmero 
de
erros
passa a trabalhar mais rpido, sem alteraoes perceptveis
culpa companheiros de trabalho ao receber crticas da superviso

CATEGORIA 21 .Organizaao eom equipamentos e eom materiais

tem movimentos inadequados
usa inconvenientemente ou impropriamente ferramentas
deixa o local de trabalho com freqncia para obter ferramentas ou 
materiais
estoca materiais de maneira imprpria ou perigosa
mantm movimentos desnecessrios e sem utilidade
gasta muito material como resultado de seus descuidos
costuma fazer trabalho mal feito
costuma furtar material ou ferramentas

CATEGOR IA 22. Comportamentos estranhos

h mudanas freqentes e/ou extremas entre per~odos de muita e de pouca 
atividade,
com mudanas conseqentes na disposiao geral
per~odos de alta produtividade podem ser caracterizados por risadas 
inadequadas
palavreado rpido e inconseqente
barulho, movimentos rpidos e exagerads do corpo
perrodos de baixa produtividade coincidem com isolamento de contatos 
sociais, choro ou opinioes negativas a seu prprio respeito
mantm o olhar no vazio por longo per(odo de tempo, ao ponto de parecer 
totalmente|heio ao ambiente que o cerca
tem reaces inadequadas  cr~tica, com riso, choro, exploso de 
temperamento ou
completa falta de reao
fala ou ri consigo mesmo nos momentos em que parece alheiado ao que faz 
ou ao
ambiente que o cerca--incapaz de responder, quando solicitado, a informar 
a respeito do que fala ou ri
faz comentrios ou d resposta totalmente estranhos ao tpico de 
conversaao ou de
comentrio
conta estrias ou faz declaraes que so evidentemente mentirosas 
especialmente
quando o indiv~duo no parece estar alerta quanto s inverdades
faz freqentes tentativas de ouvir conversas, olhando diretamente os 
outros, olhando
por sobre ombros, devido  prpria crena de que esto falando de si, 
esto gozando
de sua pessoa ou por no gostar de sua pessoa
tem preocupaao excessiva com limpeza, ordem e higiene, demonstrada pelas 
constantes idas ao banheiro para lavar as mos
demanda excessivo tempo para ordenar seus materiais e ferramentas
faz freqentes limpezas na rea de trabalho, ou estudo, ou atuao, ao 
ponto de essas
atividades ocuparem mais tempo do que a principal

(Esta lista est parcialmente baseada em levantamento contido em 
trabalhos de Lu~s
Carlos Dutra--Ver Bibliografia)
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CAPTULO QUARTO

PREPARO PARA A VIDA DE TRAbALHO


Conforme verificamos anteriormente o programa de ajustamento profissional 
dentro do processo de reabilitaodepessoasdeficientestem 
v~irioscomponentes
que sao basicamente os seguintes.

- aconselhamento para a vida de trabalho
- avaliao e ajustamento ao trabalho
-- treinamento profissional
- colocao em emprego e seguimento

O ajustamento profissional pressupoe,  bvio, bons n ~veis de 
ajustamento psico-social e um bom condicionamento f sico.

Muito embora haja padres j reconhecidos para o funcionamento dos
componentes de um programa dessa natureza, para alguns clientes o 
processo poder significar a incluso em todas as atividades programadas, 
enquanto que para outros poder
se resumir numa simples tomada de posio quanto a problemas de ordem 
prtica de trabalho, ou talvez numa simples colocao. De acordo com 
princpios anteriormente expostos, pelo simples fato de a reabilitao 
lidar com seres humanos, sua programao dever ser adaptada s suas 
peculiaridades e dever ser flex~vel, pois cada caso considerado
individualmente apresentar caracter~sticas prprias e demandar solues 
especficas.

--Aconselhamento para a vida de trabalho

O processo de aconselhamento para a vida de trabalho  iniciado logo
aps a determinaao da elegibilidade da pessoa deficiente ao programa 
reabilitacional,
atravs de avaliaoes que cobrem os aspectos do potencial fsico e 
problemtica correspondente, de sua estrutura psicogica e de seus 
problemas sociais e familiares. O conselheiro de reabilitao dever 
fazer seu primeiro contato com a finalidade de obter da
pessoa deficiente certos tipos de informao e tambm de formar seu 
proprio ju~o
quanto aos seguintes pontos de bsica importancia em sua vida:

-- Caracter ~sticas pessoa is
-- Experincia educacional
- Experincia prof issional
-- Aptides e potencialidades
- Interesses
-- Capacidade f(sica para o trabalho
-- Capacidade mental

A finalidade desse estudol  a elaboraao de um plano concreto de atuaao 
nos diversos tipos de atividades do programa do centro de reabilitao, 
com a participaa'o consciente da pessoa portadora de deficiencia em 
busca de sua Integraco social.

Vejamos, porm, alguns importantes angulos do contedo do processo de
aconselhamento de pessoas deficientes em reabilitao, com a finalidade 
de obter o seu
melhor ajustamento profissional. E para tanto, nada melhor do que 
analisar, ponto por
ponto, os itens acima indicados.
a) Caractersticas pessoais

As caractersticas individuais e as atitudes da pessoa para com o 
trabalho
so, juntamente com a destreza manual, fatores muito importantes na 
determinao da
adequao de uma pessoa deficiente para um trabalho em competiao no 
mercado aberto.

Entretanto, o simples fato de viver ou de ter a pessoa vivido uma 
deficincia fisica, por exemplo, e as continuas dificuldades encontradas 
na vida familiar e
social, podem levar o indivduo a se sentir em uma posio desvantajosa 
no mundo do
trabalho. A mensurao desses fatores no  nada fcil e o conselheiro de 
reabilitao
dever, para tanto, basear-se em resultados dos estudos ou da atuao dos 
mdicos, dos
psiclogos, dos assistentes sociais e de diversos outros profissionais 
que atuam em reabilitao. Tcnicos bem treinados podero chegar a 
posies bem delineadas com relao a
esses problemas, devido  sua atuao diria e devido s observaes que 
sao rotineiramente feitas nas oficinas de avaliao ou de ajustamento 
profissional.

As entrevistas com o conselheiro de reabilitao poderao ser um excelente 
instrumento para a obteno de um quadro bem objetivo das caracter~sticas 
pessoais
do reabilitando, bem como de suas atitudes para com o programa do Centro 
e,  evidente, de sua futura vida profissional e social. Vale lembrar, 
todavia, que, por melhor e mais
tarimbado que o conselheiro de reabilitao seja--e esta observaao  
vlida para toda a
equipe--quando esse quadro de caracter~sticas e atitudes no for 
informado por um estudo psicolgico, familiar e social da pessoa 
deficiente, ele poder se tornar simplesmente inconclusivo e muito 
limitado.

J que as caractersticas pessoais so aquelas que mais influenciam na 
for
mao e na manuteno de hbitos, de atitudes e de comportamentos da 
pessoa, sua
observao poder dar  equipe condices para trabalhar com mais 
segurana em seu
ajustamento global.

b) Experincia educacional e profissional

A entrevista do conselheiro de reabilitao procurar fazer uma 
verdadeira anlise das experincias relacionadas  vida escolar,  forma 
como a pessoa deficiente
v o problema de sua educao e o que isso poder significar em sua vida 
futura. Ser
necessrio tambm que o profissional analise com cuidado as experincias 
de trabalho j
vividas pela pessoa sob orientao, com informaes quanto ao tipo de 
empresa em que
trabalhou, remuneraes percebidas, atribuies e requisitos para o 
desempenho de suas
funes, ambiente de trabalho, motivo de desligamento e ida para uma nova 
empresa,
quando for o caso.

Ser, portanto, de extrema valia essa anlise quanto  vida educacional e
de trabalho, tendo em vista o papel que a vivencia anterior representa 
nas atuais atitudes
do reabilitando, face a um programa de aprendi2ado. Dessa anlise podero 
ser retirados
e utilizados muitos dados e informaes de real valia para a pessoa 
portadora de uma
41 5

deficincia planejar com a equipe o desenvolvimento de seu- programa de 
atividades no
centro de reabilitao.

c) Aptides e potencialidades

A simples existncia ou a constatao de uma aptidao revela o fato I rmpi
do d~e a pessoa ser dona de uma facilidade ou de uma habilidade para 
aprender e para fazer, a qual, pela prtica ou pelo treinamento 
sistematizado, poder ser transformada em
experincia. A aptido em geral envolve mais do que a simples capacidade 
de adquirir
conhecimentos. E ela que faz desabrochar o interesse e o desejo de 
aprender algo. Ela
no promete  pessoa o sucesso, mas  indicativa de alguma facilidade na 
aquisio de
tcnicas de atuao e de habilidades no trabalho. Notemos, porm, que 
para uma aptido ser transformada numa habilidade concreta, ou seja, numa 
capacidade real efetiva,
ela depende de muitos fatores e de esforcos de seu detentor.

Assim, a capacidade j  uma habilidade ~dquirida, em geral conseqente a 
uma tendncia ou a aptides. Mas tambm uma capacidade poder no estar 
ligada a
qualquer aptido e sim a esforos contnuos, ConScienteS e bem 
determinados por parte
da pessoa. A capacidade retrata um estado razoavelmente estvel que 
precisa de constante prtica para se manter.

As aptides, normalmente classificadas em sensoriais, motoras e mentais,
manifestam-se de diversas maneiras. Assim  que as aptides SENSORIAIS 
di7em respeito aos sentidos (audio, olfato, paladar, viso e tato) . As 
MOTORAS so a velocidade, a
fora, a direo, a trao, a preciso, a destreza e diversas outras, 
enquanto as MENTAIS so a inteligncia, a imaginao, a ateno, a 
memria e outras.

~ bsico esse tipo de conhecimento para todo profissional que trabalha
em reabilitao. No entanto, o conhecimento dessas caractersticas em 
cada um dos reabilitandos depender de uma avaliao psicolgica 
completa, incluindo no s aptides e
capacidades, mas tambm seus tracos de personalidade e anlise de seus 
interesses.

d) Interesses

O intcresse pelo trabalho, por parte de uma pessoa deficiente em processo 
de reabilitao, poder ser consideravelmcntc  crltzdo com a obteno de 
certas
satisfas pessGais, ccr1scq~ientes ~. constante participao nas 
atividades a esse fim destinadas no centro de rcabilitao. C) nvrl de 
interesse aumentar conforme crescer o seu
prazer diante do trabalho, isto , alm de desenvolver bem as atividades, 
ela deve ver
essas atividades com resultados que lhcs sejlm favorveis.

O interesse no depende, todavia, "in totum", da qualidade do trabalho
executado. A pessoa deficiente podelc ter interesse pur certos lipos de 
trabalho ou atividade que no consegue executar com perfeio, devi((? a 
circunstancias vrias, inclusive
devido a uma deficincia adicional at ento no considerada.

Para alguns clientes de reabilitao, a dificuldade de ccrtos tipos de 
tarefa
41 6

significa desafio, sendo esse um motivo mais do que suficiente para 
tentar execut-la
bem, dedicando-se ao mximo a ela. O pessoal que trabalha em oficinas de 
reabilitaao
na qualidade de avaliador de atividades precisa ter condies para 
distinguir o que a pessoa deficiente faz apenas para superar um desafio e 
aquilo que ela faz por puro interesse.
A atitude para com um desafio  de extrema importancia no processo de 
integrao social, principalmente ao se analisar, em confronto, suas 
atitudes em outras atividades no
programa. Se essa atitude for adequada e equilibrada, a equipe poder 
ponderar melhor
as suas possibilidades de sucesso na vida aps terminado o processo de 
reabilitao.

O reabilitando demonstra interesse no trabalho pela sua aplicao e 
dedicao a certos tipos de funo, bem como pelo esforo intelectual e f 
isico dispendido na
obteno de melhorias ou de aperfeioar os resultados at entao 
conseguidos. Essas demonstraes de interesse ficam patenteadas de vrias 
formas, como, por exemplo, pela
vontade de dedicar mais tempo do que o indicado na tarefa, pela 
curiosidade e desejo de
aprender mais, pelo desagrado ao ter que interromper sua atividade na 
oficina, pela ordem, pelo cuidado, pela limpe~a que demonstra na bancada, 
pela atitude de permanente
colaborao com o instrutor de oficina.

O conselheiro de reabilitao deve estar informado quanto a alteraes
nos interesses expressos pela pessoa deficiente e o avaliador de oficina 
 o profissional
mais indicado para discutir o assunto, na rea de trabalho, especialmente 
se tiver um preparo especial, como o de terapeuta ocupacional, por 
exemplo.

e) Capacidadefsica

Ningum pode medir a adequacidade de uma colocaao profissional apenas 
pela habilidade que a pessoa deficiente demonstra na bancada de trabalho. 
Uma pessoa que possui a indispensvel habilidade ou capacidade de 
trabalho para certos tipos de
tarefas, pode no ser considerada boa para certa colocao no mercado 
competitivo de
trabalho se no tiver, alm da habilidade requerida, a capacidade fisica 
para o trabalho
durante o dia todo, todos os dias da semana e todas as semanas do ms. A 
mesma restrio poder ser feita se puder trabalhar apenas por limitado 
nmero de horas ou de dias.
Problemas surgem tambm em outras reas de extrema importancia, como, por 
exemplo, no que di7 respeito a comportamentos durante o trabalho, 
relacionados com colegas, com superiores e outros mais.

Quando, no setor de avaliao e de ajustamento ao trabalho, o individuo
conseguir demonstrar pela sua atuao que pode ampliar o volume de horas 
de trabalho
dirio at chegar s oito horas dirias, sem grandes dificuldades e 
gradativamente, com a
mesma produtividade, durante os cinco dias da semana, teremos um 
resultado significativo em termos de condicionamento fisico para o 
trabalho.

Dependendo da cronicidade do mal e das caracteristicas fisicas da pessoa
deficiente, somente um periodo significativo numa oficina protegida de 
trabalho poder
determinar com segurana sua resistncia  fadiga e demais desafios 
colocados pela situao de trabalho.
O conselheiro de reabilitao dever estar perfeitamente a par desses
aspectos da atuao da pessoa deficiente em processo de reabilitao, uma 
vez que s o
gradativo aumento de sua capacidade fisica, por meio de um programa 
constante de melhoria de suas condies f(sicas, supervisionado, sempre 
que vivel, por fisioterapeuta
familiarizado com problemas e caracter~sticas da deficincia,  que 
poder dar condies
dela e~frentar a vida de trabalho competitivo, aps sua passagem pelo 
centro de reabilitao.

f ) Capacidade mental

A capacidade intelectual de uma pessoa deficiente que se submete a um
programa de reabilitao global precisa ser conhecida e devidamente 
considerada por toda a equipe. De um modo especial, precisa ser continua 
e concretamente lembrada pelo
conselheiro de reabilitao, em seu programa de aconselhamento para a 
vida de trabalho,
pois  fator de preponderante importancia na determinao dos planos de 
trabalho.

Os niveis requeridos de aprendizagem para determinada rea diferem
muito e chegam mesmo a contrastar marcadamente com os niveis para reas 
afins. O conhecimento da capacidade mental de um cliente de reabilitao 
 importante tambm
para o estabeecimento de planos exeqiveis de colocao profissional. 
Certos empregos
competitivos exigem habilidades f (sicas e mentais de determinada 
nature~a, e se a pessoa
deficiente no chegar aos niveis requeridos, a colocao poder redundar 
num grande
f racasso .

Nesse sentido o conselheiro de reabilitao poder ser ajudado no s 
pelos resultados da avaliao psicolgica como tambm pelos trabalhos 
desenvolvidos no
setor especifico do centro de reabilitao, destinado a atividades de 
avaliao do potencial do indiv~duo para o trabalho e de ajustamento a 
situaes concretas de trabalho em
competio. O processo de avaliao colabora muito com todo o esquema de 
orientao
e expe muito s claras as capacidades que correspondem aos requisitos da 
colocao
competitiva pretendida.

No anexo I deste capitulo o leitor encontrar uma proposio de roteiro
para anlise de cada caso que for encaminhado para programas de 
ajustamento profissional.

Captulo sexto

Avaliao e ajustamento ao trabalho

A avaliao para a vida de trabalho, ou "avaliao profissional" como 
de um modo geral conhecida,  um recurso fundamental que todo centro de 
reabilitao
global deveria procurar manter. Essa avaliaao dever ser processada em 
unidade fisica
praticamente acoplada a todos os demais aspectos de ajustamento 
profissional do centro
de reabilitao.

Trata-se de um processo que procura ajudar os individuos a entender o
significado, o valor e as exigncias do trabalho; procura tambm 
colaborar para que atitudes e hbitos positivos sejam corroborados, 
adquiridos ou modificados e que caracter~sticas pessoais ou 
comportamentos voltem-se para a demanda diuturna do ambiente de
traba I ho .

Um programa dessa natureza no poder deixar de levar os clientes a 
desenvolver hbitos funcionais. Usa, para tanto, a atividade de trabalho-
-e no a terapia
Esse trabalho poder ser real ou simulado e atravs dele procura conhecer 
melhor o indiv~duo e fazer um pouco de explorao profissional. Uma of 
icina de reabilitaao organizada para esses fins deve ser parte 
integrante do processo de orientao de cada caso,
sendo um dos mais positivos ve~culos de capacitao do cliente, pois 
conscientiza-o praticamente do alcance das medidas e do plano de 
reabilitao.

Dentre os aspectos que fazem parte das contnuas preocupaes dos 
sistemas de avaliao e de ajustamento ao trabalho, os mais relevantes e 
qe jamais poderac
ser esquecidos so os seguintes:

 Potencial do indivduo para o trabalho

Para ter utilidade concreta no programa de reabilitao, as atividades de
avaliao e de ajustamento ao trabalho devem of erecer ao cliente de um 
centro de reab
litao toda oportunidade possvel para demonstrar o seguinte:

sua capacidade de preencher todas as condies necessrias para um 
emprego competitivo, aps o programa de reabilitao;

sua aptido para alguma das diversas oportunidades de treinamento 
oferecidas pelo
centro ou mantidas oela comunidade.

E necessrio que a of icina de avaliaao e de ajustamento ao trabalho 
esteplanejada sobre bases slidas no s quanto ao seu papel no processo 
reabilitacional,

las tambm quanto s exigncias do mercado aberto de trabalho, 
relacionando-as ao
potencial desse mesmo mercado quanto s oportunidades de assimilaao de 
pessoas deficientes. mas devidamente aualificadas.

Isso no significa nem que a oficina deve ter possibilidade de testar o
cliente de reabilitao em todas as possveis funes existentes no 
mercado de trabalho,
nem que a pessoa deficiente deva passar por todas as suas reas de 
anlise. Significa, isso
sim, que as atividades do setor devem ter aplicabilidade ampla e estar 
bem relacionadas
com as oportunidades de emprego, de tal forma que o avaliador de oficina 
possa fazer
um julgamento quanto ao potencial do reabilitando para as oportunidades 
existentes.

Um fato que precisa ser levado em consideraao num programa de avaliao 
do potencial do indiv~duo para o trabalho  que no campo das profisses 
semi-qualificadas, de um modo geral, so os esforos frsicos de mediana 
intensidade e habilidades
mais ou menos uniformes que so requeridos, no interferindo muito com o 
fato de a
pessoa ter ou no problemas organicos ou deficincias no-aparentes, como 
nos casos de
cardiopatias ou de males da respirao. O problema est localizado muito 
mais no ambiente de trabalho--calor, barulho, poeira, tenso, velocidade-
-do que no dispndio de
ener~ias fsicas para desenvolver a atividade.
419

O cliente de reabilitao deve gradativamente dominar tudo aquilo que 
comumente indicado como mnimas condies para o trabalho, uma vez que 
ele s conseguir vencer na vida profissional se chegar a essas condies 
mnimas aceitveis de qualidade, de quantidade de produo, de adequado 
relacionamento, de organizao, de
assiduidade, de pontualidade, de apresentao pessoal, de atitudes--
enfim, de bom ajustamen~o pessoal.

b~ Significado para o indivduo

A pessoa deficiente em programa de reabilitao poder beneficiar-se de
muitas maneiras de uma boa programao mantida por uma oficina de 
avaliao e de
ajustamento ao trabalho. Como acontece com a maioria das pessoas 
deficientes que nunca trabalharam, mas que almejam muito uma situao 
efetiva de atuao remunerada, o
cliente de reabilitao vive num mundo de suposies e de fantasias 
quanto s suas possibilidades, quanto s suas qualificaes e pretenses 
para o futuro profissional, logo aps
o trmino do programa. Ao passar por um organizado sistema de avaliao e 
de ajustamento ao mundo do trabalho, passar a sentir melhor a realidade 
e procurar, com 2 ajuda da equipe do centro, planejar e concretizar um 
futuro profissional realista e ating(vel.

Nesta fase do programa de reabilitaao, essa posio  conquistada no
apenas com o sucesso nesta ou naquela rea avaliada, mas tambm com os 
eventuais resultados mediocres ou de m qualidade, ao desenvolver as mais 
variadas tarefas.  interessante notarque, enquanto alguns clientes de 
reabilitao enfrentam um esquema de
avaliao na certeza de que dominam tudo, ou de que sabem tudo, 
especialmente quando se fala em hbitos de trabalho, outros tomaro parte 
do programa com reservas e
com temor de mais um fracasso, pois tem a impresso de que nada mais 
sabem e de que
no tm experincia alguma vlida. Ambos os tipos, e todos aqueles que 
so intermedirios, encontraro o seu momento de verdade, pois o sistema 
avaliativo poder deixar
muito claro que o primeiro no  to bom quanto gostaria de ser, enquanto 
que o outro
extremo pode saber e sair-se muito.melhor do que julgava.

Atividades de avaliao para o trabalho inseridas numa programaao mais
ampla de ajustamento profissional muito beneficiar as pessoas 
deficientes na gradativa
e indispensvel modificao de toda a gama de atitudes e de hbitos 
inadequados que
podero tornar-se um bloqueio e interferir seriamente em seu sucesso fora 
do Centro.

O individuo precisa absorver o verdadeiro papel do trabalhador, com todos 
os comportamentos que o grupo pode esperar dele, tais como: ser pontual, 
ser cordial, seguir orientaes, concentrar-se, manter produo sem 
reduzir qualidade e outros
mais. Com a melhoria dos hbitos de trabalho, passar o cliente de 
reabilitao a notar
pessoalmente suas possibilidades de sucesso e a ter mais confiana em seu 
futuro profissional.

Em geral, um programa de ajustamento s peculiaridades do trabalho a
mais longo prazo  indicado para casos de baixa produtividade, de atrasos 
ou ausncias
constantes, de m reao s ordens da superviso, da falta de interesse, 
de dificuldades
comportamentais, de dificuldades de relacionamento com colegas, 
principalmente.

Devendo funcionar basicamente como unidade avaliativa e, conforme as
circunstancias, como unidade destinada ao melhor ajustamento do indiv~duo 
ao trabalho,  oficina de reabilitao caber elevar as possibilidades do 
reabilitando para as atividades indicadas numa certa situao de trabalho 
competitivo. Dever sempre a oficina
levar em considerao os pontos indicados pela equipe de tcnicos durante 
todo o programa de reabilitao.

c. O processo de ajustamento  vida de trabalho

Passado pela fase de tomada de contato com o programa por meio das 
atividades que determinam a elegibilidade para o centro de reabilitao, 
dever o cliente
adulto iniciar de imediato sua programao no esquema de discusso de 
seus planos profissionais. O seu primeiro contato nessa rea ser com o 
conselheiro de reabilitaao, pois
ser ele o coordenador de sua atuaao nas atividades de avaliao, de 
ajustamento, de
treinamento profissional e de colocao, conforme foi indicado mais 
acima.

O conselheiro de reabilitao dever manter-se informado quanto ao 
condicionamentofsico e quanto  evoluao das programaeS de ajustamento 
psico-social
do reabilitando. Logo aps o primeiro contato o cliente de reabilitaao 
dever ser encaminhado e iniciar imediatamente o programa da oficina, 
para uma anlise rpida de seu
potencial para atividades de trabalho Com essa anlise inicial ser 
possivel ao conselheiro discutir com o reabilitando sua programa30 a 
prazo mais curto ou mais longo, na of icina de avaliaaio e de 
ajustannento ao trabalho.

Assim, a of icina procurar, observadas as solicitaes e as 
recomendaes
do conselheiro de reabilitao, desenvolver uma avaliao inicial mais 
pormenorizada e
logo aps proclllar trabalhar o potencial do cliente para o programa de 
ajustamento 
vida de trabalho e eventuallllellte para treinamer1to profissional de 
algum tipo, mantido
pelo centro ou pela comunidade.

No sistema de funcionamento usual de um centro de reabilitao global,
caber ao conselheiro de reabilitao -- como coordenador da rea de 
ajustamento profissional--fazer solicitaes especificas  of icina 
quanto  observaao de hbitos e comportamentos, bem como quanto  
observaao destinada a determinar o potencial do individuo para o 
trabalho, que dever ser medido pelos avaliadores de of icina atravs de
um formulrio prprio, no qual uma lista de requisitos dever deixar bem 
claro o que
deve ser observado e/ou medido, para um concomitante aproveitamento 
daquilo que poder prejudicar a pessoa em sua vida de trabalho e/ou 
social.

Ao ser concluida, uma avaliao para o trabalho poder sugerir uma ou
vrias das seguintes providncias:

-- colocao imediata do individuo
necessidade de educaao complementar
-- desejo e necessidade de um treinamento formal
-- necessidade de atividades pra crreo ou alte~ao de falhas em sua
atuao como trabalhador
-- colocao em oficina protegida de trabalho
-- outras solues a critrio da equipe do centro de reabilitao

d., A importancia dos instrumentais de avaiao

Os hbitos e atitudes do individuo num programa dessa natureza devero
ser analisados e trabalhados de forma sistemtica em todo o centro de 
reabilitao e por
toda a sua equipe. Para tanto, os avaliadores de oficina devero ter  
sua disposio um
instrumental adotado pelos mesmos, em discusso com o conselheiro de 
reabilitao.
Como anexos l l e l l l deste captulo esto transcritos instrumentais  
guisa de orientao
para a organizaao inicial de uma of icina. Apresentam aos avaliadores de 
of icina fatores
diversos a serem identificados, conceituados e trabalhados--todos eles de 
alto interesse
no mundo empresarial, ou seja, no mundo competitivo de trabalho.

O instrumental de avaliao para o trabalho e de ajustamento aos seus 
requisitos minimos--corresponde ao anexo lll--inclui todos os hbitos e 
atitudes que
devero ser observados ou trabalhados, conforme o caso podendo seu 
contedo ser confrontado com o instrumental relativo  adequao pessoal 
--desde que adotado pelo
centro--para fins de ampliao da anlise por parte do avaliador de 
oficina.

A lista apresentada no instrumental de avaliaao retrata uma tentativa de
estabelecer com clareza o contedo inicial do sistema de avaliao. A 
necessidade da
existncia de um rol de observaes  devida ao fato de o potencial de um 
reabilitando
no poder ser apenas suposto. Deve ser medido o mais acuradamente 
possvel.

O prprio conselheiro de reabilitao, ao fazer contatos com os 
dirigentes de empresas, notar a diferena nas reaes do empreqador 
entre ser procurado para
empregar uma pessoa deficiente (por ser deficiente ou coitada ou algo 
assim) e colocar
uma pessoa deficiente que j passou pela reabilitao ylobal e cujo 
desempenho observado nas reas de ajustamento profissional foi de um 
certo nivel quanto  pontualidade, 
assiduidade,  rentabilidade,  concentraao, ao interesse, ao 
relacionamento com colegas e supervisores, e tantos outros dados 
pormenorizados de atuao em situaes reais
de trabalho, que podem ser tirados do instrumental acima proposto.

"Sacar informaoes", apelar para o senso humanitrio, "inventar 
comportamentos de super-heris", usar das amizades, dar dados erroneos 
quanto a um determinado individuo ou generali7ar comentrios quanto  
maior seriedade ou produtividade
de pessoas deficientes, no corresponde nem a principios bsicos de 
atuao profissional, nem ao respeito que se deve a cada um.

--O treinamento profissional em programas de reabilitao

Muitos autores de reabilitaao consideram fundamental que a pessoa 
portadora de deficincia deva ter ao seu dispor algumas oportunidades 
para treinamento em
profisses especficas, a fim de que tenham possibilidade de lutar por 
boas condies de
trabalho, como profissionais desses ramos selecionados.

Quando as limitaes frsicas ou sensoriais assim o permitem, a pessoa 
deficiente dever procurar, no entanto, os recursos da comunidade, do 
tipo SENAI e/ou
SENAC, quando naio as prprias empresas, para tal propsito enfrentando 
sem maiores
regalias os sistemas e os padres adotados na seleo dos alunos. Deve 
ficar muito claro
que no caber jamais a centros ou programas de reabilitaao montar 
sistemas paralelos
e segregados de treinamento profissional, no s por serem segregativos, 
mas por serem
tambm inteiramente descabidos e muito dispendiosos.

A experincia de integrao da pessoa deficiente com colegas que nio
tm dificuldades ou limitaes fsicas, nos programas j existentes na 
comunidade, poder sempre ser vlida e til para adaptao ao trabalho em 
condies competitivas, ajudando inclusive a pessoa no-deficiente a se 
posicionar melhor e eventualmente a se despojar de preconceitos, revendo 
conceitos e reformulando idias.

Tal tipo de linha de orientao est perfeitamente consoante com os 
princ(pios da prpria integrao social das pessoas deficientes. Seria 
sua prpria negaao
manter instalaoes e programas segregados de treinamento profissional, 
quando o que o
processo de reabilitaao busca  a inserao do indivrduo em seu meio.

Para as pessoas deficientes que tem srias limitaes e para as que 
requerem mtodos e tcnicas especiais de ensino, poder-se- pensar no 
planejamento de cursos
especiais de treinamento profissional atravs de programas, tcnicas e 
mtodos seletivos,
considerando:

A necessidade de uma instruo mais individualizada;

-- a organi~ao de cursos profissionalizantes bem selecionados e de
maior durao.

Cursos dessa nature~a que os centros de reabilitaao possam desejar 
manter, precisaro conter exigncias adicionais devido ao fato de serem 
mais flex~veis em
alguns aspectos, a fim de que obtenham o reconhecimento oficial e para 
que tenham o
nivel requerido. Centros de reabilitao que do atendimento a 
deficientes visuais, por
exemplo, tambm podem organizar treinamentos profissionais vlidos em 
certas funes
prprias para tais casos, usando tcnicas especiais de comunicaao.

No se pode, entretanto, confundir o treinamento profissional que prepara 
profissionais para reas definidas ~como tornearia mecanica, fabricaao 
de calados,
eletrnica, eletrotcnica, artes grficas, funilaria e outras) com os 
meros adestramentos
para algumas funes existentes especialmente no grande e variado mundo 
dos servios
(tais como telefonistas, consertadores de eletro-domsticos, barbeiros, 
sapateiros, consertadores de rdio e tantos mais) que realmente podem ser 
mantidos por centros de reabi I itao.

Seja num, seja noutro caso, porm, o importante  que o cliente de 
reabilitao aprenda que ele no poder ser aceito simplesmente pelo 
diploma ou certificado
que tiver em maos, mas pela competncia como "trabalhador" que domina uma 
rea de
conhecimentos especrficos que nunca poder ser dissociada de sua atuaao 
como "pessoa humana". Seu sucesso estar muito mais na dependncia desse 
tipo de competencia
pessoa!/profissional do que de outros fatores.

--Colocao em emprego

A finalizao do processo de reabilitao total  a colocao da pessoa
deficiente em algum tipo de trabalho condizente com seu potencial, suas 
aspiraes e
seu preparo, e poder sempre ter sucesso se trabalharmos dentro dos 
princpios que se
aplicam ao emprego de pessoas no-deficientes, ou seja, dos demais 
trabalhadores.
No entanto, so freqentes os casos em que se requer a aplicao de 
mtodos especiais
na escolha de empregos para pessoas portadoras de deficincias.

Segundo a Organizao Internacional do Trabalho, dever-se- sempre levar 
em conta certos fatores particulares que tornam mais difcil a colocao 
de pessoas
deficientes reabilitadas. Deve se procurar uma colocao que corresponda, 
no s deficincias do candidato, mas s aptides, como  feito, alis, 
com boa parte de todo o contingente de mo-de-obra assimilado pelo mundo 
de trabalho. Ser necessrio considerar
no apenas sua qualificaao profissional ou suas qualidades pessoais, 
seus conhecimentos
e sua disposiao ou preferencias, mas tambm--e com cuidado todo 
especial--sua capacidade fisica para desenvolver o trabalho indicado.

No se deve esquecer que a pessoa deficiente precisa sentir que tem uma
tarefa a desenvolver e que poder faz-lo com a mesma chance de sucesso 
que seus demais colegas, sem perigo para si mesma e sem que se tema um 
agravamento de suas condioes fisicas ou suas limitaes.

Para se determinar o trabalho e as condies mais adequadas para cada
pessoa deficiente em situaes de trabalho,  necessrio que o 
conselheiro de reabilitao ou o profissional encarregado de promover sua 
colocao faa a indispensvel anlise
de diferentes postos, comparando seus requisitos s capacidades residuais 
e qualidades
da pessoa que procura emprego, ou seja, uma "anlise de trabalho".

"Anlise de trabalho  usada para vrios propsitos na empresa, e pode
ser utilizada de maneira mais significativa na rea de reabilitao 
humana e nas oficinas
de reabilitao. Seu uso maior  como um instrumento atravs do qual os 
atributos e as
exigncias do trabalho podem ser combinados com os traos comprovados dos 
clientes,
que vieram  tona e foram posteriormente desenvolvidos durante sua estada 
nas oficinas
de reabilitao. Um estudo cuidadoso dos traos caracter~sticos de um 
dado trabalho ou
trabalhos, e os traos caracteristicos verificados no cliente, resultar 
em uma colocao
melhor e mais satisfatria". ("Anlise de Trabalho (Job Analysis)", de 
Vieira).

Numa anlise de trabalho no podem deixar de constar os requisitos de
educao, aptides, interesses, traos de personalidade, exigncias 
fisicas ou mentais,
424

e tambm condies de trabalho, tais como temperatura, poluiao 
ambiental, barulho e
muitas mais.

 fundamental que sejam feitos levantamentos de ocupaes disponveis,
com o cuidado de no caracteriz-las como "funes para deficientes". 
Dentre os profissionais que atuam em reabilitao, h aqueles que 
visualizam seus clientes em funes
no-qualificadas, sedentrias e despidas de maiores envolvimentos, 
independentemente
do nvel intelectual, da formao, dos planos e aspiraes, ou mesmo do 
potencial do
individuo. Essa posio profissional no deixa de ser injusta, 
demonstrando a descrena
no processo de reabilitao. Ela  tambm encontradia entre dirigentes 
empresariais e
predomina entre selecionar~ares de pessoal.

Apesar de sempre ser trazido  baila o momento de recesso do mercado
como fator decisivo para a no-abertura da contratao de pessoas 
deficientes, encontramos nas empresas uma atitude de reserva quanto  
colocao aberta, indiscriminada de
pessoas portadoras de deficincias. H temores que elas possam se tornar 
pontos de atrito na empresa, ou que assumam atitudes inadequadas; h 
tambm uma generalizada pro
penso a julgar que pessoas deficientes tm mais possibilidade de se 
acidentar no traba
lho e que seu rendimento e produtividade sejam menores.

Muitos desses receios e tendncias so plenamente justificveis, pois ~
mundo ernpresarial tem seus canais de comunicao formais e informais e 
os sucessos ou
insucessos de pessoas deficientes no trabalho correm muito velo~mente. E 
nesse sentido
 fcil deduzir que ms experiencias em politica de pessoal--no que se 
relaciona a empreyados com deficiencias, evidentemente chegam a toclos os 
cantos.

Uma dds causas dos ever~tuais fracassos na colocaao de pessoas deficien
tes vem do fto rnuito sirnples de muitas delas no terem condioes de 
trabalho, seja devido a atitudes inaceitveis, seja devido  falta de 
condies fisicas ou psicolgicas pan
o trabalho.

A conquista dos emplegadores e de seus gerentes de pessoal, diretores de
relaes industriais, diretores de produao, chefes de seleao e outros 
elementos categorizados r-uma empresa no depender nunca de campanhas 
inconseqentes por meio de
programas de comunicao de massa, como sucedeu durante o Ano 
Internacional das
Pessoas Deficientes, atravs de um canal de televiso no Brasil todo. A 
idia "empregue
um deficiente"  pssima sob todos os angulos e traz dentro de seus 
termos a prpria
condio para seu fracasso, pois o termo "deficiente" em si j  
depreciativo e tem conotaes de insucesso, de perda, de fracasso. Se 
qualquer um de ns for um empregador
convicto de sua funo e do seu papel no mundo da produa'o de bens e 
servios, levantaria a questo: "Empregar um deficiente por que? Eu 
preciso de empregados produtivos
e no de deficientes que sempre so problemticos, cheios de 
dificuldades, revoltados, limitados, criadores de problemas" . . . Essa  
a imagem que a grande maioria tem de pessoas deficientes--at que 
provemos o contrrio por casos bem colocados e de sucesso.

O envolvimento do mundo empresarial dever se dar pela competncia
que as pessoas portadoras de alguma deficincia podero mostrar--e essa 
"competncia" elas precisam adquirir atravs de uma educao adequada em 
casa e na escola, ou
num centro de reabilitaaio que no seja apenas um simulacro de centro. 
Alis,  um requisito que  vlido e  aplicado a toda a mao-de-obra, sem 
qualquer exceo. Pessoas
incompetentes, criadoras de problemas, sem escolaridade ou preparo de 
natureza profiss~ional, sem experiencia, sem documentaao em ordem, so 
pessoas consideradas inaceitveis. auer tenham, auer no tenham qualquer 
tipo de deficiencia.

Por mais incrivel que possa nos parecer o grande problema que temos no
Brasil  a existncia de muitas entidades que trabalham em reabilitao 
e, seja devido a
dificuldades financeiras, seja devido  ~lerdadeira noo das implicaes 
desse processo
complexo de trabalho com o ser humano portador de deficiencias, no 
conseguem atingir plenamente os objetivos propostos. Elas sabem que a 
reabilitao finaliza o processo
com vida de trabalho e fazem a promoo da colocao do individuo sem te-
lo realmente oreDarado Dara tanto.

E entramos num circulo vicioso no qual o elemento mais prejudicado  o
ser humano diretamente envolvido numa colocao inadequada que ele logo 
perde; mas
a longo prazo temos prejuizos muito mais srios e lamentveis para a 
prpria causa da
reabilitao. nelo descrdito do nrocesso reabilitacional.

Assim, vislumbramos um caminho apenas: a conquista individual de cada
empresa, of erecendo a ela mo-de-obra bem preparada, conhecedora das 
implicaes da
vida de trabalho, pronta para uma atuao normal. E essa conquista 
individual funciona
muito bem--sempre funcionou, alis.

O problema da absoro da mo-de-obra de pessoas portadoras de 
deficincias  muito srio e j mereceu estudos profundos em pases mais 
evoluidos que o
nosso. Entre ns mereceria tambm um estudo critico, pois no  em duas 
ou trs pyinas de consideraces aue ele Doder ser dissecado com 
propriedade,
An~XO I
AREA DE AJUSTAMENTO PROFISSIONAL
ACONSELHAMENTO DE REABILITAO

R E LAT R 10

I DENTI F ICAO

Dados pessoais

Sexo: . . Est. Civil: Nascimento: . / - . . . /
Local/Nascimento:
FiliaAo: Pai: . .
 Me: . . ..

Localizao
E nd . residencia l:
Bairro: CEP: , Cidade: ..

Bairro: CEP:

Documentao
Cart. Identidade RG n.
Carteira de Trabalho n.
Ttulo de Eleitol n ~_
C.P. F . no ~

__ ~ 7011a e le itol dl:
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111. ORIGEM DA IDENTIDADE PROFISSIONAL

1. Profisso/ocupao dos pais ou equivalentes
a) O que os pais pensam do prprio trabalho:
b) O que o cliente pensa do trabalho dos pais: .. . . _

2. Prof isso/ocupao dos irmaos
a) O que os irmos pensam do prprio trabalho: . . .
b) O que o cliente pensa do trabalho dos irmaos:

3. Interesse profissional de amigos/colegas:

O que o cliente pensa a respeito:

4. Interesse profissional do grupo de referencia: . .

- Como o cliente se v nessas profisses/ocupaes:

5. 0 que o prprio cliente imagina vir a ser nc .

a) Trabalho de pessoas deficientes e no-deficientes:

b) Trabalho de pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto: ,

c) O papel do trabaiho na vida do homem: , . . .
I V. EXPE R I  NCI A PR OF ISS I ONA L

1 . Comentrio geral sobre vida profissional:

2. Empregos especificados
 Primeiro local de trabalho
Nome da organizaao:, . Tipo de empresa:
Endereo:

Periodo de permanncia:
Como conseguiu emprego: ,, .

 Remuneraao (ltima) . Horrio .. .. ..
 Observaes quanto a:
 Aspectos percebidos como positivos:

b) Empregos intermedirios (comentrios)
I V. E XPE R I  NC IA PROF ISSIONA L (Cont.)

c) Ultimo local de trabalho:
Nome da organizaao: .,.
Tipo de ernpresa: . .Endereo:
Funo exercida: .. ..
Per~odo de permanncia: - ..............
Como conseguiu emprego : . ............ .

Motivos de sa da:
Remunerao (ltima): _
Observaes quanto a:
-- Aspectos percebidos como positivos

- Aspectos percebidos como negativos:_

-- Relacionamento com superiores:

--- Relacionarnento cum colegas:

-- Comentrios adicionais relevantes:_

d) Informaes sobre "situaao de trabalho":

e) Siynificado do trabalho na vida do cliente:

f) Situaao atual face ao trabalho (fatos): .._ . ___

. .
IV. EXPERINCIA PROFISSIONAL (Cont. 2

g) Atividades atuais

- Como ocupa o dia da semana:

- Como ocupa o fim de semana: . .

h) Como v sua situao atual frente ao trabalho e como procura resolv-
la: , .

-- Fantasias de soluo do problema:


- Papel atribu(do ao progr. ajust. profissional:

i) Planos para a vida de trabalho, aps a reabilitao

- Como espera atingir o objetivo:

- Caso no consiga atinyi-lo:

j) Conhecimento do universo ocupacional:

I) Expectativa a respeito do futuro (global):
432

V CONSIDERAES A RESPEITO DO CASO
A) Sintese interpretativa: . ... ..- - - 
b) Planos de atuaao para os primeiros 3 meses:

. _ . . . _

- 
~I. PONTl)~ F-~PECIAIS A CONSIDERAR
433

Nome do cliente _

Vll. EVOLUO NO PROGRAMA
a) Condicionamento f(sico:

DATA ORSERVACO

.

. .

b) Ajustamento psico-social

DATA O BSE R VA O


=
c) Problemasespeciais, intercorrncias e outros

Vlll. PLANOS PARA O AJUSTAMENTO PROFISSIONAL (EVOLUO)
a) Programa de aconselhamento
DATA OBSERVAO

= .
.

,
434

Vlll. PLANOS PARA O AJUSTAMENTO PROFISSIONAL (EVOLUO) (Cont.)
b) Avaliaao para o trabalho

l

e) Colocao

 . . _

DATA O BSE R VAO

 - - 
f) Seguimento

DATA OBSERVAO

 _ _ . _ . _ _

_

IX. CONCLUSES PARA O CASO
I . I DEIilTl F ICAO

435

Anexo I I

AREA DE AJUSTAMENTO PROFISSIONAL

AVALIAO E AJUSTAMENTO AO TRABALHO

RELATRIO DE AVALIAO INICIAL

11. ASPECTOS FUNCIONAIS
Desempenho qualitativo:

Desempenho

Ritmo de execuo: _

Conhecimento/habilidade no manuseio de materiais/ferramentas:
111. ASPECTOS INTELECTIVOS
AtenOICOnCentraO: . -- -
OBSERVAES FINAIS QUANTO AO CLIENTE

PROGRAMA DE ATUAO PARA OS TRES PRIMEIROS MESES
Anexo lll

REA DE AJUSTAMENTO PROFISSIONAL

AVALIAO E AJUSTAMENTO AO TRABALHO

RELATORIO EVOLUTIVO DO CASO

Nome do cliente: . .
Avaliao inicial em

FATORES A SEREM AVALIADOS

FATORES PROFISSIONAIS

Quantidade de trabalho ............
Qualidade de trabalho .............
Aceitaao de crtica do supervisor .....
Aceitao de cr~tica de colegas .......

Organizaao da bancada de trabalho.....
Ordem e limpeza no trabalho ........
Relacionamento com colegas ........
Relacionamento com superiores ......
Trabalho em situaes dificeis ........
Assiduidade ....................
Pontual idade .....................

FATORES SOCIAIS E PESSOAIS

Comunicaao ...................

Sociabi I idade .......
Embasamento cultural .............
Atitude perante a vida como um todo . .
Atitude perante a vida de trabalho .....
Habilidades relacionadas  vida diria . . .
Apresentao pessoal ..............

onceitos simplificados: E = Excelente (sem maiores dificuldades no 
trabalho)

B = Bom (quase aceitvel, mas precisa melhorar~
R -- Regular ~demonstra algum potencial)
P = Pssimo (cliente com hbitos inaceitveis)

Outros conceitos podero ser dados por extenso, no verso deste 
instrumental, chamando
o avaliador a ateno para o mesmo ponto relevante.

OBSERVAO: Outros fatores poderao ser inseridos,  vontade, tais como:

- Persistncia na atividade de trabalho; Vitalidade no desempenho; 
Disciplina em trabalho; Cuidado com materiais e ferramentas; Perseverana 
nas atividades; Resistncia 
fadiga.
438

Anexo lll ~Cont.l

AVALIAO E AJUSTAMENTO AO TRABALHO

RELATORIO DE AVALIAO E AJUSTAMENTO AO TRABALHO~(EVOLUO;

PORMENORES QUANTO AOS FATORES AVALIADOS

Quantidade de trabalho
Total produzido comparado com o total do mesmo produto a nivel 
competitivo de
trabalho industrial

Qualidade de trabalho
Habilidade de produzir peas perfeitas e executar tarefas sem erros, 
continuamente

Aceitao de crtica de seu supervisor
Aceitao e uso construtivo quanto aos pontos criticados pelo supervisor

Aceitao de crticas de colegas
Com ou sem discusso de pontos de vista de colegas mais experientes, com 
boa vontade e sem irritao

Organizao da bancada de trabalho
Mantm seu local de trabalho com ferrarnentas no local certo, sem perigos 
para si e
para os outros, com maior produtividade

Ordem e limpeza no trabalho
No apenas na bancada propriamente dita, mas tambm nas irnediaes de 
seu local
de trabalho

Ansiedade no trabalho
No tem preocupaes e receios evidentes; est bem enquadrado e sem 
tenses aparentes

Relacionamento com superiores
Faz contatos adequados que trazem como conseqncia maior produtividade e 
melhor ambiente

Relacionamento com colegas
Estabelece bons nveis de relacionamento que acabam contribuindo para 
melhoria
do ambiente de trabalho

Trabalho em situaces difceis
Consegue desenvolver seus trabalhos sem rnaiores dificuldades, em 
condies consideradas dificeis e fora do normal

Assiduidade
Inexistncia de ausencias sem constantes justificativas

Pont~Jalidade
Marca o ponto nas entradas e sa idas, nos horarios estabelecidos
439

Comnicaao
Tem habilidade de se expressar no trabalho e fora dele

SoGiabilidade
Tem conduta aceitvel na rea de trabalho, durante os eventuais 
intervalos e em
outras situaes, tanto com colegas individualmente, quanto com grupos e 
com supervisores

Embasamento cultural
Tem nivel cultural adequado ao seu potencial e aos seus planos de 
trabalho

Atitudes perante a vida como um todo
Tem atitude positiva com relao  sua vida pessoal e familiar

Atitude perante a vida de trzbalho

Tem atitude positiva com relao ao trabalho e com relao aos seus 
planos profissionais

Habilidades relativas  vida diria
Mantm-se diria e diuturnamente bem com relao aos componentes da vida 
de
todos os dias

Apresentao pessoal
Bem penteado, bem barbeado, limpo, vestido de forma adequada para o 
trabalho.

CAPTULO QUINTO

AS EQUIPES DE REABILITAO NOS PROGRAMAS DE HOJE

Na assistncia  pessoa deficiente, atravs dos tempos, podemos 
reconhecer os diversos mtodos de trabalho, s objetivos dos programas 
estabelecidos e os procedimentos adotados para lev-la a sair da situao 
de deoendncia.

O processo de reabilitaaio, conforme hoje concebido e posto em prtica,
reconhece um mtodo apenas, um nico objetivo e apenas um tipo de 
procedimento que
so aceitveis. O mtodo precisa ser devidamente centrado na pessoa 
portadora de deficincia e com isso garantir seu tratamento como um todo 
e nunca em partes estanques.
O objetivo do processo reabilitacional, que  respeitado universalmente e 
no apenas em
nosso meio,  o de prover meios para que o individuo satisfaa suas 
necessidades, enquanto que o procedimento reconhecido adota o tratamento 
global do homem deficiente.

Para que esses pontos fundamentais possam chegar a ser concretizveis
num centro de reabilitao e para que, como resultado prtico, a pessoa 
deficiente possa
se sentir beneficiada,  bsico que exista e que de fato ocorra a reunio 
de vrios especlalistas, cada um dono de suas prprias habilidades de 
carter profissional, para formar o
anP todos conhecem como "eauiDe de rP ~hili

--O trabalho de equipe em reabilitao

O trabalho de equipe tem se tornado cada vez mais importante e 
recomendado. Ouvimos falar a respeito desse tipo de atuao em atividades 
do mundo industrial, nas ciencias, nos esforos comunitrios, na 
medicina, na educao, nos esportes, na
reabilitao e em quase toda atuao na qual as pessoas trabalham juntas 
para atingir
objetivos comuns. No  de estranhar que a expresso "trabalho de equipe" 
tenha sido
muito utilizada, prbpria ou impropriamente, para todas as experincias 
que demandam
esforcos cooDerativos.

O trabalho de equipe, na acepo correta do termo, porm, supe um
modo especial de trabalhar em conjunto, com a indispensvel integrao de 
todos os que
compem o grupo. Especialistas podem ser agrupados e podem encontrar-se 
para trabalhar juntos ou em colaborao com outros, sem que essa atuao 
resulte num trpico trahalhn de enuine.

Verifica-se que em certos tipos de atividades a atuao de equipe  to
fundamental que sua inexistncia acaba provocando seu mais contundente 
fracasso.
Uma dessas atividades  a reabilitao, que somente tornou-se vivel ap6s 
o estabelecimento de uma atuao conjunta de cincias diversas, com a 
participao de profissionais
pr-determinados que conseguem operacionalizar um programa de atividades 
indispensveis ao desenvolvimento do ser humano que  portador de uma 
deficincia frsica, senso
rial, orqanica ou mental.

A qualidade de sua atuao e os seus resultados dependem muito da ma
neira como o trabalho de equipe  desenvolvido, e esse trabalho s 
funcionar se cada
um dos profissionais reconhecer o entrelaamento existente entre seu 
campo de atuao
e os das demais Drofisses, assumindo tndas as consea~SnCiaS dessa 
Dosio. Fm rP~hilitao das pessoas portadoras de deficincias no 
existe simplesmente um tratamento frsico, ou apenas um trabalho que leve 
ao ajustamento psico-social, uma vez que, por defini30 mesmo, o 
tratamento dever ser sempre "global", somando os esforos dos diversos 
profissionais.  tambm importante notar que um trabalho de equipe, no 
campo da
reabilitao, bem coordenado e bem dosado, evita duplicaes de esforos, 
conflitos de
objetivos e a eventual omisso de um determinado tipo de atendimento pela 
suposio
de que outro profissional j o tenha providenciado.

Consideradas as finalidades da reabilitao, a equipe de profissionais 
nela
atuante jamais podera tornar-se um mero aglomerado de detentores de 
habilidades especrficas e no relacionadas entre si, uma vez que ter 
significado e valor quando conseguir
funcionar como uma unidade.  interessante notar que uma equipe de 
reabilitao 
mais complexa do que uma outra formada, por exemplo, para trabalhos de 
comunidade,
na qual um certo nmero de representantes de entidades e empreendimentos 
participa.
A equipe multiprofissional de reabilitao no seu sentido mais global  
tambm mais
ampla do que uma equipe mdica ou do que uma equipe destinada  
"reabilitao hospitalar" que  necessariamente limitada em suas 
possibilidades de bem lidar com as necessidades globais do ser humano.

A equipe destinada a centros de reabilitao global no pode deixar de
incluir todos os profissionais necessrios para cobrir tudo aquilo que 
for considerado
essencial para um bom desempenho fsico, social, psicolgico e 
profissional de cada indivrduo atendido. E pelo menos alguns dos membros 
dessa equipe de reabilitao devem
compreender e assimilar os princrpios bsicos e os conhecimentos que so 
necessrios
para ajudar uma pessoa deficiente em sua reabilitao.

Consideraes importantes quanto aos fundamentos de um trabalho 
reabilitacional podero ser levantadas outra vez, mas trs delas so 
bsicas, e no podem jamais ser esquecidas:

-- o ser humano, dinamico, perfectivel, nico e integrado, funciona  
base de interaes;

-- o processo de tratamento de reabilitao deve ser dinamico e 
suficientemente fluido para se manter na mesma velocidade de evoluo e 
progresso da pessoa em mudana, considerada sempre a globalidade de seus 
problemas, o conjunto de suas potencialidades e sua participao no 
processo;

-- para o desenvolvimento de um programa de reabilitao que d um 
atendimento 
pessoa como um todo, o trabalho de equipes multiprofissionais  
indispensvel,
uma ve7 que enseja atividades de associao de vrios profissionais que 
interagem
e que se especializam.

O trabalho de equipe, conforme deve ser aplicado num centro de 
reabilitao,  a unio prxima, democrtica e multidisciplinar, devotada 
a um propsito comum, ou seja, o tratamento mais completo possrvel do 
indivrduo portador de deficincia, com base em suas capacidades, 
necessidades e aspiraes.
446

o do centro e que os problemas por eles analisados sero sempre 
devidamente considerados.

- A liderana de uma equipe de reabilitaao

Palavra super-valorizada, tanto em reabilitao quanto em atividades as
mais variadas do mundo moderno, "equipe" tem problemas inerentes e muito 
caracterrsticos, de grande seriedade. Um desses problemas  o de sua 
"liderana".

No caso da reabilitao, j ficou claro que o trabalho de equipe  
essencial; nenhum profissional conseguiria desenvolver o processo 
sozinho. Essencial como ele
, o trabalho de equipe--seja em reabilitao, seja em outras atividades-
-historicamente surgiu e foi adotado no s em conseqncia de decises 
estabelecidas pela observao cientifica, mas por analogia com atividades 
esportivas em grupo. Pois foi essa mesma
analogia que sempre levantou a idia de que uma equipe necessita de um 
"capito", um
"Irder". E, de fato,  crena generalizada que grupos de pessoas no 
conseguem atuar e
trabalhar juntos sem que haja um l~de~, um capito, um responsvel, um 
diretor.

Qual dos profissionais poder ser o l(der de uma equipe de reabilitao?
Existem l~deres pr-determinados?

Por mais tcnicos e objetivos que os profissionais que atuam em 
reabilitao queiram ser em sua atuao, todos eles, sem qualquer 
exceo, reconhecem que h
um problema que afeta diretamente uma equipe (dentre os muitos que podem 
afet-l
que se resume nesta pergunta: "quem  o lider do grupo?"

Todos, sem exceo, concordam que  importante estabelecer claramente 
essa questo de liderana ou coordena30, e quase todos cont:ordam que 
deve haver
"um" lider. No entanto, a grande maioria dos mdicos fisiatras acha que 
no deve haver
"um" I~der, mas "o" I~der, que precisa, necessariamente, ser o mdico. 
Claro que h motivos srios para esse posicionamento, motivos esses que 
vo desde a etiologia dos males
e das deficiencias, at a urgncia de se iniciar o processo 
reabilitacional ainda no hospital. Um outro motivo muito srio que tem 
sido constantemente alegado  a evidente liderana que muitos mdicos tm 
exercido no desenvolvimento geral da reabilitao em
todo o mundo. O questionamento dessa posio de mdicos no nasce e nem 
poderia
nascer desses argumentos, evidentemente, mas de alguns outros.

H, por exemplo, profissionais de reabilitao que defendem a posio de
que o ato de coordenar o trabalho de uma equipe ou de lider-lo depende 
muito mais de
habilidade para faz-lo do que do cargo ou da formao profissional do 
lder ou do coordenador -- e h carradas de razo nesse argumento.

Outros acham que a liderana ou a coordenao de uma equipe muito
tem a ver com questes e padres de produtividade e essa misso deve 
caber a um elemento em cargo de chefia ou ligado  administrao do 
centro, que pode ser mdico ou
no. H tambm aqueles que defendem esta posio: deve coordenar a equipe 
o profissional detentor da nfase principal no programa do cliente. Se a 
nfase for mdica, o mdico coordena; se ela for profissional, o 
conselheiro de reabilitao coordena, e assim
por diante.

--A ausncia da coordenaao formal de uma equipe

H uns poucos centros no mundo que defendem uma linha de atuao
mais aberta e mais moderna, que no mantm coordenao alguma para suas 
equipes,
pois partem da pressuposio de que seus profissionais devem ser maduros 
e muito
conscientes de suas obrigaes, e com noo clara das possibilidades e 
necessidades de
entendimentos complexos e objetivos.

"Um grupo de profissionais pode, portanto, funcionar sem necessidade
de superviso ou de controle. O prprio grupo coordena ou dirige sua 
atuao e garante
os servios de que cada cliente necessita. A continuidade dos servicos 
pode ser mantida
sem qualquer direo por parte de uma pessoa especialmente designada para 
tanto. Cada
profissional continua a trabalhar com o cliente, do inicio ao fim do 
processo de reabilitao ou pelo tempo que tiver algo a contribuir. O 
tratamento no , ou no deveria ser
uma questo de passar um cliente de um especialista para outro. A 
qualquer tempo, dependendo das necessidades do cliente, qualquer um dos 
profissionais poder ter responsabilidade mais sria de prestar servios 
especiais ao cliente. O grupo em si mesmo, atravs de contatos informais 
ou reunies, bem como atravs de contatos formais, coordena
os servios e atividades destinadas ao cliente" ("Is the Team Concept 
Obsolete?", de
Patterson) .

O autor acima refere-se a certos pr-requisitos para um funcionamento
dessa natureza. Ele acha que cada membro da equipe deve aceitar o outro 
profissional
em bases de igualdade e cada profissional deve ser competente em seu 
prprio campo de
ao. A pressuposio principal para que um centro de reabilitao 
funcione bem deveria ser a de que toda a sua equipe  composta de 
profissionais bem treinados e competentes em seu campo--o que raramente 
sucede entre ns. Existem centros de reabilitao, em vrios pontos do 
Brasil, que no contam com profissional algum especializado.

Pessoalmente vivenciamos uma situao de observao e anlise de uma
equipe de reabilitao que adotava h anos a chamada "auto-coordenao"--
a equipe
em questo no dispunha de lider ou de coordenador estabelecido.  poca 
admiramo-nos da versatilidade e da naturalidade de fluncia do processo, 
bem como da objetividade das colocaes e notamos que, de fato,  um 
sistema vivel de atuao em equipe,
desde que ela conte com profissionais de boa vivncia e muito bem 
preparados quanto 
reabilitao e ao trabalho em cooperao. No cremos que seja impossvel 
tal sistema
funcionar entre ns, embora somente possa ter sucesso e a indispensvel 
continuidade
em situaes bastante especiais.

O fato concreto e irretorqu(vel  que uma equipe precisa trabalhar num
bom equil(brio, com respeito mtuo, competncia e dentro de um 
ordenamento bem estabelecido que acate todos os procedimentos bsicos 
adotados pelo centro de reabilita'o--e isso no pode ocorrer em climas 
de tenso criados por l(deres inadequados ou
impostos.
--As dificuldades principais em coordenar uma equipe

O trabalho de equipe em reabilitao no pode ser deturpado. Ele no
pode existir, por exemplo, apenas para colecionar opinies dos vrios 
profissionais, cada
um considerando o cliente sob o seu especializado angulo de viso, de 
forma esttica,
sob a coordenao de algum que acaba assumindo a funo de uma espcie 
de "arranjador-mestre", cuja obrigao  fazer todo o possivel para 
combinar esses pontos de vista,
a fim de chegar a uma concluso.

Temos em diversas partes do Brasil centros de reabilitao--ou 
organizaoes que usam esse titulo --das mais variadas naturezas e 
objetivos e que funcionam
dessa maneira. E assim o fazem, quer devido  reduzida experincia 
profissional de alguns membros de sua equipe, quer pela necessidade que 
algumas diretorias de centros
sentem de manter o poder de tomada de decises em suas mos. H tambm a 
tendncia
de algumas diretorias de manter o poder de tomada de decises nas mos de 
um s elemento, ou seja, do coordenador da equipe, que assume essa funo 
sem apresentar condies bsicas de preparo profissional, sem ter 
vivenciado outras experincias, ou sem ter
condies mnimas de liderana reconhecida pela equipe que com ele atua.

As equipes assim "comandadas" apresentam, de um modo geral, um fenmeno 
caracteristico e muito sintomtico: alguns profissionais menos 
experimentados
procuram tornar seus relatrios de um rlivel to dlto e sofisticadu, ou 
de um linguajar
tcnico ta-o rebuscado, que se torna quase impossivel qualquer tentativa 
de sumariao.
Em conseqncia, no ocorre a necessria assimilao do conteudu dos 
relatdos pela
equipe como um todo e os programas dos clientes ficam repartidos e swb-
divididos em
reas quase que estanques Dessa forma, os profissionais acabam se 
prejudicando, e muito mais do que isso, os clientes sempre levam a pior 
de todas as desvantagens, uma vez
que seus programas perdem a objetividade.

O dificil papel de coordenador de uma equipe de reabilitao no se reduz 
 simples cobrana de relatrios ou providncias, nem  re-escalao de 
clientes para
uma reavaliao. No se reduz tambm  simples funo operacional de 
facilitar o dilogo entre profissionais durante as reunies da equipe, ou 
 tentativa de levar a uma assimilao das informaes profissionais 
contidas em relatrios.

Cabe ao coordenador de uma equipe levar seus profissionais a entender- a
importancia do trabalho multiprofissional bem ajustado s capacidades da 
clientela e ao
andamento da equi,pe como um todo. Para que isso ocorra  preciso que 
eles se mantenham alertas quanto  necessidade de elaborar seus 
relatrios com propriedade, considerados os fins propostos pela 
reabilitao, sem que caiam no extremo oposto e indesejvel
de transform-los num mero relato formal, cronolgico e frio dos 
acontecimentos verificados durante o desenvolvimento do programa, por 
vezes muito pouco teis para os demais servios.

Cada profissional dever dar sua contribuio em bases quase que 
equivalentes com os demais colegas, para uma tomada de deciso ou 
julgamento de situaes,
considerada a prpria posio profissional.
A despeito das dificuldades caracter~sticas desse tipo de trabalho, o 
respeito mtuo e o interesse pelo reabilitando e por seu programa de 
atividades devem impedir, ou pelo menos refrear, irretratveis diferenas 
de opinio que podem transformar
uma reunio de equipe num verdadeiro campo de batalha, na tentativa de 
obter vitrias
de argumentao quanto a procedimentos e formas de atender a pessoa 
deficiente.

--Problemas tipicos encontrados num trabalho de equipe

Alm das dificuldades caracter~sticas relacionadas  liderana e/ou 
coordenao de equipes, dentre os problemas que podem bloquear, impedir 
ou dificultar o
desenvolvimento das atividades de reabilitao poderemos citar os 
seguintes adicionais:
a) Faita de confiana e respeito mtuos

s vezes os membros de uma equipe de reabilitao no demonstram na
prtica as necessrias doses de confiana e respeito mtuos. Outras vezes 
agem como se
considerassem seus colegas de equipe como meros defensores de um 
determinado campo
de atuao de suas reas profissionais, mantendo-se alertas para 
eventuais "invases" de
campos alheios.
b~ Excesso de importancia  prpria atuao

Para alguns profissionais o longo processo educativo e formativo em sua
rea profissional leva a uma quase certeza de que o tratamento do cliente 
precisa ser centrado em sua atuao ou em sua profisso. Isso ocorre em 
quase todas as profisses envolvidas, pois eventualmente cada 
profissional acaba dando maior nfase  sua atuao
por consider-la a mais importante para o cliente. Na verdade, em 
qualquer programa de
reabilitao, toda entrevista, teste, prova, atividade ou esforo 
profissional sistematizado
deve ser apenas um ponto de referncia a mais e nunca um trampolim para 
diagnsticos
isolados e apressados.
c) Desconhecimento das demais profisses

~ um fato sobejamente conhecido que todas as profisses envolvidas no
processo reabilitacional procuram ser dinamicas, mantendo-se em constante 
processo de
mudanas e de adaptaes. Se o profissional consciente de hoje j acha 
dificil manter-se
atualizado com os progressos de sua prpria profisso, torna-se tarefa 
sobre-humana procurar atualizar-se com relao a outras profisses. Alm 
do mais, o conhecimento que
adquirimos de um campo profissional alheio ao nosso, acaba sendo quase 
que invariavelmente superado. Tem sido notrio o engano de imaginar-se o 
servio sociai como uma
profisso que s se preocupa com providenciamentos de ordem prtica, por 
exemPlo.
Pensar que fisioterapia limita-se a massagens  tambm um erro que 
acontece. Outro engano usual  julgar que psiclogos s aplicam testes.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas o que nos importa aqui

que saibamos que em muitos centros de reabilitao essas interpretaes 
errneas ou
tendenciosas podero levar a prescries ou a recomendaes causadoras de 
mal-estar e
mesmo de agressividade. ~ fundamental que os profissionais de 
reabilitao conheam os
campos de competencia dos demais colegas, sem que essa preocupao os 
leve a excessos.
d~ Falta de atitudes de cooperaao sistemtica

Mesmo conhecendo as atribuies ou papis dos vrios profissionais 
engajados em reabilitao, existem aqueles que no adotam atitudes de 
cooperao sistemtica, tornando a atuao de todos bem mais dificil do 
que a usual. A cooperao profissional  uma condio bsica e 
insubstituivel para o bom desenvolvimento do processo.
e~ Comportamentos inadequados numa equipe

Certos tipos de comportamentos no grupo de tcnicos s vezes causam 
dificuldades ou constrangimento. Alguns profissionais mantm-se em 
competio quase
que inconsciente para um efetivo "controle" do cliente que esto 
atendendo. Alguns
outros so excessivamente rgidos ou inseguros no trabalho com outras 
pessoas. H tambm aqueles que so excessivamente permissivos no 
relacionamento com os clientes, eliminando tudo aquilo que  
caracteristico da relao profissional-cliente, causando com
isso situaes de srias dificuldades para a equipe.

De quando em quando encontramos em equipes de reabilitao profissionais 
com um estranho domnio da noo de tica funcional/pessoal/profissional. 
Conhecemos um profissional participante das reunies de equipe que 
contava aos clientes as
opinies dos diversos colegas quanto a assuntos delicados de seus casos. 
O tom de suas
informaes era de tal natureza que a equipe comeou a sentir srias 
dificuldades no desenvolvimento de seus trabalhos

f) Falta de experincia em trabalho de equipe

Devido ao fato de terem vivenciado apenas experiencias de trabalho isola
do, com pleno sucesso, mas limitadas no sentido de no ter ocorrido 
trabalho em colaborao com outras profisses, alguns profissionais, ao 
ingressar num centro de reabilitao, no se adaptam com facilidade ao 
trabalho de equipe. Experincias dessa natureza
s vezes dificultam a atuao em equipe, embora tais problemas possam ter 
sido estabelecidos mais por ignorancia do que por conhecimento das 
diversas reas de competencia
profissional. Alm da atitude prpria para trabalhar em equipe, um 
tcnico que trabalha
em reabilitao deve dominar bem seu campo de atuao e ter uma idia 
clara de quais
os aspectos de outras atividades por eles desenvolvidas que podem ser 
mais adequadamente executadas por algum profissional de outro setor ou 
rea profissional.

g~ Estilo inadequado de relatorio

Por vezes ocorrem situaes em que membros da equipe simplesmente
"relatam" em vez de "interpretar". A linguagem precisa e especializada da 
n1edicina ou
da fisioterapia, por exemplo, rivaliza-se com as expresses tcnicas do 
servio social ou
da psicologia. Alguns profissionais chegam a utilizar-se de termos apenas 
adotados em
circuitos fechados, termos esses que acabam tornando-se pouco 
compreensveis para os
que no militam no mesmo campo ou rea de atuao. E muitas vezes ocorrem 
dificuldades no termos homgrafos que podem ter, em certas profisses, 
conotaes diferentes. Muitos exemplos poderiam ser citados, mas apenas 
alguns so suficientes para alertar
quanto ao estilo inadequado de se reltar em reabilitao.

-- De um relatrio de terapia ocupacional: "Tnus normal, tendendo 
hipert~)nia do proximal para distal - MSE" . . . "Sensibilidade: testada 
bilateral p/MMSS"
. . . "Topognosia: percebeu difusamente no dorso da mo e na regio 
palmar" . . .

-- De um relatrio de fisioterapia: "Resistncia: FC antes da prova
86bpm. Aps a prova a FC no se alterou" . . . "Quadrupedia: adota a 
posio. Duplo
apoio heterolateral do MSE e MID" . . .

Claro que so relatrios que precisam ser interpretados para aqueles 
profissionais que no so versados em terminologia ou abreviaturas de 
origem mdica. Mais
do que isso, precisam ser reformulados face aos objetivos do processo de 
reabilitao.

Estudos desenvolvidos em pases mais evoluidos no atendimento a pessoas 
deficientes mostram que profissionais de formao equilibrada e seguros 
de sua prpria atuao ou de suas posies em geral, conseguem explic-
las, interpret-las e elucidar dvidas, podendo com essa atitude educar e 
ser educados.
h) Metodologia de cooperao quase inexistente

Embora prejudicial para todos os programas destinados ao atendimento
global da pessoa deficiente, nenhum grupo profissional dele participante 
tem desenvolvido qualquer tentativa vlida para o ensino de mtodos de 
cooperao com as demais
profisses. Em alguns programas de reabilitao sabe-se de tentativas e 
esforcos isolados
de alguns profissionais para fomento dessa indispensvel cooperao, mas 
a eventualidade do esforo no o torna consagrado para todas as 
situaes.
i) ~logos de prestgio e de poder e seus maleficios

Os chamados jogos de poder, do prestigio polrtico ou pessoal, e dos 
compromissos ja assumidos existe muito forte e impregna toda nossa 
realidade, e no apenas
a reabilitao. A atitudes conseqentes a esses tipos de expediente 
afetam seriamente
um trabalho que precisa ser desenvolvido em equipe. Exemplos dessas 
inadequacidades
de atuao podem ser facilmente encontrados, como por exemplo, a 
influncia indevida
de quem controla a situao financeira da entidade mantenedora do centro 
de reabilitao; a presso de certos polticos; a influencia do prest~gio 
de certos membros da equipe; o sutil e desagradvel efeito da atuao de 
profissionais que no se preocupam ou
nunca se conscientizaram quanto a certos princrpios ticos, e que com 
isso procuram
manter situaes sob seu controle indevido.
j) Ausencia de uma boa polltica de pessoal

Uma administrao ou direo de entidade que no adota uma boa polrtica 
de pessoal pode surgir--como de fato tem surgido--como um bloqueio dos 
mais
srios  atuao da equipe de reabilitao. O interesse autntico de 
profissionais, o en
volvimento constante, a vitalidade do processo, as possibilidades de 
crescimento profis452

sional, precisam ser garantidos pela direo do centro, em dosagens 
adequadas.

Em resumo, uma equipe de tcnicos de muito boa qualidade individual
num centro de reabilitao ter valor apenas limitado para as pessoas 
deficientes, a menos que, alm de dominar com segurana os princpios 
fundamentais e os propsitos da
reabilitao, os diversos tcnicos que dela tomam parte se vejam como 
membros de uma
equipe multiprofissional, onde cada um tem seu papel especrfico e um 
determinado va
Ior. Trabalhar em diversas direes, ou pior ainda, trabalhar em direes 
antagnicas,
mesmo que seja com habilidade e grande virtuosismo, no levar nunca  
reabilitao e
certamente prejudicar o reabilitando.

--A necessidade de tratamento global do cliente

Existe certa uniformidade de conceito - pelo menos em tese - e uma
concordancia generali~ada quanto  considerao da pessoa humana do 
cliente de reabilitao como um todo, como um ser global. Esse conceito  
to universalmente aceito
que trabalhos escritos em cada rea profissional, seja ela qual for, 
quase sempre indicam
a necessidade de seus profissionais ficarem alertas para os muitos 
aspectos da natureza
humana e para a necessidade de disseminao desse conhecimento s 
disciplinas componentes da equipe de reabilitao, de tal maneira que 
essa criatura diferente, repleta de
valores prprios e de aspiraes que  o ser humano poltador de uma 
deficiencia, receba
um tratarnento cada vez mais adequado e de natureza global.

Dentre as vrids res que podem ser alegadas para justificar esse tipo 
de
posicionamento, cumpre destarar aquilo que vem ocorrendo h rnui~os anos 
j na medicina: tem-se observado a psiquiatria e a medicina 
psicossomtica procu~ando levar mdicos e outros profissionais que 
colaboram direta ou indiretamente com a medicina, a re
conhecer que h problemas que afetam seus pacientes que vo muito alm de 
sua esfe~a
de competencia. Com a complexidade crescente de todas as ciencias e a 
necessidade cada
vez maior de especializaes, fica sempre mais evidente que, dentro de 
uma nica rea, o
profissional no pode trabalhar com alguns sintomas especiais, sem uma 
consulta ou troca de opinies paralelas com outros profissionais.

A expansao da reabilitao que colocou uma certa variedade de 
profissionais em contato com o outro, tem adicionado certo impulso a essa 
tendncia na Europa
e na Arnerica do Norte. Surgem nesses pases, hoje em dia, muitas 
criticas quanto  profundidade de treinamento de mdicos, por exemplo, no 
entanto, se consider-armos o volume de tempo que tem demandado o preparo 
de um profissional de medicina cle bom
nivel, ficaremos surpresos como esse treinamento tem aumentado atravs 
dos tempos e
admiraremos o esforo quase sobrr.~-humano que tem sido dado por 
estudantes de medicina que desejam levar a srio sua profisso. O campo a 
ser coberto  to vasto que o
curriculo mdico  considerado, e com verdade, indevidamente reduzido sob 
certos pontos de vista Mesmo assim, o mdico  muitas ve7es educado 
somente em parte nas muitas das crescentes especialidades e ele poder 
muito bem no estar alerta quanto  problemtica inserida na faixa de 
responsabilidade do servio social ou da psicologia.
 evidente que a profisso mdica no  a nica  qual esse tipo de obser
vao  aplicvel. A verdade  que nenhum profissional consegue entender 
outro ramo
profissional to bem quanto possa desejar.

A falta de tempo, por si s, seria um impedimento para tanto. Mas, tal 
falha d.~ compreenso, quando no for sanada por atitudes demonstrativas 
de genu~no in
teresse e confiana, acaba gerando conflitos justificaveis ou no, num 
trabalho de equipe, levando inclusive alguns profissionais a invadir a 
rea dos outros;  a temida superposio de atividades que acontece.

--Superposio de atividades em equipes de reabilitao

Os motivos que acabam provocando desentendimentos e conflitos em
equipes de reabilitao no sao apenas conseqentes  parcial ignorancia 
das funes e
das responsabilidades de cada um dos profissionais. Decorrem igualmente 
da falta de clareza na definio dessas funes, somada  eventual 
tendncia de algum profissional "resolver problemas prticos" pela 
simples aplicao da ttica do bom senso (subjetivo, claro) ou pela 
ampliaao das funes em seu campo de trabalho.

Essa tendencia surge devido a problemas provocados por certos 
profissionais omissos em suas obrigaes para com o cliente; surge tambm 
devido ao desejo de
colaborar de um modo mais rpido, menos burocratizado, mais efetivo. A 
conseqencia
indesejvel da ampliao indevida de funes  a ocorrencia de 
superposies e a eventual desorientao do reabilitando.

Apesar de reconhecer que todas as outras profisses so importantes, o
que ocorre com esses profissionais que avanam nas funes alheias  que 
eles acham
que as necessidades mais relevantes do cliente esto infalivelmente 
dentro de seu campo
de ao e todas as demais profisses acabam consideradas como 
"auxiliares" de sua prpria. Desta forma, um profissional que trabalha 
dentro dessa linha de raciocnio acaba
tentando usurpar a funo de outro, minimizando sua importancia face ao 
elemento
mais interessado que  a pessoa deficiente em busca de uma soluo para 
seus problemas. Essa verdadeira invaso  custa do cliente bloqueia o 
trabalho de reabilitao, pois
o reabilitando fica inseguro em sua definio de vida de trabalho, por 
exemplo, se um
profissional qualquer que no o conselheiro de reabilitao lhe diz: 
"Voc poder se tornar um joalheiro ou consertador de relgios" . . . O 
mal feito nesses casos poder ser
considervel, dependendo do tipo de profissional que tiver feito o 
infeliz comentrio.
Opinies mesmo que veladas em forma de pergunta, ou expressas devido a 
uma atividade
qualquer, podem ser avidamente tomadas, dificultando a elaborao de 
planos mais
objetivos e concretizveis relacionados  vida de trabalho.

Evitar problemas dessa natureza  muito importante e a cooperao para
esse fim poder ser intensificada no s pelo respeito sistemtico aos 
limites de atuao
de qualquer das profisses envolvidas, como tambm pela ao integrada em 
um plano
mais global, ou ainda em planos desenvolvidos juntamente com outros 
colegas de trabalho, seja por meio de contatos individuais, seja atravs 
das reunies de equipe.
454

Para se trabalhar numa equipe de reabilitao no  necessrio apenas ser
possuidor de um diploma de curso superior, mas  fundamental ser 
profissionalmente
maduro. Em decorrencia dessa maturidade exig~vel, o profissional precisa 
entender que
a simples alegao de conhecimento de um campo de trabalho alheio ao seu, 
ser sempre
inadequada. S poder alegar conhecimento e domrnio de um campo de 
trabalho quem
vive continuamente nele, formou-se nele, preocupa-se com ele e nele toma 
decises, por
vezes dif ~ceis, vendo seus resultados e ganhando conhecimento em 
profundidade.
A identificao, o prognstico e o diagnstico de uma necessidade podem 
ser elaborados
somente por profissionais especificamente orientados por um sistema de 
formao profissional, alm da experincia e treinamento para assim faz-
lo.

--O trabalho de equipe: perspectivas

Considerada a realidade da reabilitao, e da formao de pessoal que
normalmente ir compor suas equipes, qual poder ser a soluo para o 
tratamento mais
adequado do cliente, globalmente considerado? Estar na obten(;o de 
maior volume de
especializao~ Estar no aumento do treinan1ento academico Oll na maior 
profundidade
quanto a conceitos bsicos?

Cremc~s que qualquer tentativa de respos~d no poder ignorar os 
seguintes pontos:

a) Existem, concretamente, as vrias reas funcionais e as respectivas 
limitaes de cada
uma delas, nos programas de reabilitao. Assim  que, consideradas as 
caracter~sticas
do programa ylobal que deve procurar levar o individuu com deficincid a 
um estado
de adequao pessoal de acordo com seus planos e realidade, teremos o 
condiciona
mento fisico, o ajustamento psico-social e o ajustamento profissional, 
dentro dos
quais se inserem todos ras componen~es da equipe de reabilltao.

b) H uma incontestvel vantagem na combinao dessas reas, ou seja, num 
trabalho
harmonioso desenvolvido por meio de uma equipe multiprofissional, que 
deve ser
obtida aps o atendlmento bem coordenado em cada uma das reas acima 
indicadas.

Em nenhuma outra situaao ternos encontrado maior necessidade de 
integrao de conhecimentos e de combinao de vrias protisses do que 
no campo da reabilitao. A complexidade da misso de integrar pessoas 
portadoras de deficiencias na
sociedade aberta tem levado centros de reabilitao a adicionar servios 
novos, a fim de
encontrar solues cada vez mais complexas s necessidades das pessoas 
que apresentam
problemas inter relacionados. No entanto, considerada a realidade de 
trabalho inter-profissional de um centro de reabilitao a tendncia para 
um treinamento mais amplo e
sem profundidade, ou para a especializao extrema, deve sel evitada.

Para chegarmos a solues que concretamente beneficiam os programas
de assistencia reabilitacional e muitos outros que do atend,mento ao ser 
humano atravs de trabalhos de equipe, algumas ponderaces precisam ser 
feitas, pois alyumas alteraes fundamentais precisam ocorrer e algumas 
delas bem significativas, tais como:
455

- A escola primria precisa enfatizar continuamente os trabalhos em
cooperao, nfase essa que dever ser adotada e/ou mantida tambm nos 
nveis secundrio e superior, procurando dessa maneira levar as pessoas a 
trabalhar em grupo.

--  muito importante que haja em todas as faculdades um ensino realista 
de mtodos e/ou de frmulas de atuao inter-profissional, alm da 
indispensvel
oportunidade da prtica de cooperao com profissionais de outras reas, 
sempre informada pela noo objetiva da importancia que tm as outras 
profisses.

--  muito importante que, em reabilitao, sejam enfatizados os 
conhecimentos bsicos e as atitudes profissionais para o trabalho de 
equipe, a fim de que treinamentos bem orientados possam suprir as falhas 
decorrentes da ausencia de temas especficos em cursos superiores 
normais.

-- ~ fundamental que sejam desenvolvidos e sempre encorajados estudos
e pesquisas a respeito dos processos de trabalho em colaborao e de 
carter multiprofissional .

No resta dvida que o trabalho de equipe num centro de reabilitao 
um ideal a ser atingido em sua plenitude. No entanto, h muito que se 
aprender dentro
de nossa realidade de atuao. Experiencias j vividas nunca deixaro de 
ser de valor
muito concreto, podendo levar-nosaumacuidadosa anlise da realidade que 
nos cerca,
pois essa realidade mostrar-nos- como  importante um trabalho 
cooperativo.

Aqueles que trabalham em programas de reabilitao restar o desafio de
bem utilizar essas experincias, para o bem-estar de todos aqueles que 
pretendem dedicar-se  reabilitao e para benefcio de todas as pessoas 
deficientes que dela necessitarem.
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r~ A D 1- T 11 1 ~1 ~ F. X T O

A AVALIAAO E O CONTROLE IUOS
PRnr~R~MAS DE REABILITAO
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Ningum pode negar que um centro de reabilitao pode determinar, por
iniciativa prpria, a enfase que deseja dar aos seus trabalhos. 
Encontramos, por exemplo,
organizaes que do maior volume de atendimento mdico e para-m~dico, 
outras que
do nfase aos aspectos profissionais da reabilitao, procurando levar o 
indiv~duo a um
ajustamento significativo em sua vida de trabalho. No entanto, ao nos 
aprofundarmos no
estudo de alguns recursos existentes aqui no Brasil, notamos que h 
iniciativas que denotam menos uma opo de nfase tcnica do que um real 
desconhecimento do que seja
reabi I itao .

Encontramos em nossa realidade centros de reabilitao que trabalham
muito mais como ambulatrio mdico para males ortopdicos do que como 
centro destinado  reabilitao do indivrduo. H clnicas de fisioterapia 
que se intitulam centros de
reabilitao. A prpria palavra "reabilitao"  utilizada 
indiscriminadamente pelos prprios profissionais que nela atuam, 
patenteando um desconhecimento real do assunto.

Aberraes dessa natureza ocorrem  nossa volta com certa insi5tncia,
causando  reabilitao muito mais mal do que bem. Em centros de 
reabilitaao de carter geral encontramos, via de regra, todos os 
profissionais e servios usualmente requeridos. Na verdade, h vrios 
servios que so bvios em termos de utilidade prtica imediata, enquanto 
que outros ainda permanecem como grandes dvidas e sao tolerados 
principalmente devido ao fato de que sem eles a entidade passaria a ser 
mal conceituada ou,
ento, teria seus convnios com organizaes financiadoras cancelados. 
Essa seria uma
das poucas razes para manterem seu lugar ao sol.

--Os profissionais envolvidos em reabilitao

Analisemos um pouco o passado de certos servios que cuidavam de pessoas 
com deficincias fisicas. A ociosidade era o que mais preocupava os 
voluntrios e
profissionais de ento. Importou-se a idia de certa ocupao por 
atividades de trabalho
- a ento chamada laborterapia. Diga-se de passagem que muita gente que 
procura atuar
nesse campo sem qualquer tipo de curso, ainda batiza a atividade de 
laborterapia, ignorando por completo o que sucedeu de avano tcnico na 
reabilitao desde 1956 no Brasil. Sabemos muito bem que hoje em dia 
temos profissionais formados e que a terapia
ocupacional integra sempre os centros de reabilitaao. Ela no s faz o 
especfico, mas
tambm colabora significativamente na avaliaao dos clientes para 
atividades de trabalho.
De quando em quando vemos com frustraao, entretanto, que a terapia 
ocupacional serve mais para ser mostrada a visitantes do que a propsitos 
realmente teraputicos.

Isso tudo  verdade tambm para a fisioterapia que evoluiu de mtodos
muito mal definidos de massagem, aplicao de calor, aplicao da gua e 
da eletricidade
e outros recursos, para uma gama de atividades que  de responsabilidade 
de profissionais devidamente formados. No entanto, temos verificado que a 
fisioterapia - ou melhor, alguns fisioterapeutas--tem servido mais aos 
propsitos de alguns mdicos que desejam fazer fisiatria, pois assim como 
certos mdicos recorrem  enfermagem para curativos, injeces e servios 
menos elevados, recorrem  fisioterapia para o desenvolvimento
prtico da programao de exerc~cios que no se preocupam nem em aprender 
nem em
executar. Embora possa haver uma carrada de razo da parte desses 
mdicos,  necessario que eles reconheam, mais do que todos os demais 
profissionais, que a fisioterapia 
fundamental em reabilitao e traz evidentes benefcios aos clientes que 
recorrem aos
centros. Assim sendo, embora vivendo hoje em dia como profisso auxiliar 
da medicina
e sendo mal interpretada, ela tem um papel certo e valioso e no sofre 
muitas presses
por parte de diretores de centros de reabilitaao.

No entanto, com certos outros servicos a situao  bem diversa. O 
servio social, por exemplo, sofre injustias bem piores e muitas dessas 
injustias so causadas pelos prprios profissionais que acabam se 
sujeitando a um tipo de trabalho um tanto
marginalizado no centro de reabilitao, ou seja: estudos simples de 
levantamento scio-economicodo cliente e sua familia, preparo de relaes 
de vagas para pagamento de
"per capita" pelo INPS ou Secretaria da Promoo Social, dificuldades 
financeiras do
cliente, escala para remoo dos clientes, financiamento ou plano de 
pagamento do tratamento e vrios mais.

 com 05 profissionais de servio sucial, em geral, que ocorrem os mais
srios atritos por parte da diretoria de centros de reabilitao, pois 
aryumentam diretores que, para fazer o que os assistentes sociais fazem, 
no se requer diploma de curso su
perior. E se considerarmos o que alguns assistentes sociais fazem ou 
sujeitam-se a fazer,
concordaremos plenamente. As atribuies que s vezes so passadas a 
assistentes sociais
poderiam ser desenvolvidas por secretrias bem preparadas. Isso tudo no 
quer dizer que
as coisas estejam caminhando co~retamente, pois rlo esto. Os 
profissionais precisam
lembrar que o servio social tem um papel muito s~io e complexo num 
programa de
reabilitao e compete a cada profissional lutar por ele. Mas ficamos por 
vezes com a dvida: ser que ele sabe por que papel lutar?. . .

Com psiclogos acontecern situaes semelhantes, mas menos graves.
A psicologia tem, em seu socolro, certos tipos de estudos que so rnenos 
bvios, tem
seus testes e o conhecimento tcnico indispensvel para sua 
interpretao. Assim sendo,
o mximo que s vezes sucede  o mdico tentar questionar o papel do 
psiclogo como
vlido, chegando mesmo a indicar sua dispensabilidade. Reduzindo-se 
despesa considerada intil, obtm-se com facilidade o aval de diretores 
da organizaao. Assim sendo, seja por presso de outros profissionais, 
seja por falta de objetivo prtico no programa, encontramos vrios 
centros que no contam nem pretendem contar com psiclogos.
No entanto, vale aq'ui lembrar que o psiclogo tem um papel relevante em 
reabilitao,
cabendo tambm aos seus profissionais lutar por uma boa definio de sua 
atribuio.

--A falta de especializaao e suas conseqencias

Para qualquer rea ou ramo profissional o que alarma acima de tudo  
verificarmos que certos profissionais procuram emprego num centro de 
reabilitao, sem
se inteirar com seriedade quanto ao que deles poder ser esperado. Essa 
observao 
perfeitamente cabivel para tres tipos de profissionais: mdicos, 
assistentes sociais e psi461

cologos. Por que Ino conselheiros de reabilitao? Porque esses surgem 
de uma das ltimas profisses e em geral trazem um bom acervo de 
conhecimentos especficos.

Devido ao fato lamentvel de no termos cursos de reabilitao, a 
situao tende a generalizar-se, pois o mercado de trabalho vai ficando 
difcil e um profissional de nvel superior precisa de emprego. Vemos, 
ent30, uma reabilitao estagnada como tcnica, e a leva de clientes a 
procurar servios, graas a financiamentos do governo
ou do sistema previdencirio, que acabam sendo apenas aquilo que 
procuram: sevios,
isto , consulta mdica, uma prtese, sesso de fisioterapia, 
fonoaudiologia, terapia ocupacional, entrevista de servio social, testes 
de psicologia, etc.

Reabilitao propriamente dita . . .bem, cada profissional acha que fez o
seu quinho com o mximo de conscincia profissional, o que no deixa de 
ser verdade.
Essas situaes so to generalizadas que se torna muito difcil repetir 
frases verdadeiras
como esta: O centro de reabilitao deve desenvolver seu servio de forma 
integrada e
coordenada, para levar o cliente a um ajustamento global, a fim de que 
tenha condio
de se reintegrar  sociedade .

Esta verdade precisa ser dita e repetida por mais que ela soe 
inexequ~vel.
A maioria de nossos centros de reabilitao faz, sim, fisioterapia, faz 
terapia ocupacional, faz algum treinamento profissional um tanto marginal 
e conta com alguns profissionais que se debatem e procuram (ou no 
procuram) seus papis reais. As excees existem e elas confirmam a 
regra, infelizmente.

Quando relembramos que a reabilitao, como processo, deve ajudar o
cliente a escolher metas prticas viveis, nas quais haja oportunidade 
para a independncia, satisfao pessoal, contribuio social e outras, 
of erecendo uma bateria de servios
multidisciplinares que restauram, preservam e desenvolvem a capacidade 
fsica, psicolgica, social e profissional para enfrentar a realidade da 
vida, verificamos que muita coisa
anda bem fora dos parametros corretos e que algo de muito srio precisa 
comear a ser
feito.

Resta perguntarmos: O que pode, afinal, ser feito para melhorar a 
situao de vrios de nossos centros de reabilitao?

O caminho para situaes mais adequadas  bastante rduo e repleto de
problemas. E, como todo caminho, ele tem um incio. Em nosso modo de ver, 
esse deve
ser atravs do estabelecimento de sistemas de avaliao~ Avaliar um 
centro de reabilitao no  e no pode se~o mesmo que avaliar outro tipo 
de instituio social ou entidade de assistencia mdica. O centro de 
reabilitao  entidade sui-generis de atendimento a pessoas com srios 
problemas marginalizantes.

Procuremos, portanto, estudar o assunto com cuidado para encontrar .
aplicabilidade a cada centro que procura desenvolver seus trabalhos de 
reabilitao.

--Mtodos de avaiao em centros de reabilitao
Avaliao  uma formulao de ju~zos a respeito do sucesso de um centro
de reabilitao ou de qualquer outro tipo de empreendimento. Ela , 
basicamente, uma
tcnica administrativa que se destina a alimentar a direo da 
organizao com a finalidade de aprimorar cada vez mais sua atuao. Ela 
no  e no pode ser uma atividade
isolada, mas precisa ser programada e acontecer periodicamente.

O objetivo bsico da avaliao  fornecer dados e informaes que ajudem 
o centro de reabilitao no processo de tomada de deciso Com isso, a 
avaliao
colabora definitivamente na melhoria dos servios, na maior rentabilidade 
dos investimentos financeiros feitos, no melhor aproveitamento e no 
aprimoramento de seu pessoal
tcnico e administrativo e na mais adequada alocao de recursos 
destinados ao seu desenvolvimento.

A avaliao tem propsitos utilitrios, pois sua funo  descobrir 
evidencias dos resultados dos programas e das atividades, para que 
aqueles que tm a missao de
planejar, supervisionar ou dirigir, possam julgar e tomar decises 
adequadas no presente
e no futuro. Conforme as evidencias dos resultados denotarem que o centro 
de reabilitao vai chegando mais prximo de seus objetivos e vai 
atingindo suas metas, a avaliao
poder ir se transformando num instrumento de apoio para a continuao ou 
para a expanso dos servios prestados.

--Modelos d~ avaliao

No existe nenhum modelo de avaliao que seja adequado a todas as si
tuaes. Uma avaliao que transmita a infornrlao pura e simples da 
adequacidade ou
da impropriedade de uma atividade num centro de reabilitao, alm de 
quase que infalivelmente intil, acaba sendo ,olejucial, t~azendo em 
geral conseqencias indesejveis.
Assim sendo,  aconselhavel que o modelo de avdliaao adotado e os 
avaliadoles que devem ser profissionais de alto gabarito e glarlde 
vivncia de leabilitaao) tenham muito
mais a dizer e a sugel ir do que simplesmente lelatar que a atividade 
est ou no atingin
do seus objetivos parcial ou integralmente. A avaliao precisa 
contribuil com os tipos
de dados que dem aos diretores de um centro de reabilitaao a 
possibilidade de fazer
suas opes dentro do contexto em que atuam. Tais considel-aces a 
respeito de avaliao podem, evidentemente, ser aplicveis a programas 
gerais de reabilitao ou a centros
de reabilitao como empreendimento isolado, e tarnbm a entidades 
socjais afins.

--Sistemas de avaliao

No  fcil nern prtico indicar qual seria o melhor sistema para avaliar
um centro de reabilitao. Dentre alguns dos sistemas reconhecidos pelos 
estudiosos do
assunto o mais aplicvel poder ser, em nossa opinio, o do claro 
estabelecirnento do
grau de responsabilidade perante seus "pblicos". Verifiquemos ento, 
qual o grau de
responsabilidade de um centro de reabilitao perante seus pblicos, e 
quais seriam esses
pblicos.

H diferentes tipos de "pblico" para um centro de reabilitao:

a) O "pblico" em geral ou seja, os componentes da comunidade onde o 
centro atua,
a sociedade da qual faz parte. Embora entre ns, brasileiros, esse tipo 
de responsabilidade seja um tanto relativa e bastante dilu~da (indefinida 
talvez seja o melhor termo) e as entidades sociais no a sintam nem se 
preocupem com ela,  ela de considervel importancia. O que sucede no 
Brasil  que as entidades sociais acham que pelo

~simples fato de existirem j fazem muito. Entretanto, a comunidade 
merece uma
ateno, e esse tipo de responsabilidade precisa ser gradativamente bem 
estabelecido
e enfatizado. As equipes de profissionais que trabalham em centros de 
reabilitao
precisam se voltar para ela e ficar alertas a esse respeito.

b) O "pblico" financiador-- aquele do qual provm o numerrio destinado 
 cobertura das despesas de todos os gneros, ao desenvolvimento dos 
programas,  construo ou reformas. Pode ser o governo federal, 
estadual, ou municipal; pode ser o usurio que retribui remunerativamente 
pelos servios prestados; podem ser empresas participantes, entidades 
conveniadas, doadores, scios benemritos. Seja qual for o pblico 
financiador, ele tem direito a certa ateno e o centro tem 
definitivamente certo grau de responsabilidade para com ele.

c) O "pblico" clientela--pode parecer espantoso para certos tipos de 
entidades voluntrias dever satisfaes ao pblico-clientela, pois muitas 
ve~es encontramos exatamente no seio delas as maiores distores quanto 
aos principios bsicos de sua atuao
No entanto, por no acreditarmos em reabilitao a no ser que seja 
sedimentada nos
principios de respeitabilidade, dignidade e potencialidade do ser humano, 
achamos
tal tipo de posicionamento muito correto. A clientela tem direito aos 
servios de um
certo padrao.

d) O "pblico" das famlias da clientela - O centro de reabilitaao tem 
uma sria responsabilidade para com as famlias dos clientes, no apenas 
nos casos de crianas omo tambm de adultos das mais variadas idades. O 
"modus fasciendi" brasileiro coloca as entidades sociais e md icas num 
pedestal inating ivel, inquestionavel. No entanto,
as familias dos clientes de um centro de reabilitao merecem 
considerao e respeito
e assim devem ser tratadas. O grau de responsabilidade de um centro para 
com as famlias pode ser facilmente delineado.

e) O "pblico" das entidades - Sejam essas entidades conveniadas ou no, 
que usam os
servios do centro, para ele encaminhando casos ou dele recebendo 
encaminhamentos, tambm merecem respeito, havendo inquestionvel grau de 
responsabilidade para
com elas.

--Conseqencias de uma avaliao

Um centro de reabilitao no poder nem dever ficar imobilizado aps
um estudo avaliativo. Ao tomar alguma atitude sria a respeito do 
trabalho avaliativo e
seus resultados, poder ter que enfrentar alguns tipos de decisao. 
Conforme o interesse
da direao do centro de reabilitao, tres tipos de deciso podero ser 
tomados:

a) Deciso poltica--Esta decisao dever ser sempre a nvel alto, em 
resposta a indagaes como esta: O centro de reabilitao dever 
continuar seus trabalhos ou no?
O centro ampliar, reduzir ou simplesmente manter suas atividades? O 
centro dever~ r~lfnrmlllAr nll mAntPr Cr'IIC nhif~ti~/nc7

b) Deeiso estratgiea - Esta decisao relaciona-se com as eventuais 
opes em termos de
"modus operandi". Assim  que poderemos colocar o centro em situao 
prpria
para resolver pendencias como estas: Quando analisados os objetivos, como 
atingi-los aps sua reformulaao, decidida numa tomada de decisao de alto 
nvel? Como interferir para manter os padres aceitveis e recomendveis 
de atuaao tcnica?

c) Deeiso ttiea--Este tipo de deciso diz respeito aos problemas de 
atuaao prtica
do centro de reabilitaao, s atividades rotineiras nele existentes, ao 
sistema interno
de funcionamento tcnico ou administrativo e muitas outras. H 
providncias na vida
administrativa, na poltica de pessoal, no fluxo de papis, na gesto 
financeira e mesmo na atuao tcnica que muitas vezes precisam ser 
tomadas apc llmA AnIicP

--Controle num centro de reabilitao

Verifiquemos o que  controle para determinarmos sua utilidade num centro 
de reabilitao. Controle  uma funo administrativa intimamente ligada 
 avaliao,
que se destina a med jr e a corrigir o desempenho das diversas atividades 
a fim de se assegurar
que os objetivos sejam realizados. Consiste o controle em verificar 
cuidadosamente se
tudo ocorre corno foi planejado originalmente, se tudo est de acordo com 
os principios
bsicos estabelecidos. Ern palavras diferrJIltes, controle consiste eln 
afel ir resultados, numa comparao intencional com os resultados 
esperados ou plane jados. O estabelecimento
preciso dos objetivos rie um centro de reabilitao, alm de ser uma 
condio "sine qua
non", torna mais fcil a tarefa de elaborao de instrumentos prprios de 
controle.

Ressaltemos neste ponto que no  de utilidade tentar controlar fatos
passados. Controla-se o presente. As informaes sobre fatos passados 
podern ser muito
teis, se analisadas sob angulo correto, para a elaboraao de julgamentos 
quanto  SitUao atual e  formulao de planos que possam eliminar ou 
corrigir desvios notados no
nrPcPntP

--Sistemas de controle utilizveis em centros de reabilitao

Qual poder ser o melhor sistema de controle num centro de reabilitao? 
Sem maiores preocupaes poderemos afirmar que o me,lhor sistema de 
controle
que um centro de reabilitaao poder adotar ser aquele que indicar com 
clareza e objetividade os desvios do plano originalmente traado, ou dos 
objetivos vigentes, na medida

Pm nllP PCCPC rlPcvinc f~rr~rrPm

Muitas vezes encontraremos profissionais das reas tcnicas achando que

o controle em alto nivel ser mais do que suficiente, com a clara 
presuno de nue o
controle em nveis inferiores passa a ser suprfluo Na verdade, o 
controle nos nveis
altos s se realiza com adequao quando for bem realizado nos nveis 
inferiores.

--Caracterrsticas do sistema de controle

As caracteristicas desejveis de um sistema de controle implantado num
centro de reabilitao poderao ser as seguintes:

a) Deve refletir sempre a natureza daquilo que  indispensvel s 
atividades do centro.
Todos os instrumentos de controle do nvel operacional ou dos trabalhos 
administrativos, por exemplo, devem ser especrficos quele nvel ou aos 
trabalhos indicados.

b~ Deve mostrar com presteza os desvios ocasionais. As informaces sobre 
os desvios devem fluir com rapidez para o nvel que  responsvel pela 
deciso, como pura rotina
e no como medida especial, a fim de que o responsvel possa tomar as 
providncias
prprias que corrijam os desvios notados eliminando dessa forma a 
repetio ou mesmo a perpetuao de lapsos.

c) Dependendo do sistema a ser adotado ou da finalidade ele deve ser 
efetuado atravs
da prpria direao do centro de reabilitao, ou do sistema diretivo do 
programa,
conforme for o caso. Evidentemente essa observaao no  vlida "in 
totum" para
problemas de ordem tecnica de cada rea profissional dentro da equipe do 
centro de
reabi I itaao .

d) O controle dever ser simples e econmico. Mais do que isso, dever 
ser facilmente
compreensvel. Nao  recomendvel montar esquemas caros e sofisticados de 
controle, sendo menos recomendvel ainda controles de difcil 
compreenso. Sua simplicidade e clareza sao os requisitos bsicos de seu 
sucesso.

A conclusao lgica que tiramos  que urn centro de reabilitao s poder 
beneficiar-se da montagem de esquemas de avaliaao e do estabelecimento 
de sistemas
objetivos de controle de suas atividades. Ter condices, dessa forma, de 
prestar servios
cada vez mais adequados  sua clientela, assumindo gradativamente o papel 
de respeitabilidade que merece numa comunidade. Sua programao 
melhorar, seus profissionais
terao maior e melhor participao, seus clientes serao os maiores 
beneficiados.

A avaliao no pode nem deve ser a mera anlise cr~tica das atividades
de um centro de reabilitaao. A avaliao pretendida para um centro de 
reabilitao no
 do tipo auditrio-contbil. Ela deve estar voltada para as solues 
viveis, de ordem
tcnica e administrativa. Os problemas advindos da inexistncia de 
anlises avaliativas
num centro de reabilitaao sempre foram notrios e no podem perdurar.

Esses problemas so perfeitamente superveis. O ser humano que precisa
dos servios de um centro de reabilitao, suas famlias, a comunidade 
onde ele se insere, o seu pblico financiador, sua equipe de 
profissionais, merecem melhor considerao
que certamente surgir se todos estiverem realmente voltados para a 
perfeita adequaao
do recurso moderno e muito importante que  um centro de reabilitao.
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